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Filosofia: Os Primeiros Passos
Por: NERI DE PAULA CARNEIRO  | Publicado em: 02-04-2008 | Comentários: 0 | Acessos: 1,173 | Avaliação: (404) (?)
Filosofia: os primeiros passos
Existem diversas e diferentes formas de se explicar e entender FILOSOFIA. Todas elas válidas para o contexto em que se inserem. Para quem estuda e para quem leciona é importante encontrar a forma mais eficaz. E, nem sempre a forma que dará mais resultado será a do professor. Faz-se necessário ouvir, buscar e buscar!!!
No contexto escolar é necessário encontrar não uma forma de se ensinar a filosofia, mas um mecanismo que ajude a filosofar. Claro que as regras e as formas utilizadas numa Faculdade de Filosofia serão diferentes de como se trabalhará a disciplina Filosofia em uma escola de nível médio, no ensino fundamental, na pré-escola ou mesmo em um curso determinado, de graduação.
Nas aulas do ensino Fundamental ou Médio é necessário seguir os ditames e as grades específicas. É comum o professor, nesse nível fazer uma descrição panorâmica de alguns temas ou se tenta trabalhar alguns textos aleatoriamente. Como nem todos os professores que lecionam a matéria são formados em Filosofia, estas visões, muitas vezes saem com alguns arranhões.
Nos cursos de graduação não é muito diferente, embora a disciplina seja trabalhada por alguém habilitado. Entretanto, de modo geral, nesse nível também se faz uma visão introdutória e panorâmica; além de uma rápida viagem pela história da filosofia. Mas, nem sempre os professores se lembram que Historia da Filosofia também é Filosofia e por isso não pode ser tratada, simplesmente como História. Essa forma de trabalhar a filosofia ainda apresenta um problema: o acadêmico, que já passou pela filosofia no ensino médio, em alguns casos, chega à faculdade com aversão pela disciplina.
O que pretendemos aqui apresentar é uma nova proposta de estudo: nem só história, nem só feita de Temas (que em filosofia se chama de problema), mas principalmente fazendo uma reflexão sobre o cotidiano, envolvendo aspectos históricos, e as relações com os grandes eixos dos problemas filosóficos.
Isso é o que procuramos fazer, com este material: apresentar a filosofia de uma forma cativante, desafiadora e envolvente. Com bom humor e ao mesmo tempo provocando a criticidade dos estudantes, como é a característica da filosofia. Numa palavra, trata-se de um exercício par ver além das aparências! Ver a floresta que está além da árvore!
Estudar filosofia é, além de filosofar, estudar de uma forma séria, mas que não seja carrancuda; de uma forma que transmita informações a ao mesmo tempo desafie o estudante a gerar mais conhecimentos; uma forma de conhecer o que já foi pensado sem negar a capacidade de pensar e recriar o mundo, muito presente nos estudantes.
1- CARACTERIZAÇÃO
a- O QUE NÃO É FILOSOFIA
No ambiente escolar é comum o professor iniciar o estudo de uma nova disciplina dando-lhe o conceito – ou definindo-a. Começa-se, em geral, dizendo o que é aquilo que se vai estudar. Quem vai estudar física, inicia dizendo o que física. E a partir dessa definição pensa já estar sabendo algo de física. Só então é que continua o estudo. Essa é uma forma correta de se começar algo. Mas não é a única. Talvez nem seja a melhor forma de se começar um estudo!
Existem outras formas, em alguns casos, por vezes mais eficientes.
Em muitos casos o que se diz sobre as outras áreas do conhecimento pode-se aplicar à filosofia. Por vezes com proveito e em outros casos nem tanto. Mas aqui não vamos proceder como se faz no estudo das outras áreas, pois a filosofia é diferente. Primeiro por que não é muito fácil dizer o que é filosofia. Depois por que o conceito será sempre aproximativo. Além disso, toda definição é limitada e sempre deixa algo de fora, ficando sempre alguma explicação a ser dada; toda definição é uma tentativa de “por um fim” na discussão, mas a filosofia está sempre iniciando uma nova discussão, portanto não lhe cabe uma definição.
