Uma Reflexão Sobre A Prática Docente

Publicado em: 16/03/2009 |Comentário: 0 | Acessos: 12,084 |

1 INTRODUÇÃO

  

  

A partir dos textos lidos e das discussões ocorridas em sala de aula, foi desenvolvido este estágio com o intuito de observar na prática como se processa o ensino de língua portuguesa e literatura nas escolas. Além disso, buscou-se confrontar teoria e prática, objetivando refletir a realidade do ensino.

O estágio de observação foi realizado nos dias 07, 10, 11, 13, 18 de dezembro e 04 de janeiro, durante o turno vespertino, na Escola E. L. V. F., localizada na zona urbana deste município. Foi destinado um total de 20 horas para o estágio, sendo 10 h. reservadas para o contato inicial com a escola e com a análise do Projeto Político Pedagógico; e 10 h. para a observação em sala de aula. Vale destacar que devido a imprevistos decorrentes do calendário escolar e dos horários das aulas de português, só foi possível completar 6 h. de observação.

 

 

2 A ESCOLA

  

  

A escola em questão é de médio porte, funciona nos três turnos (matutino, vespertino e noturno) com os níveis de ensino fundamental e médio; além disso, oferece o programa EJA e o Fluxo de Regularização escolar. A escola atende a uma clientela oriunda da classe baixa da população. Em relação ao espaço físico, nota-se que: apesar de possuir salas de tamanho médio, a ventilação é insuficiente; e as cadeiras além de desconfortáveis estão em péssimo estado de conservação, assim como as portas e paredes. Quanto aos recursos pedagógicos, a escola dispõe de vários equipamentos, como: televisores, videocassetes, copiadoras, computadores, retroprojetores, etc.; embora não se tenha confirmado se estes recursos são usados efetivamente.

 

 

3 A OBSERVAÇÃO NA SALA DE AULA

  

  

No dia 07 de dezembro de 2007 foi feito o primeiro contato com a escola. A direção mostrou-se bastante receptiva, no entanto, por já ter respondido o formulário para outras duplas, recusou-se em respondê-lo novamente, sugerindo que este fosse copiado da primeira dupla. No dia 10 de dezembro, data marcada para o início da observação, tivemos alguns imprevistos. Isso porque a sala destinada ao estágio estava sob a responsabilidade de uma estagiária, impossibilitando assim a realização da observação. Apesar do ocorrido, a diretora disponibilizou outra sala para a realização da atividade. A observação foi realizada numa sala de 6ª série, na aula de Língua Portuguesa com um total de 37 alunos (total que havia na caderneta).

 No primeiro dia, ficamos surpresas com a pequena quantidade de alunos presentes, havia apenas sete alunos e só no final da aula chegaram mais seis. No início, tanto alunos como professora , demonstraram um certo desconforto com a nossa presença, o que pode ser evidenciado na fala de uma aluna: "fica quieto, agente tá sendo vigiado". A aula correspondeu a um exercício de revisão sobre advérbios e os termos essenciais da oração, baseado no livro didático. Nesse sentido, a aula inteira restringiu-se à cópia da atividade, não restando tempo nem mesmo para a sua execução. Ao copiar a atividade, a professora explicava as questões, no entanto, os alunos não prestavam atenção e conversavam o tempo todo. Diante da dispersão, a professora ao pedir silêncio acabou emitindo a seguinte frase: "É por isso que vocês não memorizam quase nada.". Essa frase revela a concepção de ensino tida pela professora e o objetivo da atividade desenvolvida. A atitude dos alunos diante da tarefa nos leva a crer que a maneira como a atividade foi desenvolvida não despertou o interesse dos mesmos. Notou-se também que o mecanismo utilizado pela professora para inibir a indisciplina dos alunos era ameaçá-los em relação a possibilidade de não passarem de ano, "Eu quero ver se quem precisa de pontos se vai se debruçar[...] é assim que vocês querem passar para a sétima série?, dizia ela. Outro fator que chamou atenção foi a redação de uma aluna que a professora nos apresentou para que pudéssemos analisar, na qual a aluna afirmava: "... eu até hoje estou assim corrigindo meus irmãos[...] e querendo ser pediatra e professora de português, porque eu amo corrigir o que está errado[...]". Isso mostra a visão equivocada da aluna do que é ser professora de português, o que pode estar atrelada a postura de sua professora. Em relação a organização da sala considera-se inadequada a disposição das cadeiras , pois observou-se uma separação por grupos: os poucos interessados sentavam na frente; um grupo formado pelos mais inquietos ficavam de um lado da sala; e outros maiores, isolados atrás.

