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Períodos Filosóficos

Por: NERI DE PAULA CARNEIRO Ranking do Autor Ouro Autor nos TOP 100 | Publicado em: 15-04-2008 | Comentários: 1 | Acessos: 1,027 | Avaliação:  (436) Ranking do Artigo Bronza (?)

PERÍODOS FILOSÓFICOS

Antes, de mais nada façamos um breve esclarecimen-to histórico.
Durante muitos séculos aquilo que chamamos de Grécia não era um país como nós entendemos hoje, mas sim várias cidades-estado, independentes e autônomas entre si. Uniam-se ou se separavam de acordo com as circunstâncias e conveniências.
Essas cidades-estado possuíam culturas e caracterís-ticas diferentes com alguns elementos em comum. Várias delas possuíam poder central e, em alguns casos, algumas colônias. A parte circulada, no mapa, representa a Grécia (região continental e insular). Os demais pontos em destaque verdes eram as colônias ou as regiões com as quais os gre-gos mantinham relações comerciais.
Todas essas regiões receberam influência e influenci-aram o mundo grego. Esse contato interativo possibilitou aos gregos as comparações entre os elementos culturais que fizeram nascer a filosofia.
Mas isso se fez lentamente, obedecendo alguns perí-odos. Podemos até dizer que a forma de fazer filosofia evo-luiu ao longo dos séculos. Como vimos anteriormente, hou-ve um longo processo para que a capacidade reflexiva do homem chegasse ao ponto de ser chamada de Filosofia. E isso só aconteceu na Grécia, por volta do século VII. O pensar, antes desse período, ainda era envolto em mitos e religiosidade que dificultava a racionalidade específica da filosofia.
Ao nascer, a filosofia grega tinha um objetivo: expli-car racional e coerentemente o mundo. Com o transcorrer dos anos esse objetivo foi se aprimorando e novas temáticas foram sendo incorporadas à reflexão filosófica. Hoje pode-mos estudar a história da filosofia tanto pela sua evolução cronológica como pelas abordagens temáticas. E mais ainda: a história da filosofia não se faz da mesma forma que a história geral da humanidade. A história da Filosofia é a história de como e porque o pensamento filosófico assumiu determinadas característica, em cada época.

