Fonética versus Fonologia e seus Usos no Contexto Escolar

Publicado em: 02/06/2010 |Comentário: 5 | Acessos: 4,164 |

 

INTRODUÇÃO

Como se sabe, a língua é dinâmica, uma vez que tem o poder de se modificar em razão de vários motivos, sejam intra ou extralingüísticos. Partindo desse pressuposto, dá-se destaque às variações fonéticas sofridas por questões ligadas ao regionalismo. Isso exemplifica-se na pronúncia do vocábulo "porta", por exemplo, que não tem sua grafia alterada, porém, na fala, pode sofrer alterações fonéticas. Segundo Fiorin (2004) "o alfabeto ortográfico já é uma abstração, ninguém escreve como fala" (p. 26).

No artigo ora apresentado, o leitor poderá perceber de forma nítida e detalhada o contraponto e a divergência entre as duas ciências. Em uma analogia veemente, procurou-se destacar pontos relevantes, como o caso de variações no som conforme o exemplo supracitado, e outros fatores cruciais que acentual tal diferença, como classificações e a maneira com a qual esses sons são emitidos e articulados, bem como a perspectiva de estudo e análise desses mesmos sons.

Do ponto de vista fonológico, a abordagem introdutória sobre fonema faz-se necessária, uma vez que é o elemento chave de estudo da Fonologia. Esta informação é pertinente de propormos que a Fonologia tem como prioridade estudar o aspecto sonoro, fonemático, das palavras.

Enquanto isso, em um estágio predominantemente fonético, procura-se informar sobre os sons em um aspecto articulatório, acústico e auditivo, sem esquecer do local do aparelho fonador onde tais sons são produzidos e articulados, dando aos estudos um caráter que gira em torno da própria estrutura física sonora.

A posteriori de um levantamento conceitual extremamente conceitual, onde realça de forma predominante as noções preliminares entre Fonética e Fonologia, é pertinente salientar sobre seu uso e função na escola. Nesse caso, deve-se fazer referência ao aspecto "x" da fala que vai em contrapartida ao aspecto "x" da escrita. Desse modo, vê-se emergir a necessidade de se introduzir na comunidade escolar a importância de se estudar o alfabeto fonético.

Em suma, esse artigo esclarecerá ao leitor a grande diferença entre Fonética e Fonologia, que parte do ponto de vista simplificador a estruturas extremamente complexas. Somada a isso, a forma com a qual a comunidade escolar instrui seus alunos ao aprendizado destas ciências lingüísticas também serão pontos relevantes postos em discussão.

 

 

  1. 1.           A FONÉTICA

 

Do ponto de vista lingüístico, a Fonética mostra-se como uma ciência indissolúvel ao tempo, pois procura explicar sons estreitamente relacionados e fundidos à dinamicidade histórica da língua, conforme mostra com propriedade a citação saussuriana (1993): "A Fonética é uma ciência histórica; analisa acontecimentos, transformações e se move no tempo" (p. 43). Desse modo, eis então uma das célebres características que a diferencia da Fonologia.

A interdependência entre Fonética e língua também é enfatizada por Fiorin (2004), todavia o mesmo procura focar as diferentes pronúncias dos sons em decorrência primordialmente dos fatores geográficos. Este autor coloca o alfabeto ortográfico como uma abstração, uma vez que a grafia das palavras não muda dentro do mesmo idioma, mas a diferença irá explicitar-se claramente no som das mesmas, ao pronunciá-las: "O alfabeto ortográfico já é uma abstração. Ninguém escreve como fala. A palavra porta é grafada igualmente por cariocas, piracicabanos e gaúchos; no entanto, cada um pronuncia de forma esse ‘r' de maneira diferente" (p. 26).

 

Em uma visão científica, a Fonética aparece como uma ciência extremamente relacionada ao estudo dos sons em seu aspecto físico, ou seja, cabe analisar dentro desse conceito a forma com a qual os sons são produzidos, bem como o lugar do aparelho fonador em que os mesmos são articulados.

