O sujeito histórico e a construção social

Publicado em: 30/09/2011 |Comentário: 0 | Acessos: 775 |

 

A noção de sistema social, também nos permite a formulação adequada de uma resposta a esta questão. Devemos compreender o conceito de sistema social como um conjunto interdependente de elementos culturais e estruturais. Trata-se de uma totalidade constituída de partes concatenadas, no interior do qual cada parte, sendo semi-autônoma numa dimensão da sua função, é dependente das outras partes como componente de um sistema que é. O conceito de construção social envolve a compreensão de que estamos utilizando um fundamental princípio sociológico que propõe que o todo é maior do que a soma das partes. São importantes as palavras de Johnson (1997), quando afirma que:

[...] as partes que entram na composição de um sistema social são menos importantes do que o próprio sistema e as relações que o constituem; a menos, é claro que aconteça que as partes sejam sistemas sociais. Assim, seres humanos individuais são analiticamente sem importância, exceto em relação à posição que ocupam em sistemas sociais. Este fato, porém, não os deixa fora do contexto sociológico, uma vez que virtualmente tudo que experimentamos e fazemos, relaciona-se de alguma maneira com as limitações impostas pelos sistemas sociais.

 Nas palavras de Johnson, podemos verificar que sistema social é um conceito nos permite assumir uma noção estrutural e estruturante do nosso objeto, pois ele diz respeito a elementos materiais e imateriais interdependentes, isto é, à forma como diversas partes que compõe um todo se encontram ajustadas umas em relação às outras, e principalmente na forma com a humanidade vem se construindo e construindo suas sociedades. Este enfoque de ser histórico que a disciplina dá ao ser humano nos remete a reflexão de nossa prática e busca pela formação adequada e como esta formação vai contribuir na construção de uma sociedade de direitos . 

Para que o indivíduo pudesse tornar-se um ser histórico, é preciso naturalmente que ele se torrne um ser de direito, o alguém que desfrute direitos políticos, direitos civis e porque não dizer direitos sociais, e, sobretudo que seja reconhecido como tendo o direito, como ser humano e como cidadão de um país, de gozar da totalidade dos direitos acordados.. O sujeito histórico é também um sujeito de direito, pois um indivíduo considerado, respeitado frente a todos os outros e que está sob a proteção de uma lei semelhante para todos, tem possibilidades de se construir sobre valores humanos que são fundamentais para construção de uma sociedade mais justa e solidária.

 

Não importa o "status quo" do sujeito, sua procedência, sua identidade. A postura do homem e sua relação com o meio deve ser necessariamente desveladora, assim cria-se a idéia de uma identidade na unificada, mas individual e que se constrói na e pela sociedade. Na sociedade que exclui que castra um estado de direito, masque promove a vida, e seu desenvolvimento saudável. Stuart Hall Afirma:

 

A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente. (HALL, Stuart. 2001 p.13)

 

 

Cada identidade humana é construção histórica, de consciência e da própria sociedade. Quanto mais elevado o nível de consciência de uma sociedade, mais força política e organização, porém isso só é possível ao passo que o homem conhece e valoriza sua própria história. Não podemos viver à parte de nossa historicidade, porque é ela que nos anima; que nos orienta e nos mostra quais caminhos trilhamos, além de indicar novos rumos, formular os próximos desafios, através do pensamento, do livre fluir do pensar nossas ações futuras, de tudo que almejamos construir. Porque estamos sempre pensando no futuro? Certamente é por estarmos sempre focados, no que podemos planejar, projetar, no rumo de nossa caminhada. Quando não se pensa no futuro, não possui mais sonhos, não se busca desafios, não se desenvolve e, como produto desse desalinhamento existencial, se pode colher a infelicidade, a não auto-realização de seu projeto de vida. Dessa forma não resta mais nada do que simplesmente sucumbir em vida e na vida.  

A sociedade é construída conforme o homem vai se construindo e produzindo sua vida, individual e em relação com os outros homens. Para produzir é preciso agir, seja qual for o produto, sem ação não se pode existir. De modo que o Homo sapiens necessita de desafio, precisa do conhecimento sempre renovado, porque nesse sentido, sua vontade é ilimitada, ele vai sempre querer mais. É assim que se produz cultura, que se desenvolve o intelecto por meio da arte, da música, da escrita, da dança, da diversão, do trabalho, da religião, do ensino, da aprendizagem. O grande filósofo grego de Atenas, Sócrates, em sua celebre frase "só sei que nada sei", queria na verdade dizer que diante de todo seu conhecimento, não sabia tudo e que possuía a humildade suficiente para aprender cada vez mais, porque ninguém sabe tudo nem é perfeito em sua finitude existência. Existência que também deve ser entendida apartir das respostas que o buscou ao longo da história, na tentativa de conhecer os mistérios do universo.

Por meio das narrativas míticas, podemos conhecer a explicação primeira de

todas as respostas que os homens deram à busca de compreensão do universo.  A mitologia vista sob esta ótica, representa a primeira forma de compreensão do mundo. É nesta perspectiva que o mito pode ser considerado como algo verdadeiro (concebendo aqui o sentido do termo como uma explicação que "conforta" a preocupação humana), isto é, há uma compreensão que satisfaz a ansiedade humana quanto á sua origem. Por isso, o mito é profundamente importante. Não é mentira, ficção ou fantasia, pois remete a uma explicação, cuja narrativa, expõe uma compreensão de mundo. Sendo a primeira forma de explicação do mundo, sua palavra é oposta àquela que o homem profano ouve, apresenta caminho que este homem não quer seguir. No entanto, o mito sobreviveu e sobrevive, mesmo quando é "desconstruído", recriado, isso porque ele tem vida própria. Sendo uma narrativa – relato de um acontecimento – seu registro é atemporal.

