O pensamento de paulo freire no processo de ensino-aprendizagem da eja1

Publicado em: 03/07/2012 | Acessos: 951 |

Jerry Adriano de Souza2

[1] Artigo apresentado como requisito de avaliação da disciplina Educação Popular do curso de Pedagogia da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), sob a orientação do Professor Jean Mac Cole Tavares Santos.

[2] Aluno do 8º Período do Curso de Pedagogia da UERN.

1 INTRODUÇÃO

O pensamento pedagógico de Paulo Freire, assim como sua proposta para a alfabetização de adultos, inspirou as principais propostas de alfabetização e educação popular que se iniciaram no Brasil na década de 1960. Foram diversas lutas, escritos e livros que evidenciaram uma concepção pedagógica apresentada não somente em favor da educação regular, mas também das diversas modalidades de ensino voltadas para a alfabetização de adultos, como é o caso da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Atualmente, esta é uma modalidade de ensino que permite o acesso de jovens e adultos que nunca estudaram, bem como daqueles que largaram a escola a novamente recomeçarem os estudos. 

Para o funcionamento da modalidade foram elaboradas as Diretrizes Curriculares Nacionais para a EJA (Parecer CNE/CEB nº. 11, 2000) que destacam esta modalidade de ensino deve ter funções: reparadora (recuperar o que foi perdido pelo sujeito jovem ou adulto em termos de formação e desenvolvimento); equalizadora (ofertar um ensino igualitário para todos os sujeitos, sem distinções do ensino regular) e qualificadora (oferecer uma formação que permita qualificar o jovem ou o adulto para atuar como cidadão na sociedade atual). Estas funções evidenciam, portanto, especificidades da EJA que devem ser consideradas em quaisquer situações a ela vinculadas, inclusive a exigência de políticas públicas voltadas a essas singularidades. Nesses termos, a formação dos docentes atuantes em EJA deve, igualmente, receber uma significativa atenção. Além disso, faz-se preciso que as provisões direcionadas à EJA atinjam efetivamente as escolas, não se restringindo apenas a registros legais.

Há ainda que se considerar que a EJA, em seu sentido educativo e por abranger uma população específica inserida nas classes sociais menos favorecidas, que também compõem as massas populares do nosso país, se encaixa nos grupos que necessitam dos métodos pedagógicos que caracterizam a educação popular. Este tipo de educação, com base em Freire (1987) é a preparação educacional daquele que vive sem as condições elementares para o exercício de sua cidadania, considerando que também está fora da posse e uso dos bens materiais produzidos socialmente. A educação, se popular, isto é, tendo como ponto de partida a realidade do oprimido, pode se tornar um agente importante nos processos de libertação do indivíduo e da sociedade

Compreendemos que o sentido da educação popular para Freire, começa no próprio instante em que se fazem as relações de ensino e aprendizagem para a pessoa que ora sofre a opressão. Compreender o significado do conhecimento ensinado para atuação na prática cotidiana, na vida, no âmbito profissional, social e pessoal torna-se o real conhecimento construído, enquanto que, aquele conhecimento que é apenas transmitido e nunca vivido na prática, não é conhecimento e, portanto, não de constitui um elemento da educação numa visão emancipadora, concepção esta que deve ser a mais adequada para ser trabalhada com os oprimidos.

Ao considerar a importância dos aspectos teóricos e metodológicos do pensamento de Paulo Freire como importantes para a prática pedagógica da EJA, que se insere no caráter da Educação Popular, nos dispomos a estudá-lo, verificando se realmente está presente na prática dos professores. A problemática do nosso estudo questiona: há, na prática pedagógica atual dos professores de EJA, algum aspecto que se fundamenta nas ideias teóricas de Paulo Freire?