O fato é que muito se fala sobre filosofia, entretanto nem tudo corresponde à verdade. Nem tudo o que se diz sobre algo faz desse algo aquilo que se diz dele. O que se diz é uma visão, uma versão, um ponto de vista. A realidade daquilo que se fala é mais do que aquilo que se pode dizer.
E isso se aplica à filosofia. O professor Manuel Garcia Morente diz que “é absolutamente impossível dizer de antemão o que é filosofia. Não se pode definir filosofia antes de faze-la. [...]. Só se sabe o que é, realmente filosofia quando se é, realmente filósofo. Que quer dizer isso? Isso quer dizer que filosofia, mais do que qualquer outra disciplina, necessita ser vivida” (Morente, 1967, p. 23)
Aqui, portanto, começamos a falar sobre o que não é filosofia. O que não é pode indicar uma pista para o que é. Quem sabe qual caminho não deve ser seguido está menos perdido do que quem pensa saber qual o caminho correto. Isso se existir um caminho correto
Em primeiro lugar é importante dizer que nem tudo aquilo que popularmente é afirmado sobre filosofia corresponde à verdade. Vejamos, portanto, algumas falsas concepções:
FILOSOFIA DE VIDA: Isso que é chamado de Filosofia de Vida não é filosofia. Essa expressão é utilizada para designar um determinado jeito de viver, um estilo de vida, uma concepção de mundo e de vida. Ao que se chama “filosofia de vida” é, numa linguagem acadêmica, a "Cosmovisão": uma forma específica de conceber o mundo, a vida e o viver.
PENSAMENTOS, FRASES, PROVÉRBIOS: O que entendemos, popularmente, com isso, não é filosofia.
Toda aquela parafernália de frases, pensamentos, provérbios; tudo isso é usado para produzir um efeito especial, mas não se constitui filosofia. Mesmo que a frase tenha sido retirada de um texto filosófico ou tenha sido escrita por um filósofo.
Mesmo um livro de filosofia não é filosofia.
A partir da frase, do provérbio ou do pensamento podemos fazer filosofia; fazer uma discussão/análise filosófica. Mas isso não faz da frase ou do pensamento, filosofia.
A análise pode ser filosófica, mas o provérbio continua sendo apenas um provérbio, bonito, iluminador... mas um provérbio! Portanto não importa a interpretação que se faça da frase, do pensamento ou do provérbio, eles continuam não sendo filosofia.
OUTROS EQUÍVOCOS: Também estão equivocadas as opiniões estereotipadas que apresentam visões distorcidas ou irônicas sobre a filosofia. Existem algumas afirmações que já são tradicionais e, consequentemente, tradicionalmente equivocadas: afirma-se que a filosofia é “difícil ou complicada”; que é “coisa de doido”; que é “coisa de intelectual”
Filosofia é "Difícil" ou "Complicada". Dizer que algo é difícil ou complicado é instalar-se no comodismo, negando a capacidade humana de progredir.
Não nos esqueçamos que foram justamente as dificuldades e complexidades que fizeram o homem sair das cavernas para construir os arranha-céus. O progresso humano não é feito por facilidades, mas por dificuldades. Assim sendo, esse tipo de afirmação não depõe contra, mas a favor da filosofia. Ela está ai para ajudar os seres humanos a serem melhores e melhorarem suas condições de vida.
Filosofia é “coisa de doido". Essa é uma afirmação contraditória por princípio. Dizemos que a “doidura” é incoerente. Como a filosofia busca a coerência, dizer que ela é coisa de doido é uma contradição.
Como determinar o que é loucura e o que é sanidade? A loucura de um pode ser a sanidade de outro. Como saber se o ato, considerado louco, na realidade não é sano e coerente? Quem são os loucos: aqueles a quem o senso comum assim considera ou as pessoas que convivem conosco no dia-a-dia? Ou você não considera loucura num clima quente como o nosso: vestir um paletó, colocar uma gravata, entrar numa sala, fechar a porta, começar a transpirar de calor e ligar ar condicionado? Não é loucura o que fazem algumas pessoas que trabalham “o tempo todo” e não se dão o direito de lazer, ou de usufruir dos resultados do trabalho?
