Qual A Nossa História?

07/07/2008 • Por • 4,603 Acessos

A história dos seres humanos está em continuidade com a história dos hominídeos, que por sua vez está em continuidade com a história dos primatas e assim por diante até o primeiro ser vivo. Mas geralmente o que é chamado de história da humanidade não passa da história de uma cultura: nossa cultura. Qual o nome de nossa cultura? Nunca demos um nome porque sempre a chamamos de "humanidade". Mas a tradução dos nomes que os povos tribais povos escolhem para chamar a si mesmos também é "humanidade". Todos os povos chamam a si mesmos de humanidade, e nós somos apenas um desses povos.

Tudo aquilo que existe apenas em nossa cultura não pode ser essencial para a humanidade. Dizer que algo é essencial para uma espécie e que isso se encontra em apenas uma cultura é uma contradição. Então tudo que criamos em nossa cultura que não existe em nenhuma outra cultura pode ser essencial para nós, mas não é essencial para a humanidade. Direitos humanos não são essenciais, leis jurídicas não são essenciais, literatura não é essencial, e assim por diante...

A história de nossa espécie é recente se comparada com a história de outros primatas. Mas a história de nossa cultura é ainda mais recente, mesmo se comparada apenas com a história de nossa espécie. A história de nossa cultura está marcada pelo acúmulo. Nós acumulamos muitas vezes mais pessoas, coisas e problemas do que todos os outros povos do passado. Um único país pode conter mais gente do que toda a população humana de mil anos atrás.

Acumular é uma constante em nossa cultura, e o acúmulo não pode durar para sempre. O acúmulo exige muitas coisas: exige um modo de vida completamente diferente daquele para o qual os seres humanos evoluíram e se adaptaram. Exige um controle cada vez maior da natureza e do próprio homem, porque a tendência natural do acúmulo é que ele seja temporário. Para concentrar e manter o acúmulo, é preciso um controle cada vez maior, que também tem um limite.

Misturar evolução com o surgimento de nossa cultura é problemático. Certamente a evolução está envolvida nisso, mas não quer dizer que nossa cultura seja "mais evoluída" que as outras. Tal afirmação consiste num erro porque não há uma escala evolucionária. Todos os seres e culturas existentes são resultados diferentes da evolução, mas são todos tão evoluídos quanto podem. A extinção abre espaço para uma espécie nova, mas não necessariamente melhor. Para saber se algo foi um sucesso ou um fracasso é preciso um tempo muito grande. Mesmo o que é sucesso agora por se tornar um grande fracasso no futuro. As espécies não estão se aperfeiçoando, estão apenas mudando.

As histórias de outras culturas que tinham o acúmulo por fundamento foram bastante curtas, o que não é bom sinal para nós. É muito difícil manter um sistema que depende de cada vez mais complexidade. É como fazer um castelo de cartas. Nossa cultura exige cada vez mais esforço apenas para continuar em pé. Nós até mesmo sabemos que isso não vai durar para sempre: chamamos esse evento de "fim do mundo". Mas a idéia pressuposta nisso é que nossa cultura é a humanidade, logo o fim de nossa cultura só poderá ser o fim do mundo.

Tendemos a ver tudo que está fora de nossa história como irrelevante. É como se tudo fosse um prelúdio para nossa história, tudo aconteceu para que nós surgíssemos. Essa crença no destino humano impede qualquer tentativa de compreender a história humana como algo natural.

Há uma solução para nossa cultura? Podemos mudar nossa história futura? A especialidade de nossa cultura é o acúmulo, e o acúmulo é insustentável, então não podemos nos salvar e salvar esta cultura ao mesmo tempo. Mas podemos mudar de cultura. Podemos criar uma nova cultura assim como criamos as outras. Isto dependerá inteiramente de cada um de nós, seres humanos imersos nesta cultura.

Perfil do Autor

Janos Biro

Nascido em 1980. Filósofo e escritor.