A Revolução Francesa

21/06/2009 • Por • 14,067 Acessos

Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC

Centro Sócio Econômico – CSE

Departamento Ciências Econômicas

Relações Internacionais

História das Relações Internacionais

Acadêmicos: Júlio Silva, Mateus Batista, Sérgio Costa.

 

 

1 – Introdução

 

Decorridos mais de dois séculos do estopim da Revolução Francesa, suas heranças permanecem vivas na estrutura da sociedade hodierna. Podem não se apresentar de imediato aos nossos sentidos, mas ao perscrutar as mais variadas esferas de atividade humana, nossa condição de legatários diretos ou indiretos é evidente.

O estudo desenvolvido a seguir surge com o fito de fundamentar essa assertiva. A análise da Revolução Francesa permite transcender as implicações territoriais do conflito, visto que foi o epicentro de algo muito maior; foi a manifestação incontível de um longo processo de condensação de conjunturas sociais críticas. Na França, contudo, essa convergência de fatores foi potencializada e precipitada por um complexo conjunto de situações que culminaram na eclosão de um esquisito movimento revolucionário.

Além dessa reflexão de ordem casuística do pioneirismo francês na concretização revolucionária, procurar-se-á explorar as questões motivacionais e que instilaram essa transformação política e social. Nesse sentido, o estudo naturalmente expandir-se-á para além das peculiaridades francesas, situando a motricidade dos ideais da Revolução como imanentes ao corpo intelectual da época.

Complementando esse raciocínio, uma breve explanação sobre conceitos como liberdade e democracia sob a perspectiva da Revolução será pertinente para mais abrangente assimilação do contexto.

 

2 – Razões locais

 

A análise endógena da sede principal da Revolução (França) servirá como ponto de partida para posterior compreensão do que realmente se exprimiu com a efetivação do movimento.

“O conflito entre a estrutura oficial e os interesses estabelecidos do velho regime e as novas forças sociais ascendentes era mais agudo na França do que em outras partes” (HOBSBAWM, 2008, p. 86). Essa passagem resume a condição francesa à época pré-revolucionária. A tensão social que ali se estabelecia estava próxima de seu limiar, equilibrada tão-somente pela tênue incerteza do que se veria a seguir.

Esse estado de conflito potencial se transformaria, segundo Hobsbawm, em conflito efetivo após o que chamou de “reação feudal”. Este haveria consistido na tentativa da nobreza em reaver sua condição privilegiada como classe dominante. Desde o declínio do sistema feudal, a burguesia havia conquistado diversos nichos na direção e administração dos assuntos estatais, já que adquirira crescente importância com o desenvolvimento das relações comerciais. Os nobres, portanto, pareciam não pertencer à nova sociedade que se vislumbrava, e nesse período de desesperada transição lançaram mão do único artifício de que dispunham: “Era portanto natural que os nobres usassem seu bem principal, os privilégios reconhecidos” (HOBSBAWM, 2008, p. 88). A invasão dos setores administrativos foi realizada com sucesso, o que promoveu a exaltação dos atritos com a classe média.

Mas a polarização ainda não estava completa. A década que antecedeu a Revolução foi também de profunda crise econômica. Dessa forma, o ônus recaía sobre a parcela mais pobre da população; e o contraste exacerbado entre a extremada penúria de um lado, e a crescente ostentação de outro foi apenas um dos motivos que exasperaram os ânimos do Terceiro Estado (do campesinato, particularmente) contra esse feudalismo fora de época.

O golpe final, entretanto, que conduziu a esse estado de coisas, foi o envolvimento da França na guerra de independência estadunidense: “A vitória contra a Inglaterra foi obtida ao custo da bancarrota final, e assim a revolução americana pôde proclamar-se a causa direta da Revolução Francesa” (HOBSBAWM, 2008, p. 89).

Hobsbawm, então, expõe sucintamente que:

 

 “a Revolução começou como uma tentativa aristocrática de recapturar o Estado. Esta tentativa foi mal calculada por duas razões: ela subestimou as intenções independentes do Terceiro Estado – a entidade fictícia destinada a representar todos os que não eram nobres nem membros do clero, mas de fato dominada pela classe média – e desprezou a profunda crise socioeconômica no meio da qual lançava suas exigências políticas.” (HOBSBAWM, 2008, p. 90).

 

3 – Internacionalismo consensual

 

Contextualizada a situação específica da França, a apreensão das motivações filosóficas, dos instrumentos intelectuais e do cosmopolitismo de seus ideais será facilitada. A concreção deste movimento e sua repercussão internacional é inclusive alvo de reflexão para Hobsbawm, o qual afirma que “a política européia (ou mesmo mundial) entre 1789 e 1917 foi em grande parte a luta a favor e contra os princípios de 1789, ou os ainda mais incendiários de 1793” (HOBSBAWM, 2008, p. 83). Alude, também, ao fato de a Revolução ter representado a mais contundente “revolução democrática” entre as demais de sua época. Nota-se, assim, que a Revolução Francesa, embora tenha sido o maior expoente desse momento histórico, não consistiu em seu único exemplo. É-se pertinente, portanto, ponderar acerca dessa onipresença ideológica em uma época tão restrita em termos de relações interestatais.

