Paulo Freire: Da História Às Concepções Sobre Eja

Publicado em: 21/01/2010 |Comentário: 1 | Acessos: 13,379 |

       Falar em Paulo Freire junto a grupos de educação de adultos é sinônimo de estar engajado em um trabalho de jovens e adultos não escolarizados visando à transformação da realidade daqueles que socialmente se encontravam marginalizados de uma sociedade letrada e, na maioria dos casos, vivendoum processo de exclusão social.

       Paulo Freire, pernambucano, nasceu em Recife, em 19 de setembro de 1921. De familia humilde, teve uma infancia marcada por dificuldades economicas e desde cedo conheceu a pobreza de perto. Foi alfabetizado em casa, por seus pais, escrevendocom gravetos, no chão de terra debaixo das mangueiras do quintal. Como gostava muito de estudar, assim que concluiu a escola secundaria, tornou-se professor. Formou-se em Direito, mas não exerceu a profissão. Optou por se engajar na formação de Jovens e Adultos trabalhadores e por atuar em projetos  de alfabetização. A partir de sua pratica, com uma metodologia diferente, criou uma teoria epistemológica (estudo critico dos métodos empregados nas ciências) que o tornou conhecido internacionalmente.

       No entanto, "tudo começou", no hoje denominado Perído das Luzes da Educação de Adultos - EDA (1959-1964), marcado pelo Congresso de EDA (1958) que se caracterizou pela "intensa busca de maior eficiencia metodologica e por inovações importantes neste terreno, pela reintrodução da reflexão sobre o social no pensamento pedagogico brasileiro e pelos esforços realizados pelos mais diversos grupos em favor da educação da população adulta". (FREIRE, 2001. p.17)

       Participando intensamente desse momento turbulento, Paulo Freire nos traz varios debates sobre a pratica da alfabetização de adultos, numa proposta de pedagogia critico-libertadora que inclui elementos filosoficos fundamentais como a dialogicidade, a leitura da palavra não dissociada da leitura do mundo, a importancia do saber e da cultura do educando, o educando enquanto sujeito de sua historia e tantos outros que estas referencias acabaram por se transformar, no imaginario de muitos educadores, também em um metodo de alfabetizar o alduto.

       Apesar do golpe militar de 1964 e de seu exilio, Paulo Freire continua sua luta por uma educação libertadora nas suas andanças pelo mundo e, no Brasil, nas décadas de 1960 a 1980, os movimentos populares e inumeros militantes continuam seus trabalhos de alfabetização de aldultos na clandestinidade. Momentos extremamente duros, mas que foram muito alimentados pelo ideário e pelas experiencias do grande educador, que mesmo longe não deixava de contribuir para a resistencia de um trabalho politico-social-educativo em um mundo que precisava ser transformado e humanizado.

       A Constituição Federal de 1988 previa em seu artigo 208, inciso 1º, que o Ensino Fundamental fosse obrigatorio e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram acesso em idade própria e,  praticamente, da mesma forma. Em Educação de Jovens e Adultos, a figura do professor  Paulo Freire representava para muitos, e principalmente para aqueles que se constituiram em grupos de resistencia às praticas educativas calcadas no ideario do Mobral, a possibilidade da definição de uma politica que incorporasse a importancia da educação de Jovens e Adultos na transformação social da cidade e não somente uma educação visando o processo produtivo do país.

       Isso porque, "a pratica educativa", reconhecendo-se como "pratica politica", se recusa a deixar-se aprisionar na estreiteza burocratica de procedimentos escolarizantes; lidando com o processo de conhecer, a pratica educativa é tão interessada em possibilitar o ensino de conteúdos às pessoas quanto em sua conscientização.(FREIRE, 1983, p. 27)

       Ao ser anunciado para Secretário de Educação o nome do professor Paulo Reglus Neves Freire- conhecido  pela existência politica de varios dos movimentos existentes -  a expectativa de todos os educadores tornou-se enorme. Os movimentos imediatamente se reuniram e, antes mesmo de iniciar a gestão, lideranças dos movimentos populares discutiam um projeto em que estes tivessem participação mefetiva no processo de Alfabetização de Jovens e Adultos.

       A educação de jovens e adultos é um debate que se concentra na situação de miseria  social, das precarias condiçoes de vida da maioria da população e nos resultados do sistema público regular de ensino, não existindo uma discussão consistente sobre qual educação é necessaria a esse segmento excluido do sistema escolar. [...] Então, qualquer educação oferecida a les já é considerada um dado significativo, usando-se a logica que, aos pobres, qualquer "educação" basta, principalmente dirigindo-se a adultos que pouca possibilidade de aprendizado apresentam. (FREIRE,1996)

       Isto significava, na concepção politico-filosofica de Paulo Freire, uma educação que reconhecia a pluralidade de experiencias que o educando jovem e adulto traz de sua vida, articulando sua vivencia, detectando sua realidade e seus saberes, para a partir deles ampliálos, permitindo uma leitura critica do mundo e uma apropriação e criação de conhecimentos que melhor capacitem o educando à ação transformadora de sua realidade social.