Período Pré-Socrático
Este período é assim chamado porque desenvolveu temáticas diferentes daquelas inaugurada pela “mosca de Atenas”. É também é chamado de período Cosmológico. Os pensadores deste período são de várias cidades ou das colô-nias gregas. Nenhum era de Atenas.
A preocupação dos pensadores deste período é en-contrar uma explicação racional e sistemática (uma cosmo-logia) para o mundo (o cosmo), que substituísse a antiga cosmogonia (explicação mítica).
E um dos primeiros pensadores de que se tem regis-tro é da cidade de Mileto. Daí seu nome: Tales de Mileto (623/546 aC). Foram seus concidadãos e contemporâneos: Anaximandro (610/547 aC) e Anaxímenes (588/524 aC). Para estes pensadores o mundo era constituído a partir de determinados elementos.
O que sabemos de Tales vem principalmente de A-ristóteles, que diz: “a maior parte dos filósofos antigos con-cebia somente princípios materiais como origem de todas as coisas. (...). Tales, o criador de semelhante filosofia, diz que a água é o princípio de todas as coisas” (Aristóteles, apud, Bornheim, [198?], p. 23 ) Tales, além de ser considerado Pai da Filosofia, deixou valiosas contribuições para o desenvol-vimento da matemática e da geometria.
Anaximandro, discípulos de Tales, afirmava que o princípio (Arché) de tudo era o ÁPEIRON (ilimitado). “To-das as coisas se dissipam onde tiveram sua gênese; pois pagam umas às outras castigo e espiação pela injustiça, conforme a determinação do tempo” (apud Bornheim, [198?], p. 24).
Anaxímenes, seu sucessor, discordava, dizendo que a origem de todas as coisas é o ar: "assim como nossa alma, que é ar, nos mantém unidos, da mesma maneira o vento envolve todo o mundo” (apud Bornheim, [198?], p. 28).
Outros pré-socráticos foram: Pitágoras (570/490 aC) que nasceu na ilha de Samos e afirmava que as coisas são constituídas de Números. A esse pensador se devem impor-tantes contribuições à matemática e geometria. É indiscutí-vel a atualidade de seu teorema, afirmando que a “soma do quadrado dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa”
Por sua vez Heráclito de Éfeso (504aC) dizia que tudo está em movimento e as realidades se manifestam pelos seus contrários. "O frio torna-se quente, o quente frio, o úmido seco e o seco úmido". “A doença torna a saúde agra-dável; o mal, o bem; a fome, a saciedade; a fadiga, o repou-so”. “Não se entra duas vezes no mesmo rio. Dispersa-se e reúne-se; avança e se retira”
Parmênides de Eléa (500 aC?) irá fazer uma afirma-ção exatamente oposta e dirá que o ser é eterno, dirá que o "ser é e o não ser não é". Mostra os “únicos caminhos de investigação cabíveis. O primeiro diz que o ser é e o não-ser não é; este é o caminho da convicção, pois conduz à verda-de.[...]. Pois não podes conhecer aquilo que não é – isto é impossível –, nem expressa-lo em palavras” Com isso inau-gura o princípio lógico da “não contradição” que foi desen-volvido mais tarde por Aristóteles.
Demócrito foi o criador da teoria Atomista, segundo a qual o mundo é composto de partículas indivisíveis, os átomos que se misturam ao acaso, dando origem a cada uma das realidades. Afirma a inacessibilidade à verdade ao dizer que “no entanto, ver-se-á bem que não se pode chegar a saber o que cada coisa realmente é”. Afirma também que “o homem é um microcosmo”.
Conhece-se, além desses, outros pensadores, também chamados de pré-socráticos. É o caso de Zenão de Eléia para discutir o problema do conhecimento e do movimento, propõe vários paradoxos como o da tartaruga, do arqueiro. Ele diz que "o que se move está sempre no mesmo agora". Já Empédocles falava de quatro elementos: ar, fogo, terra, água e que o princípio de todas as coisas é a luta dos contrá-rios (amor x ódio). Leucipo diz que “nada deriva do acaso, mas tudo de uma razão e sob a necessidade”. Cada um des-ses pensadores deu sua contribuição para o desenvolvimento humano. Hoje seu pensamento pode nos parecer ultrapassa-do ou coisa corriqueira. Entretanto, não importa como os vejamos, ultrapassado ou simplórios, o fato é que muito do que temos devemos a eles. Seu mérito é, em tempos remo-tíssimos, ter dado o pontapé inicial.

