O Jogo E As Brincadeiras Como Ferramentas Da Psicomotricidade

02/07/2009 • Por • 24,032 Acessos

Introdução

A presente revisão discute alguns aspectos fundamentais na estruturação do processo de ensino-aprendizagem tendo em vista a construção do conhecimento e do saber por parte da criança através do uso das brincadeiras e jogos. Observou-se que algumas dificuldades de aprendizagem estão associadas a elementos da psicomotricidade, como por exemplo ao esquema corporal, à lateralidade, à aspectos perceptivos e outros, estão por vezes relacionados à aspectos como inversão de letras, dificuldades em relação a escrita, à leitura, à linguagem e outros.

A fase pré-escolar e de alfabetização são importantes no desenvolvimento da criança de uma forma geral e primordiais no processo de aprendizagem das mesmas, e as brincadeiras e jogos teêm um papel fundamental neste processo.

Outro ponto importante é se os profissionais que atuam neste segmento (especializados ou não) têm conhecimento da relação entre as brincadeiras e jogos e o processo de aprendizagem do aluno, no sentido de minimizar ou reduzir as possíveis dificuldades de aprendizagem.

Percebe-se que na escola de primeira infância, crianças não sabem saltar, correr, lanças, trepar, etc. É importante para o desenvolvimento pleno do aluno brincar, como um organismo integrado, levando-se em conta que tais habilidades são consideradas como formas de expressão de um ser humano.

Portanto, este trabalho discutira a importância dos jogos e brincadeiras como intervenção pedagógica no desenvolvimento e aprendizagem de crianças na educação infantil.

A importância do brincar?

Existe uma relação estreita entre o brincar e a aprendizagem. Se no passado estes termos eram dicotômicos e se contradiziam, no mundo contemporâneo se entrelaçam, pois nos dias de hoje. onde as exigências cognitivas são precoces, a criança perde o espaço do brincar para o espaço da aprendizagem interfererindo na dinâmica natural do desenvolvimento psicológico da criança (OLIVEIRA, 2008: 01).

Para VYGOTSKY (s/d apud KISHIMOTO, 2002: 51), “ a imaginação em ação ou brinquedo é a primeira possibilidade de ação da criança numa esfera cognitiva que lhe permite ultrapassar a dimensão perceptiva motora do comportamento. De acordo com este pensamento FRIEDMANN (2003), coloca que as brincadeiras são essenciais a saúde física, emocional e intelectual do ser humano. Brincando dos reequilibramos, reciclamos nossas emoções e nossa necessidade de conhecer e inventar.brincar é essencial à saúde física, emocional e intelectual do ser humano.

Brincar é a representação em atos, através do jogo simbólico, a primeira possibilidade de pensamento propriamente dito, marcando a passagem de uma inteligência sensório-motora, baseada nos cinco sentidos e na motricidade, para uma inteligência representativa pós-operatória (material e intuitiva) mediada por símbolos subjetivos , caminho para a construção da inteligência operatória mediada por signos históricos arbitrários.

Segundo KISHIMOTO (2002), representar, brincar é dar forma às experiência humanas significativas; é reapresentar, tornar novamente presente, presentificar vivencias que, por sua experiência, mereçam ser permanentemente lembradas. O imaginário não se confunde com o real, ele é um instrumento para a compreensão e a tomada de consciência real.

Consoante com este pensamento, Oliveira (2008) entende o brincar como o viver, é o prazer da ação, é a vivência da dimensão psíquica nas relações da criança com o mundo, onde ao brincar a criança vive o prazer de agir simultaneamente com o prazer de projetar-se no mundo em uma dinâmica interna que promove a evolução e a maturação psicomotora e psicológica dela.

O brincar consiste em um sistema que proporciona a integração entre a vida social da criança, sendo transmitida de uma geração para outra ou aprendida nos grupos infantis, na rua, nos parques, escolas, festas e etc; é incorporada pelas crianças de forma espontânea (FRIEDMANN, 2003).

