A literatura infantil: entre o real e o imaginário

23/05/2012 • Por • 4,418 Acessos

A LITERATURA INFANTIL: ENTRE O REAL E O IMAGINÁRIO

 Elma Dourado Nery e Francisco Cleiton Alves 

RESUMO:

Este artigo emerge da necessidade em entender o desenvolvimento infantil partindo da contribuição dos estudos de Vygotsky, que são subsídios fundamentais para o professor que deseja estimular o conhecimento da criança, através do processo da interação sócio-histórica vygotskyana, estabelecendo uma relação dialógica com o aluno, com sua cultura e com sua realidade. Trabalhando a contação de história como elemento facilitador para uma instigação de sentidos que auxilie no desenvolvimento emocional e cognitivo da criança, impulsionando o processo de desenvolvimento da aprendizagem e criando condições para que eles lidem com a história a partir de seus pontos de vista, trocando impressões sobre ela, assumindo posições e personagens para na exploração simbólica da fantasia e da imaginação trabalhar as emoções para poder enriquecer a vida.

PALAVRAS-CHAVES: Vygotsky. Desenvolvimento infantil. Educação.

INTRODUÇÃO

Contar história pode parecer um fato sem importância do ponto de vista de muitos adultos, mas é uma atividade de grande valor educativo, pois através dos contos a criança constrói o mundo das idéias abstratas e vivem experiências que enriquecem seu conhecimento real, estimulando sua imaginação com elementos da fantasia.

Mas muitos professores não vêem a literatura como atividade pedagógica e a usam somente para ocupar um tempo ocioso entre uma atividade e outra, pois segundo RCNEI (Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil. pág. 21) que "As crianças constroem o conhecimento a partir das interações que estabelecem com as outras pessoas e com o meio em que vivem. O conhecimento não se constitui em cópia da realidade, mas sim, fruto de um intenso trabalho de criação, significação e ressignificação." A literatura infantil é um caminho que leva a criança a desenvolver a imaginação, emoções e sentimentos de forma prazerosa e significativa.

Para crianças não-alfabetizadas, o professor é o elo ao mundo da fantasia e isso poderá ser usada como estratégia para motivar as atividades de leitura e interpretação, pois a literatura infantil contribui em vários aspectos da educação do aluno como afetividade, compreensão e inteligência. É comum perceber que a literatura infantil não é um campo de estudo explorado e na maioria das vezes é usada na escola sem nenhuma relação com o ensino, pois não é reconhecida com estimulador cognitivo e pedagógico para o desenvolvimento infantil e não é entendido como atividade da leitura enquanto postura reflexiva.

  

A LITERATURA INFANTIL: ENTRE O REAL E O IMAGINÁRIO

  

Contar história é uma arte milenar, mas o que muitos não sabem é sua contribuição no desenvolvimento das crianças. Os estudos de Vygotsky demonstram que a criança aprende pela interação social. Para ele, o desenvolvimento da criança é produto de instituições sociais e sistemas educacionais, como a família, escola, igreja que ajudam a construir o próprio pensamento e descobrir o significado da ação do outro e da própria ação. Sobre a interação social REGO expõe que:

É por essa razão que Vygotsky afirma que os processos de funcionamento mental do homem são favorecidos pela cultura, através da mediação simbólica. A partir de sua inserção num dado contexto cultural, de sua interação com os membros de seu grupo e de sua participação em práticas sociais historicamente construídas, a criança incorpora ativamente as formas de comportamento já consolidada na experiência humana. (2007, p.55)

Assim a teoria vygotskyana do desenvolvimento parte da concepção de que todo organismo estabelece contínua interação entre as condições sociais, que são a base do comportamento humano. Havendo então o processo de maturação e a partir daí formam-se novas e mais complexas funções mentais, dependendo da natureza das experiências sociais de cada criança. Um dos conceitos fundamentais da psicologia sócio-histórica é o de mediação, ou seja, do "processo de intervenção de um elemento intermediário numa relação" (OLIVEIRA, 1997, p.26).

