Uma Visão Histórica Da Psicomotricidade: Da Reeducação A Clínica Psicomotora

Publicado em: 06/22/2009 | Comentário: 0 | Acessos: 2,996

Abordar a origem e a evolução da psicomotricidade é, antes de tudo, estudar a significação do corpo ao longo da civilização humana. Para Levin (2007), a história da psicomotricidade é solidária a história do corpo, ou seja, a psicomotricidade tem seu início desde que o homem é humano. Desde a antiguidade até os dias atuais o significado do corpo sofreu inúmeras transformações. Segundo Fonseca (1995), desde Aristóteles o corpo foi negligenciado em função do espírito. Apenas no século XIX o corpo foi estudado por neurologistas e, posteriormente, por psiquiatras com o intuito de compreender as estruturas cerebrais e esclarecer fatores patológicos.

Assim, o termo Psicomotricidade surgiu no início do século XIX, a partir do discurso médico neurológico. Com o desenvolvimento e as descobertas da neurofisiologia, começou a constatar-se que existiam diferentes disfunções graves sem que o cérebro fosse lesionado ou sem que a lesão fosse claramente localizada. Portanto, as primeiras pesquisas que deram origem ao campo psicomotor correspondem a um enfoque neurológico. Dessa forma, o esquema clínico que determinava para cada sintoma sua correspondente lesão focal, já não podia explicar alguns fenômenos patológicos. Assim, através da necessidade médica de encontrar tais correspondentes, que pela primeira vez se nomeou a palavra psicomotricidade, no ano de 1870.

Enerst Dupré, em 1909, deu partida à psicomotricidade.  Através de seus estudos clínicos na observação de pacientes definiu a síndrome da debilidade motora caracterizada pela presença de sincinesias, paratonias e inabilidades, rompendo a correlação entre a perturbação motora e a síndrome. Dessa forma, este neuropsiquiatra francês evidenciou o paralelismo psicomotor, ou seja, uma estreita relação entre o desenvolvimento da motricidade, da inteligência e da afetividade. Tal paralelismo psicomotor definiu-se como uma tentativa de superação ao dualismo cartesiano – corpo e mente (SOUZA, p. 18, 2004). 

Em 1925, Henri Wallon trouxe suas contribuições para a psicomotricidade, através da sua análise sobre os estágios e os transtornos do desenvolvimento mental e motor da criança. Segundo Wallon (1995), o movimento é a única forma de expressão e o primeiro instrumento do psiquismo (FONSECA, p. 10, 1995). Dessa maneira, Wallon criou o termo diálogo tônico que consiste na relação entre o tono postural e o tono emocional, tendo a emoção como elo entre o orgânico e o social. Seu estudo foi baseado no desenvolvimento neurológico do recém nascido e na evolução psicomotora da criança. Para Wallon, há uma relação entre motricidade e caráter, onde o movimento está relacionado ao afeto, a emoção, ao meio ambiente e aos hábitos da criança. De acordo com Fonseca (1995), Wallon foi o principal responsável pelo nascimento do movimento da reeducação psicomotora.

Dando continuidade as perspectivas de Wallon, o neurologista Eduard Guilmain, desenvolveu, em 1935, um exame psicomotor para fins de diagnóstico, de indicação da terapêutica psicomotora e de prognóstico.

No final da década de 40, a psicomotricidade começou a se diferenciar de outras ciências, adquirindo sua própria especificidade e autonomia (LEVIN, p. 26, 2004). Essa mudança aconteceu devido o surgimento de técnicas ligadas aos distúrbios psicomotores propostas por Julian de Ajuriaguerra. Este psiquiatra foi o único que conseguiu romper com a hegemonia neurológica e com o conceito do parelismo psicomotor mudando, dessa forma, a história da psicomotricidade. Ajuriaguerra estava centrado no corpo em sua relação com o meio.

