Medo E Ousadia

12/08/2009 • Por • 6,953 Acessos

MEDO E OUSADIA ¹

 

 

 

 

Josenice Panizzon ²

 

É impossível ensinar sem ousar. (Paulo Freire)

 

 

 

“O que é ensino libertador? O que é ensino dialógico? Como o professor se transforma em educador libertador? Como é que os estudantes iniciam seu processo em um método dialógico?” (Freire e Shor, 1986, p.11). Essas e outras indagações relacionadas à educação libertadora é o que vamos encontrar na obra que nos propomos a resenhar. De autoria de Paulo Freire e Ira Shor, o livro em forma de diálogo, discute questões cotidianas pertinentes ao processo de ensino e aprendizagem existentes em nosso atual contexto histórico. Analisa elementos que se constituem em desafios reais e concretos na perspectiva da reinvenção e recriação dos espaços escolares. Em suma, apresenta as dinâmicas, os medos, ousadias e as potencialidades dos diferentes sujeitos comprometidos com o processo pedagógico.

            Paulo Freire, pedagogo, filósofo, escritor, “cidadão do mundo”, autor de várias publicações, de modo especial, o livro intitulado “Pedagogia do Oprimido”, cuja obra analisou e auxiliou enfaticamente à prática educativa hodierna, bem como sua significativa contribuição para a alfabetização de jovens e adultos, prática essa que o levou ao reconhecimento mundial como educador.

Paulo Reglus Neves Freire nasceu no dia 19 de setembro de 1921, em Recife, Pernambuco. Alfabetizou-se em sua própria casa, partindo de suas próprias palavras, de sua prática, de sua experiência. Foi exilado durante a ditadura militar brasileira, retornado ao país somente após a deposição desse mesmo sistema político.

 

 

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¹ Resenha da obra: FREIRE, Paulo; SHOR, Ira. Medo e Ousadia: O Cotidiano do professor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986, 224 p. Este trabalho fez parte das atividades pertinentes à disciplina Concepções Teóricas e Práticas de Gestão I e II, do curso de Especialização Latu Sensu em Supervisão e Gestão Escolar, da Faculdade da Serra Gaúcha, ministrada pela professora Mª. Rosane Zimmer.

² Especialista em deficiências Múltiplas e aluna do Curso de Pós-graduação em Supervisão e Gestão Escolar, julho 2009.

 

 

Fazia da educação sua paixão. Vivia, vivenciava e “saboreava” a causa educativa. Morreu em 02 de maio de 1997, em São Paulo, esperançoso pelas mudanças sociais, cujo desfecho vinha ocorrendo sob variados aspectos, tais como “as marchas” das mulheres, o movimento dos sem terra, dos desabrigados, dos gays, etc. Sempre acreditou no ser humano , como agente de constante transformação, sendo contrário ao “determinismo histórico” e ao “fatalismo social” próprios de nossa época. A importância de sua obra está em defender a educação como pressuposto norteador da transformação social, partindo da concepção e da construção de novas relações pedagógicas.

Ira Shor, educador estadunidense, crítico dos rumos da reforma da educação em seu país. Esteve ligado na luta pela melhoria das condições de ensino, de modo especial, à classe trabalhadora e demais minorias sociais marginalizadas.

A obra é toda baseada no diálogo entre esses dois educadores. Sendo assim, torna-se indispensável para a elucidação dos problemas práticos e teóricos colocados pela pedagogia dialógica. É também referência no que diz respeito à riqueza de informações, construção de conceitos, análises e exemplificações a cerca do “cotidiano do professor”.

A característica primordial deste texto está em se constituir em um livro falado. Freire (p.13) justifica, dizendo que “[...] é que o diálogo é, em si, criativo e re-criativo.” E Shor (p.13), por sua vez, ratifica, escrevendo, “[...] espero que encontremos um estilo dançante. Assim, seremos ao mesmo tempo poéticos, divertidos e profundos”.

  1.  

Cada capítulo trata de assuntos específicos, podendo até serem analisados de forma metódica, isolada e, paradoxalmente, as outras leituras e obras de Paulo Freire.

             A primeira parte do livro aborda as possibilidades e saberes que um professor deve possuir para transformar-se em um educador libertador, enfatizando o modo, pelo qual à educação se relaciona com a mudança social. Já no segundo capítulo evidencia os “temores” e os “riscos” da transformação, os quais devem ser encarados sem medo, pois ele “imobiliza” e estagna os sujeitos “aprendentes”. Os autores defendem que não devemos negar o medo, mas cultivá-lo, pois “[...] o medo vem de seu sonho político, e negar o medo é negar os sonhos”. (p.70)

            Logo no terceiro eixo do livro encontramos a estrutura e o rigor necessários à educação libertadora. As classes dialógicas tornam iguais professores e alunos? Podemos constatar a relevância desse tema quando Shor afirma que (p.98) “[...] a abordagem dialógica é muito seria, muito exigente, muito rigorosa e implica numa busca permanente de rigor [...]”. Nesse aspecto, os autores desvelam de forma nítida sua aversão e contrariedade à definição de “rigor” postulada como sinônimo de “autoritarismo”. Salientam ainda, a importância da superação do ensino conteudista, “bancário”, instrucionalista e descontextualizado que apenas serve de suporte ao capitalismo e à classe dominante.