       Para tanto, o processo de formação não foi concebido como mais um trabalho voltado para educadores, mas construido e organizado coletivamente, em busca de uma pratica que avançasse na qualidade desse atendimento e na construção de uma educação pública democratica. Sua palavra chave foi participação, uma lição que os movimentos sabiam ensinar e ensinaram.

       O Brasil deve a Paulo Freire a inclusão na categoria de lutadores sociais de milhões de brasileiros que compreenderam o que é ser sujeito de sua própria historia. Permitiu a um numero expressivo de pessoas que pertenciam aos " de baixo" enxergarem-se como agentes transformadores na busca por uma sociedade mais justa e igualitaria. Deu-lhes a  chance  de escolher seu proprio caminho, em vez  de ficarem sempre presos às alternativas impostas pelas elites para perpetuar sua dominação de classe e a brutal exclusão social que sofrem os trabalhadores no Brasil, e me toda periferia capitalista.

       Já era de se esperar que os interessados em manter seus privilegios e o desinteresse pelas questões politicas e sociais do homem e da sociedade brasileira viram logo no seu "método" um perigo iminente a predominacia dominante do estado atual, uma ameaça sem precedentes a seus valores e instrumentos  de dominação, uma verdadeira "revolta contra o poder constituido", pois se tratava não só de alfabetizar com rapidez e eficacia, mas, estimular o processo de conscientização. O medo das elites se agravava quantomais crescia a aceitação de sua metodologia. Freire se refere a este fenomeno afirmando que "se não tivesse sido interrompido pelo golpe de 64, naquele ano, deveria estar em funcionamente vinte mil circulos da cultura em todo país" (Freire, 1987).

       Paulo Freire como intelectual organico e, mais do que isso, como militante politico, ao colocar seus conhecimentos em pratica, valorizando o homem do povo, aprendendo com a vida, formandoeducadores engajados e respeitadores da experiencia e da sabedoria popular, tranformava valores, atacava o sistema de acesso a cargos e posições sociais, o autoritarismo e a hierarquização nas relaçoes. Revoltava-se contra o poder constituido, do fascinio capitalista, valorizando o homem e a natureza.

       Uma caracteristica do pensar e do agir, da maneira de se relacionar e aprender em Paulo Freire, diz respeito à forma como ele vê o outro. O aprender a ouvir, a valorização dos saberes que vêm da experiencia e da cultura popular, a abertura para o dialogo com os diferentes e com os adversarios para melhor apreenser os antagonismos, são caracteristicas essenciais do projeto educativo de Paulo Freire.

       Por fim, fica claro que o educador sabe que no meio do carater coletivo, convivem elementos de bom senso na experiencia popular, ou seja, a participação exercida como  senso comum de todos. Por outro lado, o dialogo, o aprendizado e o respeito ao saber popular, não podem levar o educador a uma visão copmplacente que não contribua para inflamar o debate e o despertar para descobertas fantasticas. Pois aprender com o  outro, no dialogo com seus semelhantes nos faz perceber que "ninguem educa a ninguem, ninguem tampouco se educa sozinho, os homens e as mulheres se educam entre si, mediatizados pelo mundo". Freire (1993)

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    Fonte do Artigo no Artigonal.com: http://www.artigonal.com/educacao-artigos/paulo-freire-da-historia-as-concepcoes-sobre-eja-1762784.html

    Palavras-chave do artigo:

    reflexao pratica educativa pratica politica democracia educacao de jovens e adultos

    Comentar sobre o artigo

    marlucia pontes gomes de jesus

    O artigo faz trata da legislação e dos documentos dos conselhos de educação que regulamentaram a obrigatoriedade da educação das relações étnicorraciais na educação básica, enfatizando a situação no Estado do Espírito Santo. O texto foi publicado no blog Damarlu Educação ( www.damarlueducar.blogspot) em 11 de maio de 2010.

    Por: marlucia pontes gomes de jesusl Educaçãol 13/03/2011 lAcessos: 1,687
    Daniel Motta

    A revista Nova Escola é uma publicação de periodicidade mensal, criada em 1986 pela Fundação Victor Cívita. A revista é voltada à comunidade de professores do ensino fundamental. Entre suas editorias, ela aborda diversos assuntos da área educacional, sob as mais variadas formas de textos jornalísticos: entrevistas com especialistas, artigos, relatos de experiências, idéias para sala de aula e seções destinadas a divulgação de trabalhos desenvolvidos em diferentes comunidades do país.