No segundo dia, havia apenas onze alunos na sala, sendo que outros estavam filando. Nesse dia, a professora tentou inovar utilizando o som. Ao propor a leitura e cântico da música de Roberto Carlos "Nossa Senhora", embora tenha proporcionado a participação de um número maior de alunos, tiveram alguns, que por sinal correspondiam aos mais participativos da aula anterior, que se recusaram a participar da atividade, por serem evangélicos. Diante do fato, a professora questionou a atitude desses alunos e tentou demonstrar uma postura de respeito às diferenças nas crenças religiosas, porém, os argumentos usados por ela contradiziam isso. Isso pode ser percebido no seguinte trecho: "Isso faz com que negue a existência de Nossa Senhora? [...] mas precisamos ter respeito pelo que eles fizeram [os santos]." Em relação à atividade desenvolvida, havia um questionário relacionado à musica, enfatizando o mesmo conteúdo da aula anterior ( advérbios e termos essenciais da oração). A professora explicava o questionário e já ia dando as respostas. Tal atitude nos faz levantar duas hipóteses: ou a professora já imaginava que os alunos não aprenderam o conteúdo o suficiente para identificar as respostas ou ela não costumava estimular os alunos para exercerem o senso crítico, formulando as suas próprias respostas; impondo assim, respostas prontas e acabadas. Vale destacar que através de uma conversa com uma aluna sobre o recurso utilizado (som), a mesma gostou da utilização do recurso, embora tenha dito que foi a primeira vez que este foi usado. Assim como no primeiro dia, observou-se que os alunos de outras salas, de forma desrespeitosa, entravam na sala gritando, arrastando as cadeiras, chutando a porta, como se a professora não estivesse presente. Vale ressaltar que este comportamento era estimulado por alguns alunos da própria sala. A sala nesse dia estava organizada em dois grupos: na frente estavam os mais participativos e os inquietos, o que pareceu proposital com relação aos últimos; e atrás estavam as meninas com idades mais avançadas, estas que pareciam não estarem à vontade nessa sala de aula.

No terceiro dia, havia uma quantidade maior de alunos, correspondendo a um total de dezessete. Esse dia foi reservado para corrigir a atividade de revisão proposta no primeiro dia de observação. Ao perceber que a maioria dos alunos não participava da correção por não terem feito a atividade, a professora decepcionada com a situação começou a desabafar:

A gente chega aqui e parece que estamos dando aula para as paredes [...]                                       o que é que eu quero mesmo dentro da escola? É avacalhar a escola? [...] tem momentos que eu fico até de madrugada produzindo correções [...] vamos fazer a concordância corretamente. Toda hora eu escuto: - Tu vai? Ainda de forma errada [...] eu fico triste, eu fico me perguntando, eu estou preparando aula para quem [...] vocês não estão vendo as duas futuras professoras [...] eu fico até com vergonha. Pense você ensinando uma receita de bolo todo dia e a pessoa não aprende. Eu estou me sentindo cansada, cansada de ensinar e ninguém aprender [...]

 

                           Esse longo discurso da professora retrata a realidade de muitos profissionais da educação. Estes que por não conseguirem realizar um trabalho significativo na sala de aula, acabam se sentindo impotentes, inseguros e até mesmo confusos quanto ao verdadeiro sentido de ensinar.  Por não conseguirem driblar as dificuldades encontradas no espaço escolar, acabam agindo de forma equivocada e improdutiva. Dessa forma, transferem toda a culpa, angústia e desesperança com o processo educativo para os seus alunos. Percebe-se também que a professora em questão possui uma prática tradicional, marcada por uma "aprendizagem" mecânica que acaba não levando em consideração o aluno, o que faz com este se sinta desestimulado e deslocado no espaço escolar. Tal fato é confirmado no momento em que ela compara o ensino com uma receita de bolo, como se este fosse apenas um ato de memorização, não sendo necessário a criatividade e o senso crítico do aluno. Vale destacar ainda que diante dos indícios, percebe-se que o ensino de Língua Portuguesa exclui a literatura, restringindo-se ao ensino da estrutura da língua, tendo como modelo a gramática. Além disso, nota-se que não é feito uma reflexão crítica em torno dos conteúdos gramaticais, sendo estes ensinados como se fossem utilizados na prática.

 

  

4 UMA ANÁLISE MAIS APROFUNDADA

  

  

Em geral, em todas as aulas notou-se que muitos alunos filavam e dos que ficavam na sala poucos prestavam atenção à explicação. As aulas resumiam-se na exposição oral, nas quais havia uma preocupação enorme com a "transmissão" do conteúdo. Ficou perceptível também, que tanto os alunos da sala que filavam quanto os das outras salas penetravam na aula de forma barulhenta. A grande surpresa é que os alunos e também a professora agiam de forma natural diante do fato. Assim, ficou evidente em todos os espaços da escola (sala de aula, direção, pátio): a indisciplina dos alunos, a falta de cuidados com o ambiente físico, a falta de respeito pelos professores, etc. Em alguns momentos parecia que os professores eram invisíveis para os alunos e vice-versa.   