Na visão de REGO (2007), quando aborda a questão da mediação simbólica afirma que é pela mediação que o indivíduo se relaciona com o ambiente, pois, enquanto sujeito do conhecimento, ele não tem acesso direto aos objetos, mas, apenas, a sistemas simbólicos que representam à realidade. É por meio dos signos, da palavra, dos instrumentos, que ocorre o contato com a cultura. Na concepção de Vygotsky, a aprendizagem impulsiona, possibilita e movimenta o processo de desenvolvimento, sendo a escola considerada essencial na construção do ser psicológico e racional.

No entanto, o nível de desenvolvimento potencial é definido pelo nível em que a criança alcança sucesso numa tarefa com a ajuda de outros mais experientes (pai, professor, colega). "A distância entre aquilo que ela é capaz de fazer de forma autônoma (nível de desenvolvimento real) e aquilo que ela realiza em colaboração com outros elementos de seu grupo social (nível de desenvolvimento potencial) caracteriza" o que Vygotsky denomina de zona de desenvolvimento proximal. (REGO, 2007, p.73). Por isso, a proposta do termo zona de desenvolvimento proximal (ZDP) em sua teoria, é aquela em que a escola deve atuar. É no mesmo espaço que o professor, agente mediador (por meio da linguagem, material cultural), intervém e auxilia na construção e elaboração de estratégias pedagógicas no desenvolvimento do aluno.

Por conseguinte, a escola, funcionando como uma instituição incentivadora de novas conquistas psicológicas, deve dirigir o ensino não para etapas intelectuais já alcançadas, mas sim para estágios de desenvolvimento, ainda não incorporados pelos alunos. A escola, num primeiro momento, deveria partir do nível de desenvolvimento real da criança (em relação ao conteúdo) e chegar aos objetivos da aula, ou seja, chegar ao potencial da criança. É atribuído ao professor, o papel explícito de interferir na zona de desenvolvimento proximal (ZDP) dos alunos, provocando conseqüentemente, avanços que não ocorreriam espontaneamente.

A Literatura Infantil estimula vários sentidos: seu estilo singular pode mostrar a criança uma nova gramática da comunicação sem regras fixas unindo, dessa forma, o verbal, o imaginario, e o sensorial. Como afirma CANDIDO no blog.cancaonova.com "a literatura infantil instiga sentidos, auxilia o desenvolvimento emocional e cognitivo: é o universo lúdico rompendo os obstáculos da aprendizagem".

Ainda assim podemos ver o sentido atribuído à literatura infantil (estimular o exercício da mente, despertar a criatividade...). O que importa, entretanto, é ver que o livro pode ser um objeto para que a criança reflita sua própria condição pessoal (e a imagem projetada nela pelo adulto) e a sociedade em que vive.

A criança não tem ainda o domínio do código linguagem verbal e escrita, logo o que prende a sua atenção é o mundo imaginário, as figuras e todo encantamento.

Através da brincadeira, da vivência corporal, da imitação, da exploração pela repetição, à criança descobre a funcionalidade do seu corpo e a propriedade dos objetos, estabelecendo relações e ordenando aos poucos seu mundo real. Assim, ela vai reorganiza seu pensamento, busca condições de adaptação à vida e vai construindo seu repertório de conhecimento. Nessa busca pelo conhecer e conhecer-se, a criança sai à procura de seu significado no mundo. Quando não consegue encontrá-lo, adequadamente, sente muitas dificuldades em enfrentar obstáculos: sente-se fraca e incapaz de utilizar todo seu potencial de aprendizagem (cognição, emoção, criatividade etc.), prejudicando seu desenvolvimento. CANDIDO (blog.cancaonova.com)

A literatura infantil pode ser um elemento facilitador para uma instigação de sentidos que auxilie no desenvolvimento emocional e cognitivo da criança. A ludicidade presente nessa literatura pode quebrar de imediato alguns obstáculos que impedem a aprendizagem.

Para crianças não-alfabetizadas, o professor é o elo ao mundo da fantasia e isso poderá ser usada como estratégia para motivar as atividades de leitura e interpretação, pois a literatura infantil contribui em vários aspectos da educação do aluno como afetividade, compreensão e inteligência. É comum perceber que a literatura infantil não é um campo de estudo explorado e na maioria das vezes é usada na escola sem nenhuma relação com o ensino, pois não é reconhecida com estimulador cognitivo e pedagógico para o desenvolvimento infantil e não é entendido como atividade da leitura enquanto postura reflexiva.