 

 

Segundo ELIADE

Os mitos, efetivamente narram não apenas a origem do Mundo,dos animais, das plantas e do homem, mas também de todos os acontecimentos primordiais em conseqüência dos quais o homens e converteu no que é hoje – um ser mortal, sexuado, organizado em sociedade, obrigado a trabalhar para viver, e trabalhando de acordo com determinadas regras (ELIADE, 1994, p. 16).

 

 

 

 

Os mitos se relacionam de alguma forma com o homem em meio a sociedade. Seja através da religião, da cultura, nas manifestações artísticas. Porém não o único fator importante na construção do sujeito histórico e da sociedade. A linguagem também se manifesta como ponto crucial nesta construção. Falar é o maior espetáculo da natureza. O homem desde que existe tem usado de uma forma para se comunicar e se organizar no tempo e no espaço. Nascer, possuir uma existência, necessitar de uma identidade, nomear-se, nomear coisas, nomenclaturar o mundo. Tudo isso é tão certo quanto nossa identificação em nossos cromossomos.  Todos os homens  possuem nome, filiação, endereço ou que algo não possa ser identificado. Portanto, desde o surgimento da linguagem na humanidade, é inconcebível que alguém não esteja cercado de palavras desde a sua origem.

Somos criaturas capazes, ao menos a maioria de nós, de articular sons, formarmos palavras, frases, orações. O conjunto dessas palavras forma o idioma e, para nos comunicarmos, cada um de nós, através do próprio idioma, utiliza a linguagem. A linguagem é um sistema de signos que torna possível a comunicação entre os humanos. Ela organiza o pensamento, fixa o tempo, torna presente o ausente como que substituindo, pois a linguagem consegue inclusive representar o ausente. Através da linguagem o mundo se nos apresenta e sem ela não há como nos apresentarmos ao mundo. Somente através da linguagem é possível criar conceitos e, através deles, construir um conhecimento comum. Em suma, a linguagem constitui o sistema de mediação simbólica que funciona como instrumento de comunicação, planejamento e auto-regulação. É justamente pela sua função comunicativa que o indivíduo se apropria do mundo externo, pois é pela comunicação estabelecida na interação que ocorrem "negociações", reinterpretações das informações, dos conceitos e significados.

De acordo com Vygotsky, a linguagem materializa e constitui as significações construídas no processo social e histórico. Quando os indivíduos a interiorizam, passam a ter acesso a estas significações que, por sua vez, servirão de base para que possam significar suas experiências, e serão estas significações resultantes que constituirão suas consciências, mediando, desse modo, suas formas de sentir, pensar e agir.   

A linguagem nos possibilita o contato com o que é abstrato, nos proporcionando uma comunicação  mais complexa que a dos animais considerados irracionais.Por meio desta comunicação mais complexa é possível trocar informações e idéias ou mesmo analisá-las, acatá-las ou descartá-las. A linguagem é um sistema de comunicação específico e exclusivo da raça humana e, óbvio, está ligada ao pensamento e a possibilita a vida em sociedade.

A teoria histórico-cultural ou sociocultural do psiquismo humano de Vygotsky, também conhecida como abordagem sociointeracionista, toma como  ponto de partida as funções psicológicas dos indivíduos, as quais classificou de  elementares e superiores, para explicar o objeto de estudo da sua psicologia: a consciência.  A teoria do desenvolvimento vygotskyana parte da concepção de que todo organismo é ativo e estabelece contínua interação entre as condições sociais, que são mutáveis, e a base biológica do comportamento humano. Ele observou que o ponto de partida são as estruturas orgânicas elementares, determinadas pela maturação. A partir delas formam-se novas e cada vez mais complexas funções mentais, dependendo da natureza das experiências sociais da criança. Nesta perspectiva, o processo de desenvolvimento segue duas linhas  diferentes em sua origem: um processo elementar, de base biológica, e um processo superior de origem sociocultural no qual o homem se constrói, constrói a sociedade e a organiza, em direitos , obrigações e leis sociais.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

 

BLANCK, G. (1996). Vygotsky:o homem e sua causa.In: MOLL,L.C.Vygotsky e a educação: implicações pedagógicas a psicologia sócio-histórica. (pp. 31-35). Porto Alegre, RS: Artes Médicas.

 

BONIN, L.F.R. (1996). A teoria histórico cultural e condições biológicas. São Paulo (Brasil), Tese de Doutorado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

 

BENEVIDES, Maria V. de Mesquita – A Cidadania Ativa. SP. Ática, 1991

 

 

ELIADE, M. O Sagrado e o Profano. A essência das religiões, trad. Rogério Fernandes.São Paulo: Martins Fontes, 1992

 

HALL, Stuart, A identidade cultural na pós-modernidade, Rio de Janeiro: Dp&a

Editora, 2001.

 

SAID. Edward,  Cultura e imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras,

199

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    Fonte do Artigo no Artigonal.com: http://www.artigonal.com/educacao-artigos/o-sujeito-historico-e-a-construcao-social-5268267.html

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    sujeito

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