É importante destacar também, as contribuições de Piaget por considerá-las pilares fundamentais na construção teórica no campo da motricidade. Para este autor, a motricidade está relacionada com a inteligência, antes da aquisição da linguagem (OLIVEIRA, p. 31, 2007). Para Piaget, a inteligência é uma adaptação ao meio ambiente e para que ela aconteça é necessário que o indivíduo explore o meio no qual está inserido. Assim, através de experimentações motoras ele percebeu as inter – relações entre a motricidade e a percepção.

Mais tarde, próximo a década de 70, autores como Le Bouch, Lapierre, Acouturrier, Defrontaine, entre outros defendiam a idéia de que a educação psicomotora era vista como uma forma de ajudar a criança com dificuldade de adaptação a participar do âmbito escolar, desenvolvendo suas potencialidades. A psicomotricidade, neste momento, era vista como motricidade de relação, passando a existir uma diferença entre postura reeducativa e terapêutica, dando-se, progressivamente, maior importância à relação, à afetividade e ao emocional (VALENTIM, p.29, 2004). Com isso, André Lapierre adicionou o termo relacional a palavra psicomotricidade com o intuito de diferenciar suas concepções e práticas de outras práticas psicomotoras.

Com isso, a partir de 1974, surge dentro da psicomotricidade conceitos psicanalíticos e autores como Sigmund Freud, Melanie Klein, Donald Winnicott, passam a ser citados pelos psicomotricistas. De acordo com Levin (2004), é através da contribuição da Psicanálise que são introduzidos na prática psicomotora conceitos como inconsciente, transferência, imagem corporal, entre outros.

Assim, Levin (p.29, 2007) afirma: a passagem da terapia à clínica psicomotora implica ocupar-se do sujeito e não mais da pessoa; ocupar-se da transferência e não mais da empatia; ocupar-se da vertente simbólica e não da expressiva (...) a clínica psicomotora é aquela no qual o eixo é a transferência e, nela, o corpo real, imaginário e simbólico é dado a ver o olhar do psicomotricista.

Dessa forma, pode-se perceber que com a introdução da Psicanálise, a clínica psicomotora enxerga o sujeito com seu corpo, sua motricidade e inserido num contexto social.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Psicomotricidade (1999), esta é a ciência que estuda o homem através de seu corpo em movimento, em relação com o mundo interno e externo, bem como suas possibilidades de perceber, atuar, agir com o outro, com os objetos e consigo mesmo. Está relacionada ao processo de maturação, onde o corpo é origem das aquisições cognitivas, afetivas e orgânicas. Desde o seu surgimento até os dias atuais a história e a evolução da psicomotricidade estão relacionadas a três diferentes cortes que norteiam sua prática fazendo com que esta se torne cada vez mais peculiar e específica. O primeiro está relacionado às práticas reeducativas, seguida da terapia psicomotora e, por fim, o terceiro corte conhecido como a clínica psicomotora.

O primeiro corte epistemológico foi influenciado pela neuropsiquiatria, onde o foco era o aspecto motor tendo o corpo como instrumento. Há a tentativa de superação do dualismo cartesiano (mente e corpo). De acordo com Levin (p.30, 2007), o corpo era a ferramenta de trabalho para o reeducador que se propõe a concertá-lo. Assim, a reeducação psicomotora enxerga o homem como dono de um corpo e este corpo é visto como uma máquina de músculos que não funcionam e que, por isso, devem ser reparados.

Com a contribuição da psicologia, em especial a psicologia genética, o foco da psicomotricidade se modifica do ato simplesmente motor para o corpo em movimento e, com isso, acontece o segundo corte epistemológico voltado a educação psicomotora.

Já não se trata de uma reeducação, mas de uma terapia psicomotora que se ocupa, observa e opera num corpo em movimento que se desloca, que constrói a realidade, que conhece à medida que começa a movimentar-se, que sente que se emociona e cuja emoção manifesta-se tonicamente (LEVIN, p. 31, 2007).

Assim, a terapia psicomotora visa a emoção, a expressão e a afetividade, tendo o corpo, a motricidade e a emoção integrados em si mesmos. O homem é visto em sua totalidade, ou seja, não é fragmentado, mas sim um ser bio-psico-social.