Quando se conta uma historia, começa-se abrir espaço para o pensamento mágico. A palavra, com seu poder de evocar imagens, vai instaurando uma ordem mágico poética, que resulta do gesto sonoro e do gesto corporal, em balados por uma emissão emocional, capaz de levar o ouvinte uma suspensão temporal. Não é mais o tempo cronológico que interessa e, sim, o tempo afetivo. É ele o elo da comunicação.  (SISTO, 2005, p. 28)

Quando o contador se coloca como veículo do texto e faz uso somente da voz para dar-lhe vida, o ouvinte tem a possibilidade de, através de suas próprias imagens mentais, atuar como co-criador, segundo a estética da recepção, preenchendo as lacunas do texto através de configurações, representações, que lhe são próprias, implicando-se no texto e, dessa forma, participando do ato de leitura, pois ouvir contos é uma forma de ler.

Mas, segundo SISTO (2005, p. 37) "Contar historia não é uma tarefa fácil, e estamos cada vez mais convencidos de que é preciso uma certa habilidade, exercício, e preparo para controlar todos os mecanismos que entram em jogo cada vez que se quer "comunicar' uma história a uma platéia".

Ao lidar com a literatura infantil em sala de aula, o professor estabelece a relação dialógica com o aluno, com sua cultura e com sua realidade quando, para além de contar ou ler a história (informar os alunos sobre ela), cria condições para que eles lidem com a história a partir de seus pontos de vista, trocando impressões sobre ela, assumindo posições e personagens, criando novas situações através das quais eles vão descobrindo a história original.

Assim faz se necessária técnica e experiência. E é preciso ensaiar muito e fazer com que voz e corpo possam contar juntos. Todo professor tem dentro de si um contador de histórias, apenas precisa encontrá-lo e aprimorá-lo. Para que isto aconteça pode-se levar em consideração, segundo MALBA TAHAN, Educativa: a revista do professor, ano I – nº 05, (2009, p.7) para ser um bom contador de histórias basta:

1ª - Sentir, ou melhor, viver a história; ter a expressão viva, ardente, sugestiva: Logo, a história tem de despertar a sensibilidade de quem a conta. Caso não haja emoção no ato, também não haverá sucesso na atividade.

2ª - Narrar com naturalidade, sem afetação: Lembrando-se sempre que, o vocabulário deve ser adequado ao público ouvinte.

3ª - Conhecer com absoluta confiança o enredo. Na oralidade, além de ser claro e objetivo, às vezes, é necessário completar as idéias da história. Portanto, o contador deve estar seguro sobre o que vai contar. Do contrário é melhor nem tentar.

4ª - Dominar o interesse do público: O contador deve buscar maneiras de fazer com que os ouvintes permaneçam concentrados na história

5ª - Contar dramaticamente: Nesse caso, o contador pode se passar por algum dos personagens ou por todos, para obter o efeito desejado.

6ª - Falar com voz adequada, clara e agradável: Não é conveniente falar em falsete ou impostando a voz, a não ser que seja em momentos específicos, para caracterizar um determinado personagem.

7ª - Ser comedido nos gestos: Se o contador exagera em gestos sem objetivos, quando fizer um que, realmente, seja necessário para melhor entender a história, provavelmente, não será notado.

8ª - Ter espírito inventivo e original: Principalmente par contar histórias com suas próprias palavras, dando uma roupagem nova ao tradicional. Dessa forma, ao utilizar um livro, ainda se faz necessário adaptar a história, porque a linguagem escrita é totalmente diferente da oral.

9ª - Ter estudado a história: Apenas note que, não é preciso decorá-la, porque há diversas possibilidades de exploração oral para fazer a contação com espontaneidade.

 É na relação lúdica e prazerosa da criança coma obra literária que se forma o leitor; é na exploração simbólica da fantasia e da imaginação que desabrocha o ato criador e se intensifica a comunicação entre texto e leitor.