No caso da maneira como se pronuncia determinado som, salienta-se a importância da entonação. Por ser um aspecto totalmente relacionado ao modo como a palavra irá ser pronunciada, acaba por criar uma certa indefinição no que diz respeito ao conceito de sílaba "forte". Para Fiorin (2004)

"a entonação se estende por toda a sentença e não por apenas um segmento (...). as línguas procuram ser rítmicas, alterando sílabas fortes e fracas. Mas não há como se definir o que seja ‘forte' por oposição ao ‘fraco'" (p. 10).

A forma com a qual os sons são descritos são também fatores cruciais no estudo da Fonética. Dentro de uma amplitude, pode-se discernir essas descrições dentro de dimensões articulatórias, auditivas e acústicas, onde há a estreita relação entre aparelho fonador, ouvinte e propriedades físicas e sonoras, respectivamente. Tais aspectos descritivos dos sons podem ser observados em relações segmentais e supra-segmentais, em razão do intercalar entre as mesmas e a freqüência com a qual os sons são estendidos pelo tempo, em somatória com a amplitude dos ditos sons. Para Fiorin (2004) "é da relação desses três componentes que se discute os aspectos segmentais, supra-segmentais. Isto é, cada som tem sua própria freqüência fundamental e amplitude e, além do mais, se estende no tempo" (p. 12).

Para que os sons em suas propriedades físicas sejam devidamente entendidos, é necessária uma assimilação sobre os órgãos que estão envolvidos na sua produção. Dentre tais, despontam-se os pulmões, sendo a corrente pulmonar a principal responsável pelo ciclo respiratório e pela fonação. Todavia, o aparelho fonador é resultado da interdependência entre vários órgãos que trabalham de maneira conjunta na articulação e produção dos sons. Nesse caso, é pertinente citar a traquéia, a laringe, as cordas vocais (que podem vibrar ou não no momento da produção sonora), glote, faringe, véu palatino, epiglote, úvula, palato duro e muitos outros.

A posteriori, percebe-se que os mecanismos de produção do ar podem ser diferentes. Nota-se então uma relativa entrada de ar no corpo ou saída dos mesmos no momento da produção sonora. Tem-se então uma ingressiva e uma egressiva, respectivamente. No caso da Língua Portuguesa, seu uso oral contempla somente um mecanismo egressivo, sendo o ingressivo notado em outros idiomas. Fiorin (2004) trabalha de maneira bem conceitual essa diferença e propõe que "a direção egressiva é aquela em que o ar vai para fora do corpo, enquanto a direção ingressiva é aquela em que o ar vai para dentro do corpo" (p. 15).

Por fim, no campo fonético, de acordo com a distinção dos sons produzidos, percebemos a existência e a diferença entre vogal e consoante. A Fonética preocupa-se em estudar as consoantes do ponto de vista da obstrução do ar, pelo modo como esse ar é abstruído e em que lugar do aparelho fonador ocorre essa abstrução.

As vogais são detalhadas foneticamente pela livre passagem do ar, a altura do corpo do trato vocal e o arredondamento dos lábios. Desse modo, entende-se que as vogais são, acima de tudo, elementos sonoros.

 

 

 

  1. 2.           FONOLOGIA

 

Etimologicamente, Fonologia significa "Estudo dos sons", uma significação composta pelos elementos gregos "fono" (som) e "logia" (estudo). Em termos simplificadores, a Fonologia pode ser conceituada de uma forma direta. Pode-se afirmar que a Fonologia é uma vertente gramatical responsável por estudar os fonemas.

Já em termos mais complexos, Fonologia ganha características mais diferenciadas. Segundo Saussure (1993), a Fonologia se separa da Fonética por vários motivos. Dentre eles, o não envolvimento com o tempo em seu aspecto fonológico, colocando assim a Fonologia como uma ciência temporalmente sintática: "A Fonologia se coloca fora do tempo, já que o mecanismo de articulação permanece sempre igual a si mesmo" (p. 43).

Em outras palavras, a Fonologia preocupa-se em estudar os sons de maneira sistematizada de acordo com cada língua. O que vale analisar não é a propriedade física desses sons nem onde os mesmos sons foram articulados, mas sim as propriedades sistemáticas de sentido estabelecidas por pequenas unidades sonoras, rotuladas como fonemas.

