Pluralismo e Serviço Social

28/02/2011 • Por • 3,841 Acessos

Introdução

O serviço social,  como trabalho especializado na sociedade, é uma profissão que se situa no âmbito das relações sociais, isto é, relaciona com as várias dimensões da vida social. Ela se configura  e se recria no âmbito das relações entre o Estado e a Sociedade , ( Iamamoto, 2004, p.171) respondendo as necessidades sociais dos sujeitos através das políticas sociais geridas pelo Estado.

A profissão se inscreve em um campo minado por interesses antagônicos (da classe dominante e da classe dominada) e tem a Questão social, como objeto de trabalho.  A Questão Social, segundo Iamamoto, é impensável sem intermediação do Estado, pois foi só através do seu reconhecimento que o Estado amplia-se e passa a gerir e administrar o conflito de classe, e conseqüentemente, abrem espaço para o Assistente social ao criar políticas publicas para o enfrentamento da questão social. (Iamamoto, 2004, p.172)

É na dinâmica contraditória da  vida em sociedade que  atravessa o fazer dos Assistentes sociais, Isto implica aos profissionais uma analise da conjuntura- como foco previlegiado da questão social-  para atuar ‘' sobre e na realidade social''. ( Iamamo to, 2003, p.55)

No contexto atual, a globalização, a reestruturação produtiva (expressada pela flexibilização e precarização do trabalho), o aumento da desigualdade social e da pobreza, tem posto  novos desafios ao exercício profissional, devido ‘'ao agravamento das múltiplas expressões da Questão social, base sócio-histórica da requisição social da profissão ( Iamamoto, 2003).

Essas mudanças na produção de bens e serviços se complementam com novas relações entre Estado e sociedade de classes- que tem resultado em uma radicalização da questão social-, atingem diretamente o trabalho cotidiano profissional (iamamto, 2004, p.181), colocando " novas problemáticas'' significativas- tais como trabalho escravo, trafico humano, turismo sexual, entre outros-  e novas tendências  embuidas pelos ideiais neoliberais, em que o Mercado é o centro, isto é tem –se uma  progressiva  mercantilização  do atendimento  as necessidades sociais, decorrentes da privatização das políticas sociais.

 

 

Diante das novas tendências, impostas pelos ideais neoliberais, pensar  Serviço Social na contemporaneidade, primeiramente é preciso entender como as matrizes ideológicas que sustentaram e sustentam se comportam na atualidade. Sobretudo o impacto que estas têm trazido a profissão.

 

A questão do Pluralismo metodológico nas ciências sociais

A crise capitalista desencadeado entre os anos de 1960e 70 provocou mudanças em diferentes esferas da vida social (modernização social e cultural), pairando nas ideologias que interpretavam a realidade social ( positivismo e teoria marxiana), abrindo novos caminhos como caminhos analíticos alternativos para se fazer ciência e conhecer a realidade social. ( Siminonatto, p.3-5)

Essas mudanças afetaram campo das ciências sociais, provocando uma suposta crise dessa ciência, sustentada pela ‘'falência'' da teoria marxiana, como eixo central. Na busca de solução para essa crise, o caminho encontrado por alguns estudiosos, foi o do pluralismo metodológico, que segundo Tonet, é um caminho equivocado (p.35), pois está fundada na subjetividade , ‘'isto significa que toda problemática é examinada de um ponto de vista do sujeito e não da integralidade do processo de conhecimento''(p.45). Este caminho é considerado por Tonet ‘'o mais extravio da razão, a forma mais refinada de impedir a correta interpretação do mundo que funde a radical superação da sociabilidade regida pelo capital ‘'. (Tonet, 1995, p.56)

Como foi citado  anteriormente, há duas matrizes da ciência moderna,  interpretativa da realidade, que fazem parte do campo das ciências socais.

A primeira é o positivismo, de tradição empiricista, sustenta a cientificidade burguesa, no qual a trata cada parte da  realidade social como algo autônomo , imutável, que segundo Marx (apud Tonet) compreende o mundo, escondendo o essencial e revelando apenas a aparência. (Tonet, 1995, p.40-42)

A segunda matriz teorica que interpreta a realidade é a teoria marixiana, que numa perspectiva ontológica, inaugura uma ciência em que o trabalho é o fundamento  ontológico , ‘'processo de entificação do ser social''. A substância, que é negada pela ciência burguesa, é a essência da constituição do ser social e esta é a práxis humana, que resulta da relação entre subjetividade e objetividade, ou seja a práxis humana é mediadora entre subjeto e objeto.  Sobretudo, nessa perspectiva teoria a realidade social é tomada em sua totalidade, considerada história, complexa e  dinâmica. (Tonet, 1995, p.40-43).

A totalidade como eixo central, permite apreender todo o processo existente na realidade social e aparência constitui o ponto de partida para se chegar a essência, o que efetivamente é. (Tonet, 1995, p.43-44)

Apesar desse método se considerado o instrumento ideal para superar as oscilações  das ciências sociais, os desencontros dessa teoria  (trazidos pelos marxistas e neomarxistas), devido as interpretações equivocadas e erronias, durante sua trajetória,  perdeu sua característica ontológica. Alguns argumentam que esta teoria tornou-se dogmática e insuficiente pra entender a realidade, Contudo, Tonet constata que este é um argumento falso.