Não devemos esquecer que o progresso humano se deu não pelos atos sensatos, mas pelos que arriscaram, que apostaram na irrazoabilidade e foram chamados de doidos.
Filosofia é "coisa de intelectual". Quem faz essa afirmação está dizendo que nem todos são intelectuais, pois nem todos são filósofos. Mas afirmar isso seria negar a capacidade reflexiva que está presente em todas as pessoas.
O que é “ser intelectual?” No senso comum, não está claro, mas tende-se a chamar de intelectual a pessoa que considerada inteligente, que estudou bastante, que é considerada sábia. Mas chamar essas pessoas de intelectuais e dizer que a filosofia lhes é "própria" é considerar que as outras pessoas não têm capacidade de reflexão, de estudo, de aprender... Todos os seres humanos são capazes de pensar, de raciocinar, de crescer intelectualmente.
Dizer que a filosofia é "coisa de intelectual" é negar essa capacidade, presente em todas as pessoas. Além disso, alguns dos chamados intelectuais, sabem muito de alguma área específica, mas não sabem nada de coisas corriqueiras, ou de outras áreas do conhecimento.
b- ETIMOLOGIA
A Etimologia das palavras nos ajudam a entender seu significado.
Neste caso temos duas palavras gregas: FILO: pode ser entendido como amigo, amante, amizade e SOFIA: pode ser entendido como saber, sábio, conhecimento.
FILOSOFIA: Juntando os teremos: "amigo do saber", "amante da sabedoria", "amigo do conhecimento".
A origem da palavra está envolvida em lendas; ao que tudo indica ela teria sido usada pela primeira vez por Pitágoras numa conversa com o rei Creonte. O rei teria perguntado a Pitágoras: “É verdade o que ouvi de ti, que andas por aí como que a “Filosofar?” E Pitágoras teria respondido. “Sim, mas eu não sou o ‘sófos’ [sábio]; sou apenas um ‘Filosófos’ [amante do saber]”.
Entretanto, mais que uma palavra, FILOSOFIA é a atitude, de quem não se acomoda com o que está pronto e acabado.
É a atitude do amigo que diz o que precisa ser dito; confronta, questiona, propõe, discorda...
A atitude do filósofo é a da busca que desinstala a comodidade e propõe a dúvida. A atitude do filósofo penetra por dentro da crosta das aparências. As potentes raízes da filosofia penetram todas as realidades em busca da água fresca do desvelamento. A filosofia é, portanto, essa atitude de busca que desinstala a comodidade e acelera a renovação. Filosofia é a atitude que, diante da certeza introduz a dúvida.
c- O QUE É FILOSOFIA
Vimos que, etimologicamente, podemos entender a filosofia como amor pelo conhecimento. Assim sendo podemos dizer que o Filósofo é um Amante do Conhecimento. Além disso a filosofia não se limita a uma área do conhecimento, mas é uma atitude.
Tendo presente que, do ponto de vista etimológico, Filosofia pode ser entendida como amizade pelo saber, amor ao conhecimento, podemos também dizer que isso implica em falar sobre uma atitude. Mas em que consiste essa atitude?
Não é segredo que quando se fala em conhecimento, está se falando, também num movimento do intelecto. O conhecimento não é algo estanque, parado, pronto e acabado. Ele é dinâmico, acontece no processo e na medida em que o pensante se relaciona com o pensado. O mesmo pode-se falar do amor, do amigo ou do amante. Também essas realidades sugerem a idéia de dinamicidade. Qualquer relação amorosa, para se preservar, precisa se renovar. Amigo que não põem em questão determinadas posições da pessoa com quem mantém a relação de amizade, pode não ser, efetivamente amigo.
Tendo presente essas duas idéias: o movimento e a dinamicidade do amor e do conhecimento é que se pode falar da filosofia como busca, pois o dinamismo do conhecimento e da amizade, implicam em uma atitude não estática, mas dinâmica.