A partir da análise do Projeto Político da Escola, evidenciou-se que este apresenta metas muito relevantes. Apesar disso, as evidências demonstram que os objetivos traçados não estão sendo colocados em prática e também que a escola não está conseguindo sanar as dificuldades diagnosticadas. É importante destacar, que nem todos participaram da elaboração do projeto como alguns professores, os funcionários, os pais e a comunidade. A análise permitiu verificar que de forma implícita a escola cobra a participação dos pais, responsabilizando-os pelo sucesso ou desastre educacional dos filhos, tirando de certa forma a responsabilidade da instituição. Isto pode ser evidenciado no seguinte trecho retirado do projeto da escola:

 "Dentre as dificuldades observadas, sobressaem-se à falta de envolvimento dos pais e responsáveis pelos alunos [...], a baixa auto-estima, a ausência de sonhos e a falta de perspectivas dos aprendizes, o espaço físico inadequado às atividades desenvolvidas na escola, as dificuldades de aprendizagem dos alunos e, muitas vezes, até a insatisfação do professor pela falta de reconhecimento e valorização de seu trabalho."

 

 

            Assim, vemos que a escola culpabiliza os pais, os próprios alunos ou até mesmo o espaço físico e a desvalorização do trabalho docente como responsáveis pelos problemas educacionais. Dessa forma, verifica-se que a escola não se considera como um sistema, no qual o erro pode ser reflexo do todo, e sim desconsidera a oportunidade de refletir sobre a sua própria organização, deixando de compreender o problema para poder solucioná-lo.

 

 

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

  

  

            Ao concebermos currículo como elemento revelador da atitude, ideologia e prática da escola e considerarmos a afirmação de Silva (2001) de que o currículo não é neutro, mas que se refere a uma relação de poder produzindo identidades sociais e particulares; nota-se que os dados levantados acabam revelando o currículo da escola observada. Nesse sentido, verifica-se que esse currículo baseia-se numa visão tradicional no que diz respeito ao ensino, ao papel do aluno e do professor. Sendo assim, concebe-se: o aluno como um ser neutro e um mero receptor de informações; o professor como o detentor do saber; e o ensino como "transmissão" de conhecimento. Neste, a prática educativa resumem-se a memorização e o verdadeiro sentido da escola - que é formar sujeitos capacitados, críticos e, consequentemente, participativos - é desprezado.

            Diante dos dados obtidos a partir deste estágio, surgem os seguintes questionamentos: até que ponto o que é proposto na teoria é praticado na sala de aula? A especialização está realmente contribuindo para que os profissionais em educação desempenhem melhor a sua função?

            Na observação verificou-se que a profissional em questão possuía experiência de 27 anos, era graduada e pós-graduada, no entanto, não conseguiu mudar o antigo padrão de ensino, perpetuando um ciclo caracterizado, principalmente, pelo desastre educacional. É importante destacar que durante uma conversa a mesma afirmou que "na faculdade é uma coisa, na prática é diferente". Tal afirmação vai de encontro com a idéia de Paulo Freire "o educador e a educadora críticos não podem pensar que [...] podem mudar o país. Mas podem demonstrar que  é possível mudar. E isto reforça nele ou nela a importância de sua tarefa político-pedagógica"( FREIRE, 1996, p.112). Percebe-se então a defesa de um profissional político, comprometido socialmente, que concebe sua prática como algo capaz de proporcionar uma aprendizagem significativa e que é responsável pela tarefa de transformar suas aulas em um local de indagações, discussões, consequentemente, de construção de conhecimento.

            Freire afirma: "Sou tão melhor professor, então, quanto mais eficazmente consiga provocar o educando no sentido de que prepare ou refine sua curiosidade, que deve trabalhar com minha ajuda, com vistas a que produza sua inteligência do objeto ou do conteúdo de que falo" (FREIRE, 1996, p.118). Nesse sentido, o professor deve dar suporte ao aluno, com o intuito de levá-lo a superar as dificuldades. Tal afirmação opõe-se a postura da escola que diante das dificuldades dos alunos, atribui a culpa aos mesmos e aos pais. Ainda segundo Freire (1996): "[...] a boniteza da prática docente se compõe do anseio vivo do docente e dos discentes e de seu sonho ético". (p. 25) Dessa forma, nota-se que no novo contexto educacional, o professor deve estar se capacitando para desenvolver uma prática efetiva, que permita aos alunos o desempenho das suas competências e habilidades.

            Assim, foi observado que, infelizmente, a escola adota uma concepção antiga de ensino que vem sendo perpetuada até hoje. Dessa forma, através desse estágio foi possível o contato com a prática com o intuito de analisá-la, refleti-la e questioná-la. Tal exercício faz recair sobre nós a responsabilidade de procurar se capacitar e atuar de forma diferente. Vale ressaltar que se tem consciência do quanto é difícil assumir uma postura política e responsável como professor, e, da dificuldade de adequar teoria e prática, principalmente, nas situações inusitadas. Porém, o mais importante é desenvolver a consciência de que "a educação é uma forma de intervenção no mundo" (FREIRE, 1996, p.98)

           

 

.      REFERÊNCIAS

 

 

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e terra, 1996.

 

 

SILVA, Tadeu de. O currículo como fetiche: a poética e a política do texto curricular. 2 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.

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    Fonte do Artigo no Artigonal.com: http://www.artigonal.com/educacao-artigos/uma-reflexao-sobre-a-pratica-docente-818829.html

    Palavras-chave do artigo:

    ensino

    ,

    docencia

    ,

    lingua portuguesa

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