O brincar como instrumento de aprendizagem

Quando as crianças brincam, criam regras e adaptam seu pensamento de acordo com as situações encontradas. De acordo com o nível da brincadeira, a criança utiliza seus conhecimentos pré-aprendidos e adapta-os a nova situação.

A relevância de brinquedos e brincadeiras como indispensáveis para a criação da situação imaginária. Revela que o imaginário só se desenvolve quando se dispõe de experiências que se reorganizam. A riqueza dos contos, lendas e o acervo de brincadeiras constituirão o banco de dados de imagens culturais utilizados nas situações interativas. Dispor de tais imagens é fundamental para instrumentalizar a criança para a construção do conhecimento e sua socialização. Ao brincar a criança movimenta-se em busca de parceria e na exploração de objetos; comunica-se com seus pares; expressa-se através de múltiplas linguagens; descobre regras e toma decisões (VYGOTSKY 1988, citado por,  FRIEDMANN, 2003 ).

Ao se pensar na evolução do brincar, deve-se voltar ao passado, época no qual o brincar era uma atividade característica tanto das crianças quanto dos adultos, representando para ambos um importante segmento da vida. As crianças participavam das festividades, lazer e jogos dos adultos, mas tinham, ao mesmo tempo, uma esfera separada de jogos. As brincadeiras eram formulas condensadas de vida, modelos em miniatura da história e destino da humanidade. A brincadeira era o fenômeno social do qual todos participavam e foi só bem mais tarde que ela perdeu seus vínculos comunitários e seu simbolismo religioso, tornando-se individual (FRIEDMANN, 2003: 28).

Segundo Neto (2001), o brincar através dos movimentos, permite a criança um conjunto de relações (sujeito, as coisas, o espaço) necessárias ao seu desenvolvimento motor, aprendendo a perceber e a interacionar o vívido, o operatório e o mental. A riqueza de aquisições processa de forma continua e em plasticidade, permitindo mais tarde uma cultura motora fundamental a tarefas mais precisas e que solicitem maior exigência das diversas estruturas ou componentes da motricidade.

Assim as brincadeiras fazem parte do patrimônio lúdico-cultural, traduzindo valores, costumes e formas de pensamento e ensinamentos, proporcionando às crianças uma cultura motora fundamental ao seu desenvolvimento e a sua aprendizagem.

O brincar na escola

De acordo com Moyles (2002: 26), existem três formas de brincar na escola onde destaca-se:

Forma Básica

Detalhe

Exemplos

Brincar Físico

Motor amplo

Construção e Destruição

Blocos de montar, argila, areia e madeira.

Motor fino

Manipulação e Coordenação

Blocos de encaixar, instrumentos musicais.

Psicomotor

Aventura, Movimento criativo, Exploração sensorial, Brincar com objetos

Aparelhos de subir, dança, modelagem com sucata e mesa de descobertas.

Forma Básica

Detalhes

Exemplos

Brincar Intelectual

Lingüístico

Comunicação, função,

Explicação, aquisição.

Ouvir, contar histórias.

Científico

Exploração, investigação, resolução de problemas.

Brincar com água, cozinhar.

Simbólico/

matemático

Representação faz de conta, minimundos.

Casa de boneca, casinha, teatros, jogos de números.

Criativo

Estética, imaginação, fantasia, realidade e inovação.

Pintura, desenho, design, modelagem.

Forma Básica

Detalhes

Exemplos

Brincar Social,

Emocional

Terapêutico

Agressão, regressão, relaxamento, solidão, brincar paralelo.

Madeira, argila, música.

Lingüístico

Comunicação, interação, cooperação.

Marionetes, telefone.

Repetitivo

Domínio, controle.

Qualquer coisa.

Emparático

Simpatia, sensibilidade.

Animais de estimação, outras crianças.

Autoconceito

Papéis, emulação, moralidade, etnicidade.

Cantinho da casa, oficinas de serviços, discussão.

Jogos

Competição, regras.

Jogos de palavras e números.

