AS TRÊS GRANDES CORRENTES DA LINGUÍSTICA MODERNA: ESTRUTURALISMO, FUNCIONALISMO E GERATIVISMO

Publicado em: 14/11/2010 |Comentário: 2 | Acessos: 16,346 |

GERATIVISMO, ESTRUTURALISMO E FUNCIONALISMO

A lingüística pode ser conceituada como uma ciência que estuda a linguagem. O desenvolvimento desta ciência e a maneira de entender como funciona a linguagem, além dos mecanismos de formação e evolução das línguas faladas, criou a base para o surgimento de pesquisas e teorias acerca do assunto.  Várias correntes, cada uma com suas peculiaridades, surgiram com o intuito de estudar cientificamente a linguagem, entre elas destacam-se: o estruturalismo, o funcionalismo e o gerativismo.

As ideias desenvolvidas por Wilhelm Von Humboldt consistiam em que a língua era um organismo vivo, uma manifestação do espírito humano, era atividade e não um ato. Essa concepção estruturalista do estudioso foi precursora do estruturalismo linguístico de Ferdinand de Saussure.  O estruturalismo não utilizava mais o método comparativista, abandonava-se então a descrição histórica da língua e enfatizou-se o estudo da linguagem em si mesma e seu caráter social.

A lingüística de Saussure deu o "pontapé" inicial para que os estudiosos desenvolvessem novas pesquisas e teorias. Assim surgiu a base do funcionalismo, a Escola de Praga, de 1926, que era formada pelos lingüistas russos, Serguei Karcevski, Nikolai Trubetskoi e Roman Jakobson, entre outros, tendo os dois últimos como os principais expoentes da corrente. O funcionalismo, pois, nasceu com a necessidade de conceituar a fonologia e sua importância no sistema da língua, e ainda enfatizaram a importância de distinguir a fonética da fonologia. Os funcionalistas da Escola de Praga, em principal Nikolai Trubetskoi, definiram também o fonema como sendo uma unidade mínima do significante presente no plano da língua, além de definir o conceito de traços pertinentes, distintivos ou funcionais dos fonemas.

Uma outra corrente, ainda ativa atualmente é a corrente gerativista, que teve início nos Estados Unidos, com o pensamento do linguista norte-americano Noam Chomsky. O estudioso propunha uma gramática universal que explicasse o funcionamento das estruturas lingüísticas da aquisição e a capacidade de uso da língua através do estudo das faculdades mentais. Eis o papel do gerativismo: "constituir um modelo teórico capaz de descrever e explicar a natureza e o funcionamento dessa faculdade [mental]" (KENEDY, 2008, p. 129).

ESTRUTURALISMO

A corrente lingüística do estruturalismo teve seu marco inicial no século XX quando o linguista Ferdinand de Saussure publicou o Cours de Lingüistique

Générale em 1916, uma obra publicada após a sua morte, que foi elaborada por alguns de seus alunos. A referida obra póstuma reacendeu discussões acerca da distinção entre língua e fala; forma e substância; a noção de pertinência; e as noções de significante, significado e signo.

Vale salientar algumas das distinções suscitadas por Saussure, no ponto de vista de Maurice Leroy (1971): a primeira delas é a distinção entre língua (langue) e fala (parole), a língua é a parte social da linguagem em que o indivíduo falante não pode modificá-la, sendo um fenômeno externo a ele; e a fala, diz respeito ao ato linguístico particular psicofisiológico de cada um. Sobre o signo lingüístico, Saussure (1969, p. 18) diz que "a língua é conhecida como um sistema de Signos"; ele faz uma conexão entre um significante (imagem acústica) e um significado (conceito), cuja relação de ambos define-se em termos paradigmáticos e sintagmáticos. E finalmente, uma das principais discussões suscitadas pelo linguista, foi a proveniente da distinção entre o estudo sincrônico de uma língua, que consiste na descrição da estrutura de uma língua em certo momento no tempo; e o diacrônico, que nada mais é do que a descrição histórica de uma língua, que leva em consideração os diversos estágios sincrônicos dessa mesma língua. Saussure, portanto, considerou mais importante os estudos sincrônicos, pois, acreditava ele, que o estudo sincrônico da língua revelava sua estrutura essencial, para o linguista: "A língua é um sistema em que todas as partes podem e devem ser consideradas em sua solidariedade sincrônica" (SAUSSURE, 1969, p.102). Foi então a partir dessa predileção pelos estudos sincrônicos da linguagem que se baseou a linguística estruturalista. Para Saussure, portanto,

