A Importância Dos Contos De Fadas Para O Desenvolvimento Psíquico Das Crianças

Publicado em: 16/10/2009 |Comentário: 0 | Acessos: 4,836 |

A Importância dos Contos de Fadas para o Desenvolvimento Psíquico das Crianças Vilma Viana de Lima* Introdução Este trabalho tem o objetivo de mostrar as relações entre os contos de fadas e sua influência na constituição psíquica, formação da identidade, desenvolvimento emocional e crescimento da personalidade. Para tal utilizei a contação oral da estória da Chapeuzinho Vermelho. O sujeito da experiência foi uma criança de quatro anos. 1 Concepções Teóricas BETTELHEIM, no Livro A psicanálise dos Contos de Fadas relata e explica através dos contos o impacto psicológico de situações em acontecimentos onde envolvam a criança e de dar respostas comportamentais e mostrando a visão infantil a cerca de determinados assuntos. Com essas relações ela tenta passar para a criança ensinamentos para as resoluções de problemas, seu desenvolvimento com inclusão a realidade que as rodeia, pois, ele transmite que além de entreter a criança, os contos possuem princípios de importante relevância para a mesma. Aborda que através de um conto que aparentemente está cercado de imaginação, ou uma história não real, onde predominam o maravilhoso pode estar de modo disfarçado os sentimentos que cercam o interior da criança, como o sentimento de raiva ao ser abandonado pelos pais ou na possibilidade de vencê-los em esperteza, passando para a criança mensagens importantes para sua vida, como nunca desistir perante os obstáculos por mais que no início pareçam difíceis.

Com relação aos personagens nos contos de fadas e também nas fábulas são perceptíveis características peculiares às crianças como a imaturidade e a maturidade destes mostrando a capacidades de controle das emoções ou ser racional. É interessante destacar a visão de anulação dos contos de fadas pelos pais que fecham a visa do que está intrínseco nos contos, escondendo ou não acreditando neles tirando muitas vezes da criança o desejo de sonhar. Todas as histórias possuem suas características na fantasia como a visão do herói que sempre se dá bem no final e o castigo que ocorre com os maus. *Acadêmica de graduação em Pedagogia, da UFC. No conto da Chapeuzinho Vermelho é abordado a inocência da pequena menina. Ao visitar a sua avó, vai pelo bosque e o lobo com sua personalidade frustrada e mal estruturada que acaba engolindo a menina e a vovó, que para a alegria das crianças são retiradas da barriga do lobo, ensinando a criança a obedecer a seus pais e a serem cuidadosos não seguindo por caminhos que podem ser perigosos. Os contos de fadas nesta perspectiva passam ensinamentos de extrema importância para as crianças mostrando conflitos ocultos e também problemas relacionados aos pais. Todavia, dá para notar a importância dos contos de fadas para a demonstração dos sentimentos infantis para encontrarem e formarem suas identidades seu desenvolvimento ao que se referem à maturidade, suas preocupações internas, enfim, sua percepção do mundo e o crescimento de sua personalidade. Para que uma estória realmente prenda a atenção da criança, deve entretê-la e despertar sua curio- sidade. Mas para enriquecer sua vida, deve esti- mular-lhe a imaginação: ajudá-la a desenvolver seu intelecto e a tornar claras suas emoções; es- tar harmonizada com suas ansiedades e aspira- coes; reconhecer plenamente suas dificuldades e, ao mesmo tempo, sugerir soluções para os problemas que a perturbam (BETTHEIM, 1980, p.13) Sendo possível reconhecer nos contos de fadas um tipo de literatura capaz de levar a criança a uma dimensão que vai além do entretenimento, uma vez que eles permitem a construção de um imaginário singular, fundamental para a constituição da subjetividade, visto que eles levam a criança a se encontrar com seu ser psicológico e emocional e, por meio da imaginação, a trabalhar questões relacionadas ao inconsciente, que vem à tona, a partir das situações representadas e da simbologia dos personagens que os constituem. A transferência é a representação de algo que não pode ser recordado como pertencente à história do sujeito, como referido a um desejo ligado a uma figura do passado. A referida se desloca por um eixo de temporalidade. Algo que, agora, neste instante, está referido ao passado.

