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O Que É Ser Diferente Na Sociedade Contemporânea E O Que É Gerir Uma Escola Tendo Como Foco A Diversidade
Por: Rubem Menezes  | Publicado em: 29-04-2008 | Comentários: 0 | Acessos: 799 | Avaliação: (468) (?)
O Brasil é seguramente um dos países que mais instituiu leis que atendem ao clamor da população excluída. Refiro-me às pessoas com necessidades educacionais especiais. Exemplos disso são: a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB , que dedica particular atenção à Educação Especial, e o Plano Nacional de Educação – PNE – que estabelece 27 objetivos e metas para a educação de pessoas com necessidades educacionais especiais. No entanto, essa legislação, talvez por ser, de certo modo, recente, e por isso mesmo pouco conhecida, ainda não está bem disseminada. Segundo a Lei, a inclusão, mormente escolar, é para todos que se encontram excluídos do sistema educacional, independentemente de idade, gênero, etnia, condição econômica, social, física ou mental.
Todo o cabedal legal existente já representa um avanço extraordinário e uma conquista estupenda. Contudo, não podemos dizer com isso que já tenhamos conseguido resolver o problema da exclusão. De fato ainda estamos muito distantes da erradicação do problema — embora já tendo dado passos significativos. Tal esforço para a inclusão educacional de pessoas com necessidades educacionais especiais é louvável. Contudo, para que a inclusão de fato aconteça, tem-se que ir além da instituição de leis. A questão é mais conceitual que legislativa. Portanto, é mister rever alguns conceitos. Como considera Cláudia Werneck (2003, p.1) “praticar a inclusão é elaborar uma nova ética, inspirada na certeza de que a humanidade encontra infinitas formas de se manifestar” . Não se trata de simplesmente criar leis com o fito de mudar a realidade. É claro que as leis ajudam, mas não se bastam por si sós.
Nossa sociedade ainda conserva (pré)conceitos historicamente cristalizadas sobre quase tudo: negro, índio, pobre, deficiente físico, deficiente mental, nordestino, homossexual, empregada doméstica, gordo, idoso etc. A coisa toda tem a ver com a maneira como as pessoas aprenderam a ver o outro. A questão é: sob que prisma a sociedade aprendeu a enxergar o outro?
Toda a educação nacional foi elaborada e desenvolvida para manter a mente engessada. O individuo foi domesticado e doutrinado. Ele não aprendeu a pensar. Apenas apreendeu pensamentos. Assim, certo é o que alguém determinou que é certo. Do mesmo modo, errado é o que alguém determinou que é errado.
Essa mesma lógica vem para as relações humanas e valorização do potencial humano. O feio (aquele que não atende aos padrões de beleza ditados pela sociedade) é falto de inteligência, é inabilitado, é incompetente, é indigno. O mesmo prisma é usado para olhar o deficiente físico, o deficiente mental, o negro, o índio, o nortista, o nordestino, o pobre, a prostituta, o homossexual etc. Esse elenco não se encaixa nos padrões de normalidade e perfeição (física, mental, econômica, social e intelectual) criados e impostos pela sociedade. Logo, se não se encaixa, não serve. Se não serve, tem que ser deixado de lado — à margem.
Essa rejeição é manifestada de várias formas, porém uma das mais claras é quando as portas se fecham para a escolarização e para a carreira profissional. É quando o indivíduo é privado do seu direito. Desse modo, não basta só está na Lei, é preciso um esforço educacional a fim de se reeducar a sociedade almejando-se uma mudança de concepção. Pois, se mudarmos o modo de pensar (e de ver), mudamos o modo de agir (e reagir).
Não se pode esperar que todos sejamos iguais a fim de sermos aceitos. No mundo em que vivemos nem os gêmeos são iguais. Somos indivíduos, portanto, seres individuais, únicos, com características próprias no que tange a maneira de ser, de pensar, sentir, agir e reagir a tudo e a todos. Nesse sentido não há certo nem errado. Há apenas o diferente.
