O GRAU DA PALAVRA: FLEXÃO E DERIVAÇÃO

Publicado em: 05/09/2010 |Comentário: 1 | Acessos: 3,668 |

 INTRODUÇÃO

 

            A Gramática tradicional, ainda se manifesta confusa quanto à categorização  dos afixos de grau. A gramática normativa, até a década de 1970, se manifestava de uma forma bastante categórica, quanto à classificação flexional dos afixos, porém, a partir dos 1980, fizeram uma revisão, na qual deixaram de descrever o grau em seções destinadas às flexões do nome.

Hoje, algumas obras descrevem o processo de flexão e de derivação a partir de suas diferenças e semelhanças. Com isso, criam uma visão atualizada e corrente sobre essas duas "morfologias", focalizando, para tanto, os afixos do português: sua relação com os demais componentes da gramática e seu diagnóstico a partir de uma analise de critérios empíricos.

O trabalho foi desenvolvido através de pesquisa bibliográfica, tendo como base alguns autores renomados.

Apresenta-se a temática: o grau da palavra: flexão e derivação, pois torna-se necessário enfatizar a referida temática pela existência da problemática de incluir os processos flexionais como parte da morfologia, levando em conta a vertente fraca em oposição à vertente forte do lexicalismo. Na objetividade de  retomar a discussão a respeito da flexão e derivação e apresentar os tratamentos dados pelas principais gramáticas.

 

 

1 REFERENCIAL TEÓRICO

 

É de grande relevância enfatizar que as gramáticas normativas não listam os principais afixos, limitando-se basicamente a uma classificação estrutural que diferencia as formas sintéticas (construções base + afixo, como "cadeirinha ", " bocarra", "paupérrimo") das analíticas (construções sintáticas, como " cadeira pequena", " boca grande", " muito pobre").

Em contrapartida, Rocha Lima (1998) e Bechara (2000) mencionam que os afixos dimensivos, os quais nem sempre expressam noção de aumento ou diminuição de um certo referente; no entanto, esses autores deixam de justificar seus posicionamentos, quanto aos principais usos desses formativos. Na mesma direção, Cunha (1983:215) considera que nem sempre as noções de aumento e diminuição vêm atualizados nos sufixos mais tipicamente dimensivos (-inho e -ão).

Muitos gramáticos parecem não demonstrar os freqüentes significados metafóricos (" espigão", " orelhão" ) ou metonímicos ("flanelinha", "lanterninha") da gradação morfológica. Rocha Lima (1998), no entanto, cita a existência de aumentativos e diminutivos " meramente formais", como "papelão" e "folhinha".

Percebe-se que, embora já tenham sido realizados vários estudos, as obras que foram editadas mais recentemente, mencionam as variações de aumentativo, diminutivo e intensidade, insistindo em considerá-las como flexionais e reservando-as ao tratamento de substantivos e adjetivos.

Segundo Câmara Jr. (1970 apud Gonçalves, 2007:151), quase todas as descrições normativas dos anos 1960 e 1970, fortemente influenciadas pela NGB, nivelavam as categorias gênero, número e grau, considerando, todas elas, flexões possíveis dos nomes, porque assim era na tradição latina.

Embora, as gramáticas normativas modernas tenham passado por uma revisão, quanto a determinados questionamentos, levando-se em consideração as descrições lingüísticas, as gramáticas escolares direcionadas para o ensino médio ainda mencionam o grau como uma das flexões dos nomes, sem referir-se aos afixos gradativos e ao campo semântico das palavras, afirmando que sufixos como –inho e –ão dão a ideia de diminuição e aumento.

Um dos primeiros estudiosos a discutir a condição do grau em nossa língua foi Câmara Jr. (1970:83), o qual se posicionou contra toda a tradição, ressaltando que: a expressão de grau não é um processo flexional em português, porque não é um mecanismo obrigatório e coerente, e não estabelece paradigmas exaustivos e de termos exclusivos entre si.

Para o autor, a associação do grau a operações flexionais se justifica somente do ponto de vista histórico. Câmara Jr. diz  que, no latim, determinados sufixos como –ior (comparativo) e –issimus (superlativo) eram considerados obrigatórios em um contexto sintático.

Em latim, o grau do adjetivo felix (feliz) era expresso de duas maneiras: felicier (mais feliz que) e felicissimus  (o mais feliz do(a)); ao contrário do que acontece em português, já que a gradação não é obrigatória e não necessita de um contexto sintático para ser expressa.

 Rocha (1998:222) sustentam a natureza derivacional dos afixos de grau dizendo que: (a) determinados vocábulos, apesar de terem afixos de grau, não necessariamente expressam tamanho, como é o caso do vocábulo "calção" ("traje de banho") e "camisinha" ("preservativo"); (b) a expressão de afetividade está presente em diversas construções morfológicas de grau, como é o caso de "filhinho", "comidinha", "sopinha".