    Por: Daniel Mottal Educação> Ensino Superiorl 05/11/2010 lAcessos: 4,615 lComentário: 1

    O presente trabalho teve como objetivo analisar a natureza educativa do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) do município de Massapê no tocante as suas contribuições para o acesso à cidadania de seus participantes. O percurso metodológico deste trabalho utilizou a abordagem qualitativa do tipo estudo de caso. Os resultados obtidos apontaram a existência de proposta educativa planejada e executada de forma bem diversificada.

    Por: Carlos Justinol Educação> Ensino Superiorl 02/05/2011 lAcessos: 5,543 lComentário: 2
    Telma Lobo

    Há uma crescente mobilização no Brasil a favor da inclusão dos portadores de necessidades especiais na rede de ensino. Isto exige mudanças de atitudes não só de professores, mas de toda comunidade escolar assim como da sociedade em geral. Porém, para que isso aconteça é preciso reconhecer, questionar e romper com preconceitos ainda existentes na sociedade, estimulando o acolhimento e o respeito às crianças e jovens com necessidades especiais.

    Por: Telma Lobol Educaçãol 15/01/2011 lAcessos: 11,386 lComentário: 1
    Alinne do Rosário Brito

    Este artigo discute a necessidade do domínio de saberes indispensáveis à prática dos educadores e sua práxis na EJA centrando principalmente, nos estudos de Karl Marx. Objetiva-se, abordar as exigências necessárias ao ato de ensinar que se dão na mediação do educador entre os conteúdos e os discentes, que deverão apreendê-los para que, assim, possam dar significados concretos midiatizados pelo mundo, como sujeitos histórico-sociais.

    Por: Alinne do Rosário Britol Educaçãol 19/07/2012 lAcessos: 278

    Este arquivo aborda algumas considerações sobre a educação de jovens e adultos, como foco as perspectivas, os desafios e as possibilidades dessa modalidade de ensino e os sujeitos que estão envolvidos neste processo. A Educação de Jovens e Adultos (EJA) têm como objetivos principais as funções: reparadora (reconhecimento da igualdade ontológica de todo e qualquer ser humano), equalizadora (oportunidades iguais a todos) e qualificadora (educação permanente).

    Por: KAREN CRISTINA DE ALMEIDAl Educação> Educação Onlinel 05/11/2009 lAcessos: 12,539

    Este artigo analisa a influência dos Movimentos Sociais, na educação, levando-nos a uma reflexão nessa questão, onde a luta da classe excluída dos menos favorecidos contribuiu para a melhoria da educação pública no Brasil, na qual se apresenta como forma de aprendizagem aos participantes dos movimentos e associações.

    Por: FRANCIELEl Educaçãol 12/03/2011 lAcessos: 11,027
    Damião A. Leite

    A administração escolar tradicional vem passando por diversas mudanças ao longo dos anos, tendo como principal metamorfose no bojo das vivências educacionais a gestão democrática que tem como pano de fundo a promoção do indíviduo rumo a cidadania, a autonomia e a criticidade por meio do envolvimento de todos os interessados na melhoria do ensino em sentidos múltiplos, construindo os afazeres pedagógicos com educandos, educadores, pais e a comunidade em geral praticando o trabalho coletivo.

    Por: Damião A. Leitel Educaçãol 16/11/2009 lAcessos: 5,494 lComentário: 1

    Este texto tem por objetivo ajudar o professos uma forma mais recreativa para ensinar a Disciplina de Educação Fisica.

    Por: João do Rozario Limal Educaçãol 13/04/2008 lAcessos: 241,835 lComentário: 61
    Genilda Vieira Rodrigues

    Este artigo tem por objetivo apresentar estudos aprofundados sobre a educação inclusiva dando ênfase à questão envolvida no que se refere ao trabalho do professor com alunos portadores de deficiência. No decorrer da produção serão expostos conceitos de Educação Especial e Educação Inclusiva pontuando o saber fazer e o aprender diante das dificuldades encontradas em trabalhar com alunos portadores de necessidades especiais, ressaltando ainda mostrar alguns dos recursos e as estratégias utilizados

    Por: Genilda Vieira Rodriguesl Educaçãol 21/02/2015

    Propriedade vocabular é muito importante na hora de redigir o texto, uma vez que saber empregar as palavras mais adequadas no momento enriquece muito o conteúdo do texto e, além disso, torno-o mais clara e objetivo. Mesmo que o texto seja um mero exercício escolar, antes de construí-lo, pergunte-se: para quem escrevo? O tipo de receptor determina a forma de sua mensagem. Um panfleto dirigido a crianças precisa ter uma linguagem fácil, direta, sem rebuscamento.