A linguagem constante na literatura infantil, auxilia o educador a levar a criança a reconstruir (construir um novo ponto de vista) das percepções de objeto, espaço e tempo. As histórias mostram à criança que as pessoas são diferentes e que cabe a nós fazermos nossa opção de vida. Ensinam a enfrentar os problemas acreditando na vitória do bem: o obstáculo enfrentado e vencido nos fortalece para enfrentarmos novos obstáculos. Ajudam a criança a abandonar sua condição de dependência infantil e a crescer com mais confiança interior. Sabemos que a história desperta a curiosidade para prender a atenção da criança. Mas, mais que isso, ela estimula a imaginação e trabalha as emoções para poder enriquecer a vida.

  

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ouvir histórias é ingressar em um mundo fascinante, cheio ou não de segredos e surpresas, mas sempre muito interessante, curioso, que diverte e ensina. É durante o ato de ler e escutar histórias que a imaginação flui, e apesar de a literatura ser uma complexa atividade de lidar com palavras, exigindo capacidades crescentes de abstração, criança e literatura combinam muito bem, pois seu encontro realiza-se no âmbito da arte, do sensível, lúdico, enfim, do imaginário. Assim a educação é um meio de ascensão social, e a literatura, um instrumento de difusão de seus valores, tais como a importância da alfabetização, da leitura e do conhecimento.

COELHO fala que "quando inconscientemente a criança tenta construir sua própria imagem ou identidade e se depara com muitos estímulos e interdições", nesse período de amadurecimento interior da criança é que a Literatura Infantil e principalmente os contos de fadas podem ser decisivos para a formação da criança em relação a si mesma e ao mundo a sua volta facilitando a ela a compreensão de certos valores básicos da conduta humana ou convívio social, que possibilite o entendimento do mundo e que construam, aos poucos, seu próprio conhecimento. Para alcançarmos um ensino de qualidade, se faz necessário que o professor descubra critérios e que saiba selecionar as obras literárias a serem trabalhadas com as crianças.

É preciso que a educação seja um espaço para descobertas obtidas através da participação e colaboração ativa de cada criança com seus parceiros em todos os momentos, possibilitando, assim, a construção de sujeitos autônomos e cooperativos, assim a literatura infantil ganhará um sentido maior na vida das crianças. A partir do confronto de opiniões, da motivação, das interações sociais e do trabalho cooperativo possibilitarão à criança condições que asseguram o caráter formativo das atividades, através de uma boa orientação do professor, tendo a finalidade de esclarecer aos alunos o que devem fazer, como devem fazer, por que e para que fazer tal atividade, e na literatura infantil, portanto, a criança aprende brincando em um mundo de imaginação, sonhos e fantasias.

Contar histórias é um meio muito eficiente de transmitir uma idéia, de levar novos conhecimentos e ensinamentos, é um meio de resgatar a memória e todo bom contador de histórias deve ser também um bom ouvinte de si mesmo, do mundo e de outras pessoas. O contador deve ser sensível para ouvir e falar, contar simplesmente porque gosta de contar e o  narrador deve estar ciente de que o importante é a história.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICA:

BRASIL. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI). Brasília: MEC/SEF, 1998.

CÂNDIDO, Maria Amélia Fernandes. Mais além: a especificidade da literatura infantil como instrumento de estímulo ao desenvolvimento da linguagem. Disponível em http://blog.cancaonova.com/sergiofernandes/2007/08/30/maisalem-a-especificidade-da-literatura-infantil-como-instrumento-de-estimulo-aodesenvolvimento-da-linguagem/

COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil: teoria, análise, didática. 6ª ed São Paulo: Editora Ática, 1993. (Series Fundamentos)

OLIVEIRA, Marta Kohl de. (1993). Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento um processo sócio-histórico. São Paulo: Scipione. (Série pensamento e ação no magistério).

REGO, Teresa Cristina. (1998). Vygotsky: uma perspectiva histórico-cultural da educação. 18. ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2007.

SISTO, Celso. Textos e pretextos sobre a arte de contar histórias. 2ª ed. Curitiba: Positivo, 2005. 

Perfil do Autor

ELMA DOURADO NERY

Pedagoga, Especialista em Docência do Ensino Superior - FACITE, Especialista em Gestão Escolar - UFBA, Professora da Rede Municipal d...