 

"a língua não é um conglomerado de elementos heterogêneos; é um sistema articulado, onde tudo está ligado, onde tudo é solidário e onde cada elemento tira seu valor de sua posição estrutural" (SAUSSURE apud LEROY, 1971, p. 109)

 

Em síntese, Saussure propôs a apreensão de toda a língua como um sistema, dentro do qual cada um de seus elementos não são definidos, a não ser pelas relações de equivalência ou de oposição que mantém com os demais. Esse conjunto de relações formam a "estrutura" de uma língua. Isto posto, Émile Benveniste (1974, p. 8), que baseou sua obra Problèmes de linguistique générale na obra de Saussure, o referido autor aponta como um fato curioso, que no Cours de Lingüistique Générale a palavra "estrutura" não aparece na referida obra. Ainda segundo o autor francês, "o estruturalismo é a suposição de que se pode estudar uma língua como uma estrutura".

Outro importante lingüista estruturalista é o norte-americano Leonard Bloomfield, considerado o fundador do estruturalismo nos Estados Unidos da América, tendo como marco a publicação do seu livro Language em 1933, onde estão presentes as ideias de Saussure. Segundo Giulio Lepschy, o estruturalismo de Bloomfield era muito analítico e descritivo dando enfoque no estudo da sintaxe e da morfologia, partindo da frase como uma unidade máxima analisável. O lingüista empregou métodos de "dissecar" os seus elementos constituintes até chegar à unidade mínima de significado e indivisível, o morfema. Isto posto, Bloomfield influenciou muitos lingüistas norte-americanos a dedicarem-se aos aspectos formais dos fatos lingüísticos.

FUNCIONALISMO

O funcionalismo era uma corrente lingüística que encarava a linguagem como sendo um recurso a ser utilizado na interação social entre os falantes de uma língua.

O seu surgimento data de 1926, com a fundação do Circuito Linguístico de Praga que teve seu impulso inicial com o estruturalismo de Ferdinand de Saussure, contando com a contribuição dos linguistas Trubetskoï e Roman Jakobson, entre outros, sendo os dois citados, os que mais se destacaram. Segundo o Professor Silvio Profirio da Silva (2010), em seu artigo O Funcionalismo e suas contribuições para o ensino da língua, Nikolai Trubetskoi, enfatizou seus estudos na diferenciação entre a fonologia e a fonética. Para Trubetskoi, os sistemas fonológicos (fonemas) possuem funções ou traços distintos entre si, tais como:  os traços pertinentes, traços distintivos ou traços funcionais. Já a contribuição de Roman Jakobson, deu-se no fato da formulação de um esquema de elementos da comunicação e posteriormente, desenvolveu as funções da linguagem atreladas às finalidades comunicativas.

A Escola de Praga, como foi designada posteriormente, também recebeu a importante contribuição do psicólogo, Karl Bühler, que desenvolveu uma teoria acerca das funções da linguagem. Ainda segundo o professor Silvio Profirio da Silva, para Bühler, havia três funções no ato da comunicação: a expressiva, a informativa e a estética. Jakobson, posteriormente, fez sua contribuição adicionando novos conceitos e elementos ao processo comunicativo, como as noções de referente, emissor e receptor, e o canal, o código e a mensagem. Jakobson manteve as três funções anteriormente desenvolvidas por Bühler, porém deu uma nova nomeação: função referencial,   função emotiva e função conativa, acrescentando ainda mais três funções: fática, metalingüística e poética.

A título de exemplo, uma das noções desenvolvidas na Escola de Praga, foi a noção de marcação, que nas palavras de Barbara Weedwood conceitua-se:

 

"Quando dois fonemas são distinguidos pela presença ou ausência de um único traço distintivo, diz-se que um deles é marcado e o outro, não-marcado para o traço em questão" (WEEDWOOD, 2002, p. 141)

 

Isto posto, na língua portuguesa o feminino é a forma marcada, e o masculino é tratado como uma forma neutra. A autora utiliza o exemplo entre égua e cavalo, sendo a primeira a forma marcada e o segundo a forma não-marcada. Este, segundo Weedwood, é o sentido mais abstrato da marcação em que a presença ou ausência de um afixo explícito não é necessário, como no caso do verbo regular jump em inglês e sua forma no passado: jumped. Neste último caso o primeiro é a forma marcada e o segundo a não-marcada.