Período Socrático
Por volta do século V aC. começa o que podemos considerar como um novo período na história da filosofia, ao qual podemos chamar de período Socrático ou ANTRO-POLÓGICO. Esse também é chamado de período clássico da filosofia.
Podemos marcar o início desse período com a atua-ção dos Sofistas que estavam preocupados mais com a lin-guagem e a erudição do que com a explicação do mundo. Para os sofistas o importante era o bem falar e a arte de convencer o interlocutor.
As contendas políticas e os conflitos de opiniões fa-voreceram a ação desses professores ambulantes que consi-deravam não haver uma verdade única. Alguns comentado-res da história da filosofia viram com maus olhos a atuação dos sofistas, principalmente devido a escritos de Platão que os considerava não filósofos, mas manipuladores do raciocí-nio sem amor pela verdade. Essa visão, entretanto, começa a ser revista, pois se percebe que os sofistas não eram os a-proveitadores mencionados em alguns manuais, mas pessoas que se utilizaram, de forma pragmática, da filosofia.
O fato é que o centro das atenções tanto dos sofistas como de Sócrates, Platão e Aristóteles (e dos posteriores) volta-se para o homem e suas relações. Protágoras, um sofis-ta dirá que "o homem é a medida de todas as coisas; daque-las que são enquanto são; daquelas que não são, enquanto não são". E Górgias, outro sofista, preocupado com o dis-curso, fará a seguinte afirmação: "o bom orador é capaz de convencer qualquer pessoa sobre qualquer coisa".
A postura dos sofistas, demonstrando pouca preocu-pação com a verdade e muito mais com o argumento, levou Platão a colocar na boca de Sócrates a afirmação de que "Ele supõe saber alguma coisa e não sabe, enquanto eu, se não sei, tampouco suponho saber. Parece que sou um pouco mais sábio que ele exatamente por não supor que saiba o que não sei". Vê-se, portanto que a preocupação dos sofistas é a argumentação e a de Sócrates/Platão é a verdade daquilo que se sabe ou do que se pode saber.
O período antropológico que também é chamado o período Clássico da Filosofia recebe essa denominação por que nessa época floresceu não só a filosofia como também as artes e o começo da organização de todo o saber. Princi-palmente pela atuação de Aristóteles e seus discípulos do Liceu (nome de sua escola, em homenagem ao deus Apolo Lício) floresceu o processo de aquisição e sistematização de vários saberes. A filosofia chegou ao seu apogeu com esses três pensadores que foram uma das maiores marcas da histó-ria do saber.
Algumas curiosidades: Sócrates ensinava na praça de Atenas, dialogando com seus discípulos e interlocutores. Usava a maieutica e a ironia, como instrumentos metodoló-gicos. Em virtude de sua postura filosófica foi chamado de “inseto”, comparado com uma mosca: a mosca de Atenas. Um de seus principais discípulos foi Platão. Esse criou uma escola, a Academia, onde se reunia com seus discípulos e onde ditou os textos de seus diálogos em que Sócrates é o personagem principal. Um dos principais ensinamentos de Platão é a teoria do Mundo das idéias e a da Reminiscência da Alma. Na porta de sua academia estava escrito: “não entre aqui quem não for amante da matemática”. Aristóteles discípulo de Platão, também fundou uma escola, o Liceu, mas não lecionava dentro de uma sala e sim andando pelos corredores. Daí vem a denominação de escola peripatética (andar ao redor). Aristóteles foi o grande sistematizador da filosofia (dos conhecimentos da época), classificando em várias áreas. Fez, através de uma grande rede de discípulos, estudos de Botânica, Zoologia, Química, Psicologia etc. A esses estudos denominou Física. Aos estudos sobre o Ser, o conhecimento, entre outros, chamou de Metafícia (depois da física).
Ainda hoje a cultura e o saber ocidental são tributá-rios à mentalidade e à filosofia grega, do período clássico: quando falamos em corpo-alma estamos nos referindo a conceitos originários de Platão. Quando pretendemos maior clareza de nosso interlocutor, e para isso lhe fazemos uma série de questionamentos, estamos nos reportando a Sócra-tes. Quando falamos em lógica, organização e sistematiza-ção de conhecimentos, estamos aplicando uma metodologia aristotélica.
Outra conseqüência da ação desses três pilares da fi-losofia grega foi o fato de, após suas mortes, a filosofia ter entrado em um período de declínio. Não por ter perdido qualidade ou preocupação com o saber, mas pelo fato de, por um longo período, não terem aparecido grandes nomes, propondo novos sistemas.