Segundo Rocha (1998:73), por exemplo, a afetividade está sempre presente na sufixação gradual, ao passo que a noção de aumento ou diminuição pode estar presente ou não, como ocorre em "carrão", que pode indicar valoração, e "timinho", que tende  veicular conteúdos pejorativos.

Rocha destaca os sufixos graduais ou sufixos avaliativos, os quais podem ser de tríplice natureza: subjetivos, valorativos e dimensivos. Para tais tem-se os seguintes conceitos e exemplos:

a) Os sufixos subjetivos são aqueles que expressam a subjetividade do falante, e não a afetividade em relação a um determinado referente.

Dê adeusinho a sua mesada!

b) Sufixos valorativos, são aqueles que têm a finalidade de manifestar um julgamento de valor em relação a um dado referente. Tal julgamento pode ser positivo, com sufixo melhorativo, ou negativo, com sufixo pejorativo.

Que gracinha de vestido! (positivo).

Quem é essa mulherzinha que está gritando na calçada? (negativo).

c) Os sufixos dimensionais, por sua vez, expressam noção de aumento ou diminuição de certo vocábulo.

Aquele rapaz tem, de fato, um narigão. (aumentativo)

Vejam aquele ratinho! (diminutivo).

Loures (2000) enfatiza o valor discursivo dos afixos de grau, ou seja, segundo a autora, sufixos diminutivos têm um valor afetivo, diminutivo e aumentativo e não expressam necessariamente a dimensão do referente, mas a afetividade do falante, podendo indicar aspectos positivos ("cachorrinho", "mulherão") ou negativos ("leizinha", "papelão"). Os afixos de grau têm como principal finalidade realçar qualidade e/ou quantidade, de acordo com os padrões individuais do falante.

Segundo Gonçalves (2005), para separar a morfologia flexional da morfologia derivacional são utilizados pelo menos 16 critérios diferenciadores, pelos quais é avaliado o comportamento dos principais afixos de grau dimensivo (-inho e –ão) e intensivo (-íssimo).

Nos exemplos a seguir, o sufixo de gênero do substantivo é imposto para o adjetivo que com ele concorda; no entanto, percebe-se que o mesmo não pode ser notado para o de grau, que pode aparecer somente no substantivo (1b. e 1e.) e no adjetivo (1a. e 1d.); ou nos dois termos (1c. e 1f.), enfim nos exemplos (1g. e 1h.), o núcleo pode se manifestar num grau que não concorda com o seu adjunto.

 

(1) a. menina bonitinha                                 b. menininha bonita

     c. menininha bonitinha                             d. menina bonitona

     e. meninona bonita                                   f. meninona bonitona

     g. menininha bonitona                              h. meninona bonitinha

 

Outro fator que diferencia a flexão da derivação ocorre no momento em que se compara a aplicabilidade de duas "morfologias". Nessa situação o grau pode ser considerado flexão.

(ii) A flexão é mais intensa que a derivação, no sentido de que a estrutura paradigmas   mais regulares e sistemáticos. Gonçalves (2005: 156).

 

Na flexão nota-se uma correspondência entre as formas do modelo, havendo poucos casos irregulares. No entanto, a derivação tende a formar modelos não necessariamente coesos, pois visa a apresentar determinadas restrições em sua aplicabilidade.

Para Câmara Jr. (1970:71), palavras derivadas não obedecem a uma pauta sistemática e obrigatória para toda uma classe homogênea do léxico. Em outros termos, uma derivação pode aparecer para um dado vocábulo e faltar para um vocábulo congênere, não constituindo "um quadro regular, coerente e preciso".

Segundo Loures (2000) e Piza (2001), a todos os nomes da língua podem ser inseridos afixos de grau, tendo em vista que eles são bastante produtivos em português; tal produtividade está relacionada a valores afetivos, como, por exemplo, os pronomes ("euzinha", "elazinha"), nos  advérbios ("pertinho", "devagarinho"), nas interjeições ("adeusinho", "até loguinho") e até mesmo nos verbos ("correndinho", "dormindinho").

 (iii) Processos flexionais não são responsáveis por mudanças de categoria lexical, ao contrário dos derivacionais, que podem promover alterações dessa natureza. Gonçalves (2005:158). Nestes termos, percebe-se que na flexão, base e produto apresentam sempre a mesma especificação lexical, ou seja, a flexão não causa mudança na classe em que o vocábulo pertence. Nas palavras "gatos" e "linda", no momento em que se acrescenta o –s de plural e do –a de feminino não gera nenhuma alteração sintática, já que tanto a base e o produto são nomeados como substantivos e adjetivos.

O que já não se percebe na maior parte dos sufixos  derivacionais do português, os quais são responsáveis por mudanças de classe. Por exemplo, -ção e –ada formam substantivos a partir de verbos ("canalização", "esticada").

(iv) Arbitrariedade ou desvios são freqüentes nas operações derivacionais e pouco prováveis nas flexionais. Gonçalves ( 2005:161).

