O Papel da Escola Na Socialização Infantil

09/11/2011 • Por • 2,162 Acessos

1 - Introdução

A socialização é um processo interativo, necessário pra o desenvolvimento, através do qual a criança satisfaz suas necessidades e assimila a cultura. Este processo inicia-se com o nascimento e, embora sujeito a mudanças, permanece ao longo de todo ciclo vital. No decorrer das últimas décadas, vem se observando uma mudança significativa no processo de socialização infantil, levando-se em conta fatores como o avanço da tecnologia nos meios de comunicação, o crescimento acentuado de informações disponíveis, as novas configurações familiares, etc. Dentro deste contexto, a escola exerce um papel importante na consolidação do processo de socialização. A escola será determinante para o desenvolvimento infantil e, portanto, para o curso posterior de sua vida. É na escola que se constrói parte da identidade de ser e pertencer ao mundo e se adquire os modelos de aprendizagem através da aquisição dos princípios éticos e morais que permeiam a sociedade. Na escola depositam-se as expectativas, bem como as dúvidas, inseguranças e perspectivas em relação ao futuro e às suas próprias potencialidades.
A criança chega à escola levando consigo aspectos constitucionais e vivências familiares, porém o ambiente escolar será uma peça fundamental em seu desenvolvimento. A escola é, junto com a família, a instituição social que maiores repercussões tem para a criança. A escola não só intervém na transmissão do saber científico organizado culturalmente como influi em todos os aspectos relativos aos processos de socialização e individuação da criança, como o desenvolvimento das relações afetivas, a habilidade de participar em situações sociais, a aquisição de destrezas relacionadas com a competência comunicativa, o desenvolvimento da identidade sexual, das condutas pró-sociais e da própria identidade pessoal.
As modificações que, durante os anos escolares, produzem-se no conhecimento social das crianças, afetam o modo como compreendem as características dos outros e de si mesmas, bem como a sua concepção das relações que as vinculam e sua representação das instituições e sistemas sociais em que estão mergulhadas. Neste sentido, a entrada e o percurso pelo âmbito escolar vão constituir para a criança um acúmulo de experiências ricas e interessantes, pois a escola é um microcosmo da sociedade. No meio escolar, a criança entra em contato com indivíduos possuidores de diferentes graus de conhecimento, estabelecendo relações diversas, sendo, além disso, um âmbito que, em sim mesmo, constitui um sistema social, com normas e funcionamento os quais devem ser internalizados.
Diante destes apontamentos entende-se a importância de novas pesquisas e propostas que tenham como objetivo compreender o papel da escola no processo de socialização da criança, viabilizando novas formas de ‘ser e fazer escola', considerando a educação no seu sentido mais amplo. Considera-se a ação de educar não só como o processo de ensino-aprendizagem, mas também, e não menos importante, o processo de constituir indivíduos críticos, socializados, com conhecimento pleno daquilo que é importante ser, enquanto indivíduos, e daquilo que o mundo espera de si, enquanto pessoas éticas, plenamente integradas no espaço em que estão inseridas.

 2 - Os caminhos da socialização

O processo de socialização é compreendido como fundamental para o desenvolvimento humano. O conceito é utilizado neste estudo nos termos em que o definiram BERGER & LUCKMAN, 1976. A socialização torna possível à criança a compreensão do mundo, por meio das experiências vividas, ocorrendo paulatinamente à necessária interiorização das regras afirmadas pela sociedade. Nesse início de vida a família e a escola serão os mediadores primordiais, apresentando/significando o mundo social. As idiossincrasias estarão determinando as diferenças pessoais, pois esse processo não é simplesmente ensinado: a criança mostra-se um parceiro ativo, podendo procurar novas informações em outros lugares. Deste modo, as atitudes e comportamentos sociais não serão obrigatoriamente cópias fiéis das atitudes e comportamentos de seus mediadores. Dizer isto não significa, porém, diminuir o papel dos mediadores, nem desconsiderar o fato de as crianças se identificarem com os seus familiares: pais, irmãos mais velhos e outros adultos. Elas podem, inconscientemente, copiar a conduta do adulto como elas vêem o adulto atuando à sua volta.