Helenismo
Com isso chegamos ao período do HELENISMO. A partir do século III aC. inicia-se a decadência político-militar da Grécia. Trata-se de uma época em a sociedade e os valores entraram em decadência.Conseqüentemente, para ocupar o vácuo do poder grego ascenderam os macedônios que assimilam a cultura grega, através de Alexandre, discí-pulo de Aristóteles. O Helenismo se caracteriza pelo sincre-tismo de elementos culturais provindos dos povos do orien-te, conquistados por Alexandre e a cultura grega. A filosofia desse período é, ao mesmo tempo, continuação dos ensina-mentos de Platão e Aristóteles, mantidos pelos seus discípu-los e uma reelaboração desses ensinamentos filosóficos.
As preocupações da filosofia no período Helenista, entretanto, mudam de curso. Deixa de estar centrada no homem social, político e na compreensão da natureza. Ou seja, a preocupação deixa de ser em relação a “explicação dos mistérios do universo” (MONDIN, p. 1982, p. 107) para se voltar para problemas éticos. A filosofia começa a tratar não do coletivo, mas da vida interior do homem. Essa preocupação ética permaneceu durante todo o período Hele-nista, passou pelo Império Romano e continuou com a che-gada do Cristianismo, quando começou uma nova etapa da história da filosofia.
No período Helenista desenvolveram-se várias esco-las filosóficas. Podemos destacar:
O CINISMO: esta escola pode ser apresentada como aquela que caracteriza a decadência moral da sociedade grega e macedônica. Pode-se dizer que o personagem que melhor caracteriza essa escola é Diógenes que em pleno meio dia, com uma vela acesa andava pelas ruas dizendo: “procuro o homem”. Cinismo vem de Cão (xýon) o que se justifica, pois o pensador afirmava: “faço festa aos que me dão alguma coisa, lato contra os que não me dão nada e mordo os celerados” (Diógenes, Apud, REALE; ANTISERI, 1990, p. 233). Num banquete, ao lhe atirarem osso ele teria urinado em cima, como fazem os cães. “Diogenes tomava sol quando Alexandre, o homem mais poderoso da terra se aproximou e lhe disse: ‘pede-me o que quiseres’; ao que Diógenes respondeu: ‘afasta-te do meu sol’” (ibidem, 1990, p. 233). A partir disso já podemos ter uma idéia do que essa escola pregava: desprezo àquilo que a sociedade dominante considera valor e valorização da simplicidade do viver. Foi uma escola que atravessou os séculos e podemos dizer que a postura socrática esteve sempre muito próxima do ideário cínico. Aliás, se levarmos em conta a afirmação de Gaarder podemos dizer que foi com Sócrates que nasceu o cinismo: diz o autor: “Conta-se que, um dia, Sócrates parou diante de uma tenda do mercado em que estavam expostas diversas mercadorias. Depois de algum tempo, ele exclamou: ‘Vejam quantas coisas o ateniense precisa para viver!’. Naturalmen-te ele queria dizer com isto que ele próprio não precisava de nada daquilo.
Esta postura de Sócrates foi o ponto de partida para a filosofia cínica, fundada em Atenas por Antístenes – um discípulo de Sócrates -, por volta de 400 a.C.” (Gaarder, 1998, p. 147, grifo no original)
O ESTOICISMO: esta escola caracteriza-se pelo espírito de completa austeridade física e moral. Ou seja, o Homem deve suportar os sofrimentos, fugir dos prazeres fáceis e afastar-se das permissividades e licenciosidades. A sabedoria consiste em manter uma vida austera. A pratica da virtude “consiste na apatia (apátheia), isto é, na anulação das paixões” (MONDIN, 1982, p. 112) Essa corrente filosófica influenciou profundamente o cristianismo, marcando-o até nossos dias, como, por exemplo, a prática da penitência.
EPICURISMO: é a escola que pode ser colocada no extremo oposto ao estoicismo. Ela se caracteriza pela idéia de que o homem deve buscar o prazer, entendido como “ausência da dor e não como satisfação das paixões” (Mon-din, 1982, p. 114). Desfrutar do prazer é virtude, portanto é um bem, enquanto a dor é um mal. O supremo prazer é o saber que pode ser obtido quando se superam as paixões que são a causa da degradação social. Diz Epicuro “Quando dizemos que o prazer é o bem supremo não queremos refe-rir-nos aos prazeres do homem corrompido, que pensa só em comer, em beber e nas mulheres” (Epicuro, apud, Mondin, 1982, p. 115).
O CETICISMO: Nesse mesmo contexto histórico formou-se o ceticismo. O Ceticismo se caracteriza pela postura de constante busca do conhecimento. Para os céticos a sabedoria não “não é o conhecimento da verdade, mas sua procura” (Mondin, 1982, p. 116). Pirro, fundador dessa escola, teria dito que as coisas “são igualmente sem diferen-ça, sem estabilidade, indiscriminadas; logo nem nossas sensações nem nossas opiniõessão verdadeiras ou falsas” (REALE; ANTISERI, 1990, p. 268). Assim sendo, o homem deve se concentrar em desfrutar do que as aparências pro-porcionam, visto ser impossível chegar a um saber completo e universal; é impossível ao homem, saber se as coisas são, de fato, o que parecem ser. Como não há certeza, não existe avanço nos conhecimentos. O progresso, portanto fica im-possibilitado de acontecer.
O ECLÉTISMO: Esta escola desenvolve-se em o-posição aos céticos. Afirmavam os ecléticos que a verdade não se limita a um sistema filosófico e, portanto, deve ser complementada por elementos das diversas escolas. A base de sua reflexão é assim sintetizada pela padre B Mondin: “para eles, o desacordo dos filósofos deve-se ao fato de que, não podendo a fraca ente humana abarcar toda a verdade com um só olhar, um filósofo limita a sua investigação a um aspecto e outro filósofo a outro aspecto. Assim, estudando aspectos diferentes da realidade é natural que cheguem a conclusões diferentes. Por isso, para se chegar a uma com-preensão adequada das coisas, não se deve confiar em um só filósofo, mas é necessário reunir as conclusões das pesquisas dos melhores entre eles” (MONDIN, 1982, p. 118). A postu-ra eclética pode ser apresentada como um dos elementos centrais da cultura romana. Seu exército se fez poderoso por que foi capaz de, entre outras coisas, assimilar valores dos povos e exércitos vencidos.
Os ecléticos, como todos os outros pensadores do pe-ríodo helenista não foram criadores de sistemas, mas assimi-ladores, releitores e divulgadores do pensamento grego, com algumas variantes e acréscimos.