O que se percebe no critério (iv), que para distinguir flexão de derivação, é usado a lexicalização, que para alguns autores é proposta como uma fuga ao padrão esperado.

Convém ressaltar, ainda, que o tipo mais comum de lexicalização de alguns nomes complexos com afixo de grau: a semântica. Percebe-se que não é comum encontrar usos figurados de sufixos aumentativos e diminutivos para designar seres ou eventos por critérios objetivos, mas a partir do significado à termos associativos.

Em alguns vocábulos, o sentido original transforma-se em uma metáfora ou metonímia. O que ocorre no vocábulo "camisinha", cujo significado  é " preservativo". Nos exemplos a seguir, podemos perceber, a lexicalização:

          diminutivos  lexicalizados                              aumentativos lexicalizados

          coxinha     ("salgado")                                        bolão     ("aposta")

          folhinha       ("calendário")                                  espigão     ("edifício")   

          raspadinha     ("jogo")                                          pistolão    ("pessoa influente")            

          beijinho     ("doce")                                               sapatão    ("lésbica")

          selinho      ("beijo")                                               pescoção    ("tapa").

O ensino da Língua Portuguesa em nível médio, além de considerar os estudos dos afixos de grau, pode inserir todo esse conhecimento a um processo morfológico, com o objetivo de desenvolver a expressividade e a estruturação discursiva e textual.

A abordagem que os livros didáticos trazem, é de caráter normativo, ou seja, se detém a classificar os principais afixos intensivos e dimensivos, sem levar em consideração a estrutura textual.

O aluno de nível médio não se interessa em saber se o grau que caracteriza em flexional ou derivacional, haja vista que, o assunto é um tanto complexo e polemico. O mais importante que categorizar é disponibilizar, para os alunos, não frases soltas, mas textos que mostrem o uso real e efetivo dos afixos.

Diante do exposto, os livros didáticos e os professores de nível médio, no momento em que forem abordar o assunto, podem levar em consideração alguns aspectos, conforme sugeri Gonçalves (2005: 165,6):

*desvencilhar a abordagem do grau das do gênero e do número.

*Evitar a expressão "flexão de grau".

*Desmistificar a ideia de que os afixos dimensivos expressam apenas tamanho.

*Investir nos valores expressivos da gradação sempre com base em texto variados.

*Atentar para os casos de lexicalização.

*Vincular o estudo do grau com abordagem das chamadas "figuras de linguagem".

*Optar por atividades que articulem esse tópico de gramática com leitura e produção.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

No presente estudo científico, foi apresentado vários enfoques dados para o tratamento do grau da palavra, partindo dos gramáticos tradicionais chegando até alguns lingüistas que deram relevo ao assunto, com intuito de retomar a discussão sobre a inclusão do grau entre os processos derivacionais ou entre os processos flexionais.

No decorrer da elaboração da pesquisa, percebe-se que o tema está se tornando bastante polêmico  e contraverso, conforme cita alguns autores em relação  a argumentação de que o grau das palavras é flexional, enquanto que outros analisam o grau como derivacional.

Portanto, verificou-se que para o grau ser flexão ou derivação, depende do ponto de vista (ou critério empírico) que se tem em mente.

Se, por um lado, o posicionamento de Mattoso Câmara Jr. é que o grau é indiscutivelmente derivação, as evidências apresentada por Piza e outros autores é de que o grau pode ser considerado flexional sob outros aspectos.

Vimos, com Câmara Jr. (1970, 1976) e Rocha (1998), que o grau não constitui um sistema aberto que permite a criação de novos sufixos sem afetar o emprego ou valor dos já existentes e tem opcionalidade total, podendo ser usado ou não.

                

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BECHARA, Evanildo. Moderna gramática da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Lucerna,2000.

CAMARA JR., J.M. Estrutura da língua portuguesa. Petrópolis: Vozes,1970.

CUNHA, C.F.  Gramática da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Mec/Fename, 1983.

GONÇALVES, C.A.V. Flexão e Derivação em português. Rio de Janeiro: Setor de publicações da Faculdade de Letras da UFRJ, 2005.

LOURES, L.H. Analise Contrastiva de recursos morfológicos com função expressiva em francês e português. Rio de Janeiro, 2000.

PIZA, M.C. Gênero, número e grau no continuum flexão/ derivação em português. Rio de Janeiro, 2001.

ROCHA, L.C. Estruturas Morfológicas do português. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1998.

VIEIRA, S. R. e BRANDÃO, S.F, Ensino da gramática descrição e uso. São Paulo. Editora Contexto, 2007.

 

 

 

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    Edjar Dias de Vasconcelos

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    Edjar Dias de Vasconcelos

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    Por: Edjar Dias de Vasconcelosl Educação> Ensino Superiorl 22/10/2014

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    isis 16/06/2011
    oiiiiiiiiiiiiii eu sou a isis eu gostei muito das coizas
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