Intervenções Pedagógicas Nas Dificuldades De Aprendizagem

Publicado em: 09/09/2009 |Comentário: 104 | Acessos: 19,828 |

INTERVENÇÕES PEDAGÓGICAS NAS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM

PROFª IARA SILVIA ARFELLI MARTINS

Não há dúvidas que, para “o fazer” cotidiano dos professores, constitui um importante problema abordar o desafio colocado por um considerável número de alunos que, sem deficiência mental, nem sensorial, nem privação ambiental, não alcançam rendimentos inicialmente esperados em suas aprendizagens.

 

O que são realmente as dificuldades de aprendizagem?

A literatura sobre as dificuldades de aprendizagem se caracteriza por um conjunto desestruturado de argumentos contraditórios.

Apesar do conceito de dificuldades de aprendizagem apresentar diversas definições e ainda ser um pouco ambíguo, é necessário que tentemos determinar à que fazemos referência com tal expressão ou etiqueta diagnóstica, de modo que se possa reduzir a confusão com outros termos tais como “necessidades educativas especiais”, “inadaptações por déficit socioambiental” etc.,.

Podemos assinalar como elementos de definição mais relevantes:

                  A criança com transtornos de aprendizagem tem uma linha desigual em seu desenvolvimento.

                  Seus problemas de aprendizagem não são causados por pobreza ambiental.

                  Os problemas não são devidos a atraso mental ou transtornos emocionais.

Em síntese, só é procedente falar em dificuldades de aprendizagem quando fazemos referência a alunos que:

                  Têm um quociente intelectual normal, ou muito próximo da normalidade, ou ainda, superior.

                  Seu ambiente sócio familiar é normal.

A literatura sobre as dificuldades de aprendizagem se caracteriza por um mero acaso sobre a Teoria do Déficit.

                  Não apresentam deficiências sensoriais nem afecções neurológicas significativas.

                  Seu rendimento escolar é manifesto e reiteradamente insatisfatório.

O que podemos observar, de modo geral, em alunos com dificuldades de aprendizagem incluem problemas mais localizados nos campos da conduta e da aprendizagem, dos seguintes tipos:

Atividade motora: hiperatividade ou hipoatividade, dificuldade de coordenação…..,

Atenção: baixo nível de concentração, dispersão…,

Área matemática: problemas em seriações, inversão de números, reiterados erros de cálculo …,

Área verbal: problemas na codificação/ decodificação simbólica, irregularidades na lectoescrita, disgrafías …,

Emoções: desajustes emocionais leves, baixa auto-estima …,

Memória: dificuldades de fixação …,

Percepção: reprodução inadequada de formas geométricas, confusão entre figura e fundo, inversão de letras …,

Sociabilidade: inibição participativa, pouca habilidade social, agressividade.

Bem, e daí? Somos professores e os alunos estão em nossas escolas, em nossas classes. O que fazer?

Assumamos com todos os nossos conhecimentos, com toda nossa dedicação, os princípios da normalização e individualização do ensino, optando pela compreensão ao invés da exclusão. Esta é uma visão que tenta superar a concepção patológica tradicional dos problemas escolares que se apóia em enfoques clínicos centrados nos déficits dos alunos e em tratamentos psico-terapêuticos em anexo aos processos escolares.

Partindo da realidade plenamente constatada que todos os alunos são diferentes, tanto em suas capacidades, quanto em suas motivações, interesses, ritmos evolutivos, estilos de aprendizagem, situações ambientais, etc. , e entendendo que todas as dificuldades de aprendizagem são em si mesmas contextuais e relativas, é necessário colocar o acento no próprio processo de interação ensino/aprendizagem.

Sabemos que este é um processo complexo em que estão incluídas inúmeras variáveis: aluno, professor, concepção e organização curricular, metodologias, estratégias, recursos. Mas, a aprendizagem do aluno não depende somente dele, e sim do grau em que a ajuda do professor esteja ajustada ao nível que o aluno apresenta em cada tarefa de aprendizagem. Se o ajuste entre professor e aprendizagem do aluno for apropriado, o aluno aprenderá e apresentará progressos, qualquer que seja o seu nível.