O processo do conhecimento – que caracteriza a filosofia – é uma atitude de busca; e a dinamicidade do amor (amigo, amante) implica em procurar pelo amado. Com essa perspectiva é que se traduziu a palavra filosofia por busca de conhecimento: uma atitude de procura constante num processo infindo; da mesma forma que a busca não tem fim, pois o fim sempre é um novo começo, o processo filosófico também o é, pois o conhecimento está sempre permitindo inovações.
Assim sendo, se estamos falando de amigo do saber, a atitude de busca só pode ser busca de conhecimento. Ao dizer que a filosofia significa amizade pelo saber temos implícito nisso que a atitude típica dessa amizade é a busca de conhecimento.
d- FILOSOFIA: OBSERVAÇÃO E REFLEXÃO
Resta mais um ponto a ser comentado: como se caracteriza a atitude de busca que manifesta a atitude filosófica? Não se trata de uma busca aleatória. Pelo contrário é uma busca metódica feita com dois instrumentos: a observação e a reflexão. Ou dizendo de outra forma. Trata-se de refletir sobre as realidades observadas.
Por ser "perguntante" o homem está constantemente olhando as realidades que o cercam buscando novas informações ou informações complementares, complementando informações sobre aquilo que já sabe. Essa é a atitude filosófica que faz com que o homem "perguntante" se manifeste como reflexivo.
O homem vê o mundo que o cerca. Observa o que acontece. E, para compreender os acontecimentos ou a existência dos fenômenos, faz um trabalho RE-FLEXIVO: volta-se constantemente sobre as realidades já observadas, pensadas, entendidas, buscando novas informações, complementando conhecimentos. É pela reflexão que o homem procura, elabora e apreende o conhecimento que ainda lhe falta, acrescentando a nova descoberta, novo saber ao saber já adquirido. Re-fletir, portanto é a postura típica de quem olha para algo já pensado, pensando novamente.
Necessitamos de uma melhor compreensão sobre desse conceito: refletir.
Flexão significa a curvatura de algo. Quando alguém ou algo está flexionado dizemos que está "vergado" como que dobrado. Já o prefixo RE indica que algo foi feito novamente. Redefinir é definir novamente, ressurgir é surgir novamente....
Quando falamos em reflexão, estamos falando em flexionar novamente. E isso aplicado ao pensamento e à filosofia implica dizer que o ato de buscar conhecimentos, próprio da filosofia, é um processo de pensar novamente as realidades; pensar novamente aquilo que já foi pensado, em buscas de novas alternativas às alternativas já propostas. Novas indagações para a pergunta já respondida. Nova problematização ao problema já solucionado. Nesse processo de repensar – refletir – o homem amplia os conhecimentos, inovando-os.
Notemos que no processo de ampliar os conhecimentos ocorre, também, o processo da transmissão das informações possibilitando a busca de novos conhecimentos. Nesse processo o conhecimento é inovado e renovado pode ser retransmitido para que seja motivador de novas buscas. Novas reflexões...
A partir dessa caracterização das atitudes da filosofia é que se pode dizer que a filosofia é responsável pelo avanço do saber. Somente a filosofia pode fazer isso, possibilitando, com essa atitude, auxiliar outras áreas do saber. Somente a filosofia pode produzir a ciência.
e- COMO E O QUÊ FILOSOFAR
A capacidade reflexiva, própria do homem, e que lhe permite buscar novos conhecimentos é o que lhe permite fazer filosofia. Entretanto aparecem outras interrogações: como se dá essa reflexão? Sobre o quê o homem deve refletir, para fazer filosofia?
A reflexão filosófica se caracteriza pela sua criticidade, radicalidade. Toda e qualquer realidade analisada pela filosofia, é feita com essas características e a partir desses critérios.
