A mulher e a história da matemática através dos tempos

02/06/2010 • Por • 4,161 Acessos

Se por um lado hoje, a maior parte dos profissionais que atuam na área educacional é do sexo feminino, ao pesquisarmos um pouco, perceberemos que a mulher, ao longo do tempo, teve que desatar as amarras de uma sociedade machista e preconceituosa e trilhar um longo caminho em busca da igualdade de direitos frente aos homens.

A partir do momento em que se começa a procurar material disponível para redigir algum trabalho que se trate da mulher, inicia-se o primeiro dilema a ser superado, ou seja, encontrar fontes. Seguindo-se o estudo sobre a mulher e a Matemática percebe-se que ao passo em que se afunila o enfoque do estudo, em se tratando ainda de uma área predominantemente masculina, as buscas por bibliografia se complicam ainda mais.

Refletindo sobre isso, ascendeu-se ainda mais a vontade de dissertar sobre o tema e descobrir, investigar, relatar os percalços, dilemas e o caminho percorrido por profissionais da educação a quem, durante muito tempo, foram renegadas oportunidades de assumirem papéis importantes na sociedade como um todo, especificamente das mulheres professoras de Matemática, que segundo o preconceito da sociedade, não seriam capazes de compreender assuntos tão abstratos e complicados.

Auguste Comte, em 1839 (apud LOBOS, 2004, p.68) dizia que a mulher era despreparada para enfrentar a "(...) intensidade exigida pelo labor mental quer seja pela sua fraqueza intrínseca de raciocínio, ou por questões de moral de vida e de sensibilidade física, ambas hostis à abstração e concentração científica".

Através do Censo dos profissionais do Magistério da Educação Básica realizado em 1997 pelo Inep, onde 1.617.611 professores das redes pública e particular da Educação Básica responderam ao questionário que alcançou mais de 90% da categoria, percebe-se que a atuação das mulheres no ramo da educação, em todo Brasil, é imensamente maior do que a dos homens.

Isso se deve, talvez, pelo fato do papel da mulher na sociedade ter sempre sido ligado às questões maternas, familiares e domésticas, onde esta deveria ser preparada para resignar-se ao ambiente de clausura do lar. Assim, seria como se a carreira do magistério fosse um prolongamento das suas funções no lar, cabendo ao sexo feminino cuidar, ensinar, guiar os alunos pelos caminhos da aprendizagem com paciência, carinho e docilidade. 

Estudos relativos à história da Matemática consolidam o paradigma de que historicamente as mulheres foram impedidas de participarem da vida acadêmica e colaborarem para a produção do conhecimento. A elas foi reservado o papel de mulher do lar, incumbida das funções domésticas. Apenas as mulheres que iam para o convento aprendiam latim e música.

Assim sendo, poucas mulheres conseguiram difundir suas pesquisas, estudos ou simplesmente se fazerem ouvir na época em que viveram. Com relação à essas poucas mulheres que se destacaram no cenário da Matemática, pode-se dizer que representaram uma exceção.

Na antiguidade, na Grécia, destacou-se os estudos de Hipátia, filha de Teon, que dedicou-se, além da Matemática, à Medicina e à Filosofia sendo a primeira mulher a constar na história da Matemática por seus estudos na área da aritmética  e secções cônicas.

Na universidade de Alexandria, passou a lecionar Matemática e Filosofia atraindo muitos alunos. Defendia o paganismo contra o cristianismo, dedicando-se ao estudo de várias religiões, sendo considerada herege. Assim, um dia, quando voltava para casa, foi arrancada de sua carruagem, onde arrancaram-lhe os cabelos, descarnando-a e colocando fogo sobre o seu corpo. "Com a morte de Hipatia, a histórica da matemática passa por um vazio de 12 séculos sem que uma mulher seja registrada, contudo, devemos levar em consideração que, segundo Morais Filho (200-), muitas mulheres trabalharam auxiliando alguns homens em trabalhos matemáticos, dos quais podemos citar Viète, Descartes e Leibniz."

No século XVIII, destacaram-se Maria Gaetana Agnesi, nascida em Milão. Com apenas nove anos de idade teve seu discurso em latim, que defendia a educação superior para mulheres, publicado. Seu pai era professor de Matemática na universidade de Bolonha e a incentivava. Tanto que aos vinte anos publicou Propositiones Philosophicae, uma coletânea de 190 ensaios de matemática, lógica, mecânica, hidromecânica elasticidade, gravitação, etc.

 Após a morte de seu pai, em 1752, abandonou a vida acadêmica e se dedicou a religião. Fundou uma casa de caridade e ali trabalhou até sua morte, em 1799, com 81 anos de idade.Agnesi ficou conhecida por uma curva de 3º grau chamada "Curva de Agnesi". Muitos nunca souberam que Agnesi se tratava de uma mulher.