O objetivo de pesquisa é analisar as ideias de Paulo Freire e sua influência na prática do professor de EJA. Trata-se de uma pesquisa qualitativa de campo. O instrumento de coleta foi um questionário entregue à professora de Língua Portuguesa do 5º Nível de EJA da Escola Estadual Professora Alvani de Freitas Dias, localizada em Apodi/RN.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Freire defendia a pedagogia da reflexão, do diálogo, e nesta perspectiva defendeu a interação dialógica, a pesquisa, a relação profunda entre educador, educando e comunidade como passos importantes na construção de uma relação feliz durante o transcorrer do processo de ensino e aprendizagem. Vemos um processo educativo que, na visão freireana pode ser desencadeado numa dimensão compreensiva da realidade. O entendimento sobre o pensamento de Freire, assim como a percepção sobre sua aplicabilidade no contexto das turmas de EJA, no decorrer da vivência pedagógica, tornam-se ações de estudo relevantes, já que é preciso ver se a teoria tem efeito positivo ou negativo na prática docente.

Tendo nascido em, Recife, no Estado de Pernambuco (PE), em muitas de suas obras, o próprio Freire relata lembranças da sua infância que nos faz perceber que a base do seu pensamento filosófico voltado para a dialética está justamente focada na sua educação familiar. Barreto (1998), ao destacar algumas dessas lembranças relatadas pelo educador em eventos como congressos e conferências apresenta o caráter emocional e saudoso com que ele relembrava o lugar onde nasceu, a vida enquanto criança, as primeiras experiências escolares.

Me vejo na casa mediana em que nasci, rodeada de árvores, algumas delas como se fossem gente, tal a intimidade entre nós – à sua sombra brincava e em seus galhos mais dóceis à minha altura eu me experimentava em riscos menores que me preparavam para riscos e aventuras maiores (FREIRE apud BARRETO, 1998, p. 17).

Em outro momento, falando de suas experiências escolares, Freire não hesita em destacar como foi seu primeiro contato com a aprendizagem da leitura e da escrita e diz: "Fui alfabetizado no chão do quintal de minha casa, à sombra das mangueiras, com palavras do meu mundo [...] O chão foi o meu quadro-negro; gravetos, o meu giz" (FREIRE, apud BARRETO, 1998, p. 18).

Vemos, portanto, uma criança educada com liberdade de observar o mundo e refletir sobre ele, de apreciar a vida, a natureza e compreender seus efeitos positivos para a formação do homem enquanto ambiente influenciador nas primeiras compreensões de mundo do ser humano. Certamente Freire foi uma criança ativa, inteligente e bem informada sobre os valores e bases humanas que o fizeram se tornar um grande homem.

Enquanto jovem e fazia seu curso de Direito e ao mesmo tempo lecionava, as suas ideias de prática educativa emancipadora fluíam no seu fazer pedagógico. Segundo Rosas (2003) quando o Serviço Social da Indústria (SESI) foi fundado em Recife ele não hesitou nenhum minuto em aceitar o convite de Paulo Rangel que havia sido convidado pelo presidente da entidade, o engenheiro Cid Sampaio, para fazer parte de um setor de projetos no campo da assistência social. Ao então advogado, mas já firmado como educador Paulo Freire estava reservada a direção de uma Divisão de Educação e Cultura, que iria culminar com a solidificação de seu pensamento para a Educação Popular.

Nesse posto no SESI, durante 10 anos conviveu com as experiências do autoritarismo que permeia as ideias voltadas para a educação. Era iniciada a década de 1950, que segundo Rosas (2003) foi particularmente importante para a solidificação do pensamento de Paulo Freire, no que se refere às leituras e reflexões sobre o fazer político. Ele se "aprofundava na análise política e filosófica da educação, [...] definia sonhos e utopias possíveis[1], seu pensamento fazia-se mais consistente, seu fazer, mais criativo, sem perder a coerência entre o pensar e o fazer" (ROSAS, 2003, p. 4)

Isso foi muito importante para sua formação pedagógica. Enquanto aprendia e compreendia o pensamento e a linguagem dos grupos populares, convivendo com diretores e professores de escolas primárias, bem como com coordenadores e participantes de grupos culturais, que ele percebeu o quanto a nossa cultura tem o peso do autoritarismo (BARRETO, 1998). Acreditamos que isto tenha sido fundamental para que em sua mente, tenha se fundado uma nova filosofia para a educação e o desenvolvimento dos processos culturais que se geram na nossa sociedade.