São conceitos, formas de pensar e de ver o mundo que precisam mudar. O ser humano é criativo e capaz. Uma deficiência, embora real, não significa absoluta incapacidade, mas, apenas e tão somente uma determinada limitação. A cor da pele, a condição sócio-econômica, a origem de uma pessoa, uma deficiência física, nada disso é determinante para se rotular o sujeito como inapto, incompetente, indigno. Alguém pode não ser capaz de usar as pernas, mas pode usar os braços, as mãos, a voz etc. Outro pode não ser capaz de usar a voz, mas pode usar as mãos, os braços, as pernas etc.
É mais fácil discriminar, segregar, marginalizar e excluir, que compreender, aceitar e incluir. O gordo é discriminado por ser gordo, o negro por ser negro, o pobre por ser pobre, o surdo por ser surdo e assim por diante. Logo, ser diferente em nossa sociedade é ser defeituoso, é ser excluso, é não ter direito a ter direitos. Mas, como diz Cláudia Werneck (2003, p.19), “todas as pessoas são gente, portanto, têm o direito de participar ativamente da sociedade contribuindo com o seu melhor talento para o bem comum, qualquer que seja ele” .
Na minha família tivemos que aprender a duras penas a enfrentar o preconceito e a discriminação. Minha mãe, tendo o braço direito ressecado desde a infância, teve de aprender a fazer tudo com o braço esquerdo. Não poucas vezes foi chamada de “aleijada”, “defeituosa”, “inapta para o trabalho”. Mesmo assim, tornou-se habilidosa e, cozinhando, lavando e passando roupa proveu sua casa e criou os quatro filhos (minhas três irmãs e eu).
Não bastasse nada disso, minha irmã caçula, ainda muito cedo, sofreu paralisia infantil, vindo a perder a habilidade de andar e de utilizar o braço direito e a voz. Foram anos de luta, discriminação, barreiras e inúmeras dificuldades. Mas, minha mãe continuou lutando e insistindo para que a menina fosse aceita na escola, pois, apesar de tudo, era uma menina lúcida e de mente ágil. Ela estudou, cresceu, voltou a andar, a falar, e a usar o braço direito. Foi tão competente que, dos quatro filhos que minha mãe teve, a caçula foi a primeira a ingressar na faculdade. Formou-se e foi a primeira mulher mecânica de avião no Estado do Amazonas.
Quando consideramos que deficiência é toda e qualquer perda ou anormalidade de uma estrutura ou mesmo de uma função psicológica, fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade, dentro do padrão considerado normal para o ser humano, então, somos todos deficientes. Porque em alguma coisa somos deficientes, limitados. Como podemos ver, vivemos um paradoxo. Pois, somos todos diferentes e, ao mesmo tempo, tão iguais.
Lembro-me quando em 1992, em uma escola na capital paulista, fui apresentado pela diretora a uma turma de alunos de nível médio, como o novo professor de Filosofia. Ao saberem que eu era natural do Estado do Amazonas, a turma toda se levantou e um aluno exclamou: — “Nós não aceitamos esse professor. Pois, o que é que um amazonense tem para nos ensinar?” Para eles o fato de eu ter um sotaque diferente, uma estatura física diferente e ser originário de uma região diferente da deles (norte), já significava que eu era inapto, indigno, réprobo ou incapaz de exercer o magistério, pelo menos naquele contexto. Pois bem, não só assumi a cadeira de Filosofia àquele ano, como dois anos depois assumi a direção daquela escola (com o apoio de todos os alunos e professores, inclusive daquela turma que me discriminara escancaradamente) em cuja função permaneci por quatro anos.
Assim é a sociedade contemporânea. Só têm valor os “normais”. Normal, do ponto de vista dessa sociedade, é todo aquele que se encaixa nos padrões estabelecidos por ela. O diferente é anormal. Pois representa “produto de terceira classe”, fora dos padrões, portanto, indesejável, defeituoso, desprezível, sem valor. Por conseguinte, tem que ficar à margem.
