Neoliberalismo E Educação

Publicado em: 20/04/2010 |Comentário: 0 | Acessos: 5,641 |

INTRODUÇÃO

De acordo com Gentili (1996), o neoliberalismo deve ser compreendido como um processo de construção da hegemonia da classe dominante que se implementa em dois sentidos:  um conjunto de reformas concretas no plano econômico, político, educacional, etc. Como também legitimar suas reformas como as únicas que devem ser aplicadas na conjuntura da atual sociedade.   

O neoliberalismo é a nova forma que a classe dominante encontrou para se manter no poder e aumentar o abismo existente entre a minoria privilegiada e a maioria desfavorecida. Porém, ele não revela a sua verdadeira face excludente e antidemocrática. O neoliberalismo se coloca como um cordeiro quando, na verdade, é um lobo, se propondo a solucionar todos os problemas decorrentes do capitalismo, se mostrando como único meio viável para salvar a sociedade dos males que a acomete.

Esse tema me interessou n momento em que percebi que somos como fantoches nas mãos dos neoliberais, sendo levados a acreditar que é condição natural poucos gozarem de muito, enquanto muitos possuem tão pouco. Importante mencionar que não me refiro apenas a dinheiro ou bens materiais, mas também a conhecimento e tecnologias.

No que diz respeito à educação de qualidade, o neoliberalismo entende como algo que deve ser concedido a quem tiver meios para assegurá-la, não como direito de todos.

[...] A grande operação estratégica do neoliberalismo consiste em transferir a educação da esfera da política para a esfera do mercado, questionando assim seu caráter de direito e reduzindo-a a sua condição de propriedade. É neste quadro que se reconceitualiza a noção de cidadania, através de uma revalorização da ação do indivíduo enquanto proprietário, enquanto indivíduo que luta por conquistar (comprar) propriedades-mercadorias de diversa índole, sendo a educação uma delas. O modelo de homem neoliberal é o cidadão privatizado, o enterpreneur, o consumidor. (GENTILI,1996, p.20-21).

 Dessa forma, a educação passa a ser como um bem de consumo como outro qualquer e terá direito a ela quem tiver dinheiro para comprá-la, da mesma maneira que tem a melhor TV quem por ela pode pagar. Na concepção neoliberal a educação deve além de formar para o trabalho, se transformar nele.

 

 

  1. PERSPECTIVAS NEOLIBERAIS PARA A EDUCAÇÃO

A tentativa neoliberal de monopolizar o poder está presente em vários âmbitos da sociedade, econômico, político, cultural e, como não poderia deixar de ser, no âmbito educacional.

No panorama neoliberalista, o papel da educação é moldado de acordo com os segmentos que a classe dominante julga pertinente para beneficiar os seus interesses. Nessa era capitalista, tais interesses são camuflados atrás de uma preocupação inusitada com a classe pobre e sem qualificação, quando na verdade, os neoliberais pretendem obter mão- de- obra qualificada que sirva às necessidades do mercado e lhe garanta lucratividade.

Os avanços tecnológicos, o mercado que parece saciar todas as necessidades humanas dando uma sensação de liberdade, potencializam a exclusão, sendo que esses benefícios são para poucos. A esmagadora maioria fica à margem, vivendo o lado negativo do capitalismo. Mas a questão vai além de classificar o dito homem de negócios como sendo o ser perverso que está levando a humanidade à ruína, mas de democratizar o acesso ao conhecimento, o progresso tecnológico e o processo de qualificação educacional.

Os senhores do capitalismo não se importavam com a camada miserável e sem instrução até sentirem falta de mão de obra qualificada para suprir as necessidades do mercado.

Fala-se na importância da qualificação do sujeito, mas o mundo empresarial não tem o menor interesse em agregar um número considerável de trabalhadores, pelo contrário, é da natureza do capitalismo uma seletividade exacerbada. Assim, uma educação voltada apenas para o trabalho, além de não suprir a necessidade da formação do homem em sua completude, não garante a inserção de todos no próprio mercado.

Não quero com isso dizer que uma educação que prepara para o mercado de trabalho deva ser desprezada. Afinal, não se pode viver à margem do mundo, sem levar em consideração que este caminha nos braços do capitalismo, dos avanços tecnológicos, da globalização, pedindo então, um trabalhador qualificado. Mas, essa educação sozinha é limitada, não forma o cidadão, o sujeito ético, apto a conviver bem com o seu próximo. Paulo Freire corrobora essa afirmativa.

[...] Não é possível pensar os seres humanos longe, sequer, da ética, quanto mais fora dela. Estar longe, ou pior, fora da ética, entre nós, homens e mulheres, é uma transgressão. É por isso que transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico é amesquinhar o que há de fundamentalmente humano no exercício educativo: o seu caráter formador. Se se respeita a natureza do ser humano, o ensino dos conteúdos não pode dar-se alheio à formação moral do educando. Educar é substantivamente formar. (FREIRE, 2000, p. 36-37).

