Breve Considerações Sobre Identidade Social De Gênero E O Exercício Da Sexualidade

Publicado em: 25/10/2008 | Comentário: 0 | Acessos: 2,076

O  conceito de identidade de gênero ancora-se na noção de que o indivíduo, ao longo do seu desenvolvimento físico e psíquico, com base nas mais diversas instituições e ações sociais, se  constitui como homem e mulher, em etapas que não são seqüenciais, contínuas ou  iguais e que também nunca serão concluídas. A cultura é um campo de conflito e capaz de produzir múltiplos sentidos e que nem sempre esses são convergentes nas noções de masculinidade e de feminilidade. A forma como o feminino e o  masculino projetam-se socialmente, está diretamente ligada a outras categorias: classe, raça/etnia, faixa etária, orientação sexual, religião,  nacionalidade. Assim sendo, cada um desses arranjos produz alterações nos modelos pelos quais as feminilidades ou as masculinidades são expressas nos  diferentes momentos da vida dos indivíduos.



Portanto, o centro da identidade social de gênero é resultado destes itens: 1) Fatores biológicos, quais sejam os embriológicos e centros do sistema nervoso central; 2) Anatomia genital, a qual comprova aos pais que eles têm uma menina ou um menino; 3) Transferência do sexo e educação, incluindo atitudes da sexualidade em direção ao que é ser do sexo masculino e do feminino. Vale notar que papéis sociais distintos para homens e mulheres nem sempre levam às diferenças de gênero que devem ser consideradas construções culturais, ou seja, imagens que a sociedade constrói através da vida social, da educação e da socialização, e que definem o que se acredita ser próprio do homem e próprio da mulher.



Se a identidade de gênero é o sentimento interno de masculinidade e de feminilidade ou de comportamento sexual, que pode ser definido como tudo o que fazemos para abrir nosso ego e aceitação como homem ou mulher para os outros, é o comportamento interno que nos identifica. São atitudes, padrões de comportamentos e atributos de personalidade definidos pela cultura na qual as pessoas vivem papéis estereotipadamente masculinos e femininos. O ambiente familiar e cultural irá moldar o papel de gênero. A identidade social de gênero é construída nas relações que cada um estabelece com a família e com a sociedade, à qual se soma a percepção que se vai adquirindo do próprio corpo. Refere-se ao conjunto de sensações internas que estão presentes em cada indivíduo e que o fazem sentir que pertence ao gênero masculino ou feminino, que é homem ou mulher. A identidade de gênero não se estabelece com o nascimento, mas é construído pelas experiências cumulativas (planejadas ou não), e por instruções explícitas e mais freqüentemente, instruções implícitas.



Aprendemos a desenvolver nossa identidade social de gênero e o exercício na sexualidade através de duas fontes maiores de informações; alguma delas é comumente aprendida de uma maneira formal, através da escola e dos pais. Uma grande influência é exercida pelo sistema de valores sexuais da família e da comunidade. Esta poderá ser agrupada pelos valores negativos que representam normas públicas e que exercem grande influência sobre aqueles que recebem instrução planejada. As crianças aprendem a ver e a desenvolver as atitudes de seus pais, em direção a muitas facetas de vida, de políticas, de religião e, com grande importância, de sexualidade. Haverá um padrão de repressão e de proibição de tópicos do papel de gênero e da sexualidade por muitos pais. As atitudes das crianças são divididas por estes fatores e as informações do terceiro recurso da aprendizagem desses papéis, o normal do grupo, são filtrados por estes sistemas de valores, dos pais para a criança.



O olhar aprendendo é, provavelmente, o mais penetrativo tipo de aprendizagem da identidade de gênero e da sexualidade e, por outro lado, as práticas sexuais são aprendidas por mudança de atitude, devido às discussões e às experimentações diretas compartilhadas. Tradicionalmente, o homem obtém informações que são só informativos sexuais indiretos. O homem tem uma imagem de um ser auto-sexual, mais do que de um ser sexualizado. As estórias de proezas sexuais podem ser o tópico central nas discussões entre amigos, com mais ênfase nas experiências heterossexuais. O tamanho do pênis torna-se importante e amedrontador e os orgasmos são contados e comparados. O homem aprende a ser o perito, o agressor, o líder no ato sexual. Tradicionalmente, a mulher tem aprendido um papel complementar. Mulheres trocam informações sobre afeições e amor. Se o homem for o perito, há um constrangimento cultural na mulher para limitar seu papel na atividade sexual, desde que ela não seja conhecedora (pelo menos teoricamente) sobre o ato sexual. Se o homem for o agressor, então a mulher deve ser passiva; se ele for o líder, então ela deve ser subserviente.