O indivíduo como que perde a memória de seu desejo e o atualiza na relação com o analista, com educador, com a mãe, com o pai, com parentes e com pessoas próximas. A investigação com a transferência remete a esse desejo do passado. Para Freud o fenômeno transferencial está assentado sobre o conceito de deslocamento, o que significa que determinados afetos, desejos, conectados originalmente com uma dada pessoa, se deslocam para o analista, ou seja, são transferidos para analista. Os fenômenos de transferência ocorrem normalmente também nas interações das pessoas com outros significados. Por exemplo, as pessoas experimentam seus parceiros, seus filhos, seus educadores, seus chefes, não inteiramente como eles são. Elas transferem memórias que elas experienciaram para as pessoas no presente; desse modo, assim reagindo a elas como se estivessem potencialmente ignorando, rejeitando, criticando ou humilhando. O presente é confundido com o passado. Segundo o teórico, a transferência seria a repetição de protóticos infantis, onde haveria um deslocamento de afeto de uma representação para outra. Neste sentido, a relação do sujeito com as figuras parentais seria revivida na relação com o analista, com professores, com parentes, marcadas pelas ambivalências pulsionais, ódio e amor. A partir daí, o autor distingue duas modalidades de transferência: a positiva, que seria a transferência de sentimentos ternos e a negativa, marcada por sentimentos hostis. Podemos dizer então, que a transferência é uma substituição do que não pode ser dito, onde o lugar de recordar se coloca a repetição. A transferência encontra-se pelo o que foi abordado, também presentes na relação professor- aluno, e que nos permitem refletir sobre o que possibilita ao aluno acreditar no professor e chegar a aprender, sendo, um poderoso instrumento de aprendizagem. Constitui-se, assim, numa contribuição essencial da Psicanálise à educação. Segundo Freud um dos tipos de identificação pode surgir com qualquer nova percepção de uma qualidade comum compartilhada com alguma pessoa a que não seja objeto do instinto sexual. O conto de fadas, por ser um texto que traz elementos introspectivos, possibilitando á criança a confessar seus sentimentos, é bastante rico para fazer análises relativas às teorias psicanalíticas, de modo especial sobre a transferência e identificação. Através dos contos as crianças vão trabalhar dentro das suas cabeçinhas e dos seus coraçãozinhos certos conflitos, buscar soluções, procurar respostas para aquilo que não está bem.