Suas aulas eram diferentes. Segundo Rosas (2003) o primeiro estranhamento causado pela forma diferenciada de Freire ensinar foi a substituição do formato convencional das salas de aula pela distribuição dos atores em círculos. Além disso, a organização didática das tarefas não mais era aplicada como tradicionalmente se fazia. Ele valorizava as técnicas de grupo: a conversa, o grupo de estudo, o grupo de ação, o fórum, o grupo de debate e a carta temário como atividades alternativas, tudo se direcionava para o diálogo e a descoberta, partindo de saberes que já faziam parte da realidade de seus alunos.

Podemos observar que essas experiências podem ter sido o passo inicial para a criação de uma filosofia própria, destinada a ser utilizada na educação popular. Tanto isso é verdade que Barreto (1998) registra a participação de Freire no Movimento de Cultura Popular de Pernambuco (MCP) a convite de Miguel Arraes, o então prefeito da cidade de Recife, momento em que, interessado em ampliar os trabalhos de educação de crianças e adultos nas amplas áreas da pobreza fez convite a alguns intelectuais e sindicalistas, para juntamente com o povo se engajarem na luta.

Foi justamente nessa época que Freire teve sua primeira experiência com Educação de Jovens e Adultos (EJA), levando à prática docente para o campo da conscientização e fazendo emergir incômodo às classes dominantes. Barreto (1998) transmite-nos as palavras de Freire tal qual ele falou quando perguntado sobre sua forma revolucionária de educar os adultos e jovens pobres:

É que às classes dominantes não importava que eu não tivesse um rótulo porque elas davam um. Para elas eu era comunista, inimigo de Deus e delas. E não importava que eu não fosse. Perfila quem tem poder. Quem não tem é perfilado. A classe dominante tinha poder suficiente para dizer que eu era comunista (FREIRE, apud BARRETO, 1998, p. 29).

A fala de Freire revela a sua preocupação em ativar, no seio da EJA, um tipo de educação que não estivesse apenas voltada para a transmissão de conteúdos aos alunos. Como educador, ele protestava contra esse tipo de educação denominando-a de educação bancária porque se assemelha ao ato de depósito em conta (FREIRE, 1987). O seu pensamento filosófico se gerou no percurso de sua carreira como educador, no desencadear da prática, diferente de muitos que teorizam um tema, mas nunca o viveram em seu fazer diário. É por isso Barreto (1998) enfatiza no seu livro que o pensamento de Freire foi nascido da vida.

O movimento de maior expressividade para a fundação oficial do método Paulo Freire foi a experiência realizada na cidade de Angicos, aqui no Rio Grande do Norte, desenvolvida entre janeiro e março de 1963. Trata-se da Campanha "De pé no Chão Também se Aprende a Ler" realizada com recursos da USAID e interveniência de Aluízio Alves, na época Governador do Estado. Rosas (2003) descreve esse projeto vivenciado por Freire como tendo sido o mais expressivo esforço de alfabetização para jovens e adultos, empregando-se o "método Paulo Freire", então concretizado no Brasil e provocador de temor aos conservadores.

Como suas ideias progressistas incomodavam muito as elites e ao poder político, o Golpe Militar de 1964, além de cessar com os movimentos também exigiu a prisão e o exílio de Paulo Freire. (BARRETO, 1998). Felizmente, isso não impediu que os aspectos teóricos de sua filosofia pedagógica para a Educação Popular se perdessem no meio dos atos repressivos que se sequenciaram até à década de 1980. Além de ter sido um pensamento nascido da prática, como diz Barreto (1998), é o pensamento de Paulo Freire é universal para o ato educativo, e esta universalidade, é demarcada a partir da defesa de uma educação para a nação oprimida em qualquer lugar do mundo. A proposta de Freire é de humanizar o homem, o opressor e o oprimido. Em Pedagogia do Oprimido, na justificativa de abordagem do tema, Freire (1987) deixa evidente a necessidade do ser humano humanizar-se pela sua incompletude, diz ser este um problema central e que deve ser preocupação iniludível sem demarcar qual tipo de homem precisa ser humanizado. Significa que todos os homens precisam se humanizar para perderem a ideia de que sabem tudo, de que são seres acabados. A desumanização e a humanização é para Freire uma realidade histórica da espécie que precisa ser trabalhada, a fim de que o próprio homem assim se reconheça.