Deve-se observar que existe uma significativa sobreposição em todas as áreas, impossível de representar de forma figurativa. Os leitores talvez desejem construir uma roda de brincar, três círculos sobrepostos, mas de tamanhos decrescentes, separados por cunhas, cada contendo os itens básicos e detalhados apresentados acima, podendo ser rotados em dentro do outro, o que representa mais adequadamente o relacionamento entre as áreas.

O que se percebe com a transformação do brincar, é que com o avanço da tecnologia e o crescimento desordenado das cidades, fica cada vez mais difícil encontrar espaços para brincar, e que esta falta de espaço contribui para que as crianças se atenham a jogos eletrônicos, que limitam a uma aprendizagem motora; a escola por sua vez, se vê pressionada a trabalhar conteúdos que proporcionarão os alunos um lugar no campo de trabalho e prestação de vestibulares e não se atendo a necessidade da criança brincar.

Dentro da escola o brincar tem sofrido essas transformações, sendo que a brincadeira integra um espaço de trabalho: a brincadeira livre passa a ser considerada uma atividade não produtiva.

O brincar livre deve acontecer na escola?

Para Moyles (2002), talvez não, se a visão do professor for à de um instrutor ou doador de conhecimentos. Entretanto, dentro da noção do professor como um mediador e iniciador da aprendizagem, o brincar livre e o dirigido são aspectos essenciais da interação do professor/criança, porque o professor tanto permite quanto proporciona os recursos necessários e apropriados.

“Houve um avanço no que se refere aos estudos e pesquisas a respeito da importância e compreensão do brincar, para a preservação histórico-cultural, à educação, o desenvolvimento integral infantil, a aprendizagem, a reeducação, a segurança na fabricação de brinquedos, a adequação dos brinquedos à diferentes faixas etárias. No que se refere aos fatores esternos do brincar – tempo, temática, espaço, parceiros, objetos -, as condições de modernidade comprometeram, de certa forma, as oportunidades lúdicas” (FRIEDMANN, 2003).

Para Neto (2001: 46), o brincar proporciona um desenvolvimento multidimensional de ser criativo, aspirando à autonomia, à liberdade e apto a viver em relação estreita com a comunidade. Segundo o mesmo autor, cabe ao professor proporcionar atividades que permitam o brincar livre e o brincar dirigido de acordo com objetivos previamente propostos.

Psicomotricidade e Aprendizagem

A psicomotricidade é uma abordagem educacional que tem como objetivo promover o desenvolvimento dos alunos auxiliando-os no processo de alfabetização (ASSIS, SILVA e LIMA, 2008).

Segundo Molinari e Sens (2003, citado por ASSIS, SILVA e LIMA, 2008), a educação psicomotora proporciona o desenvolvimento do esquema corporal, muito útil na coordenação motora, as noções de tempo , espaço e ritmo auxiliam nas situações concretas na aprendizagem e dos cálculos; a organização espacial e temporal contribui na efetuação dos cálculos matemáticos como também na colocação dos números em séries e na combinação das formas para fazer construções geométricas, além de desenvolver a socialização e aspectos afetivos.

Desta forma, quando a criança brinca, ela se desenvolve de forma integrada nos aspectos cognitivos, afetivos, físicos-motores, morais, lingüísticos e sociais. Este processo de desenvolvimento se dá a partir da construção que a criança faz na sua interação com o meio físico e social. A criança vai conhecendo o mundo a partir da sua ação sobre ele. Nessa interação sujeito objeto (ou meio), a criança vai assimilando determinadas informações, segundo o seu estágio de desenvolvimento (FRIEDMANN, 2003: 72).

Consoante com este pensamento Moyles (2002: 36), diz que o brincar “aberto”, aquele que poderíamos chamar de a verdadeira de brincar, apresenta uma esfera de possibilidades para a criança, satisfazendo suas necessidades de aprendizagem e tornando mais clara a sua aprendizagem explícita. De acordo com Lee (1977: 340, citado por MOYLES, 2002: 374):

O brincar é a principal atividade da criança na vida; através do brincar ela aprende as habilidades para sobreviver e descobre algum padrão no mundo confuso em que nasceu.

