Neoclassicismo: A Arte E A Linguagem Da República Do Brasil

28/03/2010 • Por • 8,734 Acessos

1 INTRODUÇÃO:

No século XVIII, as rápidas e constantes mudanças acabaram por dificultar o surgimento de um novo estilo artístico. O melhor seria recorrer ao que estivesse mais à mão: a equilibrada e democrática antigüidade clássica. Com a ajuda da arqueologia (Pompéia tinha sido descoberta em 1748), arquitetos, pintores e escultores logo encontraram um modelo a seguir. Surgiram os primeiros edifícios em forma de templos gregos, as estátuas alegóricas e as pinturas de temas históricos. As encomendas já não vinham do clero e da nobreza, mas da alta burguesia, mecenas incondicionais da nova estética (BAZIN, 1989). A imagem das cidades mudou completamente. Derrubaram-se edifícios e largas avenidas foram traçadas de acordo com as formas monumentais da arquitetura renovada, ainda existente nas mais importantes capitais da Europa.

O neoclassicismo se tornou um movimento artístico que, a partir do final do século XVIII, reagiu ao barroco e ao rococó, e reviveu os princípios estéticos da antigüidade clássica, atingindo sua máxima expressão por volta de 1830. Não foi apenas um movimento artístico, mas cultural, refletindo as mudanças que ocorrem no período, marcada pela ascensão da burguesia. Essas mudanças estão relacionadas ao racionalismo de origem iluminista, a formação de uma cultura cosmopolita e profana;

O contexto histórico que nasce e se desenvolve o Neoclassicismo (entre 1750-1850), segunda metade do século XVIII e primeira do século XIX, é um "tempo de revoluções". Afirmou-se na Europa o iluminismo (movimento intelectual surgido na segunda metade do século XVIII (século das luzes) que defendia a razão e a ciência como formas de explicar o universo).

O iluminismo criticou a intolerância e o obscurantismo religioso, a tirania do absolutismo político, as injustiças da sociedade de ordens e apresenta soluções provocando uma profunda alteração na cultura e mentalidade humanas do determinismo religioso, predominante até então, para o individualismo laico, triunfante a parir dai.  Seguiram-se outras importantes revoluções no campo político deu-se o eclodir das Revoluções liberais que puseram fim ao absolutismo do Antigo Regime instituindo o direito à autodeterminação dos povos.  A revolução francesa (1789) marcou decisivamente o triunfo do liberalismo, nasce a afirmação de monarquias constitucionais e repúblicas (GOMBRICH, 1985).

No campo social, o ruir da sociedade de ordens (aristocrática e rígida) e a afirmação da sociedade de classes (móvel, individualista e burguesa) que instituiu a igualdade perante a lei e a valorização pessoal do trabalho e pela forma intelectual.

No campo econômico, o triunfo da Revolução industrial (conjunto de transformações no processo de fabrico provocadas pela aplicação da máquina a vapor) e os progressos da urbanização (crescimento e organização das cidades).  No campo cultural, um extraordinário desenvolvimento cientifico e técnico. De entres as ciências, destaca-se a História e a Arqueologia que dispondo de novos métodos de pesquisa e análise, registraram brilhantes descobertas (monumentos, utensílios, e escritos do ex-Império Romano, ruínas das cidades de Pompéia e Herculano…) que aguçaram a curiosidade pelo passado.

Mais do que apenas uma reverificação da Antigüidade, o neoclassicismo esteve ligado a eventos políticos contemporâneos. Esta escola artística surgiu em virtude das grandes aspirações revolucionarias que efervesciam na França junto com as mudanças políticas, religiosas e culturais da época. Os ideais da revolução francesa, igualdade, liberdade e fraternidade, eram evocadas por todos os cantos, gerando uma comoção em torno do erudito que caminha para o popular (JANSON, 1989). Não é pra menos que a arte ajuda a construir esse conjunto de ideários que serão representados pelo neoclassicismo e divulgados como elemento de civilidade e formosura da sociedade. Os temas são tratados com cenas de grande eloqüência; a arte, acima de tudo, tinha o papel de difusora dos ideários daquele momento.

NEOCLASSICISMO NO BRASIL:

O estilo Neoclássico foi introduzido no Brasil no final do século XIX, durante o Império, principalmente na arquitetura e artes plásticas.Era tempo de mostrar a soberania da República recém nascida (ZANINI, 1983). As linhas retas, sóbria e equilibradas da arquitetura conferiram a estabilidade e austeridade de que os edifícios necessitavam.Por estar tão associado ao Governo e ao poder, o estilo Neoclássico se fez mais presente nas cidades do Rio de Janeiro – capital do país – e São Paulo, devido à grande circulação financeira em vista das lavouras de café.

É sabido o quanto a tradição neoclássica francesa desprezava o barroco, mesmo aquele tão próximo dela, da Itália ou da Espanha (GOMES. 1998). E foi essa escola que, por meio da Missão Francesa, ocupou-se de ensinar aos brasileiros os princípios das artes do desenho. Ensinar é a palavra certa, pois o que até então existia não era por eles bem considerado arte, mas coisa de pintamonos. Essa idéia, de tão arraigada, por muito tempo permaneceu no pensamento de alguns descendentes da Missão. Historiador da Missão, Affonso Taunay, em 1912, afirmava: Mal grado os esforços encomiásticos de alguns escritores, inspirados por exagerado nacionalismo, o que resulta aos olhos dos julgadores imparciais é que a arte brasileira dos princípios do século XIX era, e fora até então, quase nula.