E quando se trata especificamente da Educação, Freire se preocupou em formular o seu próprio sentido de educar, que surge justamente dessa necessidade do homem se completar, utilizando-se de atos desenvolvidos nas relações culturais, sociais, econômicas e políticas, como sendo processos educativos. Segundo Freire (1987, p. 39) "Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo".

Freire deixa claro que a educação é um processo que ocorre na vida, porém quando destaca a concepção bancária de educação deixa evidente que ela pode ocorrer de duas formas, para a libertação (emancipação do homem) ou para a domesticação (escravização). Quando ocorre para a libertação, a valorização dos processos sociais, a realidade, os sujeitos são autores as sua história de transformação; quando ocorre como instrumento de opressão, a valorização é para a transmissão de saberes que domesticam o homem, que é a concepção bancária de educação (FREIRE, 1987). A sua defesa ferrenha foi por uma educação emancipadora porque, para ele, a educação domesticadora, elaborada e programada pelas classes dominantes é fio condutor da opressão, por isso, propôs trabalhar conteúdos partindo de temas geradores, que focalizassem as necessidades de desenvolvimento educacional das classes populares.

Barreto (1998) ao analisar o sentido que Paulo Freire construiu para a educação, destaca a visão de um conhecimento como produto das relações dos homens e mulheres com o mundo, num processo em que ambos devem enfrentar os desafios de encontrar as respostas mais adequadas às perguntas que eles se fazem na vida, sabendo que a cada resposta surgem novas perguntas e a compreensão de tudo surge a partir da escolha mais adequada. Nesse processo, mesmo que a memória seja importante, a simples memorização de saberes, sem a compreensão efetiva do que está sendo ensinado, não produz novos conhecimentos.

Outro detalhe importante destacado por Barreto (1998) é o fato de Freire não desvincular a educação da política, em especial para as classes populares.  Paulo Freire foi "o primeiro educador a proclamar que não existe educação que seja politicamente neutra" (BARRETO, 1998, p. 61). Dessa forma, quando consideramos o ato de politizar o aluno na sala de aula, a visão de que estamos fazendo política se esfacela, pois, numa visão puramente dialética defendida por Freire, educação também inclui a politização, desde que estejamos defendendo a liberdade da construção social do sujeito aprendiz.

Compreendemos que o sentido da educação para Freire, começa no próprio instante em que se fazem as relações de ensino e aprendizagem. Compreender o significado do conhecimento ensinado para atuação na prática cotidiana, na vida, no âmbito profissional, social e pessoal torna-se o real conhecimento construído, enquanto que, aquele conhecimento que é apenas transmitido e nunca vivido na prática, não é conhecimento e, portanto, não de constitui um elemento da educação numa visão emancipadora, concepção esta que deve ser a mais adequada para ser trabalhada com os oprimidos.

Ao considerar a importância dos aspectos teóricos e metodológicos do pensamento de Paulo Freire como importantes para a prática pedagógica da EJA, que se insere no caráter da Educação Popular, nos dispomos a verificar se há elementos desse pensamento presentes na prática dos professores, já que tem sido amplamente disseminado em referenciais e fundamentações para a formação de educadores populares. A problemática do nosso estudo questiona: há, na prática pedagógica atual dos professores de EJA, algum aspecto que se fundamenta nas ideias teóricas de Paulo Freire? O objetivo de pesquisa é analisar as ideias de Paulo Freire e sua influência na prática do professor de EJA. Trata-se de uma pesquisa qualitativa de campo. O instrumento de coleta foi um questionário entregue à professora de Língua Portuguesa do 5º Nível de EJA da Escola Estadual Professora Alvani de Freitas Dias, localizada em Apodi/RN.