A reflexão filosófica é Crítica. Não se pode parar no senso comum. Não se para no que está pronto, no evidente. A evidência pode ser enganosa. A crítica implica em uma espécie de destruição do evidente, para encontrar aquilo que está por trás das aparências. Tendo isso presente é que se pode dizer que não existe crítica construtiva: toda crítica é destrutiva. Tem a finalidade de destruir uma realidade, uma postura, um pensamento.
A partir da destruição efetivada pela crítica filosófica, abre-se a possibilidade para uma nova construção; manifesta-se a possibilidade de se erguer uma nova posição, um novo pensamento. Esse novo pensamento passará pelo processo de destruição: será novamente criticado.
O pensar filosófico é Radical. Ele não se baseia no radicalismo, mas na radicalidade. Manifesta-se justamente para superar as posturas dogmáticas, próprias do radicalismo. A reflexão é radical em função da profundidade da reflexão que se desenvolve buscando a radicalidade. Semelhante à raiz da árvore que se aprofunda para encontrar a umidade geradora de vida, ao mesmo tempo em que avança lateralmente, para dar mais segurança e sustentação para que a árvore do saber se mantenha em pé. A meta, portanto, é ir sempre mais fundo e mais longe, na busca do saber.
Essas duas dimensões implicam em dizer que sempre se está buscando mais elementos que ajudem a clarear ou a dar uma nova visão à realidade investigada. A realidade como um todo e todas as realidades são objetos de reflexão, para o filósofo. Nenhuma realidade pode escapar do crivo radical do pensar filosófico. O crescimento não é estanque. Trata-se de agregar novos saberes, considerando cada elemento e todos ao mesmo tempo. O conjunto se faz pela interligação dos elementos.
Podemos dizer, portanto que todas as realidades investigadas pela filosofia são "destruídas" pela crítica para encontrar suas origens (raiz), sem deixar de lado nenhuma de suas "qualidades". A totalidade das realidades investigadas pela filosofia implica em que se busque informações provindas de todos os campos do saber, de todas as facetas e de todas as possibilidades.
f- O PENSAR FILOSÓFICO
No processo filosófico, como estamos mostrando, está presente a necessidade de se desenvolver o processo reflexivo. E em que consiste isso? Pensar! A atitude reflexiva implica no exercício do pensamento. O que é o pensar?
Não se busca, aqui, a resposta psico-biológica. Nesse caso teríamos que buscar as explicações fisiológicas pelas quais se dão os impulsos neurais e psíquicos que possibilitam a ação do cérebro.
Entretanto, aqui para nosso propósito, estamos mais interessados no esclarecimento semântico do pensar. O pensamento a que se refere a prática filosófica deve ser entendida como a capacidade de se avaliar; processo que se expressa a partir da reflexão crítica.
Quem é capaz de criticar é porque é capaz de estabelecer valores. Também podemos dizer que o processo da crítica é uma manifestação do pensamento. Assim sendo o processo do pensamento também é um processo valorativo.
Quem reflete pode desenvolver o pensamento crítico; quem critica está pensando e quem pensa estabelece valores, pois pensar é pesar alternativas viáveis e inviáveis, pesar as possibilidades e contrariedades. No ato e processo do pensamento o estabelecimento de valores que derivam do processo crítico que fundamenta a reflexão.
g- AS TRÊS REALIDADES
Já ficou claro que o objeto da filosofia é o Real. Mas qual realidade é, ou pode ser pensada pela filosofia? Todas as realidades: concretas, abstratas e imaginárias. As manifestações do real podem ser assim entendidas:
REALIDADE CONCRETA: são aquelas com as quais podemos manter contato físico tanto do ponto de vista de sua existência como do ponto de vista de sua manifestação. Uma árvore é uma realidade concreta, pois podemos vê-la, tocá-la, admirá-la; a fome também pode ser vista como uma realidade concreta, pois embora não possamos tocá-la, podemos observar sua manifestação e sentí-la.
"Filosofar" sobre a árvore é procurar entender seu significado para a vida humana, procurar entender a razão de ser de cada árvore e de todas as florestas... e assim todas as dimensões da ecologia. A fome pode ser entendida tanto do ponto de vista biológico como dentro de sua contextualização socio-econômica, procurando saber como as pessoas podem se humanizar ou desumanizar diante desse fenômeno. Pode-se buscar as explicações para alguns terem a mesa farta e outros nem mesa possuírem.