É óbvio a grande dificuldade que os professores sentem quando se deparam com alunos que se lhes apresenta como com “dificuldades de aprendizagem”. Nessa altura do texto, coloco “dificuldades de aprendizagem” entre aspa, pois, muitas vezes me pergunto, se estas dificuldades são de ensino ou de aprendizagem. Ambas estão juntas, é difícil dizer qual das duas tem mais peso.

O que acontece quando o docente se esquece que a escola é um universo heterogêneo, tal como a sociedade? Devemos ter em mente que nem todos aprendem da mesma maneira, que cada um aprende a seu ritmo e em seu nível. Precisamos criar novos contextos que se adaptem às individualidades dos alunos, partindo do que cada um sabe, de suas potencialidades e não de suas dificuldades.

Didática: fator de prevenção

De acordo com Blin (2005) sem subestimar o efeito de fatores externos à escola, variadas pesquisas sobre a eficácia do ensino têm demonstrado a influência dos professores e da maneira como conduzem a ação pedagógica, não somente sobre a forma como se dá a aprendizagem dos alunos, mas também sobre o modo com que se comportam em aula. O conhecimento dos processos associados ao ato de aprender e uma prática didática capaz de facilitá-los pode minimizar grande parte dos problemas e dos rótulos colocados nos alunos com “dificuldades de aprendizagem”.

—"Ora, é impossível dar  mais atenção para alguns alunos, com as classes lotadas e com o programa que tem de ser igual para todos. Somos cobrados pelos pais, principalmente os das escolas particulares". (uma professora de 4ª série do E.F I)

Segundo Perrenoud (2001) pode-se duvidar que, mesmo em uma classe tradicional em que se pratica o ensino frontal, que o professor se dirija constantemente a todos os alunos, que cada um deles receba a mesma orientação, as mesmas tarefas, os mesmos recursos. E, coloca três motivos para isto:

                  O professor interage seletivamente com os alunos e, por isso, alguns têm, mais que outros, a experiência de serem ouvidos ou questionados, felicitados ou repreendidos. Pergunta ele: quanto à comunicação não verbal, como ela poderia ser padronizada?

                  Mesmo nessas classes tradicionais, muitas vezes o trabalho é realizado em grupos, e o professor circula como um recurso para atender os alunos.

                  A diversidade dos ritmos de trabalho pode levar ao enriquecimento ou ao empobrecimento das tarefas. Assim, sempre há aqueles que terminam primeiro e têm tempo para brincar, ler, enquanto outros demoram para terminar e é preciso esperá-los.

Coloca ainda o autor: "Se considerarmos o currículo real como uma série de experiências, chegaremos, grosso modo, a uma conclusão evidente: o currículo real é personalizado, dois indivíduos nunca seguem exatamente o mesmo percurso educativo, mesmo se permanecerem de mãos dadas durante anos".

O que Perrenoud deixa claro, é que individualização de itinerários educativos é possível para os professores, pois ao invés de uma individualização deixada ao acaso, "pode ser feita uma individualização deliberada e pertinente dos aos projetos e às necessidades diferentes dos indivíduos".(obra citada)

Alunos que reprovam vários anos na mesma série são mais comuns do que se pode imaginar. Essas crianças sentem que a escola não foi feita para eles e se evadem. Segundo Freire (1999, p.35), “os alunos não se evadem da escola, a escola é que os expulsa”.  Quem realmente falhou, o aluno ou a escola? Esses alunos reprovados retornarão no ano seguinte?

Uma criança curiosa que está descobrindo o mundo e suas possibilidades não progrediu nada em um ano, dois ou três. . . Isto nos faz questionar o atual sistema de ensino, pois, parece-nos que busca uma produção em série e com isso apenas evidencia as diferenças sem nada fazer por elas.

Vários autores, como Sara Pain, Alicia Fernández, Maria Lucia Weiss, chamam atenção para o fato de que a maior percentual de fracasso na produção escolar, de crianças encaminhadas a consultórios e clínicas, encontram-se no âmbito do problema de aprendizagem reativo, produzido e incrementado pelo próprio ambiente escolar. (WEISS et. al, 1999, p.46)

É importante considerar que a escola deve valorizar os muitos saberes do aluno, e que seja oportunizado a ele demonstrar suas reais potencialidades. A escola tem valorizado apenas o conhecimento verbal e matemático, deixando de fora tantos conhecimentos importantes para sociedade.