3 ANÁLISE DOS DADOS COLETADOS   

Iniciamos o estudo com a visita à escola selecionada, a fim de articular com os professores sobre a pesquisa e encontrar professores que estivessem dispostos a responder o questionário composto de seis perguntas. O período letivo não foi favorável porque a categoria se encontrava numa campanha de greve buscando melhorias salariais e de trabalho. Encontramos apenas uma professora de Língua Portuguesa, que leciona no 5º Nível da EJA, e que se dispôs a responder às nossas perguntas.

A primeira pergunta do questionário foi: Como você trabalha os conteúdos na EJA? A resposta da professora enumera várias ações didáticas: "A partir de temas geradores, com a leitura de textos, livros e às vezes a partir de projetos elaborados pela escola, partindo da coordenação pedagógica" (PROFESSORA QUESTIONADA). Vemos que, quando a professora fala em temas geradores, já evidencia a preocupação em demonstrar, pelo menos discursivamente, com as orientações teóricas de Freire, quando este em diversas de suas obras, ao relatar suas experiências com educação popular, enfatiza a importância de se trabalhar com aluno de EJA, a partir de temas geradores.

A segunda pergunta foi: Como são selecionados os conteúdos temáticos, que conhecimentos consideram? A professora responde o seguinte:

Alguns conteúdos trabalhados fazem parte dos programas de cada disciplina, de acordo com o núcleo em que se encaixa, os de Língua Portuguesa, por exemplo, incluem o ensino de leitura, escrita, linguagem e gramática, mas, para trabalhar esses conteúdos, consideramos os temas geradores trabalhados nos projetos, sejam elaborados pela escola ou pelo próprio professor. Os temas, às vezes dependem do que está mais sendo discutido no cotidiano social (PROFESSORA QUESTIONADA).

Mais uma vez, a resposta da professora apresenta indícios de que há pontos importantes do Método Paulo Freire sendo aplicados na sala de aula da EJA, o trabalho com os temas geradores é uma dessas observações. Quanto à forma de escolher, podemos perceber um pouco que não há esclarecimentos se esses temas trabalham realmente a necessidade dos alunos. Porém, quando a professora destaca os temas do cotidiano, pode ser que haja uma relação com o que o aluno precisa saber. Por exemplo, se o assunto do cotidiano é a violência urbana, e esta é vivenciada pela comunidade do aluno, certamente, a necessidade de conhecimento e de discutir o tema é algo importante. Assim, há relações estreitas entre a prática e o pensamento de Freire.

Uma das práticas que achamos conveniente inserir como pressuposto a ser analisado como base do pensamento de Freire é a questão relacionada com a leitura. Por isso, a terceira pergunta contemplou este aspecto. Vamos à pergunta: Como você procede para trabalhar a leitura na sala de aula? Segundo a Professora questionada: "A leitura é uma atividade importante e quando trabalho a leitura de textos com meus alunos, faço questão de abordar primeiro uma comparação com o que eles já sabem, ou seja, explorar o conhecimento prévio". Observa-se claramente que o discurso da professora tende a revelar uma concepção de leitura que se identifica com o pensamento de Freire, quando este enfatiza que há relações entre a leitura de mundo e a leitura da palavra escrita.  É possível identificar perfeitamente a menção ao conhecimento prévio sobre o tema que é abordado no texto.

A quarta abordou a forma como os professores trabalham os debates, as reflexões dos alunos e como discutem sobre os temas que são abordados em sala de aula. Vejamos a pergunta: Como você organiza o desenvolvimento (com relação às formas de participação do aluno, diálogo, organização, planejamento, os recursos utilizados) de suas aulas nas salas de EJA? A professora questionada responde:

Desde o planejamento que deixo registrada as atividades em que o aluno deve participar por meio do diálogo. O mais difícil é que os alunos de EJA têm muitas características distintas entre si. Tem alguns deles que não querem mostrar suas opiniões. Os recursos usados são os que a escola dispõe: projetor, vídeo, música, etc.

