A Pedagogia do Oprimido e a Teologia da Libertação: As Contribuições de Paulo Freire e Leonardo Boff

Publicado em: 15/05/2011 |Comentário: 0 | Acessos: 744 |

Introdução

"Libertação é libertação do oprimido. Por isso, a teologia da libertação deve começar por se debruçar sobre as condições reais em que se encontra o oprimido de qualquer ordem que ele seja." Leonardo Boff.

"A pedagogia do oprimido que, no fundo, é a pedagogia dos homens empenhando-se na luta por sua libertação, tem suas raízes aí. E tem que ter nos próprios oprimidos, que se saibam ou cometam criticamente a saber-se oprimidos, um dos seus sujeitos." Paulo Freire

 

O objetivo deste artigo é apresentar dois dos paradigmas que defenderam as classes populares e suas manifestações culturais: A pedagogia do Oprimido e a Teologia da Libertação. Paulo Freire e Leonardo Boff, respectivamente, são os autores sobre os quais pretendo, neste trabalho, tecer comentários.

Durante meados do século XX, numa perspectiva sócio-econômica e política, grande parte dos países latino-americanos e caribenhos, sofria sob o peso da ditadura militar.

A pedagogia do oprimido surgiu como resultado da efervescência dos movimentos populares nos meados da década de 60, quando Freire foi exilado em virtude desse momento político. Sua tese teve forte influência sobre a Teologia da Libertação ao mostrar o outro lado da história, o lado dos oprimidos. Ela corroborou para a educação e a participação política da classe oprimida.

A teologia da libertação tem como seu grande expoente, no Brasil, Leonardo Boff, agente norteador do discurso teológico latino-americano. Esta teologia caracteriza-se pela valorização da ação de Deus na história, como fonte de libertação social.

O quadro de degradação apresentado na América Latina é o fundamento gerador do conceito de libertação. A libertação, então, é toda "ação que visa criar espaço para a liberdade" (BOFF, 1980, p. 87). Ser livre, neste sentido, é não estar sob o jugo da lei alheia; é poder construir-se autonomamente.

Com a gênese da teologia da libertação na América Latina, "a religião passa a ser um fator de mobilização e não do freio" (BOFF, 1980, p. 102). A religião não mais se apresenta como "ópio do povo".  Ela passa a ser fonte de libertação e de esperança para o homem.

A religião, desta forma, não se reduz a uma ideologia que mantém o  status quo social e político; também não é mais fonte de discursos etéreos. A Teologia da Libertação pretende mostrar que Deus não está em uma esfera trans–histórica; mas, ela quer mostrar que Deus encarna-se na história, gera libertação de um povo humilhado, gera vida e esperança a um povo crucificado e sem sonhos.

A Pedagogia do Oprimido

Em 1968 nascia uma obra que iria revolucionar o modo de ver a educação: a educação popular, das massas e dos excluídos. Propunha uma alfabetização política num contexto em que, naquela época (década de 1950 e 1960), nosso país tinha um índice descomedido de analfabetos. O analfabetismo, nesse período, era avaliado como principal fator que impedia o desenvolvimento do país. Tal análise gerava um enorme preconceito contra o analfabeto.

A Pedagogia do Oprimido tem suas raízes empíricas nas experiências desenvolvidas, no período que antecede 1964, e as raízes epistemológicas constituídas na história da formação social, econômica e política brasileira, nas idéias de Marx, Engels e Lênin e de autores marxistas como, por exemplo, Gramsci e no movimento do Humanismo Cristão, e impacta a Teologia da Libertação que surgia primariamente na América Latina. Para Freire, esta teologia enfatiza o papel do ser humano como sujeito na luta permanente contra a opressão e a injustiça social e pela criação do Reino de Deus na Terra.

Podemos dizer que Paulo Freire revolucionou o processo pedagógico. É possível inclusive proferir que, em nosso país, houve uma educação de adultos antes e depois dele. Foi quase uma revolução coperniana, pois até então, o adulto não-escolarizado era percebido como um ser imaturo e ignorante, que deveria ser atualizado com os mesmos conteúdos formais da escola primária, (ações e características da educação infantil), percepção esta que reforçava ainda mais o preconceito contra o analfabeto como está supracitado.

Com o aparecimento de Freire no cenário educacional brasileiro, esse quadro mudou radicalmente, ele partia do seguinte pressuposto: "Todo mundo sabe", "Não há saber maior ou saber menor, o que há são saberes diferentes". Naquele momento, os alfabetizandos não eram ouvidos, eram considerados como uma tabula rasa, onde os alfabetizadores depositavam o conteúdo a ser aprendido. Com a Pedagogia do Oprimido era preciso ouvir a voz de quem vai à escola e ensinar a partir da realidade deles.