Para Tocqueville, o grande ineditismo da Revolução Francesa foi justamente sua não limitação a um território específico, à maneira de todas as outras revoluções civis e políticas até então. Dessa forma, compara-a às revoluções religiosas, ou seja, na França o movimento foi capaz de desvincular-se dos particularismos, promovendo uma ubiqüidade ideológica semelhante àquela só encontrada em religiões.

 

 “A Revolução Francesa agiu em relação a este mundo exatamente como as revoluções religiosas operam em relação ao outro. Tem considerado o cidadão de uma maneira abstrata, fora de qualquer sociedade particular, da mesma maneira como as religiosas consideram o homem em geral, independentemente do país e da época. Não pesquisou tão-somente qual era o direito particular do cidadão francês mas também quais os deveres e direitos e direitos gerais do homem em matéria pública (...) Como parecia aspirar mais ainda à regeneração do gênero humano que à reforma da França, acendeu uma paixão que as revoluções políticas as mais violentas jamais conseguiram produzir até então”. (TOCQUEVILLE, 1989, p. 60)

 

 Ou como coloca Hobsbawm:

 

“Para os franceses, bem como para seus numerosos simpatizantes no exterior, a libertação da França era simplesmente o primeiro passo para o triunfo universal da liberdade. (...) uma inabilidade genuína para separar a causa da nação francesa daquela de toda a humanidade escravizada.” (HOBSBAWM, 2008, p. 99)

 

Aqui se faz uma ressalva a respeito do âmbito propício à absorção destes conceitos, que permitiu torná-los exeqüíveis.

Em meio a este cenário claramente universalizante, distinguem-se algumas características próprias do movimento francês. Tocqueville aponta o esmero dispensado ao ataque à Igreja, apesar de não ser este o objetivo fundamental da Revolução. Conforme esse autor, a essência revolucionária consiste na inauguração de princípios sociais, e a aversão religiosa seria apenas mais uma de suas faces:

 

“foi muito menos como doutrina religiosa que como instituição política que o cristianismo acendeu estes ódios furiosos; não porque os padres pretendiam fixar as coisas do outro mundo, mas porque eram proprietários, senhores, dizimadores, administradores neste mundo; não porque a Igreja não podia tomar um lugar na nova sociedade que se ia fundar, mas porque ocupava então o lugar mais privilegiado e mais forte nesta velha sociedade que era preciso reduzir às cinzas”. (TOCQUEVILLE, 1989,  p. 55/56)

 

4 – Liberdade e igualdade

 

Algumas considerações atinentes aos conceitos revolucionários de liberdade devem ser feitos. Apesar de esta ser uma temática largamente abordada desde os filósofos gregos (na constituição inclusive daquilo que conhecemos por política), a Revolução legou alguns preceitos nos quais a sociedade atual está profundamente arraigada.

A começar pela conotação fundamentalmente burguesa da Revolução. Alicerçados sobre a filosofia liberal clássica, seus interesses foram expressos na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Conforme elucida Hobsbawm:

 

 “Este documento é um manifesto contra a sociedade hierárquica de privilégios nobres, mas não um manifesto a favor de uma sociedade democrática e igualitária. (...) no geral, o burguês liberal clássico de 1789 (e o liberal de 1789-1848) não era um democrata mas sim um devoto do constitucionalismo.” (HOBSBAWM, 2008,  p.  91).

 

Essas garantias são típicas dos ideais individualistas da época que, segundo Tocqueville, foram convenientemente apropriados pela esfera política com o intuito de estabelecer uma fachada superficialmente igualitária para facilitar o exercício do poder. Não à toa, o radicalismo e a democracia foram contidos na fase da Assembléia Constituinte, sucedidos pela extrema vertente revolucionária jacobina – “Foi a primeira Constituição genuinamente democrática proclamada por um Estado moderno” (HOBSBAWM, 2008, p.  104) –, e novamente reprimidos em menor e maior grau.

É válido atentar para o fato de que a Revolução Francesa foi um verdadeiro palco experimental para as diversas formas de governo, corroborando com os desdobramentos apontados pelo pensado romano Cícero, em Da República.

 

5 – Conclusão

 

A partir dessas ponderações, é difícil caracterizar a Revolução Francesa como um movimento necessariamente extemporâneo. Seu desenrolar foi profundamente marcado e alimentado por ideais cosmopolitas, com poucas limitações de cunho territorial (excetuando-se as causas diretas que instigaram o conflito naquele país).

Destarte, suas conseqüências reverberaram indubitavelmente no tempo e no espaço. Noções como as de nacionalismo e patriotismo; experiência de comunhão maciça na luta por objetivos comuns; princípios sobre os quais todo um modelo social foi erigido; até mesmo a constituição de um novo formato de disputas são exemplos de alguns de seus legados.

Foi um momento da história que se estabeleceu como um verdadeiro axioma. Não se restringiu a esferas específicas da interferência humana e serviu de base e referência para muitas outras agitações civis e políticas. Inclusive no Brasil.

 

Referências Bibliográficas

 

CÍCERO, Marco Túlio. Da República. São Paulo: Editora Escala.

 

HOBSBAWM, Eric J.. A Era das Revoluções: A Revolução Francesa. São Paulo: Paz e Terra, 2008. Cap. 3, p. 83-113.

 

TOCQUEVILLE, Alexis de. O Antigo Regime e a Revolução. 3. ed. São Paulo: Hucitec, 1989. p. 43-68.

 

 

 

 

 

 

 

 

Perfil do Autor

Sérgio Costa

Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina(UFSC).