A análise da resposta não pode negar o valor que é dado à participação, o que revela que há diálogo e, que este diálogo pode estar inserido ou não no contexto do pensamento de Freire, pois, é preciso que se perceba em que sentido se dá essa participação dialógica. Questões como: há respeito ao pensamento do aluno? O que ele revela de conhecimento é trabalhado, ou seja, parte-se do conhecimento do senso comum para a sistematização do saber como Freire defendeu? As condições exigidas por Freire, como cita Barreto (1998): o amor, a fé e a humildade são os valores que emanam nesse diálogo? O diálogo procura enxergar as necessidades de aprendizagem do aluno?

As respostas dadas à quinta pergunta começam a abrir espaço para a compreensão sobre isso quando perguntamos à professora o seguinte: Se você estimula o diálogo para a participação do aluno, como vê os conhecimentos que ele traz da sua vida cotidiana para a escola? Esse conhecimento tem valor para o processo de ensino-aprendizagem? Vejamos a resposta:

Todos os debates são importantes e os conhecimentos que são apresentados pelos alunos, não revelam somente saberes, mas sentimentos, emoções, frustrações. Isto é essencial para aprendermos como lidar com esses indivíduos na sala de aula (PROFESSORA QUESTIONADA).

Não podemos deixar de perceber que na resposta da professora fica implícito detalhes das condições que são colocadas por Freire: o amor, a humildade, a fé (BARRETO, 1998). Se a professora concorda que há sentimentos, emoções, valores repassados pelos alunos são importantes e devem ser considerados no diálogo, e diz que servem para dar base às relações da prática, certamente ver como elementos que podem ser utilizados como ponto de partida para o ensino-aprendizagem. Vemos que ela propõe uma relação de troca, que também é ponto importante no pensamento de Freire. Diante disso, restaria então saber se há consciência em se trabalhar o significado desses saberes para a vida dos alunos, que também é um dos pontos que Freire (1987) coloca como importante, em especial quando trata da Pedagogia direcionada ao oprimido.

É a partir da quinta questão que podemos confirmar se a professora tem como base esta filosofia, pois perguntamos: Os conteúdos trabalhados na sala de aula têm significado para a vida do aluno?

Como trabalho com Língua Portuguesa, o sentido maior que proponho para o conteúdo trabalhado é a preparação para o uso competente das diversas formas de linguagem nas produções escritas e orais. A leitura e a escrita são os focos principais. Estou trabalhando a fim de que os alunos se conscientizem que precisam ampliar suas capacidades nesse sentido.

A resposta evidencia que a professora sabe o que é conteúdo significativo, e em especial quando se trata da disciplina que leciona. Podemos analisar que as suas concepções acerca disso, em especial quando se trata do uso desse conhecimento na vida, vemos a relação muito pertinente aos termos da educação popular vivenciada por Freire e que deu base à sua teoria. Os alunos da EJA, geralmente vão em busca de novas oportunidades escolares porque têm necessidades de uso das linguagens, de ler, escrever, operar a linguagem matemática e é esse conhecimento que tem significância para eles.

Uma das questões expressas por Freire (2001) é que a escola precisa trabalhar formação política do aluno. Essa afirmação do autor foi o que embasou a sexta pergunta do nosso questionário: Você trabalha a formação política dos seus alunos? Eis a resposta da professora:

A formação política do aluno é trabalhada a partir da ampliação de suas capacidades para analisar o contexto, ler as atitudes, os processos à volta dele, para sentir-se capaz de analisar depois. Não costumo inserir debates sobre partidos, nem sobre administração de algum político, por exemplo: prefeito, governo, deputado. Sempre abordo de forma sutil sobre as questões que envolvem a política. Ainda não me sinto preparada para desafiar as retaliações que sempre ocorrem quando falamos em política na sala de aula (PROFESSORA ENTREVISTADA).

O que podemos observar é que a resposta da professora, mesmo sendo relevante no sentido de demonstrar a consciência da necessidade de se trabalhar a politização do aluno, transparece a dificuldade que a mesma tem por em prática tais procedimentos. Há uma preocupação visível com as questões partidárias, o que revela tabus muito persistentes quando se trata de debater, analisar ou mesmo conversar sobre as questões políticas na sala de aula. Parece haver um entendimento de que para trabalhar a política temos que adotar linhas partidárias esquerdistas e parecem haver preconceitos contra estas linhas.