Quando a psicanálise influencia a Psicomotricidade ocorre o terceiro corte epistemológico. O enfoque agora não é mais num corpo em movimento, mas num sujeito com seu corpo em movimento. A clínica psicomotora está norteada na transferência e no corpo real, imaginário e simbólico. O sujeito diz com seu corpo, com sua motricidade, com seus gestos, e, portanto, espera ser olhado e escutado na transferência desde um lugar simbólico (LEVIN, p. 42, 1995). Dessa forma, a clínica está centrada no corpo de um sujeito desejante e não mais num ser em sua globalidade.

Segundo Levin (2007), a atividade e o brincar surgem na clínica psicomotora para que a criança se manifeste de forma espontânea, externalizando livremente seu desejo e suas possibilidades de fazer. É na transferência, fundamento da análise do espontâneo, onde se coloca em jogo o desejo da criança, onde o brincar do corpo, o seu posicionamento corporal é dado ao ver ao olhar da psicomotricista.

Levin utiliza o conceito de Freud, sobre transferência: Reedições ou repetições dos impulsos e fantasias que hão de ser despertados e transformados em conscientes no desenvolvimento de uma análise e que entranham como particularidade e característica da sua espécie a substituição de uma pessoa anterior pela pessoa do médico, ou para dizê-lo de outro modo: toda uma série de processos psíquicos ganham vida novamente, porém, não mais como sendo pertencentes ao passado, e sim como relação atual na pessoa do médico (LEVIN, APUT, FREUD, p. 122, 2007).

O terapeuta na clínica psicomotora é percebido pelo paciente como sujeito suposto ao saber, que possui o saber, é o terapeuta que vai curar. Tal fundamento advém da relação transferencial introduzido por Jacques Lacan, aos conceitos da psicanálise.

Porém, tal transferência (paciente e/ou família para o terapeuta), ocorre a nível imaginário de forma positiva, devido as recomendações feita por terceiro, tecendo um prestígio ao terapeuta. Essa transferência inicial tem um caráter exploratório, e com tempo constitui-se a transferência simbólica, onde supõe-se que há um Outro no qual pode-se confiar.

Na clínica psicomotora, a transferência instala-se quando há um Outro nesse lugar simbólico (que o terapeuta encarna), ao qual o paciente confia sua capacidade de produzir, dizer, brincar e criar (LEVIN, P. 126, 2007).

Levin, afirma que dentro da generalidade, recorta-se a especificidade da clínica psicomotora devido ao seu enfoque particular que, articulado na transferência, se ocupa do corpo, dos gestos, do movimento, das posturas, do tônus, do espaço, do tempo, como parte do dizer corporal do sujeito.

Os cortes epistemológicos, de acordo com Levin (2007), são passagens lógicas e não cronológicas, trazendo diferentes respostas teóricas, clínicas e éticas, ou seja, respondem a uma lógica sustentada em diversas concepções acerca do sujeito e da prática psicomotora.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

FONSECA, Vitor da. Manual de observação psicomotora – significação psiconeurológica dos fatores psicomotores. Porto Alegre: Artmed, 1995.

LEVIN, Esteban. A clínica psicomotora: o corpo na linguagem. 7ª edição, Petrópolis: Vozes, 2007.

OLIVEIRA, Gislene de Campo. Psicomotricidade – Educação e reeducação num enfoque psicopedagógico. 12ª edição, Rio de Janeiro: Vozes, 2007.

SOUSA, Dayse campos de. “O corpo e o movimento psicomotor”, Revista Iberoamericana de Psicomotricidad y Técnicas Corporales, páginas 17 a 24, maio 2004.

VALENTIM, Mônica Oliveira da Silva Vicente. Linguagem do corpo: o inconsciente na clinica. Viver, São Paulo: Segmento, v. 12, n. 132, p. 28-30, jan. 2004.

WALLON, H. A Evolução Psicológica da Criança. Lisboa: Edições 70, 1978.

(Artigonal SC #986872)

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    Palavras-chave do artigo:

    psicomotricidade; neurologia; psicanálise; cortes epistemológicos; transferência; corpo; movimento.

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