Ainda segundo Barbara Weedwood, a principal contribuição do funcionalismo à ciência da lingüística, no período do pós-guerra, foi a distinção entre tema e rema, e a noção da "perspectiva funcional" da frase ou "dinamismo comunicativo" que é a forma  de como a função comunicativa se relaciona com o contexto de um enunciado, determinando assim a estrutura sintática de uma frase. O tema pode ser entendido como tópico ou assunto psicológico; e o rema "é a parte que veicula informação nova".

O funcionalismo, pois, concebe a linguagem como um recurso que proporciona a interação social, permitindo aos indivíduos relacionarem-se e expressarem-se uns com os outros validamente.

A citação a seguir expressa de forma muito clara a visão funcionalista da linguagem:

 

"A linguagem não é simples emissão de sons, nem simples sistema convencional, como quer um certo positivismo, nem tampouco tradução imperfeita do pensamento, vestimenta de idéias mudas e verdadeiras como a concebe um pensamento idealista. Pelo contrário, é criação de sentido, encarnação de significação e, como tal, ela dá origem à comunicação (LEITE apud SILVA, 2010).

GERATIVISMO

A corrente de estudos lingüísticos denominada gerativismo, teve seu início a partir dos trabalhos do lingüista Noam Chomsky. Ela foi inicialmente formulada como uma oposição e rejeição ao modelo behaviorista da linguagem. Modelo este embasado na premissa de que a linguagem "era um fenômeno externo ao indivíduo, um sistema de hábitos gerado como resposta a estímulos e fixado pela repetição" (KENEDY, 2008, p. 128). Ou seja, a linguagem, para os behavioristas, nada mais era do que um fenômeno dependente do condicionamento social, proveniente da interação social entre os falantes de uma língua. Chomsky, criticando a visão condicionada da linguagem, afirmou que todo ser humano era um ser criativo, capaz de construir frases e ideias novas, jamais proferidas antes, e também aplicando em sua fala regras gramaticais informais.

Ao contrário dos behavioristas, que afirmavam ser a linguagem um fenômeno externo, Chomsky afirmou ser ela um fenômeno interno do falante, uma capacidade genética. Esta capacidade inata foi denominada como faculdade da linguagem. Portanto,

 

"o papel do gerativismo no seio da lingüística é constituir um modelo teórico capaz de descrever e explicar a natureza e o funcionamento dessa faculdade, o que significa procurar compreender um dos aspectos mais importantes da mente humana." (KENEDY, 2008, p. 129).

 

Ou seja, é a partir do gerativismo que as línguas deixam de ser interpretadas como sendo resultantes da interação ou comportamento social, e passam a ser encaradas como uma faculdade mental natural, permitindo aos humanos desenvolver uma competência lingüística.

Segundo Kenedy, no livro Manual de Lingüística, de Martelotta (org.),  os gerativistas vêm elaborando diversas teorias com o intuito de explicar o funcionamento da linguagem na mente humana, procurando analisar a linguagem de uma forma matemática e abstrata, aproximando-se da linha interdisciplinar com as ciências cognitivas (estudos da mente humana). A partir daí, foram construindo-se os modelos teóricos chomskyanos do gerativismo: a gramática transformacional e a gramática universal.

O primeiro modelo teórico elaborado foi o da gramática transformacional ou a gramática como sistema de regras que foi desenvolvido entre as décadas de 60 e 70 do século XX. Chomsky defende que todo ser humano carrega uma gramática internalizada, uma gramática própria que se desenvolve tomando com o tempo uma forma. Como por exemplo, uma criança que observa a fala de um adulto, ela assimila e cria as próprias regras ao falar em repetição ao que foi observado, ela internaliza a fala do adulto que serviu como um modelo de regras para a aquisição de sua própria linguagem. Os behavioristas acreditavam que isso era um processo de imitação externo, porém os gerativistas afirmam que esse fenômeno nada mais é do que uma gramática interna que cada falante de uma língua possui dentro de si, em sua mente, que se desenvolve e toma forma com o tempo. Os gerativistas também procuram compreender como ocorre na mente dos falantes de uma língua a intuição sobre as estruturas sintáticas. É um conhecimento implícito em que o falante distingue frases gramaticais e agramaticais, mesmo sem utilizar os conhecimentos da gramática normativa. Esse conhecimento inconsciente que o falante possui é denominado pelos gerativistas de competência lingüística que "é o conhecimento tácito das regras que governam a formação de frases da língua". (KENEDY, 2008, p. 133)