Parece haver concordância que somente devemos politizar se tratarmos de questões eleitorais, mas também parece haver temor de que quando tratamos de questões sobre história, economia, formação cultural e social, talvez tenhamos que ferir algum político conhecido, pois todos esses temas incluem política, e muitas vezes as falhas, os conflitos, os problemas envolvem exatamente as questões partidárias. Daí a preocupação do professor em se isentar de tais discussões.

Freire (2001) quando coloca a questão da educação e da política não poupa nenhum aspecto. Ele diz: "O respeito dos educandos não pode fundar-se no escamoteamento da verdade – as da politicidade da educação e na afirmação de uma mentira: a neutralidade" (FREIRE, 2001, p. 21). O que se observa na resposta da professora, mesmo que esteja colocado de forma implícita, é que isto ocorre. E é justamente nesse aspecto que a prática não se identifica com o pensamento de Freire. Fica, portanto, claro: quando se trata de ensino, aprendizagem, relações dialógicas que levantam debates sobre qualquer outro assunto, o professor revela-se como um seguidor do pensamento de Freire, mas quando se trata de politização do aluno, há ainda muitos desafios a serem vencidos. Entre estes se inclui o de vencer o medo de tratar das necessidades dos alunos, que muitas vezes dependem de ações governamentais de políticos bastante conhecidos deles.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A realização deste trabalho nos levou a buscar muitas leituras, e estas nos oportunizaram compreender que o pensamento de Freire tem uma lógica social educativa que precisa ser vivenciada de forma concreta na EJA, porque esta faz parte da educação popular, na qual se busca formar os alunos para transformar as suas realidades, que muitas vezes sofrem os efeitos produzidos pela força da opressão.

Na verdade, quando se trata de educação popular no Brasil, não podemos deixar de pensar em todo o processo de repressão que, no momento da ascensão do pensamento de Freire já estava enraizado na nossa cultura política e depois foi firmado a partir do Golpe Militar que interrompeu todos os caminhos para que esse pensamento se firmasse nos processos e sistemas educativos e tivesse resultado favorável à maioria da nossa população.

Apenas com a redemocratização do país, e agora, a partir de novos movimentos que fizeram acordar esse pensamento freireano é que pensamos buscar os efeitos dessa evolução revolucionaria na sala de aula. Quando iniciamos o nosso trabalho, imaginávamos encontrar algum aspecto referente aos tantos que Freire (1987) deixou como legado à prática educativa, mas não tantos, porque encontramos mais do que o esperado. O nosso estudo revelou muitos avanços no caminho da construção de um processo educativo baseado no ideal de Freire, mesmo que, as questões "politiqueiras" ainda funcionem como construtoras de tabus para a verdadeira politização do aluno da classe popular.

Tivemos a certeza de que, pelo menos na mente, nos processos de planejamento e na consciência do professor, o pensamento de Freire já é realidade, embora existam alguns ajustes a serem feitos. Detectamos que a dialógica, a consideração da realidade do aluno, a concepção de leitura, os recursos utilizados, bem como a forma de tratar os alunos e valorizar os seus conhecimentos, deixam evidente as três condições que Freire recomenda para que o diálogo em sala de aula seja proveitoso para a aprendizagem do aluno: o amor, a humildade e a fé.

Porém, há ainda que se contemplar uma formação política do educador para trabalhar com a Educação Popular das classes oprimidas, realidade em que o contexto da EJA se insere, no que diz respeito à abordagem de temas políticos. Percebemos uma inibição da professora entrevistada para trabalhar com esses temas na sala de aula. Esta revela que há debates sobre política, mas não de forma profunda para não chegarem às questões partidárias. Este é um detalhe que se distancia das recomendações teóricas de Paulo Freire, pois segundo ele a política na sala de aula deve ser tratada da forma como ela realmente acontece.

REFERÊNCIAS

BARRETO, Vera. Paulo Freire para educadores. São Paulo: Arte e Ciência, 1998.