Este pensamento esta de acordo com Oliveira (2008), “o brincar é o principal meio de aprendizagem da criança”, onde esta gradualmente desenvolve conceitos de relacionamentos causais, o poder de discriminar, de fazer julgamentos, de analisar e sintetizar, de imaginar e formular.

Então, o brincar é de fundamental importância do desenvolvimento da criança, que através do lúdico, cria mecanismos de aprendizagem que proporcionarão o seu desenvolvimento integral.

De acordo Barreto (2000, citado por MONTEIRO, 2007) o desenvolvimento psicomotor é importante na prevenção de problemas de aprendizagem e que a psicomotricidade nas aulas de Educação Física pode auxiliar na aprendizagem escolar, contribuindo para um fenômeno cultural que consiste de ações psicomotoras exercidas sobre o ser humano de maneira a favorecer comportamentos e transformações.

A Educação Física Escolar nos dias atuais vem sendo pensada como ação educativa integral do ser humano, assim como a psicomotricidade que relaciona o individuo como um ser completo e único capaz de pensar e agir, deixando de lado as características de dualidade de corpo e mente, e sim como um ser capaz de integrar-se com si próprio e com o meio (MONTEIRO, 2007).

O brincar permite à criança um enorme gama de situações, que proporcionarão um desenvolvimento harmônico e geral da criança. Moyles (2002), destaca em seu livro que as escolas onde o brincar era subvalorizado, as possibilidades matemáticas presentes no brincar das crianças não se desenvolviam.

De acordo com este pensamento, Neto (2001), as escolas estão centradas em aprendizagens formais e seguindo dimensões voltadas para uma “excelência acadêmica” em espaços restritos.

Considera-se então fundamental que os professores de Educação Física tenham um melhor conhecimento sobre o valor do jogo e das brincadeiras como conteúdos da psicomotricidade e que estes são fundamentais para o desenvolvimento cognitivo, motor e psicológico do aluno em sua integralidade.

Conclusão

O estudo permitiu concluir que os jogos e brincadeiras que são conteúdos da psicomotricidade permitem o desenvolvimento integral do aluno, contribuindo positivamente para o processo de aprendizagem.

Percebe-se que com o desenvolvimento tecnológico o brincar perdeu espaço para os jogos eletrônicos, o brincar na escola está estigmatizado como uma atividade sem objetivos bem definidos.

É fundamental ao Professor de Educação Física trabalhe atividades que visem o desenvolvimento integral do aluno e para tanto a psicomotricidade é um elemento de grande relevância dentro da Educação Física.

Referências Bibliográficas

FRIDMANN, A. O direito de brincar: a brinquedoteca. São Paulo: Ed. Vozes, 2003.

MONTEIRO, V.A. A psicomotricidade nas aulas de Educação Física Escolar: uma ferramenta de auxílio na aprendizagem. In: http://www.efdeportes.com. Acesso em 22 de out. de 2008.

MOYLES, J. Só Brincar? O papel do brincar na educação infantil. Porto Alegre: Artmed, 2002.

NETO, C. A. F. Motricidade e jogo na infância. Rio de Janeiro: Sprint, 3ª Ed: 2001.

OLIVEIRA, M. C. S. M. Do prazer de brincar ao prazer de aprender. IN: http://www.psicomotricidade.com.br. Acesso em 25 de out. de 2008.

ASSIS, A. P. P. SILVA, F. V. LIMA, J. F. SILVA, S. S. CASTRO, G. A. A. DESTRO, D. S. Importância da Educação Física para as séries iniciais a partir das contribuições da psicomotricidade. In: http://www.faminas.edu.br. Acesso em 27 de out. de 2008.

Perfil do Autor

Izabel Ap. de C. Cândido Costa

Como professora estou sempre em busca do novo, com o intuito de trazer para a sala de aula novas propostas e metodologias, promovendo assim a formação não só do aluno, mais do cidadão.