 Sophie Germain nasceu em Paris em 1776. Vivia confinada na biblioteca da família a estudar. Decidiu estudar matemática após ler a história da morte de Arquimedes, o qual foi morto por soldados quando absorto desenhava figuras geométricas na areia. Autodidata do latim e do grego estudou trabalhos de Newton e Euller.

Por ser mulher, não pode estudar a Escola Politécnica de Paris, contudo conseguiu algumas notas de aula de Análise que Lagrange ministrara lá, e sob pseudônimo de M. Le Blanc, enviou notas de Análise que havia escrito para ele, o qual ficou impressionado com o escrito e, a partir daí, tornou-se mentor matemático de Blanc.

Sophie se comunicou com muitos cientistas, entre os quais podemos citar Legendre e Gauss. Na invasão de Napoleão Hannover, próximo de onde Gauss estava, Sophie conseguiu contato com um General do Exército amigo da família e conseguiu que Gauss fosse protegido. Gauss não entendeu nada, já que não conhecia nenhuma Mademoiselle Germain. Após ser esclarecido dos fatos, Gauss escreveu uma carta de agradecimento a Sophie e tentou persuadir a Universidade de Göttingen para conceder-lhe um doutorado honoris causa, contudo ela morreu antes que isso pudesse acontecer.Sophie também resolveu alguns casos particulares do "Ultimo Teorema de Fermat".

Nascida na Escócia, em 1780, Mary Fairfax Greig Somerville teve seu primeiro contato com uma escola aos 10 anos, onde aprendeu o necessário para uma mulher da época. Contudo, Somerville, curiosa para saber o que eram aqueles símbolos que apareciam nas revistas de moda feminina, apenas descobriu que se tratava de uma aritmética que usava letras ao invés de números.  Por intermédio de seu irmão mais novo, conseguiu um exemplar dos Elementos de Euclides e um exemplar da Álgebra de Bonnycastle.

Mesmo com a indignação do pai em estudar matemática, Somerville estudou Newton e Laplace, entre outros. Foi a primeira mulher a ser admitida na Sociedade Real Inglesa de Astronomia.  Morreu em 1872, com 92 anos de idade quando estava analisando um problema de Álgebra Abstrata.

Sofia Vasilyevna Kovalevskaja foi a primeira mulher a ser nomeada para a Academia de Ciências da Russia. Nasceu em 1850 em Moscovo, na Russia. Atuou como professora em Estocolmo, sendo que, quando aluna, assitia aulas informalmente na Universidade de Moscovo, a qual não aceitava matricular mulheres na época.

Em Berlim, estudou com Karl Weierstrass e ao retornar a Russia, passou por dificuldades financeiras, quando seu marido se suicídou. Após cinco anos de afastamento, e dois anos alocada na Academia de Ciências da cidade, foi convidada para lecionar na Universidade de Estocolmo.

Suas principais contribuições foram nas áreas de derivadas parciais e funções abelianas.

Nascida em Erlangen, na Alemanha, em 1882, Emmy Noether era filha de um professor de matemática, foi umas das maiores matemáticas da época se destancando principalmente na área de algebra moderna.

Emmy obteve permissão para frequentar as aulas, primeiro em Erlangen e depois em Göttingen. Foi a segunda mulher a obter um doutorado, após Sofia apenas. Sua tese abordou a teoria dos invariantes aplicada ao teorema de Hilbert. Foi admitia no corpo docente dos quadros de Göttingen em 1919, após muita insistência por parte de Hilbert e dos outros matemáticos da universidade.

No Brasil, na década de 40, foi instituído na USP o grau de doutor, no caso da Matemática, o grau de doutor em Ciências por meio de concurso. Neste período, foram poucos os que ali se doutoraram, mas dentre estes poucos, pode-se destacar a primeira mulher brasileira a obter o grau de doutora em Matemática: a professora Elza Furtado Gomide em 27 de novembro de 1950. Sua tese intitulada "Sobre o teorema de Artin-Weil, na área de Análise Matemática foi orientada pelo professor Omar Catunda, discípulo de Luigi Fantappié.

 Atualmente muito se fala sobre a participação ativa das mulheres em todos os setores da economia e do trabalho, sendo que muitas delas tem se dedicado a profissões historicamente marcadas pela presença essencialmente masculina.

As mulheres enfrentaram e ainda enfrentam  muitos preconceitos, mas hoje já provam que, ao contrário do que dizia a sociedade, são sim capazes de desempenharem funções importantes, com dedicação, empenho e principalmente competência 

Perfil do Autor

Elisandra Cristina Gonzales

Professora de Matemática efetiva do Estado de Mato Grosso. Pós graduanda em Matemática no contexto educativo, comercial e financeiro.