Esse quadro de renovação pedagógica deve ser considerado dentro das condições gerais de turbulência do processo político daquele momento histórico. Intensa movimentação política dos setores médios e de parte das camadas populares. Ou seja, ampliavam-se as manifestações populares. Os governos de Jânio-Jango favoreceram a efervescência deste clima.

Foi dentro dessa conjuntura que os diversos trabalhos educacionais com alfabetização de adultos passaram a ganhar presença relevante. Por meio desta nova metodologia de ensino, Freire incentivava os oprimidos a pensar e refletir criticamente. Deste modo, a educação de adultos ia além das preocupações existentes com os aspectos pedagógicos do processo de ensino-aprendizagem.

Só para termos noção de dados, no Nordeste, "há cerca de 15 milhões de analfabetos para uma população de 25 milhões de habitantes" (IBGE, 2000). Destarte, Paulo Freire, compromissado com as classes populares e, por isso, extremamente preocupado com os índices de analfabetismo no país, lançou um novo paradigma teórico de educação, que marcou o início dos anos 1960, para romper com a idéia de que o analfabetismo era a causa da pobreza e do não-desenvolvimento do país.

Em pleno século XXI, esta realidade ainda é nefanda. Segundo o último levantamento feito pelo IBGE, mais de 1,7 milhões de cearenses não sabem ler nem escrever. Desse total, 326 mil são jovens entre 8 e 29 anos. Além do analfabetismo absoluto, o Estado enfrenta também o analfabetismo funcional, ou seja, a incapacidade de se compreender um texto escrito.

Freire elabora sua tese, num estudo antropológico do ser humano, valorizando seu aspecto ontológico em ser mais, e epistemológico levado pela curiosidade de distinguir as coisas. Estimando em seu discurso a dialogicidade na relação de sujeitos cognoscentes, mediados por saberes e movidos por um compromisso com as transformações pessoais e coletivas.

A pedagogia do oprimido valoriza o educando como um sujeito de seu próprio conhecimento, considerando-o como um ser em potencial, isto é, aquele que é capaz, sabe aonde quer chegar, e assim poderá se tornar uma pessoa que tem consciência de sua ação no mundo, que a partir de si próprio constrói a história e transforma o mundo.

Neste sentido, a Pedagogia do Oprimido expressa uma educação libertadora, problematizadora; já não pode ser um ato de depositar, ou narrar, ou de transferir, ou de transmitir "conhecimentos" e valores aos educandos, meros pacientes, à maneira da educação "bancária", mas um ato cognoscente.

Com isto o papel do educador na perspectiva de Freire é, com respeito ao mérito da paz, com que viva a certeza de que faz parte de sua tarefa docente não apenas os conteúdos, mas também ensinar a pensar certo.

Na visão de Freire, pensar certo é contextualizar o que lemos com a realidade vivenciada pelo sujeito, ou seja, estabelecer uma relação entre o que lemos e o que ocorre em país, na nossa cidade, no nosso bairro.

Convêm ter amor pelo que fazemos, uma paixão potencializa a condução do trabalho durante toda nossa vida, somente assim a vida terá um sentido, uma razão de viver e de sonhar. Este mesmo sentimento que, acreditamos, o educador deve ter pelo educando. Sabendo que através do diálogo compartilhamos nossas experiências de vida, de forma que o educador aprenda ao ensinar e o discente ensina ao ser educado.

A nossa práxis pedagógica deve ter, em nosso pensar, como princípio a coerência de tudo que falamos e propagamos. Nossa fundamentação se consolida com o amor, o afeto pelo que nos leva a ensinar, e ao ensinar temos que pensar no educando.

Somente o amor nos coloca no lugar do outro. Eu me refiro à virtude da empatia. Ao compartilharmos do mesmo sentimento, neste ponto, temos um mestre que nos ensina por excelência, Jesus Cristo (O Mestre dos Mestres). Para saber se colocar no lugar do outro precisa primeiro vê-lo, enxergá-lo sem preconceito, sem segundas intenções e sem interesse próprio.

Assim, a Pedagogia do Oprimido é a pedagogia do amor que realizada na escola abre espaços para diversidade (diferenças étnicas, raciais, religiosas e sociais). Requisita a presença de um valor que assegura o respeito e a convivência entre diferentes: a paz e a espiritualidade. Entenda-se que dialogar sobre espiritualidade na educação não significa injetar ensinos religiosos no currículo; significa incentivar os estudantes a envolver seu mundo com um sentimento de encanto pela vida, pelo diálogo e pela criatividade, pelo ser mais que transcende o pragmatismo da modernidade.