BRASIL, Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais para a EJA: Parecer CNE/CEB nº. 11. Brasília: MEC, 2000. 

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

_______. Política e educação. 5 ed. São Paulo: Cortez, 2001.

ROSAS, Paulo. Paulo Freire: aprendendo com a própria história. In: educação, legislação e cidadania, Recife: v. 2, p. 39 - 60, 2003.

[1]Grifo do autor

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    Fonte do Artigo no Artigonal.com: http://www.artigonal.com/ensino-superior-artigos/o-pensamento-de-paulo-freire-no-processo-de-ensino-aprendizagem-da-eja1-6027644.html

    Palavras-chave do artigo:

    paulo freire educacao popular dialogica

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    Este artigo trata da importância da postura do professor universitário no desenvolvimento do aluno e como uma Filosofia Confessional influencia neste propósito. Para isso verificamos o papel das Instituições confessionais protestantes no processo da Educação Universitária do país. Para melhor conhecimento foi realizada uma pesquisa exploratória em forma de entrevista com alunos de uma Instituição confessional Protestante com o objetivo de saber qual a relação que eles têm com seus professores.

    Por: JACKSON ROBERTO DE ANDRADEl Educação> Ensino Superiorl 22/10/2014

    RESUMO Uma só palavra ou teoria não seria capaz de abarcar todos os processos e experiências históricas que marcaram a formação do povo brasileiro. Marcados pelas contradições do conflito e da convivência, constituímos uma nação com traços singulares que ainda se mostram vivos no cotidiano dos vários tipos de "brasileiros" que reconhecemos nesse território de dimensões continentais. A primeira marcante mistura aconteceu no momento em que as populações indígenas da região entraram em

    Por: Joiciane de Sousa Santosl Educação> Ensino Superiorl 21/10/2014
    Edjar Dias de Vasconcelos

    Dado ao caráter emergencial da fome generalizada, povos africanos têm que se alimentar de animais portadores de tais vírus, que são mortais ao organismo humano, como cobras, ratos, morcegos e o chimpanzé.

    Por: Edjar Dias de Vasconcelosl Educação> Ensino Superiorl 20/10/2014
    Edjar Dias de Vasconcelos

    Motivado pelo conflito contra os ingleses com objetivo de controlar o norte da França, o referido monarca, formou um grande exercito, sustentados por impostos cobrados no território nacional.

    Por: Edjar Dias de Vasconcelosl Educação> Ensino Superiorl 20/10/2014
    Edjar Dias de Vasconcelos

    Em toda minha vida. Apenas sonhei. Em não ser. O que sou. Não teria nem mesmo preposição. Axiomática. Desejo ser diferente. O que de fato não sou. Serei todos os meus sonhos perdidos. Esquecidos no mimetismo.

    Por: Edjar Dias de Vasconcelosl Educação> Ensino Superiorl 19/10/2014
    Edjar Dias de Vasconcelos

    O que vejo no mundo político. Uma guerra indelével. Na defesa de duas tendências. Ambos as forças políticas. Defende o mesmo modelo. Fundamentado no liberalismo econômico. Nao existe ideologia de esquerda no Brasil. Apenas uma acepção imperscrutável. Ao silêncio da ignorância nacional.

    Por: Edjar Dias de Vasconcelosl Educação> Ensino Superiorl 18/10/2014
    Edjar Dias de Vasconcelos

    Ver e perceber. Apenas a parcialidade da compreensão. E que poderá ser sempre a distorção. Como de fato costuma ser. Dado a natureza do mundo representativo. Significando o desejo do engano. As fantasias dos sonhos.

    Por: Edjar Dias de Vasconcelosl Educação> Ensino Superiorl 17/10/2014
    Edjar Dias de Vasconcelos

    A respeito da teoria da evolução formulada por Charles Darwin 1809-1882, quem melhor organizou a ideia de como as espécies evolui a partir uma das outras, na superação de elos inferiores, criando as diversidades das mesmas.

    Por: Edjar Dias de Vasconcelosl Educação> Ensino Superiorl 17/10/2014
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