Diante disso, Saussure (1993) compara tal estudo ao tecer de um tapete:

 

"Esta (referindo-se à Fonologia) constitui um sistema baseado na oposição psíquica dessas impressões acústicas, do mesmo modo que um tapete é uma obra de arte produzida pela oposição visual de fios de cores diferentes; ora, o que importa, para análise, é o jogo dessas oposições e não os processos pelos quais as cores foram obtidas" (p. 43).

 

Na Língua Portuguesa, e para a Fonologia, os fonemas são classificados em vogais, consoantes e semi-vogais, sendo essas últimas também conhecidas como Glides.

Em palavras parônimas, o simples uso diferenciado de uma consoante pode alterar o sentido da palavra. Entre os vocábulos "bar" e "par", por exemplo, pode-se perceber uma diferença semântica depois da troca de fonemas. Nesse caso, trocando a consoante oclusiva surda no início da palavra por um outro fonema sonoro, acabou por acarretar em uma diferença no significado. Essa alteração semântica entre pares de palavras também pode ser igualmente percebida quando o fonema é representado por uma vogal. Repare nas palavras "descrição" e "discrição".

Enquanto a primeira está relacionada ao ato de descrever, a segunda diz respeito a uma qualidade de quem é discreto. Essa alteração de sentido deu-se pela troca das vogais "e" e "i". Em muitos casos, há sons que não modificam a significação de um vocábulo, como em "tia".

Em diferentes contextos geográficos nacionais, a palavra citada é pronunciada de maneira diferente, permanecendo, porém, com a mesma grafia. Nesse caso não há alteração semântica, já que esse fenômeno é puramente fonético (diz respeito ao som produzido de maneira física), uma vez que não houve mudança fonemática na estrutura da palavra. Fiorin (2004) fala desse fenômeno de maneira objetiva:

 

"Em campa, uma língua falada no Peru, encontramos exemplos como os seguintes: a palavra ar apresenta formas [tampia] e [tambia], e a palavra feijão apresenta as formas [ma'taki] e [ma'tagil]. Em ambas as palavras a troca de uma oclusiva surda por uma sonora e vice-versa não provoca alteração de significado, ou seja, essa variação não é distintiva" (p. 35).

 

Em Fonologia, as consoantes podem ser discernidas pela vibração de cordas vocais e pelo sentido que esse fonema pode atribuir à palavra, por exemplo, em "pomba" e "bomba". Têm-se então consoantes homorgânicas. As vogais desempenham funções fonológicas de núcleos silábicos. Durante o processo de translineação, cabe a uma sílaba comportar somente uma vogal.

Enquanto os Glides, por não terem o mesmo teor sonoro das vogais, não exercem função nuclear das sílabas, servindo apenas como acompanhantes das vogais propriamente ditas. Para Fiorin (2004), os Glides desempenham papeis semelhantes às consoantes: "Fonologicamente, essas aproximidades se comportam como consoantes, não preenchem posições de núcleos das sílabas e não são acentuadas" (p. 24).

 

 

  1. 3.           FONÉTICA E FONOLOGIA: USOS E FUNÇÕES NA ESCOLA

 

Professores que constituem o corpo docente de séries iniciais percebem que a questão de ensinar Fonética e Fonologia nas escolas é desvalorizada. Sem ter um alicerce considerável no que diz respeito a este assunto, muitas vezes, o alunado chega em elevados graus escolares sem saber o caráter responsável por discernir as especificidades das duas ciências.

Vê-se emergir a necessidade de se estudar o alfabeto fonético na escola. Em "Leitura e Escrita na Escola", a educadora Fátima coloca a importância de se estudar o alfabeto fonético como grande motivador do anti-preconceito lingüístico no meio escolar, isso recai sobre o aprendizado sobre as variações fonéticas:

 

 "Isso ajuda a aprender as variações fonéticas entre as regiões ou cidades e compreender por que falamos de um jeito e escrevemos de outro. Ao fazer isso, contribuímos para quebrar o preconceito lingüístico, porque ficam claro que todos os grupos sociais e regiões do país têm seu ‘sotaque'" (www.contosdaescola.net/por-que-ensinar-o-alfabeto-fonético).

