Estudo do livro: Conversas com quem gosta de ensinar (Rubem Alves)

24/06/2010 • Por • 4,013 Acessos

 

Estudo do livro: Conversas com quem gosta de ensinar (Rubem Alves)


Elisandra Cristina Gonzales

Fernando Henrique Castilheri de Lima

 

A sociedade atual, conforme discutimos, nos apresenta um modelo de sociedade, religião, família, pautado na individualidade. Este modelo, fatalmente, nos levará à crise, ao caos, pois cada vez menos somos capazes de nos colocar no lugar do outro ou até mesmo de pensarmos e refletirmos sobre como as nossas ações hoje, no presente, sendo estas conscientes ou não, influenciarão positiva e/ou negativamente as futuras gerações.

Neste contexto, nós como professores ou educadores, somos levados a pensar sobre nossa prática diária e na maneira pela qual estamos liderando, influenciando, conduzindo ações, comportamentos e mentalidades.

Segundo Rubem Alves, há milhões de professores, haja vista que "professor é uma profissão". "Educador, ao contrário, não é profissão e sim vocação. E toda vocação nasce de um grande amor, de uma grande esperança."

Ser professor, nos dias de hoje, é muito mais do que simplesmente apresentar algum tipo de conhecimento ("dar aula") a um grupo de alunos. Hoje o papel desempenhado por um professor/educador extrapola em muito os limites da sua sala de aula. Suas atribuições encontram-se no mesmo nível de importância antes destinado, com exclusividade, à família.

Ser educador em nosso tempo não é uma tarefa fácil. Requer que acreditemos e que lutemos apesar de todas as adversidades – e que são muitas. Ser educador é procurar uma luz no fim do túnel, é ter convicções e mantê-las, ter esperança que o pouco ou muito que temos em mãos é fundamental para a formação pessoal e social de cada um de nossos alunos.

"Profissões e vocações são como plantas. Viscejam e florescem em nichos ecológicos, naquele conjunto precário de situações que as tornam possíveis e – quem sabe? - necessárias. Destruído este habitat, a vida vai se encolhendo, murchando, fica triste, mirra, entra para o fundo da terra, até sumir."

Assim, o autor nos desafia a refletir: será que é interessante para a sociedade atual que hajam educadores para desempenharem sua real função social ou econômica? Ou será que o ideal é que sejamos todos eucaliptos? – "enfileirados, em permanente posição de sentido, preparados para o corte e para o lucro."

Em nossa sociedade capitalista, assim como os produtos que utilizamos em nosso dia a dia não são mais fabricados para serem resistentes, duráveis haja vista que o que financia o capitalismo é a constante venda de produtos novos, também os "professores são entidades descartáveis".

Já o educador – velhas árvores, jequitibás – valoriza as relações que o liga aos alunos, a interioridade de cada um e pauta suas ações concebendo que o ensino é um acontecimento social onde sua "função" é compartilhar significados com os alunos.

"Eucaliptos não se transformarão em jequitibás a menos que em cada eucalipto haja um jequitibá adormecido".

Em nosso dia a dia, em sala de aula, principalmente para nós, professores/educadores de Matemática, o grande desafio é aproximar o conteúdo da vivência dos alunos, tentando fugir do conceito de "idéias inertes" – que são idéias meramente recebidas, sem nenhum poder que as relacione com a vida – buscando a ludicidade, o prazer e a aplicabilidade do que é aprendido.

O que dificulta o processo educativo é o desânimo dos profissionais da educação, a falta de participatividade dos pais e da comunidade na vida acadêmica dos filhos. Enquanto "as pessoas não forem capazes de ouvir, entender, amar e lutar juntas" pelos mesmos objetivos, objetivos comuns que interessam a toda sociedade, fatalmente estaremos a mercê do controle do Estado e de instituições – e conseqüentemente do fracasso educacional.

Cabe a cada um de nós refletir que tipo de educação, educadores e educandos queremos contribuir para formar.

"Será verdade que a educação é um processo pelo qual a educação atualiza suas potencialidades ou exatamente o inverso, um processo pelo qual a sociedade leva o indivíduo a domesticar estas mesmas potencialidades, transformando-as em pensamentos e comportamentos socialmente aceitos? A educação que promovemos transforma ou reproduz a sociedade?"

Certamente, se cada professor refletir sobre sua real vocação e conscientizar-se da complexidade que envolve o processo educativo, será um profundo começo de transformação social na educação. Refletir sobre a prática educativa individual, de cada professor, é o passo inicial para o começo de mudança. Somente a intersecção e união entre trabalho (empenho, luta, dedicação), aprendizado, prazer é que resultarão na excelência educacional.

Perfil do Autor

Elisandra Cristina Gonzales

Professores de Matemática efetivos do Estado de Mato Grosso. Pós graduandos em Matemática no contexto educativo, comercial e financeiro.