Diante desses fatos a  solução encontrada  para as ciências sociais, pelos seus defensores, na sociedade moderna foi articulações de diversas propostas e nessa lógica até o marxismo foi contaminado (.p46), formulando o que Tonet designou  de pluralismo metodológico (caráter gnosiológico). De acordo, com Tonet, esse método não deixa de ser uma forma de relativismo e de ecletismo e deve ser combatido e o método  de caráter ontológico  é o que permite melhor condições de visibilidade, de transformação da realidade e a ciência social como revolucionária, deve alicerçar-se nesse pressuposto (  Tonet, 1995, p. 45, 46 e 56)

Pluralismo e  o Serviço Social

O pluralismo, concebido como convivência democrática das idéias, embora essencialmente limitado sob forma particular de sociedade é uma conquista insuprimivel da humanidade, e como tal deve ser defendido, pois está ligado ao processo de individualização e de autoconstrução positiva do gênero humano e condição para o progresso cientifico. ( Tonet, 1995, p56)

A defesa desse pluralismo esta proposto no código de Ética do Serviço Social, no intuito de respeitar as diferentes matrizes que analisam o movimento da sociedade. O pluralismo, nesse sentido, não é conciliar pontos inconciliáveis , mas é reconhecer as diferentes matrizes; É sinônimo de abertura para o diferente,de respeito pela posição  alheia, considerando aquela posição, ao nos advertir para os nossos erros e limites, e ao fornecer sugestões é necessária ao próprio desenvolvimento da nossa posição e,de modo geral,d a ciência. ( ABESS, p.  13 -14)

 

 

 

Ciências sociais e Serviço Social

 

O Serviço Social ao articular com as ciências sociais, em seu primeiro momento, tomou como base teórica o positivismo, em seu processo de institucionalização pelo Estado enquanto necessidade de qualificação técnico – cientifica. O Serviço Social embasado pelo positivismo, tem a função de manter a ordem burguesa, de amenizar  as contradições , ajustar os desajustados e incentivar os trabalhadores para alcançar metas empresariais. (Guerra, 2000, p.55-56)

Com a complexificação da Questão Social, objeto da profissão, e de seu tratamento por parte do Estado e da condição sócio-histórica da profissão, de sua instrumentalidade diante da sociedade, o Serviço Social amplia sua interlocução com as ciências sociais para inovar e transformar a ação profissional, não mais no sentido de manter, preservar, justificar a ordem burguesa, mas de transformá-la com ações criticas e criativas. ( Guerra, 200, p.58-59)

É nesse período que a profissão se aproxima da teoria marxista (num primeiro momento de forma enviesada ), ancorado na Razão Dialética,  para ampliar suas funções  no âmbito da democracia, cidadania, dos direitos humanos e sociais a fim de ‘'operar transformações,alterações nos objetos e nas condições (meios e instrumentos) visando alcançar seus objetivos através de elementos progressistas,  emancipatórios , próprios da razão dialética.

Nessa forma, o Serviço Social incorpora conteúdo teórico - critico, teórico-pratico, ético-politico, inspirada na razão dialética  , no qual a razão instrumental não dava conta. Assim, a profissão se inova a fim de contribuir na construção de alternativas, de superação  da ordem do capital, fundada numa verdadeira democracia e isso é possível com uma visão ancorada na teoria marxiana.

 

Para concluir

 

Essas mudanças ocorridas em níveis ideológicos afetam diretamente as diferentes profissões, e, portanto, também o Serviço Social promovendo profundas mudanças no campo teórico, político e pratico.

Assim, o serviço social vem se inovando, num processo de ‘'continuidade de ruptura''  com seu lastro conservador (Iamamoto, 2004) para qualificar tanto a formação profissional quanto o trabalho profissional. O novo código de ética da profissão, as alterações nas diretrizes curriculares, são elementos fundamentais que contribuem para a qualificação profissionais dos assistentes sociais na conjuntura atual.

O projeto profissional é o guia para o exercício profissional, pois prescreve direitos e valores humanista, em que tem a liberdade como valor ético central. De caráter universalista e democrático, o projeto profissional requer ações voltadas ao fortalecimento dos sujeitos coletivos, dos direitos sociais e necessidade de organização para a sua defesa construindo alianças com os usuários dos serviços na sua efetivação.

Desse modo, o Assistente social comprometido com a democratização societária, deve ser atualizado, competente, critico, e criativo para redescobrir alternativas e possibilidades, sem ignorar seus limites, para o trabalho profissional no cenário atual, a fim de contribuir para a construção, á médio prazo  ( Netto, 2006, p.30) de uma nova história, uma nova ordem societária firmada na verdadeira democracia, revertendo ‘' as políticas e as estratégias que conduzem á barbarizarão dos direitos sociais''.

Contudo, cabe aos profissionais não deixar se levado pelas tendências modernas, rejeitando qualquer pressuposto que obscurece a realidade social, que focaliza a sua instrumentalidade, mas firmar naquilo que está proposto no código de ética da profissão,  afim de contribuir na construção de uma nova socialibidade,  nos termos marxiano, para a emancipação humana.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referencias Bibliográficas

ABESS. Ensino em Serviço Social : Pluralismo e formação profissional. Caderno ABESS 4, editora Cortez, 1991.

 

GUERRA, Yolanda. Instrumentalidade no trabalho do assistente social

 

IAMAMOTO, Marilda Vilela. As dimensões Ètico- Políticas e Teoric—Metodológicas no Serviço Social. In Serviço Social e Sociedade. ABEPSS, editora Cortez, 2004

 

 

NETTO, José Paulo. A ordem social contemporânea é o desafio Central. In 33ª Conferencia Mundial de Escola de Serviço Social. Santiago, Chile 28/31 de Agosto de 2006.

 

TONET, Ivo. O Pluralismo Metodológico: um falso caminho. In Serviço Social e Sociedade. ABEPSS, editora Cortez, 2004

 

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Perfil do Autor

Ana Paula Pinto

graduada em Serviço Social pela Universidade Federal de Mato Grosso no final do Primeiro Semestre de 2010.