O Cristianismo
Além dessas correntes filosóficas e dentro desse mesmo período nasceu o cristianismo. E várias das correntes helenistas influenciaram no desenvolvimento dessa nova mística. Em base disso é que podemos dizer que o cristia-nismo, nasceu não de Jesus Cristo e do grupo inicial de discípulos, mas a partir do sincretismo de elementos helêni-cos, judeus, orientais e romanos. O cristianismo, portanto é uma religião que se fez por ecletismo. O grande criador-divulgador do cristianismo foi Paulo de Tarso que após sua conversão levou os ensinamentos de Jesus para além do mundo judeu. O cristianismo demorou a ser aceito por al-guns judeus, mas se desenvolveu rapidamente entre os cha-mados gentios. O que teria sido a proposta de Jesus Cristo, passa a ser reinterpretada de acordo com categorias greco-romanas. Isso, entretanto, só foi possível devido à crescente decadência do Império Romano e à releitura de Platão, feita principalmente por Plotino e os demais Neoplatônicos. Para percebermos a influência grega sobre o cristianismo primiti-vo podemos ler as cartas de Paulo, um primor de argumen-tação e retórica grega. Emblemática, sobre isso, também, o chamado um discurso de Paulo aos Atenienses, que o ouvem embevecidos, embora não se convertam por considerarem absurda a pregação sobre a Ressurreição.
Num primeiro momento o cristianismo se apresenta como Patrística (do séc I ao V, aproximadamente), e depois como Escolástica, até o fim da Idade Média. Um dos gran-des nomes da Patrística foi Santo Agostinho e da Escolástica foi Santo Tomás de Aquino.
Durante a patrística os ensinamentos sobre Jesus po-dem ser agrupados em dois blocos: os textos dos apologistas e os textos contra as heresias. As apologias surgiram por que os cristãos precisavam mostrar às autoridades romanas uma defesa de sua fé. Entre os cristãos também aparecem algu-mas distorções sobre como entender os ensinamentos de Jesus ou como falar sobre sua divindade. Contra essas dis-torções são formulados os textos para "corrigi-las", uma vez que são consideradas Heresias.
Nos dois casos o trabalho precisa ser desenvolvido através de uma boa argumentação, que tenha por base os ensinamentos de Jesus, a tradição Judaica e seja apresentado de forma clara, para que a argumentação seja convincente. Isso foi feito utilizando-se de elementos e argumentação lógico-formal da filosofia grega. Nesse meio é que se de-senvolveu o Neoplatonismo e se cristalizou, cada vez mais a visão platônica de que este mundo é onde reside o pecado e a maldade. Por isso devem ser evitados todos os vícios (es-toicismo) para se chegar à pureza do céu (mundo das idéias, de Platão). Graça a isso é que a partir do século III o cristia-nismo passou a exercer domínio não só sobre o pensamento, mas também sobre o mundo político dos romanos. A influ-encia do cristianismo se tornou cada vez maior e permane-ceu até o fim da Idade Média. Com o Renascimento, com o advento da Reforma Protestante e o desenvolvimento das bases do capitalismo, o cristianismo católico perdeu espaço quando desenvolveu-se os tempos modernos com um vasto leque de correntes filosóficas e políticas.
O segundo momento do cristianismo, a ESCOLÁS-TICA, já se confunde com a Idade Média quando os ensi-namentos e valores cristãos são claramente travestidos de elementos gregos provindos, principalmente, de Aristóteles.
O pensamento cristão, durante a Idade Média, aos poucos, foi deixando de se fundamentar em Platão para assumir as categorias aristotélicas. Isso se deve ao fato de a filosofia grega ter, em grande, parte se perdido no mundo ocidental. Permanecia só a vertente neoplatônica. Mas a partir do nascimento do Islamismo de sua Guerra Santa e de seu avanço religioso, militar, econômico e político, sobre a Europa, afogando os domínios dos monarcas católicos surge a necessidade de uma postura de defesa. O comércio passou a ser assimilado positivamente: os dois lados estavam ga-nhando. Com isso o perigo militar também estava contido e as instituições políticas. Mas permanecia o perigo religioso: o islamismo crescia sobre o cristianismo. E uma das caracte-rísticas que permitiam a fácil assimilação dos valores religi-osos islâmicos era a sua lógica e sua apresentação a partir dos conceitos de Aristóteles, que os europeus e o cristianis-mo desconheciam.
Para conter o avanço da religião islâmica os cristãos se viram obrigados a rever seus conceitos e fundamentos de base platônica. Passou-se a ler Aristóteles, suas categorias filosóficas e "científicas". Ao mesmo tempo elementos cris-tãos embebidos na filosofia Aristotélica começavam a ser ensinadas nas escolas das catedrais e nos mosteiros. Nascia a Escolástica.