As construções eram de grandes dimensões, que impressionavam e ao mesmo tempo intimidavam. Mesmo assim algumas construções de estilo Neoclássico aparecem ainda em Belo Horizonte, Salvador e até em Manaus, Mas com menor expressividade. É interessante observar que a consolidação do Neoclássico no Brasil se deu no mesmo momento em que as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo se firmavam como metrópoles desenvolvidas.

Mas se espalhou de forma pontual por todo país até o século 19 : com uma arquitetura que estava na dependência de importação de materiais e mão-de-obra especializada ou apenas disfarçava com aplicações superficiais a precariedade da mão-de-obra escrava, o neoclássico não chegou a corresponder a aperfeiçoamento maios da construção no Brasil, ainda que tenha provocado transformações de importância, no plano formal. As inovações técnicas seriam  introduzidas com o Ecletismo, durante a Segunda metade do século XIX. (REIS,1983. P. 144)

Inúmeros fatores influenciaram de forma marcante o resultado das construções Neoclássicas no Brasil. Antes de tudo, o simples fato da mudança de espaço geográfico já é um fator determinante. A transposição de uma estética que surgiu rodeada por um ambiente específico para outro contexto completamente diferente é suficiente para mudar a relação que as pessoas têm com o resultado final.

O clima tropical foi um dos fatores mais importantes. Era necessário um estudo diferenciado para a construção dos prédios devido ao calor excessivo dos trópicos, ao contrário dos edifícios da Europa que precisavam proteger as pessoas do frio e da neve (REIS, 1983).

Obviamente, a estética do Neoclassicismo no Brasil não se restringiu apenas à arquitetura, mas se estendeu às artes plásticas, gráficas e literatura.

Na Literatura, os poetas que melhor representam o movimento são Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, autor de Marília de Dirceu. Ambos participaram da Inconfidência Mineira, movimento político que visava a emancipação do Brasil em relação a Portugal. Os poemas laudatórios de Basílio da Gama e a produção poética de Alvarenga Peixoto e Silva Alvarenga também apresentam traços típicos do Arcadismo. Todos esses poetas concentravam-se na cidade mineira de Vila Rica, centro da atividade mineradora e mais importante centro urbano do país nesse período. No Rio de Janeiro, nos anos de transição entre os séculos XVIII e XIX, entre uma série de novidades de ordem política e econômica que começam a transformar a fisionomia do país, verifica-se o surgimento de diversos órgãos de imprensa (HAUSER, 1982).

Apesar de ter sido influenciada pela tradição poética do século XVI, cujo nome mais importante é Camões, e de apresentar resquícios do Barroco em certos casos, a poesia é um modelo de simplicidade e objetividade, se comparada com as obras do período anterior. Exemplos dessa simplificação da linguagem são a valorização da ordem direta, o verso sem rima, a singeleza do vocabulário e a menor incidência de comparações e antíteses.

Sem perder a impregnação religiosa nem o respeito à monarquia, os poetas do período abordaram assuntos mais imediatos e concretos do que seus antecessores. Fazem parte de seu universo temático o elogio da virtude civil, a crença na melhoria do homem pela instrução, a noção de que a harmonia social depende da obediência às leis da natureza, e a concepção da felicidade como conseqüência da prática do bem e da sabedoria. Todas essas idéias, em grande medida derivadas do Iluminismo, encontram expressão política na figura do Marquês de Pombal.

A arte neoclássica busca inspiração no equilíbrio e na simplicidade, bases da criação na Antiguidade. As características marcantes são o caráter ilustrativo e literário, marcados pelo formalismo e pela linearidade, poses escultóricas, com anatomia correta e exatidão nos contornos, temas "dignos" e clareza.

Na pintura, a influência neoclássica está submetida ao romantismo. A composição e o desenho seguem os padrões de sobriedade e equilíbrio, mas o colorido reflete a dramaticidade romântica (ZANINI, 1983). Um exemplo é Flagelação de Cristo, de Vitor Meirelles (1832 - 1903). O neoclassicismo chegou ao Brasil juntamente com a Missão artística francesa, grupo de artistas convidados por dom João 6º para fundar uma academia de artes no Rio de Janeiro, a Academia de Belas Artes. Destacavam-se na missão artística francesa: Nicolas-Antoine Taunay, Félix-Émile Taunay, Jean-Baptiste Debret, Auguste Taunay e Le Breton (chefe da missão). Estes artistas buscaram retratar o cotidiano da colônia de uma forma romântica, idealizando a figura do índio e ressaltando o nacionalismo e as paisagens naturais.

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Perfil do Autor

Paulo R. da Silva Bastos

Professor - Historiador CES/JF, Pós Graduação Ciências Humanas: Brasil – Estado e Sociedade / UFJF, Conselheiro Municipal FUNDEB e Conselho de Assistência Social / PJF - Juiz de Fora