O sentimento de pertença deve ser estimulado, alguém acuado, jamais vai demonstrar as potencialidades que possui. Tornando o ambiente escolar acolhedor, aceitando a criança como ela é, oferecendo meios para que se desenvolva, já é uma garantia de dar certo o trabalho em sala de aula.

É necessário que os profissionais da educação adotem uma postura ética em relação ao aluno, que assim como eles convivem em uma sociedade excludente.

Portanto, diversificar as situações de aprendizagem é adaptá-las às especificidades dos alunos, é tentar responder ao problema didático da heterogeneidade das aprendizagens, que muitas vezes é rotulada de dificuldades de aprendizagens. percursos educativos às diferentes características, às possibilidades,de todos os alunos.

Bibliografia:

Blin, Jean-François. Classes difíceis: ferramentas para prevenir e administrar os problemas escolares. Porto Alegre: Artmed, 2005.

Lacasa, P. & Guzmán, S. (1997). Dónde situar las dificultades de aprendizaje? Transformar las aulas para superarlas. Cultura y Educación, 8, 27-48.

FREIRE, Paulo. A Educação na Cidade. São Paulo, SP: Cortez, 3ª ed,1999.

Perrenoud, Philippe. A pedagogia na escola das diferenças: fragmentos de uma sociologia do fracasso. Porto Alegre: Artmed Editora, 2001.

WEISS, Alba Maria Lemme, CRUZ, Maria Lúcia R. A Informática e os Problemas Escolares de Aprendizagem. Rio de Janeiro: Ed. DP&A, 1999.

                   

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    Fonte do Artigo no Artigonal.com: http://www.artigonal.com/educacao-artigos/intervencoes-pedagogicas-nas-dificuldades-de-aprendizagem-1214571.html

    Palavras-chave do artigo:

    aprendizagem

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    intervencoes pedagogicas

    Comentar sobre o artigo

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    Iara Silvia Arfelli Martins

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    Por: Iara Silvia Arfelli Martinsl Educação> Ensino Superiorl 04/07/2010 lAcessos: 670
    Iara Silvia Arfelli Martins

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    Por: Iara Silvia Arfelli Martinsl Educação> Ensino Superiorl 04/07/2010 lAcessos: 3,824
    Iara Silvia Arfelli Martins

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    Por: Iara Silvia Arfelli Martinsl Educaçãol 04/07/2010 lAcessos: 1,853 lComentário: 1
    Iara Silvia Arfelli Martins

    Esse texto fala sobre a construção do conheimento realizada pelo aluno, onde o professor deve fazer boas intervenções e deicar por conta do seu aluno o papel de construir a sua aprendizagem de forma prazerosa, sem impor a ele nenhum conceito pré estabelecido.

    Por: Iara Silvia Arfelli Martinsl Educaçãol 02/11/2009 lAcessos: 3,023 lComentário: 7

    Comments on this article

    2
    Maria José Guedes 09/10/2011
    Profª Iara
    Lí o texto e me deparei com muitas perguntas acerca do fazer docente.
    * dificuldade: do aluno ou minha em não compreendê-lo?
    * fracasso escolar: do aluno ou da escola que não soube oferecer a ele o que ele precisava?
    * todos aprendem do mesmo modo e ao mesmo tempo?
    É certo que a dúvida serve para abalar as estruturas psíquicas já sedimentadas em busca de outras respostas possíveis e satisfatórias.Pena que esse processo não seja tão simples assim, além do que muito penoso.
    Estas são questões fundamentais que devem ser discutidas pelo coletivo escolar em busca de respostas que modifique a postura em busca do verdadeiro aprendizado.
    Até breve. Profª. Zezé.
    0
    CILENE CORREA DE OLIVEIRA 20/08/2011
    LI O TEXTO, TUDO MUITO BEM COLOCADO ADOREI.
    1
    Daisy M.S.Romanini 20/08/2011
    Estou lendo seu artigo.
    0
    Daisy 19/08/2011
    Bom dia Iara, estou lendo seu texto, beijos.
    0
    Karina Paula Barelli 17/08/2011
    Olá Iara, li o seu texto e achei muito interessante, um ótimo artigo!!!
    Obrigada, bjos!!!Karina
    0
    Andreza 17/08/2011
    Ok
    0
    maria neusa dos santos (Pós graduação facita 2011) 16/08/2011
    Bom dia Iara acabei de ler o artigo, muito bom!!! Bjuss
    0
    Ana Elisa Rodrigues de Lima 12/08/2011
    Muito bom seu comentário!
    Beijos...
    Ana Elisa
    0
    VILMA E.S. SERAVO 11/08/2011
    Oi professora ,boa tarde,acabei de pegar seu texto.
    Gostei, muito interessante,nos leva a reflexão.
    Obrigada, bjs, Vilma
    0
    Edmea A. Milaus Sahão 08/08/2011
    Adorei o texto relata o nosso dia-a-dia na sala de aula