Nesse momento da história da filosofia quando há a-liança do poder temporal com o espiritual, a filosofia esteve a serviço da teologia que estava serviço da igreja que pre-tendia sempre manter o domínio sobre reis, reinos e povos.
Pode-se dizer que o cristianismo desenvolveu-se, ini-cialmente, ao desvincular-se do judaísmo assumindo uma conotação greco-romana, ao se expandir dentro do Império Romano influenciando rumos dentro do Império. Depois, com uma estrutura romana e com roupagens gregas, durante a Idade Média, o cristianismo, já como instituição forte, assumiu o aristotelismo como instrumento de manutenção do poder. Ou seja, o cristianismo sobreviveu ao saber trocar de "roupa" em momentos determinantes da história, sabendo fazer a releitura da proposta de Jesus Cristo dentro de cada contexto. Um dos grandes nomes desse processo de adapta-ção do cristianismo aos conceitos aristotélicos fundamen-tando a escolástica foi Santo Tomás de Aquino.
O coroamento da Idade Média, com os avanços e tropeços desses mil anos de história, foi o processo do RE-NASCIMENTO e a inauguração dos TEMPOS MODER-NOS. Ou seja, a passagem da patrística para a escolástica e todo o processo de reinauguração do pensamento preparou um novo momento histórico que recebeu o nome de renas-cimento
Os valores e as referências do mundo medieval (es-colástica) era a religião. Por isso se chama essa época de Teocêntrica. A partir do Renascimento ocorreu uma revira-volta e os valores e referências passam a ser o Homem (an-tropocentrismo). Em todas as áreas, desde as artes, a filoso-fia (nascem as ciências), a teologia, a economia, a política e todo o desenvolvimento teve o homem como referência.
A arte sacra com motivos religiosos cede lugar à ar-te centrada no homem, no corpo que é evidenciado e mos-trado em sua beleza física. Exemplo disso é a pintura de L. da Vinci e a escultura de Michelangelo. A filosofia escolás-tica deixa espaço para o Racionalismo, o Humanismo e o Empirismo, privilegiando a razão, o homem e o conheci-mento advindo da experiência. Com Galileu a ciência ganha um método experimental e juntamente com outros pensado-res vão se estruturando as várias áreas da ciência. A teologi-a, antes dominada pelos dogmas católicos começa a ser contestada pelos reformadores, onde se destaca a ação de Lutero e todo o movimento reformador. Em oposição à Idade Média em que praticamente inexistem relações co-merciais os tempos modernos assistem às intensas viagens marítimas, caracterizando uma transformação geográfica, que são expressão do desenvolvimento do comércio (está nascendo o capitalismo). Na política medieval o poder esta-va nas mãos dos senhores feudais que pagam tributo aos monarcas. Essa prática permitiu aos monarcas acumulem riquezas que serviram para financiar as inovações tecnológi-cas e comerciais, que aceleraram a queda do poderio feudal e, paradoxalmente, são as raízes da Revolução Francesa quando a burguesia faz as mais diferentes alianças para derrubar definitivamente o poder dos senhores feudais e de toda a nobreza, inclusive tomando o poder dos monarcas.
Nos TEMPOS ATUAIS, a partir do Iluminismo, que sustentou a Revolução Francesa, a filosofia deixa de ser a única via de interpretação do Real. O desenvolvimento das ciências fez com que a filosofia deixasse de se ocupar com a explicação do mundo e dos fenômenos passando a dedicar-se a temas específicos. Atualmente, ao mesmo tempo que a filosofia é um complemento à ciência, apresenta-lhe questi-onamentos ou questiona-lhe os resultados. A ciência nasce da filosofia e desenvolve-se a partir dos questionamentos que ela levanta. Por isso podemos dizer que não há ciência sem filosofia.
Os resultados da ciência aparecem a partir dos ques-tionamentos que são originários da filosofia. Ou seja, a Filosofia levanta os problemas e a ciência se encarrega de fazer as investigações. Diante desses resultados a filosofia coloca novas indagações e problemas.
Isso não significa, entretanto, que não se tenham de-senvolvido correntes e sistemas de pensamento, depois do nascimento das ciências. Várias correntes merecem um estudo particular: o empirismo, o iluminismo, o idealismo, o pragmatismo, o positivismo, a fenomenologia, o marxismo, o existencialismo. Além de campos específicos onde se faz filosofia: filosofia da ciência, filosofia política, filosofia da linguagem, filosofia da educação, filosofia do direito, entre outras.
Essas são só algumas das adaptações que o pensar fi-losófico fez para adaptar-se e continuar interpretando o mundo.