REALIDADE ABSTRATA: são as manifestações de sentimento, os conceitos com os quais mantemos contato e através dos quais transmitimos e recebemos informações: Educação, amor, solidariedade, etc.
Como se dá a inclusão e exclusão do processo educativo? Por que o processo educativo é um fenômeno marginal embora o discurso sobre educação seja constante na boca de muitas pessoas? Por que surgem tantos estudos e textos oficiais sobre a educação e ela permanece em crise?
Em que consiste o amor? Podemos dizer que o amor é cego ou quem ama vê as falhas do amado, e as perdoa? Por que dizemos que quem ama perdoa?
A solidariedade entre as pessoas é suficiente para eliminar a pobreza? Quem dá uma esmola, está sendo solidário ou paternalista? Até que ponto a solidariedade não está sendo usada para ampliar as situações de malandragem que enganam as pessoas?
Enfim, fazer filosofia sobre esses conceitos, ou essas realidades, é buscar a compreensão do seu significado, seus mecanismos.
REALIDADES IMAGINÁRIAS: são aquelas que, obviamente não possuem concreticidade manifesta nem em forma conceitual. São as realidades que, na maioria das vezes, nascem da fantasia.
Podemos exemplificar as realidades imaginárias pelas obras de literatura, pelas novelas, pelo teatro, o cinema... "Filosofar" sobre essas realidades implica em desvendar as formas de influências dessas realidades sobre o cotidiano das pessoas.
Como explicar, por exemplo, que, que certo padrão indumentário de uma determinada personagem de uma novela qualquer, passe a ser referência para a moda? Como explicar que determinado clichê de linguagem se universalize a partir de uma determinada música ou de um personagem? Quais os valores (ou contra-valores) que se escondem por trás dos modismos lançados por um determinado programa ou personagem? Qual a possibilidade crítica que se esconde (ou fica velada) dentro de um padrão comportamental lançado pelos MCS?
REFERÊNCIAS
FEDRO, Fábulas, São Paulo: Escala, [2006]
GOMES, Roberto. Critica da Razão Tupiniquim, 5 ed. São Paulo: Cortez, 1982.
GRELOT, P. Homem, quem és? São Paulo: Paulinas. 1980.
JASPER, Karl. Introdução ao pensamento filosófico. São Paulo: Cultrix, 1973.
MORENTE, Manuel Garcia. Fundamentos de filosofia, lições preliminares. 3 ed. São Paulo: Mestre Jou. 1967.
NIETZSCHE, F. Crepúsculo dos Ídolos. São Paulo: Escala, [2005]
Neri de Paula Carneiro – Mestre em Educação
Filósofo, Teólogo, Historiador
Leia mais: http://falaescrita.blogspot.com/
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Fonte Artigos Gratuitos Online - Artigonal.com
Perfil o autor:Concluí mestrado em Educação (UFMS), especialização em Educação (UNESC-Cacoal-RO), especialização em Metodologia do Ensino Superior (UNIR-RO), especialização em Metodologia de Leitura Popular da Bíblia (CEBI-RS). Concluí os cursos de graduação em Filosofia, Teologia, História. Sou Professor de História e Filosofia pela rede pública estadual (R. Moura-RO); professor de Filosofia na Faculdade de Pimenta Bueno - FAP (Pimenta Bueno-RO), na Faculdade de Rolim de Moura - FAROL (R.Moura-RO), na UNESC (Cacoal-RO). Radialista e colaborador em jornais da região de Rolim de Moura – RO.
Publiquei alguns livros de circulação regional além de artigos em revistas científicas de Rondônia.
Meus textos são publicados regularmente no jornal Folha da Mata (Rolim de Moura-RO) nos blogs: http://falaescrita.blogspot.com e http://ideiasefatos.spaces.live.com e no site www.webartigos.com
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