 Assim, esse processo na primeira infância implica conhecer as atitudes e os comportamentos dos familiares, adultos e jovens, mas também ao conjunto de normas, regras e crenças praticados e valorizados pelo grupo, que possibilitarão a sua introdução na sociedade. Como afirma GOMES (1990), haveria uma: "(...) imperiosidade de analisar os três ângulos da questão: o mundo social imediato a ser interiorizado pela criança; a família que, além de ser mediadora, tem especificidades que a distinguem de qualquer outra; a criança que, sujeito da aprendizagem social, interiorizará o mundo mediado a partir de suas próprias idiossincrasias e de maneira singular e solitária" (GOMES, 1990, p. 59).  Não se concebe um desenvolvimento proporcionado exclusivamente pela educação formal, como também não se entende esse desenvolvimento sendo realizado unicamente pelo grupo familiar. Afinal, juntas, escola e família são responsáveis pela formação do indivíduo. Não se pode valorizar a escola em oposição à educação familiar e vice-versa. Em ambos os espaços, o contato com outras crianças de mesma idade, com outros adultos não pertencentes ao grupo familiar, com outros objetos de conhecimento vai possibilitar outros modos de leitura do mundo. Toda essa nova experiência pode ser muito positiva para o desenvolvimento da criança.  As instituições de Educação Infantil organizam e formalizam uma aprendizagem que já se iniciou na família e que vai ter continuidade nas suas experiências com a sociedade. Assim, não só a família se torna responsável pela aprendizagem da vida social, embora represente, inicialmente, o elo mais forte que liga a criança ao mundo. "Ao final do processo de socialização a criança não só domina o mundo social circundante, como já incorporou os papéis sociais básicos - seus e de outros, presentes e futuros mas, acima de tudo, já adquiriu as características fundamentais de sua personalidade e identidade" (GOMES, 1990, p.60). Diante das idéias expostas, torna-se importante o conhecimento sobre a qualidade do processo de socialização vivenciado pelas crianças em seu grupo familiar e nas escolas por elas freqüentadas, para que se possa responder às seguintes indagações: em que medida a socialização, promovida atualmente nas escolas e nos lares, contribui para a construção de uma sociedade democrática. 

2.1 - Papel da Família e da Escola na Socialização de um Indivíduo

É na família onde exercitamos as primeiras trocas sociais e posteriormente na escola com os colegas e com figuras de autoridade, como por exemplo, o professor. A criança que entra na fase escolar com uma segurança básica diante de suas capacidades estará mais habilitada a se lançar em novos vínculos, novas trocas podendo assumir sua individualidade no grupo.

A escola é o local que propicia o início da identificação da criança com alguns colegas, percebendo as semelhanças e diferenças entre as pessoas. Exercitará sua capacidade de se expressar com os amigos e ao mesmo tempo respeitá-los em sua individualidade. Dificuldades de ajustamento social podem aparecer desde muito cedo, uma criança que tem todas as suas vontades atendidas de imediato em casa terá dificuldade de tolerar frustrações, respeitar os desejos dos outros, não saberá esperar sua vez e provavelmente vivenciará momentos de sofrimento e inadequação. Por outro lado, uma criança insegura poderá fazer tudo para agradar os colegas e ser aceita, aquelas que não tem limites não aceitarão regras dos outros e podem tentar ser sempre o líder da turma , mesmo que seja usando a força e não a empatia.

2.2 – O Jogo e a Brincadeira no Processo de Socialização

As crianças hoje em dia vivenciam uma rotina intensa e repleta de atividades, quase sem tem tempo para a brincadeira livre e espontânea. Dentro deste panorama, encontramos algumas mais estimuladas e inteligentes, mas freqüentemente cansadas, pouco criativas, inseguras e mais vulneráveis emocionalmente.

O brincar e jogar são as maneiras que a criança expressa e constrói seu próprio modo de conduta. Desenvolve a imitação e aprendizagem da vida dos adultos até mesmo favorece a elaboração de conflitos emocionais. Segundo Grunspun (1985), de acordo com a maneira como a criança brinca podemos fazer uma estimativa de seu nível emocional, social e até intelectual.

2.3 - O Brincar e a Interação Social Saudável

Existe uma evolução natural na maneira da criança brincar. Antes dos 2 anos é a fase do jogo ou brinquedo solitário onde a criança explora mais os objetos de maneira solitária. Do segundo para o terceiro ano de vida a criança começa imitar outras na brincadeira, brinca ao lado de outras mas, sem muita interação. Mais próximo do terceiro ano é que a criança aprende o dar e o receber, participa de jogos de fantasia e já existe uma organização maior dos níveis da brincadeira. Nesta fase começam a reconhecer liderança ou lutar por ela. Só a partir dos quatro anos que existe maior cooperação entre os colegas e muitas vezes meninos e meninas se agrupam separadamente de acordo com seus interesses. Neste momento também conseguem emprestar e compartilhar mais os brinquedos. Estes estágios podem acontecer em ritmos diferentes de acordo com a criança e os estímulos que recebe, e ocorrem paralelamente ao seu desenvolvimento cognitivo e emocional, mas os pais precisam saber que na rotina de seu filho deve existir também o tempo para a  brincadeira não dirigida, para o exercício da fantasia e da imaginação.