REFERÊNCIAS
BORNHEIM, Gerd A. (org) Os filósofos pré-socráticos São Paulo: Cultrix. [198?]
GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia. São Paulo: Cia. das Letras, 1998
MONDIN. Batista. Curso de Filosofia (v 1). São Paulo: Paulinas, 1982
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia. (v 1) São Paulo: Paulinas, 1990

Neri de Paula Carneiro – Mestre em Educação
Filósofo, Teólogo, Historiador
Leia mais sobre Filosofia, história, Literatura e Educação: http://falaescrita.blogspot.com/
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NERI DE PAULA CARNEIROPerfil o autor:

Concluí mestrado em Educação (UFMS), especialização em Educação (UNESC-Cacoal-RO), especialização em Metodologia do Ensino Superior (UNIR-RO), especialização em Metodologia de Leitura Popular da Bíblia (CEBI-RS). Concluí os cursos de graduação em Filosofia, Teologia, História. Sou Professor de História e Filosofia pela rede pública estadual (R. Moura-RO); professor de Filosofia na Faculdade de Pimenta Bueno - FAP (Pimenta Bueno-RO), na Faculdade de Rolim de Moura - FAROL (R.Moura-RO), na UNESC (Cacoal-RO). Radialista e colaborador em jornais da região de Rolim de Moura – RO.
Publiquei alguns livros de circulação regional além de artigos em revistas científicas de Rondônia.

Meus textos são publicados regularmente no jornal Folha da Mata (Rolim de Moura-RO) nos blogs: http://falaescrita.blogspot.com e http://ideiasefatos.spaces.live.com e no site www.webartigos.com

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1. Raomai (23:13, 26.04.2008)
muito bom. simles e claro

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Neste artigo, apresentarei o resumo de algumas questões básicas sobre a aquisição da linguagem. Estas questões serão consideradas à luz das observações que têm sido feitas sobre as mudanças de comportamento do desenvolvimento lingüístico fisiológico e psicolingüístico da linguagem.

Empresa Júnior E Andragogia: Um Diferencial A Ser Aprendido
Por: Lucas Rafael dos Santos | 26/11/2008
O objetivo deste artigo é analisar a finalidade da Empresa Júnior e a sua importância para os universitários, ou seja, os jovens empreendedores. O contexto da Empresa Júnior é de incentivar os estudantes a buscarem o conhecimento unindo teoria e prática. A partir desse fato, com um estudo bibliográfico, o artigo abordará a importância e a eficiência da aprendizagem através do ouvir, ver e fazer.

