Estimulando a comunicação: a importância e aquisição da comunicação para crianças portadoras de Múltipla Deficiência (I)

22/09/2010 • Por • 839 Acessos

Deficiência múltipla é o termo usado para classificar a condição do individuo que é portador de mais de uma deficiência associadas. Segundo a Política Nacional de Educação Especial do Ministério da Educação (1994), múltipla deficiência é "a associação, no mesmo individuo de duas ou mais deficiências primárias... com comprometimentos que acarretam atrasos no desenvolvimento global e capacidade adaptativa." (p.15).

A múltipla deficiência pode se manifestar por combinações entre deficiências física, intelectual e sensorial. Essas associações trazem prejuízos sociais e educativos, já que muitas vezes, o indivíduo será privado de uma percepção integral do mundo que o rodeia e com isso terá poucas possibilidades de interagir com seu meio social.

O indivíduo portador de múltipla deficiência terá seu comprometimento agravado, ou não, dependendo do grau de cada deficiência e da forma de suas associações. Portanto o individuo que tiver em associação a deficiência sensorial, pode estar mais alienado de seu meio físico e social que outro, cuja associação envolve deficiência física e intelectual. Segundo Nunes (2001), os sentidos da visão e audição, são os principais canais para se receber e interpretar informações externas, sendo assim, quando há uma deficiência sensorial associada, o indivíduo possui menos capacidade de interagir com o ambiente do qual participa.

O contato humano é essencial para toda criança, estar com pessoas diferentes, crianças de mesma idade, menores ou maiores, estimula o conhecimento social e auxilia na formação da identidade infantil.  Para Vygotsky, a criança precisa do "outro", seja ele adulto ou criança, para se perceber como individuo e se desenvolver social e intelectualmente. Imitar, observar, interagir e se divertir com outros, são elementos que conduzem naturalmente a criança a uma formação de pertencimento a seu grupo social.

Considerando-se o desenvolvimento de um bebê sem deficiência, percebe-se que, por volta de dois anos este já é capaz de interagir plenamente com seu meio social, utilizando sua capacidade sensorial e suas habilidades motoras e de locomoção. O bebê com múltipla deficiência não possui as mesmas capacidades ou habilidades, porém, por meio da estimulação sensorial e precoce, podem-se obter bons resultados, no sentido de minimizar as limitações e ampliar a autonomia.

Além de habilidades motoras e sensoriais, para que haja interação social, é necessário que o bebê aprenda uma forma de comunicação entendível à maioria, o que geralmente corresponde a língua falada em seu grupo social. A comunicação, segundo Blaha (2001), possui funções, ou seja, razões para acontecer, entre elas estão a necessidade de dar e receber informações, aceitar algo oferecido, ou não e compartilhar descobertas, experiências. Desde cedo a comunicação se estabelece, pois o bebê é capaz de perceber que suas reações podem ser comunicativas para seus pais e pessoas mais próximas. Expressões faciais, que reconhece nos adultos, o choro, balbucios, gritos e sorrisos, tudo o que faz é interpretado pelos adultos mais próximos, e assim lhe trazem alívio e aconchego. Através da comunicação, a criança pode adquirir maior independência, diminuir frustrações, entender seu mundo e criar amizades. Por isso pode-se dizer que a comunicação, na infância, é a chave da aprendizagem.

Muitas vezes o portador de múltipla deficiência, não possui uma forma de perceber sinais comunicativos, seja por terem em associação a deficiência sensorial, seja por falta de oportunidades. Quando o adulto tende a sempre se antecipar, quanto às necessidades da criança, ele tira dela a oportunidade de "protestar" para pedir algo ou demonstrar incômodo, adquirir independência, fazer escolhas e interagir com outros.

Para se estimular e desenvolver formas comunicativas, em portadores de múltipla deficiência, deve-se ter em conta quais são as reais capacidades e limitações do indivíduo, a necessidade que todo ser humano tem de se comunicar e a importância desta para o desenvolvimento cognitivo e pessoal. Para compreender como isto irá ocorrer, é necessário conhecer como se dá a comunicação.

A comunicação possui duas funções básicas, a receptiva e a expressiva. A função receptiva, diz respeito às informações recebidas através da atenção dada a seus pares comunicativos. Para a criança portadora de múltipla deficiência, com deficiência sensorial ou intelectual (dependendo de seu grau de comprometimento), a recepção de informações do meio fica impedida ou diminuída, pela falta de compreensão ou pela impossibilidade de ver, ouvir. Para que esta criança possa receber de forma mais completa as informações de seu meio, ela precisara ser estimulada a perceber o significado dos objetos e toques que lhe são propostos.

Na função expressiva, respondemos aos estímulos do nosso meio por interações com pares comunicativos. Esta depende da primeira, já que não entendendo ou não recebendo de forma completa a informação a resposta dada será incoerente ou incompleta. No caso da criança portadora de múltipla deficiência, a incapacidade de ouvir ou falar diminui também suas formas de expressar-se de forma entendível ou convencional.

Dentre as estratégias mais usadas na estimulação da comunicação, ou respostas comunicativas, estão as antecipações de acontecimentos, o uso de objetos de referência e o sistema de calendário.

Percebendo-se a grande importância social e de aprendizagem que a comunicação possui para o ser humano, entende-se como imprescindível a estimulação e o ensino de formas alternativas de comunicação aos portadores de múltipla deficiência.

 

Bibliografia:

ALSOP, Linda. Un Manual de Recursos para Compreender e Interactuar com Infantes, Parvulos y Niños Pré-escolares com sordoceguera. SKI*HI Institute Department of Communicative Disorders, Utah State University Logan.

BLAHA, Robbie. Calendários, para estudintes com multiples discapacidades incluído sordoceguera. Córdoba: ROTAGRAF, 2003.

CARVALHO, Erenice Natália Soares de. Programa de Capacitação de Recursos Humanos do Ensino Fundamental: Deficiência Múltipla, volumes I, II. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2000.

NUNES, Clarisse. Aprendizagem Activa na criança com multideficiencia. Lisboa: Ministério da Educação, Departamento da Educação Básica, 2001.

SERPA, Ximena. Manual para pais de surdocegos e Múltiplos deficientes Sensoriais. São Paulo: Liotti Del Arcom, 2002.

Perfil do Autor

Amanda de A. Soares Barbosa

Sou professora, guia-intérprete e intérprete de Libras. Estudo pedagogia, faço pesquisas na área da comunicação alternativa e faltade...