3 O SIGNIFICADO DA EDUCAÇÃO INFANTIL
Um dos objetivos mais importantes do processo de socialização consiste em que as crianças aprendam o que é considerado correto em seu meio e o que se julga incorreto; ou seja, que possam conseguir um nível elevado de conhecimento dos valores morais que regem sua sociedade e se comportem de acordo com eles. Isto é conseguido através de um processo de construção e interiorização destes valores, processo que tende a demais a favorecer o desenvolvimento dos mecanismos de controle reguladores de conduta da criança.
É no âmbito da relação com o outro que a criança vai assimilando as regras, pois a convivência diária entre os sujeitos exige que se pratiquem estas regras, muitas vezes elas serão quebradas ou não assimiladas, porém com o passar do tempo serão assimiladas e respeitadas.
Outro fator importante que escola traz para a criança é o fato de se relacionar com várias pessoas com diferentes níveis de conhecimento, isso faz com que estas relações se tornem fatores de aprendizagem e desenvolvimento, pois se a criança estivesse somente em contato com pessoas de sua família não receberia a mesma quantidade de informações que recebem dentro da escola.
(...) busco pontuar que as relações sociais na educação infantil precisam contemplar os diferentes pontos de vista, sejam da criança, dos profissionais ou ainda das famílias que estão inseridas no entorno da escola. Assim, construir mecanismos que respeitem os diversos interesses numa estratégia de confronto (por meio do dialogo e da negociação) entre os diferentes atores, parece o grande desafio posto ao tratar dos processos de socialização e da produção das culturas infantis.
Desta forma se estará beneficiando o desenvolvimento integral da criança, bem como se cumprindo o papel educacional e proporcionando um bem estar às crianças e as famílias que são atendidas pela instituição, fazendo se cumprir a efetiva socialização com cunho educacional.
Na relação professor aluno o professor deve ser democrático como afirma Phelan e Schonour (2010, p.30) (...) Esse professor tem uma relação positiva, amável e favorável com seus alunos, mas eles sabem quando ele " está falando sério ". Como tem um plano disciplinar efetivo e sua sala de aula é organizada, os alunos confiam nele e o respeitam. Aqui se percebe que a socialização entre professor e aluno tende a ser mais aberta, pois há regras de convivência que o professor estabeleceu, pois ele exerce o papel de educador dentro da sala, isso não significa que o professor seja autoritário e sim que ele conhece e sabe estabelecer as normas vigentes.

Considerações Finais

Hoje vivemos em um mundo social bastante complexo, com milhares de pequenas regras implícitas que regulam nossas relações. O desenvolvimento saudável da socialização ao longo da vida propicia melhores habilidades empáticas, flexibilidade e maiores chances de sucesso pessoal, familiar e profissional. Uma pessoa saudável emocionalmente é alguém bem ajustado socialmente, é alguém que consegue estabelecer vínculos e mantê-los, ou seja, a habilidade de fazer trocas afetivas e se relacionar adequadamente no contexto com outras pessoas.

Com o passar do tempo foi se observando o quanto a Educação Infantil, contribui para o desenvolvimento das crianças e o fator mais importante deste desenvolvimento é a socialização. Pois através da socialização as crianças fazem trocas de experiências e vivências. Dentro deste processo de socialização estão envolvidos vários atores sociais, que contribuem no processo formativo da criança, estes atores são os professores, funcionários e colegas da mesma idade e de idades diferentes. Este atores contribuem tanto com conhecimento quanto com a simples relação humana, haja vista que se a criança permanecesse em casa não teria seu círculo social ampliado.
Portanto, a escola de Educação Infantil é um grande meio de acesso a socialização e esta traz muitos benefícios para o desenvolvimento das crianças.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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PHELAN, Thomas W; SCHONOUR, Sarah Jane. As Diversas Maneiras de Gerenciar Comportamentos. Revista Pátio educação Infantil. Porto Alegre, Ano VIII, 2010.
SILVA, Sílvia Mara Da. LUCAS, Maria Angélica Ouviu Francisco. A importância das Interações Sociais na Educação Infantil: Um Caminho Para Compreender o Processo de Aprendizagem. I Encontro Paranaense de Psicopedagogia. ABPppr. Nov./2003.

Perfil do Autor

Edlene Maria da Silva

Professora Esp. Edlene Maria da Silva Nascimento. Professora Graduada em Pedagogia pela UNIC - Universidade de Cuiabá, Especialista em...