    Beijos Edmea
    0
    Dayane Ap. G. Oliveira 07/08/2011
    Oi Iara! O texto é muito bom ... adorei a frase de Paulo Freire “Os alunos não se evadem da escola, a escola é que os expulsa”. ( Freire, 1999, p.35). BjOs e tdo de Bom! =)
    0
    Tainara Casetta Nori 02/08/2011
    Olá Iara, passei por aqui e com certeza achei ótimo.
    Bjos até um dia
    0
    Andréia (Pós Facita) 22/07/2011
    Olá Iara. Adorei o texto, pois está presente na realidade das salas de aula.
    0
    Nadia Correa (Pós-graduação, Facita/2011) 20/07/2011
    Boa noite!Li, imprimi e achei ótimo!Parabéns!bjo
    0
    jailton 17/07/2011
    bom dia,boa semana e que Deus te abençoe.li e imprimi o artigo,muito interessante e bom . gostei.
    0
    Marta Aparecida Palhares Brunaldi 16/07/2011
    Gostei Muito do seu artigo. Parabéns pelo artigo e pelas aulas. è muito bom ter pessoas como vc no meio educacional.
    1
    Rosemary (pós facita) 16/07/2011
    Gostei muito do texto e deste site. Interessantissímo para quem gosta de aprender e se atualizar.Parabéns
    0
    Rosimeire R Granucci( Pos Graduação Facita 2011) 12/07/2011
    Oi Iara acabei de ler o texto e achei otimo!!!!!
    0
    Ana Claudia Ap Albrechet(Pós Graduação Facita 2011 12/07/2011
    Olá Iara acabei de ler o artigo,muito bom! Bjusss....
    0
    Danieli Vieira Ribeiro (Pós Graduação FACITA 2011) 11/07/2011
    Olá Iara. Já li o texto, muito bom. Bjussss
    0
    Isabel Cristina Furlan(Pos-graduacao-Facita-2011) 07/07/2011
    Ja li e gostei muito do artigo...bjs
    0
    Cinara E. Renesto da Silva (Especialização - Itápo 06/07/2011
    Olá Iara. Já li o texto e ele é ótimo.
    0
    Ana Carolina Martins (psicocatanduva) 11/04/2011
    Professora, a importancia não está apenas no tema abordado mas sim na sua capacidade de nos transmitir de maneira tão suave. O auxílio na prática pedagógica é muito importante, e a ressalva de que alunos não são todos iguais e muito menos como sempre sonhamos é o que nos faz despertar para a heterogeinidade que deve gerar, necessariamente, a diversidade educacional.
    Parabéns pelo conhecimento, abraços.
    1
    claudia 21/10/2010
    li,gostei republiqueio artigos.
    0
    Edilaine (curso 180 em Catanduva) 19/10/2010
    Olá Iara, seu texto é bem pertiente para os dia atuais, já que a dificuldade de aprendizagem é algo concreto na vida de qualquer educador. Porém essas dificuldades são diagnosticados de maneira errônea.
    Este texto veio nos fazer refletir como estamos trabalhando com nossos alunos, já que todos tem a mesma oportunidade de aprender, só nos basta respeitar o tempo de cada um, pois somos seres humanos diferentes um dos outros, aprendemos de maneiras diferentes em tempos diferentes.
    Obrigada, pelo prazer da leitura....
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