Arquivologia
Por: Alexandre Portela Barbosa.Msc | 25/11/2008
arquivologia [De arquivo + -logia.] É um substantivo feminino. Transformando em estudo ou conhecimento dos arquivos; arquivística.

Mais artigos de NERI DE PAULA CARNEIRO

Etnocentrismo Na Escola
Por: NERI DE PAULA CARNEIRO | 06/11/2008 | Ciência
O espaço escolar é um dos espaços em que se reúnem seres humanos com as mais diferentes procedências. E aqui começa a se manifestar o problema: Nós, os humanos, nos consideramos únicos e, por isso mesmo, achamos que somos donos da verdade. Tudo que não é nosso ou que não procede de nós, é considerado como uma espécie de afronta, oposição, falsidade, ameaça... Essa situação está na base da caracterização do etnocentrismo.

Apocalipse Amazônico
Por: NERI DE PAULA CARNEIRO | 04/11/2008 | Ciência
Quem ouve ou lê a palavra apocalipse lembra de “fim do mundo”. Isso está ocorrendo na Amazônia, especificamente em Rondônia. As pessoas familiarizadas com a leitura da bíblia lembram do dilúvio e que Deus teria dito aos sobreviventes que jamais castigaria a humanidade com novo dilúvio. A partir disso a tradição popular criou a afirmação de que o “próximo fim do mundo será com fogo". Isso está ocorrendo na Amazônia, especificamente em Rondônia.

Sistema Falido
Por: NERI DE PAULA CARNEIRO | 21/10/2008 | Ciência
É com um misto de alegria e pesar que fazemos a constatação: o sistema político Brasil está falido.

Para Entender A Moralidade
Por: NERI DE PAULA CARNEIRO | 27/09/2008 | Ciência
Quando um ato pode ser considera imoral? Por que determinados atos são considerados moralmente corretos? Por que não se aplicam os critérios morais sobre alguns atos? Essas três indagações são o norte da reflexão sobre moralidade, imoralidade e amoralidade. Estão também, no âmbito da discussão sobre os elementos constitutivos do ato moral.

A Educação No Brasil: Avanços E Problemas
Por: NERI DE PAULA CARNEIRO | 27/09/2008 | Ciência
Se fizéssemos um passeio pela história da educação, no Brasil, veríamos que muito pouco mudou desde o início até os dias de hoje. O que ocorreu foi uma sucessão de avanços e tropeços. Nos primeiros anos do nosso país a educação era aquela promovida pelos Jesuítas. Alterou-se para pior com a expulsão da Companhia de Jesus, permanecendo inalterada até a chegada da Família real, em 1808, e somente se incrementou e estruturou a partir da década de 1960.

Em Campanha
Por: NERI DE PAULA CARNEIRO | 07/09/2008 | Ciência
Insisto, o que vou cotar não é piada. Faz parte de um amplo repertório de situações que exigem posicionamento dos eleitores. Ou, talvez, mais do que posicionamento, exigem discernimento. Ocorre que estamos em tempo de campanha política e existem candidatos para todos os gostos, para todos os eleitores e para todos os financiadores de campanha

Esse Vota
Por: NERI DE PAULA CARNEIRO | 03/09/2008 | Ciência
Costumo reafirmar algumas conclusões, provisórias, que podem ser definitivas. Uma delas diz respeito aos eleitores que elegem os que não merecem ser mencionados. Reairmo, nem que seja so em tempo de eleição: não são os “políticos” que são desonestos, mas os eleitores que os elegem: ou porque “vendem” seu voto, ou porque escolhem os piores, ou por serem malandros que, não tendo tido oportunidade de se projetar, projetam-se na imagem do político desonesto...

Meu Herói
Por: NERI DE PAULA CARNEIRO | 26/08/2008 | Ciência
Nestes tempos de eleição, ou de campanha à cata de votos, são muitas as reflexões que podem ser desenvolvidas tanto a respeito da postura que se deveria esperar do candidato como dos eleitores. Vamos aproveitar o embalo para mais algumas linhas de pensamento, nem contra nem a favor, mas, pelo contrário, na direção da busca de posturas que sejam benéficas à população e não somente a alguns figurões ou ao individuo isoladamente, alimentando seu egocentrismo individualista.

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