Uma educação que tem como princípio o amor não deve dar lugar ao autoritarismo, nem muito menos utilizar a avaliação como reafirmação deste ato infame contra o educando. Nem muito menos desvalorizá-lo por ser pobre ou incapaz quando, a bem da verdade, todos são capazes. O que acontece é que foram tolhidos os seus direitos, e excluídos de certos direitos básicos de sobrevivência.

A Teologia da Libertação

 

 

Etimologicamente a palavra Teologia tem origem em duas palavras gregas: Téos e Lógos. Téos significada Deus e Logos estudo. Assim sendo, estes termos significam o estudo a respeito de Deus.

O genitivo que aparece supracitada no título - DA LIBERTAÇÃO - mostra-nos que a libertação é o horizonte regulador do discurso acerca de Deus, e, ao mesmo tempo, mostra-nos que o Deus do discurso é fonte de libertação. Então conforme, o filósofo Alexandre Cabral (1997), Ele se manifesta concretamente nos diversos momentos do processo histórico de um povo. Conseqüentemente, a Teologia da Libertação torna-se força geradora de ações que viabilizam uma práxis libertadora, segundo as necessidades advindas das diversas circunstâncias sob as quais um povo está submetido.

O termo libertação foi cunhado a partir da realidade cultural, social, econômica e política sob a qual se encontrava a América Latina, a partir das décadas de 60/70 do último século. Os teólogos deste período, católicos e protestantes, assumiram a libertação como paradigma de todo fazer teológico.

Atualmente, vivemos a crise econômico-financeira, previsível e inevitável, que remete a uma crise mais profunda. No dizer de Boff, trata-se de uma crise de humanidade. [...] Faltaram traços de humanidade mínimos no projeto neoliberal e na economia de mercado, sem os quais nenhuma instituição, a médio e longo prazo, se aquenta de pé: a confiança e a verdade. (Boff, 2008c).

Nos dias de hoje a Teologia da Libertação está abrangendo outras dimensões, além de seu aspecto político. Atualmente ela leva em consideração os aspectos epistemológicos e ecológicos, dentre outros. Epistemológicos, ao considerar o acesso ao saber historicamente, construído pela humanidade, os saberes diversos, inclusive o popular. Considera a dimensão ecológica levando em consideração o ambiente no qual vivemos. A Terra, a flora e a fauna. Conforme Boff, sentimos hoje a urgência de estabelecermos uma paz perene com a Terra.

Neste ínterim, a crise pode ser uma grande oportunidade para a invenção de outro paradigma de produção e de consumo. Na visão de Boff a solução da crise econômico-financeira passa pelo encaminhamento da crise ecológica geral e do aquecimento global. (Boff 2008a).

Hoje, se não salvarmos a sustentabilidade da terra, não haverá base para o projeto do capital em propósito de crescimento. A razão segundo, Boff reside no fato de que a atual crise se instaurou no seio de outras crises ainda mais graves: a do aquecimento global que vai produzir dimensões catastróficas para milhões de humanidade e a insustentabilidade da terra em conseqüência da virulência produtivista e consumista. (Boff, 2008b).

Outra categoria que a TL utiliza é a da alteridade, o valor e o reconhecimento do outro como autor e construtor de seu conhecimento.

A espiritualidade é um relevante aspecto que é levado em consideração na TL, pois abarca dimensões axiológicas que caracterizam o respeito a diversidade e a paz.

Finalmente a TL é um caminho para paz entre os conflitos gerados pelo preconceito e o egoísmo humano, podendo ser um fator orientador de novo começo para uma sociedade harmônica e igualitária onde a desigualdade e a pobreza possam fazer parte apenas de um passado nefando e esquecido.

 

Referências Bibliográficas

 

 

 

 

BÍBLIA SAGRADA, Ed. revista e atualizada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969.

CABRAL, Alexandre Marques. Teologia da Libertação: A teologia a favor dos excluídos. Artigo, 1997.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 43ª edição – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.

_____________. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários a prática educativa. 36ª edição – São Paulo: Paz e Terra, 2007.

BOFF, Leonardo. Quando começou nosso erro? O Povo, Fortaleza 17 de outubro de 2008a, Mundo, p.30.

______________. O pior da crise ainda está por vir? O Povo, Fortaleza 04 de novembro de 2008b, Mundo, p.30.

______________. Crise de humanidade. O Povo, Fortaleza 04 de novembro de 2008c, Mundo, p.30.

______________. Teologia do cativeiro e da libertação. Petrópolis: Vozes, 1980.

 

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    Fonte do Artigo no Artigonal.com: http://www.artigonal.com/educacao-online-artigos/a-pedagogia-do-oprimido-e-a-teologia-da-libertacao-as-contribuicoes-de-paulo-freire-e-leonardo-boff-4772239.html

    Palavras-chave do artigo:

    educacao popular e teologia da libertacao

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