Reflexões Em Paulo Freire

23/03/2009 • Por • 3,880 Acessos

Em sua concepção bancária da Educação, Paulo Freire, revela o lado conteudista e reprodutivista do ensino. Sua visão crítica apresenta o atual modelo de docência como mero reprodutor de conceitos  e reverberador de uma ação docente embasada no objeto passivo, ou seja, tem o aluno como mero receptáculo de conteúdos, anulando-o como indivíduo pensante capaz de interagir com o professor na ação de produzir o conhecimento. 

Esta reflexão levanta questões muito profundas sobre a maneira como o ensino é transmitido, e, de como esse mesmo ensino é assimilado pelo educando. Considerando que o professor conforme nos descreve o escritor é a peça fundamental do processo em detrimento dos alunos, " objetos pacientes, ouvintes" ( Freire, 1987, p. 33); o ensino é apenas um depositar contínuo de informações que seguem sempre uma mesma direção traçada metodologicamente com a finalidade de conceder aprendizagem por meio da memorização e repetição daquilo que foi depositado na mente dos alunos. 

Segundo Paulo Freire, essa narrativa ininterrupta de conteúdos que é apresentada pelos educadores aos alunos, inviabiliza o processo de troca recíproca de saberes adquiridos e de crescimento do indivíduo como ser pensante, o que é danoso para o desenvolvimento de uma mentalidade dinâmica e afeita a mudanças paradigmáticas. Nesta visão, o sujeito que se deixa encher como mero recipiente de vontades alheias é o escravo-sujeito da ação desastrosa dos agentes do não pensar.  

O instrumento capaz de criar a mudança dentro desta concepção seria a ação de ser, de estar imiscuído no processo como ator e não como ouvinte. Os alunos devem ser reconhecidos como pessoas que fazem, que criam, que transformam-se através da dialética professor-aluno num intercambio de possibilidades infinitas. Caso contrário, afirma Freire (1987, p.33): "não há criatividade, não há transformação, não há saber". 

A Educação que aliena o indivíduo da realidade de produzir o saber, de se portar como um dos atores do processo é tudo menos Educação. Como o próprio Freire(1987, p33) define: "verbosidade alienada e alienante. Daí que seja mais som que significação". A apresentação de conteúdos de aprendizagem que visam apenas reproduzir as verdades que o professor concebe como absolutas e inalteráveis, sem espaço para a discussão ou para a discordância dos mesmos, em vez de possibilitar a dinamicidade da produção do conhecimento, engessa as mentes e torna o educando um fantoche obediente e passivo diante de seu mestre - 'poço profundo de conhecimento'!   

Uma das palavras que se encaixam perfeitamente nas palavras do renomado mestre em foco, seria o termo alteridade. Somente o reconhecimento das possibilidades do outro, da humanidade do outro, das capacidades do outro poderiam fazer a diferença no processo de educar. A Educação que desumaniza o sujeito cria mentes robotizadas, incapazes de reagir criticamente no mundo; e, portanto, objetos da manipulação e do controle dos que se julgam os donos do saber. 

A educação bancária de Freire aponta para a coisificação do ser humano através da manutenção da idéia de que alguns são mais sábios( professores) e os outros ignorantes(alunos). Os primeiros, por esta razão, precisam transmitir seu conhecimento porque se julgam superiores aos demais, perpetuando desta maneira o que Freire(1987, p.33) classificou de: "ideologia da opressão, absolutização da ignorância e alienação da ignorância". 

Tal educação, segundo o autor, é a arma dos opressores e a mola mestra que sustenta toda engrenagem de controle e domínio na sociedade. Enquanto existirem os ingênuos adestrados pelos experts ultramegasábios, que no afã de perpetuarem sua ação despótica, criam meros depositários de conteúdos sem nenhuma criticidade; existirá uma sociedade inebriada por um assistencialismo barato e insano, e também por uma ‘generosidade hipócrita' - carro chefe dos mantenedores do atraso e da incipiência das massas desqualificadas para o jogo dos tempos hodiernos.  

Notas Bibliográficas:

FREIRE, Paulo.Pedagogia do oprimido. 17.ed. Rio de Janeiro, Paz eTerra,1987. 

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Perfil do Autor

Geovani Figueiredo dos Santos