            Na seqüência, o diálogo que segue,trata da conceitualização do “método dialógico de ensino”, onde Freire (p.123) diz que “[...] nós seres humanos, sabemos que sabemos e sabemos também que não sabemos. Através do diálogo, refletindo juntos sobre o que sabemos e não sabemos, podemos a seguir, atuar criticamente para transformar a realidade”. Introduzem ainda novos conceitos e dinâmicas para as práticas docentes, enfatizando o valor significativo do diálogo, da ação em conjunto com os discentes e da escuta no processo educativo como formas fecundas para chegarmos à liberdade, a cidadania e a transformação.

Ira Shor inicia o quinto capítulo denunciando a “cultura do silêncio” estadunidense definida por ele como sendo “[...] uma tolerância passiva à dominação”. E anunciando uma “democracia da libertação”, defendia também por Freire (p.162) ilustrada na frase seguinte “ [...] mudar as condições concretas da realidade significa uma prática política extraordinária, que exige mobilização,organização do povo, programas [...]”,onde exista de fato a atuação, o protagonismo dos sujeitos envolvidos nesse processo.

Nas duas últimas partes do “livro falado” a centralidade do diálogo são educadores e educando, inferindo principalmente na questão “como podem os educadores libertadores superar as diferenças de linguagem existentes entre eles e os alunos?” (p.171). Indagando também “Temos o direito de mudar a consciência dos alunos?” (p.203). Em síntese, agrega os “medos” e “ousadias” da educação emancipadora, conversando sobre como iniciar a transformação docente, discente e essa em comunhão com aquela. Freire (p.203) destaca que “o educador libertador nunca pode manipular os alunos e tampouco abandoná-los à própria sorte. [...] assume um papel diretivo necessário para educar”. Nesse sentido, os educandos poderão constituir-se como agentes é como cidadãos em um mundo “para todos”.

É imprescindível destacarmos algumas expressões e conceitos, elencados por Freire e Shor relevantes para a nossa reflexão enquanto educadores do século XXI, tais como “fatalismo social”, a distinção entre “Laissez-faire, professor autoritário e educador libertador”, “a relação capitalismo-currículo-alienação”, “transferência x diálogo”, “construção x verbalização”, “medo-política-sonho”, a educação como um ato inerentemente “político”, “Pedagogia libertadora x Pedagogia bancária”, “a linguagem do povo/realidade”, “produção x reprodução”, “autoridade x autoritarismo”, “educação e economia”, etc.

Dos conceitos elencados acima, um vem merecendo destaque no atual cenário educativo brasileiro, é a relação “currículo – capitalismo - alienação”. Esse aspecto é evidenciado comumente por nós educadores e gestores durante o processo educativo de nossas escolas, sendo essencial refletirmos sobre algumas questões; se o objetivo maior da educação é formar cidadãos livres e conscientes, como pode o currículo, base dessa formação, estar impregnado de ideologias capitalistas, onde apenas beneficiam alguns?Que função paradoxal é essa que o currículo assume?O que está subentendido naquele “rol de conteúdos pragmáticos?” Quem realmente “formamos”?Qual a visão de “homem” e “mundo” nesse contexto?

            A obra “medo e ousadia” retrata profundamente essa questão, atribui-lhe significação e propõe soluções viáveis por meio da prática libertadora. O maior agravante, nesse caso, apesar de termos acesso a todas essas informações, é a lentidão e a compartimentalização do processo de mudança, isto é, ou nos preocupamos com a reprovação ou então com a evasão, ora nos indagamos sobre os conteúdos, ora sobre a falta de interesse dos nossos alunos, como se tudo isso não estivesse interligado, como se não fizesse parte do processo desenvolvimental do conhecimento.

            Assim acredito que a grande ousadia para a próxima década é concebermos a educação sob o enfoque político de mudanças e de integração, sendo o propósito holístico, uma possível conseqüência dessa postura, onde as relações se conjugam, sendo nosso papel, principalmente como gestores, entender essas relações, adaptá-las à nossa realidade e efetivar as transformações tanto almejadas  por meio da retomada de conceitos sistemáticos e globais em termos de educação. Enquanto tentarmos executar melhorias apenas parciais, sempre haverá uma “válvula de escape” para os velhos problemas, os quais serão renomeados e até reconfigurados, porém seu alicerce estrutural não sofrerá modificações.

            Em contrapartida, se objetivamos, de fato, transformar a educação, devemos exaltar expressões como “autoridade / liberdade”, “democratização da escola pública”, “formação permanente”, sendo estas responsáveis e co-autoras pela superação da educação “bancária” para a emancipação.

            A curiosidade epistemológica e a certeza de nosso inacabamento (Freire, 1996), serão o suporte necessário para a construção em conjunto de soluções para a problemática que envolve a educação, bem como de estabelecer bases para as projeções futuras.

  1.             Nesse sentido, é indiscutível a impotência da leitura desta obra freireana para todos os educadores e gestores, pois nas palavras de Ana Maria Saul, ao também prefaciar esta obra, (p.08), referindo-se a Freire, salienta que “[...] este trabalho poderá dirimir muitas das nossas percepções equivocadas sobre o seu pensamento no que diz respeito às possibilidades da educação libertadora no contexto escolar”. Ademais, a obra é uma raridade para todos que acreditam no papel da educação e do educador na transformação da sociedade.    

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josenice panizzon