    Por: Professor Leol Educaçãol 19/02/2015

    Quando se ouve falar em educação, pensamos em escola, em educação formal. E quando o assunto é família temos vários pensamentos. Educação e Família são dois temas bastante complexos, porque educação é muito mais que escolarização, letramento e formação, sendo que família é a instituição mais antiga da sociedade e sofre constantes transformações. Ambas tem a função de socializar e transformar o homem biológico em um ser social.

    Por: Alexandrina M. P. de Fariasl Educaçãol 16/02/2015

    Propostas Pedagógica e a Participação da Família no Resultado. A progressão escola é um instrumento que pode mudar a realidade desses estudantes que estão fora da faixa etária escolar. Determinadas escolas contemplam dentro do seu projeto político pedagógico, o sistema de progressão. Para que funcione a progressão em uma escola é necessário que haja engajamento por parte dos docentes, dos estudantes e da família. É importante ressaltar, que a família também tem um papel fundamental...

    Por: Elonir dutra terral Educaçãol 13/02/2015

    Diante dos agravos causados pela violência doméstica, tais entraves se estendem também ao processo educacional da criança e adolescente. Por outro lado, esta situação nem sempre é conhecida pelos seus educadores no campo acadêmico, causando assim uma lacuna no campo da avaliação pedagógica que, muitas vezes, abrangem somente o campo intelectual. Este trabalho tem por objetivo fazer uma análise sobre os impactos da violência doméstica no processo ensino-aprendizagem.

    Por: Jiane Martins Soaresl Educaçãol 12/02/2015
    ÁUREA MARIA SOARES LIMA

    A educação é um direito humano substancial, e como tal, precisa ser garantido universalmente. As conquistas das mulheres brasileiras em relação á educação, vêm crescendo consideravelmente e com isso, reduzindo significativamente o analfabetismo. O número de mulheres no mercado de trabalho cresceu gradativamente e isso ocorreu devido à determinação para conquistar seu espaço, milímetro a milímetro, dentro e fora de casa, e especialmente do empenho em subir novos degraus de instrução.

    Por: ÁUREA MARIA SOARES LIMAl Educaçãol 10/02/2015 lAcessos: 11
    ÁUREA MARIA SOARES LIMA

    O direito de trabalhar, obter formação intelectual e de atuar no cenário político do País, nem sempre foi concedido às mulheres. As mulheres que queriam reverter esta situação, buscando conquistar funções que tradicionalmente não lhes cabiam, devido à sociedade patriarcal, eram ridicularizadas e até difamada. A luta das mulheres brasileiras pelo reconhecimento de seus direitos políticos e civis é secular; a emancipação feminina nas ultimas décadas do séc. XIX era vista pelos mais diversos setore

    Por: ÁUREA MARIA SOARES LIMAl Educaçãol 10/02/2015 lAcessos: 16
    Carlos Henrique Araújo

    Não haverá uma educação de qualidade se não houver uma reforma do ensino no país. Um pacto entre a sociedade e os seus representantes políticos em prol de uma verdadeira reforma do ensino nacional deveria ser estabelecido. Na minha percepção, a reforma do ensino é a mãe de todas as reformas.

    Por: Carlos Henrique Araújol Educaçãol 03/02/2015 lAcessos: 12
    LÍVIA FERREIRA

    Análise sobre a importância do letramento para educação e alfabetização de jovens e adultos, como forma de compreender teoricamente as metodologias e recursos didáticos utilizados na educação de jovens e adultos-EJA,visando a atender o princípio da adequação destes à realidade cultural e subjetiva dos jovens e adultos. Discute-se a função social do letramento e as práticas educativas e pedagógicas na educação de jovens e adultos buscando compreender suas especificidades.

    Por: LÍVIA FERREIRAl Educação> Ensino Superiorl 21/01/2010 lAcessos: 6,610
    LÍVIA FERREIRA

    Educar não se limita a repassar informações ou mostrar apenas um caminho, aquele caminho que o professor considera o mais correto, mas é ajudar a pessoa a tomar consciencia de si mesma, dos outros e da sociedade. É aceitar-se como pessoa e saber aceita os outros. É oferecer várias ferramentas para que seus valores, sua visão de mundo e com as circunstâncias adversas que cada um irá encontrar. Educar é preparar para a vida. (Kami, 1991)

    Por: LÍVIA FERREIRAl Educação> Educação Infantill 14/09/2009 lAcessos: 47,141 lComentário: 10

    Comments on this article

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    Lucia mendes 25/07/2011
    o artigo acima faz uma relação muito conduntente sobre o ponto ed visto de Paulo Freire sobre a Educação de Jovens e Adulto!
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