Muitos problemas relacionados com o exercício da sexualidade humana atrelados aos papéis sóciossexuais estão inerentes nestes estereótipos em que o homem pode se tornar preocupado se não for viril, como definido pelos estereótipos de masculinidade da sociedade e a mulher pode estar preocupada se não se encaixar no conceito corrente de feminilidade. As mudanças de papéis e de relacionamentos na sociedade parecem estar libertando muitos homens da pressão de ser masculino e muitas mulheres dos estereótipos de serem femininas.



A sociedade estabelece hierarquicamente papéis sociais para o homem e para a mulher, nos quais, não raramente, encontramos o homem desempenhando papéis privilegiados. O que a sociedade espera do homem e da mulher é o que se chama de papel sexual. Mas o que é realmente papel sexual? Papel sexual é o modo como as pessoas do mesmo sexo se comportam visto que a sociedade e a cultura de cada povo determinam como homens e mulheres vão desempenhar esses papéis, e quem não segue este padrão, nas mais das vezes não é aceito socialmente. Antigamente, não se admitia que a mulher trabalhasse fora, usasse calças compridas e se maquiasse. Atualmente, muitas desenvolvem trabalhos iguais ao dos homens e se vestem de acordo com a conveniência, condição e ocasião.



Apesar da modernização que a estrutura social sofreu nas últimas décadas, observamos que a educação de meninas e de meninos continua sendo bem diferenciada. Enquanto os meninos são educados na ótica da competição e agressão, as meninas são educadas para serem delicadas e maternas. E, quando chega a adolescência... Para a moça, vem uma série de proibições: não deve sair sozinha, transar com o namorado, nem pensar! ao passo que para o rapaz tudo é permitido e até estimulado: sair sozinho, beber, fumar, voltar para casa no outro dia, ter relações sexuais como maneira de se exercitar na genitalidade. Entretanto, as mulheres vêm reagindo a esta situação e, historicamente pode-se constatar formas de luta contra a suposta inferioridade feminina na sociedade. O movimento feminista, ocorrido mais efetivamente a partir dos anos 60, representa um avanço nesta luta. Porém, apesar das conquistas significativas neste campo, não se chegou ainda à eliminação total desta desigualdade que se manifesta através de formas, muitas vezes sutis, de exploração e discriminação.



As questões de gênero têm estreita relação com valores sociais que por sua vez norteiam a ótica do feminino e do masculino, pois na sociedade moderna percebe-se claramente que mulheres e homens ocupam posições sociais distintas. A identidade social de ambos está constituída por distintos papéis e atribuições, aos quais, precisamente a sociedade a delimita. Desde quando nascemos a nossa socialização é iniciada e o gênero e as questões valorativas guardam ínfimas relações. Aprendemos a valorizar determinados aspectos e a desvalorizar outros, cada qual de acordo com o que for peculiar. Para as meninas, os valores do que são características do feminino e vice-versa para o menino. Dessa maneira ao longo do processo de desenvolvimento são repassadas um conjunto de normas e prescrições que cada sociedade estabelece sobre o que é "feminino e masculino". Mas isso não acontece como aceitação simples e pura dos padrões determinados, mas como forma de questionamento e reconstrução de que seja um e outro.



Quanto à socialização de meninos para agirem na ótica masculina, parece haver uma construção do masculino durante o processo de crescimento e desenvolvimento, uma efetiva "lobotomização" nos meninos que ocorre quando são rompidas as conexões que vinculam os seus sentimentos à família, à escola e ao mundo. E isto acontece de maneira que muitos meninos passam a agir de modo pragmático, preservando valores da virilidade, do ser forte e da dominação. Em contrapartida, no que se refere ao processo de socialização das meninas, o mesmo acontece de maneira a serem desenvolvidas tentativas de ruptura de valores inerentes às racionalidades e as preservações dos aspectos subjetivos, aqueles atrelados aos sentimentos, afetividades, como também o da fragilidade e submissão.



O cotidiano dos meninos nos países do Ocidente e, sobretudo Latino e patriarcal, está permeado por algumas observações, a saber: "menino não abraça nem beija outro menino, só os mancas" ou ainda “menino é forte, demora a adoecer". Nessa concepção eles crescem em meio a estes valores, mas quando na adolescência ou mesmo adultos, quando não se comportam de acordo com este padrão sentem-se e são mencionados como problemáticos em relação ao modelo. Por outro lado, as meninas aprendem alguns valores tais como: "isto é brinquedo de menino" ou “menina é emotiva, pode chorar" ou ainda “menina abraça e beija outra menina”; "menina brinca de casinha de mãe, de esposa, de cuidar”, este último se utilizando de bonecas.