 

Conhecendo as variações fonéticas provocadas pela própria diferença geográfica, o aluno, além de criar uma postura respeitosa diante dos sotaques, sem resquícios de preconceitos lingüísticos, adquire também conhecimento sobre esse tipo de variação da língua, sendo que todos os tipos de variações são importantes, uma vez que promovem a comunicação entre sujeitos inseridos em dada comunidade lingüística.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Por fim, o estudo da Fonética e da Fonologia é crucial, desde que realce suas especificidades de maneira clara. Ambas são ciências lingüísticas que tem por base estudar os sons. Com isso, as duas nutrem uma relação estreita e indissociável. Daí a questão de estudá-las sempre fazendo analogias. Todavia, comparações não as fazem inteiramente semelhantes, partindo da premissa que apresentam singularidades.

Desse modo, fica claro que o ponto responsável por diferenciar Fonética e Fonologia está na própria perspectiva em que os sons são referidos. Então, afirma-se que, de maneira simplificadora, a Fonética se preocupa em estudar os sons em seus aspectos físicos, levando em consideração suas articulações, bem como o local do aparelho fonador em que este som é produzido.

Em contrapartida, a Fonologia retêm-se não aos aspectos físicos do som, mas sim com suas micro unidades sonoras que introduzem ao significado, os chamados fonemas.

Do ponto de vista extremamente lingüístico, proposto por Saussure, a analogia continua, todavia com caráter mais profundo e complexo. Nesse caso, oi autor coloca a Fonética como ciência mais dinâmica, uma vez que acopla-se ao tempo variando assim a pronúncia com relação à evolução histórica, e a Fonologia com caráter mais desvencilhado do tempo, sendo que esta não muda seu instrumento de estudo, no caso o fonema, pela evolução temporal, focando assim a significação fonemática nas sílabas.

Entretanto, é lamentável a forma com que muitas instituições de ensino básico no Brasil lidam com essa área gramatical. Por diversas vezes, a escola não proporciona ao aluno um estudo capaz de estabelecer divergências entre essas duas ciências, levando-o a supor erroneamente que ambas não estritamente iguais, longe de quaisquer diferenças. Somada a isso, variações lingüísticas que perpassam pela pluralidade fonética acarretam o chamado "preconceito lingüístico", partindo do princípio de que, muitas vezes, a instituição não atenta à particularização dialetal lingüística.

Em suma, recomenda-se que a escola seja um órgão que leve o aluno a estabelecer discernimentos sob uma perspectiva crítica. A discrepância entre Fonética e Fonologia deve ser devidamente apresentada ao corpo discente, ao passo que o alfabeto fonético ganhe valor considerável em sala de aula. Espera-se com isso que o aluno tenha conhecimento das várias especificidades geográficas da língua, as quais acarretam em uma variabilidade fonética, de maneira a criar uma postura não preconceituosa face às particularidades lingüísticas.

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

FIORIN, José Luiz. Introdução à Lingüística II: Princípios de Análise. São Paulo: Contexto, 2004.

SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Lingüística Geral. Editora Cultrix. São Paulo, 1993.

 

REFERÊNCIA ELETRÔNICA

www.contosdaescola.net/por-que-ensinar-o-alfabeto-fonetico

 

 

 

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    Fonte do Artigo no Artigonal.com: http://www.artigonal.com/ensino-superior-artigos/fonetica-versus-fonologia-e-seus-usos-no-contexto-escolar-2524915.html

    Palavras-chave do artigo:

    fonetica fonologia escola som

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    1
    Amanda 26/10/2010
    Hje lá na escola onde estudo tivemos aula de Fonética e Fonologia e a professora passou uma atividade para casa pedindo pra elaborarmos um texto falando das diferenças entre as duas. Esse artigo me ajudou demaissssssssssssss!!! Obrigada.
    0
    SIDNEY 26/10/2010
    PARABÉNS...
    0
    Mariana 04/10/2010
    Parabéns! Seu artigo está ótimo!
    0
    Patrik 28/09/2010
    Nossa, como esse artigo me ajudou. Estou fazendo um trabalho sobre Fonética e Fonologia e eu sempre pensei que as duas fossem a mesma coisa. Depois da leitura desse artigo, pude rever meus conceitos. Muito bom. Gostei demais. Parabéns
    0
    Tereza 24/09/2010
    Gostei.
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