No início dos anos 80 houve uma evolução na corrente gerativa, em que a competência lingüística deu lugar à hipótese da gramática universal, que deve ser entendida como:

 

"o conjunto das propriedades gramaticais comuns compartilhadas por todas as línguas naturais, bem como as diferenças entre elas que são previsíveis segundo o leque de opções disponíveis na própria GU". (KENEDY, 2008, p.135);

 

Dessa forma, a gramática universal é formada por regras (princípios) invariáveis que são aplicáveis do mesmo modo para todas as línguas, e também possuindo "parâmetros de variação, responsáveis por especificar propriedades variáveis de línguas particulares." (BERLINCK, AUGUSTO e SCHER, 2001, p. 214).

A lingüística gerativa propõe-se, então, a comparar as línguas humanas, levando em consideração diversos fenômenos ocorrentes nas línguas, como por exemplo, os fenômenos morfofonológicos e sintáticos, "com o objetivo de descrever os princípios e os parâmetros da gramática universal que subjazem à competência lingüística dos falantes, para assim, poder explicar como é a faculdade da linguagem (...)". (KENEDY, 2008, p. 138).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estruturalismo de Saussure foi um grande corte com as tradições lingüísticas anteriores, ampliando os conhecimentos dos lingüistas que assim tiveram novos subsídios teóricos para formular seus próprios métodos. Como foi o caso da Escola de Praga, berço do funcionalismo, que a partir das ideias de Saussure acerca da língua e a dicotomia entre sincronia e diacronia, houve a necessidade de descrever a ciência dos sons da língua. Já o gerativismo de Chomsky focou outro âmbito da ciência da lingüística, aproximando-se da interdisciplinaridade, em que a mente humana passou a ser objeto de estudo da linguagem.

As corrente teóricas acerca da lingüística moderna foram de grande valia para a elucidação do fenômeno humano que é a linguagem. Cada corrente estabeleceu novos métodos de análise e estudo dentro da ciência da lingüística, complementaram-se ou oporam-se entre si, exercendo ainda hoje um papel de suma importância no estudo da linguística atual.

 

 

REFERÊNCIAS

 

BENEVISTE, É. Problèmes de linguistique générale.Paris: Gallimad, 1974.

BERLINCK, R. A. ; SCHER, A. P. ; AUGUSTO, M. . Sintaxe. In: Fernanda Mussalim; Anna Christina Bentes. (Org.). Introdução à Lingüística. 1 ed. São Paulo: Cortez, 2001, v. 1, p. 214 e 215.

KENEDY, E. Gerativismo. In: Mario Eduardo Toscano Martelotta.(Org). Manual de lingüística. São Paulo: contexto, 2008, v.1, p.127-140.

LEPSCHY, C. G. A lingüística estrutural. São Paulo: Perpectiva, 1975.

LEROY, M. As grandes correntes da lingüística moderna. Rio de Janeiro: Cultrix, 1971.

SAUSSURE, F. de. Curso de lingüística geral. São Paulo: Cultrix, 1969.

SILVA, S. P. O Funcionalismo e suas contribuições para o ensino da língua. Disponível em http://www.soartigos.com/articles/4838/1/O-FUNCIONALISMO-E-SUAS-CONTRIBUICOES-PARA-O-ENSINO-DA-LINGUA/Invalid-Language-Variable1.html. Acesso em 23/09/2010

WEEDWOOD, B. História Concisa da Lingüística. São Paulo: Parábola, 2002.

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    Comments on this article

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    wanderson 28/06/2011
    Seria bom se todos nós falante da Lingua Portuguesa,à valorizase como realmente deveria.Respeitando as diferencas e agregarando valor onde uns com outros.
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    Mariana 19/02/2011
    òtimo atigo!
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