Se quisermos realmente incluir o indivíduo, necessariamente teremos de nos desvencilhar dessa forma de pensar excludente e marginalizante. Tais raciocínios, quando muito, só conseguem integrar, onde a simples presença física do sujeito no ambiente já basta. Porém, o que devemos de fato buscar é a inclusão. Nela há que se permitir, além da mudança de atitudes, uma mudança de mentalidade frente às diferenças e diversidades de ordem física, étnica, cultural, econômica e social. É preciso que o indivíduo se sinta parte do todo e não um agregado a ele.
Diante de todo o exposto, como gerir uma escola tendo como foco a diversidade? Considerando que não é fácil lidar com pessoas, muito menos fácil é gerir uma escola onde a diversidade é inevitável. Isto exige um preparo cada vez maior do gestor. Nesse desafio, Bray Stainback (2004, p.23), sugere que os administradores educacionais devem exercer o papel de “facilitadores do desenvolvimento e da implementação” da política de inclusão, a fim de que a diversidade seja aceita como conquista e não como obstáculo.
Por outro lado, o gestor não pode achar que ele é o único responsável pela criação da política que irá nortear a ação da inclusão educacional. Ele é sem dúvida o grande articulador, gerente, facilitador, incentivador etc. Mas, o poder de criar tais políticas está com todos — gestor, professores, alunos, pais e comunitários. Ou seja, é o conjunto, a escola como um todo, que têm força e poder para mudar o que os anos cristalizaram.
Considerando a responsabilidade social que a própria função confere ao gestor, é imperativo que este participe ativa e decisivamente da ação inclusiva. Como gestor ele precisa ser audaz, impetuoso, aguerrido. Precisa também estar aberto para as mudanças. Munir-se de cabedal intelectual que lhe dê fortes argumentos a fim de conscientizar a comunidade — professores, funcionários, alunos e pais — e derrubar alguns mitos que interferem no processo de inclusão, como a inverdade de que o deficiente vai atrapalhar a aprendizagem dos outros alunos. É preciso mostrar convincentemente que a presença do deficiente, em verdade, irá ajudar os alunos tidos como normais a “vivenciar uma nova experiência como ser humano solidário e respeitador das diferenças” .
Em suma, ser diferente na sociedade contemporânea é ser incapaz, inapto, alguém sem condição nenhuma de estar entre os “normais”. É urgente a necessidade de se implementar nos currículos escolares (da educação básica à superior) componentes que levem o educando a (re)construir sua mentalidade social onde ele seja capaz de ver o mundo constituído por grandes e reais diferenças mormente humanas, e que essas diferenças não significam má qualidade ou valor inferior, mas riqueza de valores, completude. O Universo é imenso e nessa imensidão são as diferenças que permitem que ele seja o que é — universo.
Gerir uma escola tendo como foco a diversidade é mais que um desafio, é um teste de aptidão. Só os aptos para mudanças sobrevivem, como dizia Charles Darwin. Sobreviver profissionalmente implica em ser capaz de mudar. Mudar conceitos, posturas, valores, ações. O mundo muda a todo instante. Tudo na natureza se ajusta a fim de que a vida possa continuar o seu curso. O gestor escolar precisa ajustar-se às mudanças e ver que as pessoas, que constituem a própria razão de ser da escola, são diferentes física, mental, intelectual, étnica, econômica e socialmente. São elas mesmas que dão sentido à existência da escola, e esta ao papel do gestor. Cumpre-lhe esforçar-se para que os seus pares compreendam e empreendam esforços a fim de que a inclusão sócio-educacional de fato aconteça.
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Perfil o autor:É palestrante, coordenador educacional, escritor, especilaista em educação e em teologia, mestrando em educação pela UNINOVE .
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