Desde a mais tenra idade homens e mulheres são concebidos como seres diferentes e com papéis sociais de gênero distintos na sociedade a desempenhar. O menino deverá ser ágil, forte, contestador, pois no futuro, quando se tornar homem, irá exercer funções de comando tanto em casa com no trabalho; já a menina deverá ser criada em casa com recato, restrita aos afazeres domésticos, porque é frágil e necessita de cuidados, e por essa razão agirá passivamente, pois depende da proteção dos homens ¾ primeiramente do pai e depois do marido ¾ devendo-lhes obediência.



Assim foi-se diferenciando homens e mulheres segundo os estereótipos femininos e masculinos ditados pele sociedade, na qual o homem é criado para pensar, sua força e vigor físico acrescentam-se a um intelecto forte, a firmeza nas atividades predomina e o leva a predominar sobre a mulher, está menos propenso ao amor, é menos abnegado do que a mulher, é autoritário, vinculado ao sexo, altivo e racional. E quanto à mulher, por ser fisicamente frágil em relação ao homem, é delicada e débil, a inferioridade manifesta-se pela predominância das faculdades afetivas, com imaginação fértil, mas fugaz, indisposta às tarefas intelectuais, aprende a demonstrar sua sensibilidade, doçura, indulgência, submissão e por fim, é criada para sentir e amar, contrapondo ao que é determinado para o homem.



Nesse sentido de subordinação somos herdeiros de uma tradição sociológica que trata a mulher como essencialmente desinteressante e irrelevante, aceitando como necessário, natural e profundamente problemático o fato de que, em toda a cultura humana a mulher de alguma forma é subordinada ao homem. E na sociedade Ocidental e Latina a identidade e papel sexual estão afinados aos estereótipos culturais dos seres, os quais podem ser considerados como fator de manutenção da sociedade. Sociedade esta estruturada no modelo patriarcal onde a mulher é preparada para exercer sua principal função que é ser "dona de casa", "esposa do meu marido e mãe dos meus filhos."  Nesse enfoque, entendemos que essa construção parece haver uma polaridade entre meninas e meninos, entre homens e mulheres e parece que o gênero está sendo tomado em um sentido restrito, como sendo unicamente uma aprendizagem no exercício da sexualidade de papéis feminino e masculino.



Diante do exposto, fica evidente que a sexualidade está intrinsicamente relacionada com a identidade social de gênero que os homens e as mulheres desempenham socialmente. Ela tem sido descrita de várias maneiras, dependendo das crenças e das consultas feitas a literatura por cada autor. As definições podem ser limitadas ou multifacetadas, em todo o seu âmbito. O denominador comum, em todas as definições, é o reconhecimento de que a sexualidade é uma parte intrínseca do nosso ser e muito mais que o ato sexual. Ela é diferente de sexo. É um ato fisiológico e conota a totalidade do ser humano. A dimensão significativa do termo inclui os componentes biológicos, sócio-culturais, psicológicos e éticos do comportamento sexual que está intimamente ligado ao papel sexual.



 Referências



ARAÚJO, E.C. Adoção de práticas de sexo mais seguro de jovens do sexo masculino. (Tese) Doutorado em Enfermagem - Universidade Federal de São Paulo, Escola Paulista de Medicina, São Paulo (SP) 2001, 213f.



ARAÚJO, E.C. Aspectos biopsicossociais na sexualidade dos adolescentes: assistência de enfermagem.  (Dissertação) Mestrado em Enfermagem - Universidade Federal da Paraíba. João Pessoa, 1996, 169.p.



AMÂNCIO, L. Masculino e feminino: a construção social da diferença. São Paulo: Edições Afrontamento, 1994.



BARROSO, C; BRUSCHINI, C. Educação sexual: Debate aberto. Petropólis: Vozes, 1982.



BARBIERI, T. Sobre a categoria de gênero: uma introdução teórico-metodológia. SOS Corpo, Recife: 1992.



BINGERMER, M.C.L.; BRANDÃO, M.L.R. (orgs). Mulher e relações de gênero. São Paulo: Loyola, 1994;



BOURDIEU, Pierre Dominação masculina. Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 1999.


(Artigonal SC #616310)

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    Palavras-chave do artigo:

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    Género

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    identidade

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    Por: Ednaldo Cavalcante de Araújo l Ciências l 18/04/2009 l Acessos: 584
    Ednaldo Cavalcante de Araújo

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    Por: Ednaldo Cavalcante de Araújo l Educação > Ensino Superior l 25/10/2008 l Acessos: 3,269
    Ednaldo Cavalcante de Araújo

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    Por: Ednaldo Cavalcante de Araújo l Educação > Ensino Superior l 25/10/2008 l Acessos: 1,849

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