Assim percebe-se o quanto é necessária uma educação que não só qualifique para o mercado, mas que humanize o sujeito. Não se pode dissociar valores éticos e morais do âmbito educacional, valorizando a formação técnica em detrimento da preparação do cidadão crítico-reflexivo e atuante na sociedade.

  1. QUALIDADE EDUCACIONAL

Após o término da ditadura, a sensação que se teve foi de que a democracia havia sido alcançada por todos aqueles que lutavam para que tal vitória acontecesse. No âmbito educacional não foi diferente. Porém, o desejo de democratização foi aos poucos abandonado e substituído por anseios de qualidade, tendo esta uma concepção advinda do mundo empresarial e refletindo os interesses da classe dominante, afinal, uma democratização não corresponde às características do capitalismo. O mundo dos negócios se tornou referência para todas as ações do homem; tudo gira em torno da lógica do mercado, que dita as regras do jogo de maneira que a classe dominante domine cada vez mais e acredita que a qualidade do profissional reflete na qualidade do produto, refletindo assim na quantidade do lucro.

Essa transferência do conceito de qualidade do mundo empresarial para a escola, como meio de solucionar a crise educacional, traz consigo a competitividade típica do mundo dos negócios. A busca por estar no topo, ou perto dele, no ranking de qualidade, é um dos fatores que faz com que apenas se treine estudantes para dar respostas em provas ao invés de educá-los. A educação é tida como um mero bem de consumo, onde quem pagar mais terá  o melhor, apenas a minoria tem condições para pagar.  Faz-se necessário mencionar que a escola pública está em desvantagem nessa competição, visto que a maioria dessas escolas não possui ao menos uma educação com conteúdos que permita aos seus estudantes conseguirem uma boa colocação no vestibular, por exemplo. Claro que apenas conteúdos não são o suficiente para formar um sujeito, mas não se pode negar que deve, também, fazer parte da sua formação.

Apenas extirpar o conceito de qualidade na forma em que ele se apresenta não é  o suficiente para construir um novo modelo educacional. È necessária outra concepção, distinta do significado que se emprega no mercado, onde qualidade está associada à rentabilidade. Gentili, com efeito, vem dizer:

Não existe "qualidade" com dualização social. Não existe "qualidade" possível quando se discrimina, quando as maiorias são submetidas à miséria e condenadas à marginalidade, quando se nega o direito á cidadania a mais de dois terços da população. Reiteramos enfaticamente: "‘qualidade' para poucos não é ‘qualidade', é privilégio". Nosso desafio é outro: consiste em construir uma sociedade onde os "excluídos" tenham espaço, onde possam fazer-se ouvir, onde possam gozar do direito a uma educação radicalmente democrática. Em suma, uma sociedade onde o discurso da qualidade como retórica conservadora seja apenas uma lembrança deplorável da barbárie que significa negar às maiorias seus direitos. (GENTILI, 1994, p. 177).

Uma educação de qualidade, inclusiva, capaz de formar o cidadão apto a conviver e respeitar o próximo, capaz de tornar o sujeito reflexivo, crítico e transformador da realidade, deve ser direito de todos, não mais uma forma utilizada para que a sociedade permaneça elitista, excludente.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os neoliberais tem ambiciosas pretensões de reformar a sociedade em seu aspecto político, econômico cultural e educacional. Para alcançar sucesso em seus objetivos, se utilizam de ideologias consistentes para convencer a todos de que são boas as suas intenções e que podem solucionar as crises advindas do modelo capitalista, inclusive a crise educacional.

Não é fácil perceber as verdadeiras intenções do neoliberalismo e compreender suas facetas enganadoras, pois a princípio a impressão que dá é que, realmente, há uma preocupação com o bem- estar de todos que compõe a sociedade, independente da classe social a qual pertença, não apenas com a parte que fica no topo da pirâmide, com a minoria extremamente privilegiada.

Um bom exemplo das práticas neoliberais são as várias escolas onde a educação é tida como bem de consumo, algo com fins, unicamente, lucrativos. Nesse contexto, a educação não tem o papel de formadora do sujeito em sua completude. Na perspectiva neoliberal, o sujeito deve ser formado para o mercado de trabalho, para suprir as necessidades de mão-de-obra qualificada.

É urgente que haja uma verdadeira transformação no âmbito educacional. Isso começará a acontecer quando se praticar a democratização da qualidade da educação, aquela que não só forma o profissional para atuar no mercado, mas também forma um cidadão que reflete e atua na sociedade com consciência e senso crítico.

 

REFERÊNCIAS

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à Prática Educativa. 15. ed. São Paulo:Paz e Terra, 2000, p. 36-37.

GENTILI, P & SILVA, T. T. da (orgs.). Neoliberalismo, Qualidade Total e Educação. Visões Críticas. Rio: Vozes, 1994, p. 177.

GENTILI, P & SILVA, T. T. da (orgs.). Escola S.A. Quem ganha e quem perde no mercado educacional do neoliberalismo. Brasília: CNTE, 1996, p. 20-21.

 

 

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    Fonte do Artigo no Artigonal.com: http://www.artigonal.com/ensino-superior-artigos/neoliberalismo-e-educacao-2190498.html

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    palavras chave educacao neoliberalismo qualidade

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