O interessante é que a criança pode se identificar com o personagem, transferir todos os seus conflitos para aqueles vividos na história, e por esse motivo pede para repeti-la. Quando o problema estiver resolvido, ela simplesmente não pedirá mais esse conto. E nós, como educadores, possuímos a difícil tarefa de ajudá-las a encontrar significativos na vida. Os assuntos tratados nos contos são reais, tais como os medos que a criança pequena enfrenta: medo do escuro, do cachorro, da mãe deixá-la na escola e não buscá-la mais, etc. medos que fazem parte da nossa vida e, de uma maneira ou de outra, aprendemos a enfrentá-los. De acordo com os relatos de GUTFREIND, O medo é fundamental para a vida toda, sendo um fator de proteção (mecanismo de defesa) e fobia (patologia). Aprender a lidar com o medo é um dos desafios para a criança. Consequentemente toda a literatura infantil gira em torno do medo. Se o contexto dos contos forem modificados ameaçarão a resolução dos problemas. Neste sentido nós como educadores não podemos mudar o repertório para que as crianças possam manejar seus sentimentos mais difíceis. 2 Relatório da Experiência Contei a estória da Chapeuzinho Vermelho para minha sobrinha, Sarah Priscila, de 4 anos, fascinada por contos de fadas. Primeiro conversei com ela, a explicando que iria lhe contar uma história, mas teria de escolher um dos contos: Chapeuzinho Vermelho, Os Três Porquinhos e O Patinho Feio. Ela optou pela Chapeuzinho. Ao terminar de contar a estória pedi para que recontasse. Transcrita a seguir, tal qual a criança narrou. Chapeuzinho Vermelho Era uma vez uma linda menininha de cabelos loros e cacheados, que usava um chapéu vermelho, chamada Chapeuzinho Vermelho. A mamãe dela pediu para ela levar doces para vovó que estava doente. A mãe da Chapeuzinho entregou uma cesta cheia de doces para ela e disse: - Minha filha, não fale com pessoas estranhas. Aí a Chapeuzinho respondeu: - Te certo mamãe. Ela foi pela floresta e viu o lobo. O lobo mal perguntou para Chapeuzinho: - Para onde você vai menina. - Para casa da minha vovozinha que está doente. O lobo deu flores para Chapeuzinho levar para sua vovó Aí o lobo foi na frente e engoliu a vovó da Chapeuzinho. Ele se vestiu de vovó e deitou na cama. Depois a Chapeuzinho bateu na porta. - TOC, TOC, TOC... A vovó- que era o lobo vestido de vovó- perguntou: - Quem é? - Sou eu vovozinha, a Chapeuzinho Vermelho. Trouxe uma cesta de doces. - Entra minha netinha e deixa a cesta na mesa. Ela entrou no quarto da vovó e viu que a vovozinha dela tava diferente. Chegou perto da cama e perguntou: - Que olhos grandãos você tem vovozinha? E o lobo falou: - É para ti ver melhor minha netinha. - Que nariz tão grande você tem? - É para te cheirar melhor. - Que orelhas grandes você tem? - É para te ouvir melhor, minha netinha. - E que boca bem grande você tem vovozinha? E para te comer. A Chapeuzinho saiu correndo com medo e gritou. Aí o caçador veio ajudar. Cortou a barriga do lobo mal e tirou a vovozinha. A Chapeuzinho disse que não ia mais desobedecer a sua mamãezinha. Sarah, que já conhecia essa história, disse que era a Chapeuzinho, porque tem cabelos loros e cacheados como ela. Ocorrendo a identificação com a personagem. E ao perguntar quem seria o lobo, respondeu que era sua tia Velma, devido ela ser brava e falar alto. A vovozinha era sua avó Vilani, minha mãe. Porque tem muito carinho e amor por ela. Depois perguntei quem seria a mãe da Chapeuzinho, ela disse que era a tia Vilma, a realizadora desta experiência. Por educá-la e dar limite. Quando alguém a questiona quem é que lhe dar moral, responde logo: a tia Vilma. Neste sentido ela está realizando transferências. contudo, nos dois modelos, a positiva, quando transfere para sua avó e sua tia Vilma, sentimentos ternos: amor, afeto, carinho. E, a negativa quando transfere para sua tia Velma, os sentimentos hostis: medo, insegurança. Finalizei pedindo para que desenhasse a estória. O desenho está em anexo. Neste conto trabalhamos sentimentos de medo, separação, identificação, transferência e abandono. No caso de Sarah, demonstra o medo terrível de nos perder. Quando vamos tomar banho ou nos arrumar para sair. Pergunta logo para onde vamos. Faz drama dizendo que vamos deixá-la sozinha. Chora porque quer que estejamos todas com ela e pede para sair com a gente. Com o agravante do sentimento de separação, perda e abandono, devido ter perdido seu pai, que faleceu ano passado. E o processo de identificação ocorre quando ela vê suas características na Chapeuzinho. Conversamos bastante com ela. Procuramos responder aos seus "Por quês" da melhor maneira possível. Intervindo quando necessário, respeitando o seu nível de desenvolvimento cognitivo e a deixando expressasse. 3 Considerações Os contos de fadas ajudam no crescimento psicológico ao transportarem mensagens fundamentais que estimulam as crianças no seu processo de aculturação, estruturação da personalidade e melhor adaptação à realidade que as rodeia. Embora nossa sociedade seja diferente daquela que marcou a época em que foram criados, a mensagem que os contos encenam é intemporal. As crianças nuvem facilmente nos enredos, como foi comprovado na experiência com Sarah, porque sentem que o tipo de problemas dos personagens são semelhantes aos que as atormentão. Não é, portanto de se estranhar que estas histórias se mantenham vivas no seu inconsciente coletivo e que sejam transmitidas ao longo das gerações. Devido essas histórias carregarem uma força profunda, que não se deve apenas á mera função de distrair ou embalar o sono nas crianças. O poderoso dos contos é a magia que apresentam e as fantasias que despertam. Referências BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fadas. São Paulo: Paz e Terra, 2007. FREUD, Sigmund. A Psicologia de Grupo e a análise do Ego. Obras Completas. 2 ª ed. Rio de Janeiro: Imago, 1987. GUTFREIND, Celso. Contos e desenvolvimento psíquico. http//www.vivermentecerebro. com.br: Novembro 2004. KUFFER, Maria Cristina. Freud e a Educação: o mestre do impossível. São Paulo: Scipione, 1989. RAPPAPORT,C.R, Fiore, W.R e Davis. Teorias do Desenvolvimento. Vol. 1. São Paulo: EPU,1981

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    conto de fadas

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    desenvolvimento psiquico

    ,

    psicanalise e personalidade

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