Professor: um profissional ou um gestor de sonhos?

15/09/2008 • Por • 44,327 Acessos

O profissional denominado PROFESSOR é, naturalmente, de extrema
importância para o futuro de nossa sociedade. Sem entrar no mérito da valorização financeira e pensando no professor enquanto profissional da educação, seu valor tem sido reconhecido pela sociedade do conhecimento. Essa valoração tem instigado o professor a buscar padrões de capacitação docente no intuito de aperfeiçoar e valorizar  seu potencial e neste sentido começa a surgir um novo professor: o professor gestor.

Neste artigo não tenho a pretensão de discutir um pouco sobre o porquê deste novo professor, contextualizando sua formação a partir da sociedade atual e suas características como gestor da sala de aula e da escola.

Buscando conceitos, definimos o  professor como é o profissional do ensino.  O conceito mais comum encontrado em vários dicionários (Aurélio, Luft, Michaelis)   “Professor é aquele que professa ou ensina uma ciência, uma arte, uma técnica, uma disciplina”.

 Quanto ao conceito de gestor,  o que mais se aproxima de nosso entendimento é que o gestor é a pessoa responsável, dentro de uma organização, pela otimização do funcionamento das organizações através da tomada de decisões racionais e fundamentadas na recolha e tratamento de dados e informação relevante e, por essa via, contribui para o seu desenvolvimento e para a satisfação dos interesses de todos os seus colaboradores e proprietários e para a satisfação de necessidades da sociedade em geral ou de um grupo em particular, respeitando o ser humano como pessoa, sujeito.  

Neste sentido cabe-nos ainda  definir  a escola.  Esta pode ser aqui entendida como a “organização”,  como um conjunto de duas ou mais pessoas que realizam tarefas, seja em grupo, seja individualmente mas de forma coordenada e controlada, atuando num determinado contexto ou ambiente, com vista a atingir um objetivo pré-determinado através da ação eficaz de diversos meios e recursos disponíveis, liderados ou não por alguém com as funções de planejar, organizar, liderar e discutir posiveis ações para os inumeros problemas existentes no processo educacional.

Após estabelecidos os conceitos de professor, gestor e organização, e preciso compreender que a  organização escolar, composta por estes e outros sujeitos está inserida em uma sociedade.

Falando em sociedade, não se pode deixar de considerar que vivemos em um mundo de transformações, um mundo acelerado, com características diferentes da sociedade ou época em que me formei e que grande parte dos profissionais que hoje exercem a docência se formou. Como conseqüência, trabalhamos com valores, crenças, práticas didáticas bem diferentes das quais nos formamos. Assim, precisamos estar buscando e aprendendo continuamente.  Quando me formei, no final dos anos 80, o que era exigido do professor era que preparasse sua aula, pois um bom planejamento permitiria a aprendizagem. Em nossa formação de professores não fomos treinados para lidar com o planejamento de nossa própria carreira ou com a definição de metas e não temos, muitas vezes, os mais simples conceitos de administração, de custos, marketing, fidelização e captação de alunos.

Até pouco tempo para ser um bom professor bastava ter uma boa didática e conhecimento da sua matéria, dar a sua aula e pronto. O resto era responsabilidade da direção da escola ou da família do aluno.

Hoje é preciso muito mais: é preciso planejar, estudar, compreender como o aluno aprende, vencer o desafio da falta de motivação do aluno, gerenciar conflitos e ainda voltar aos bancos escolares como aluno. Assim, a corrida pela profissionalização tem sobrecarregado o professor de tal maneira (que muitas vezes me questiono se vale à pena) numa corrida sem volta. O resultado é cada vez mais uma sociedade exigente, onde se tornam   professores gestor dos conflitos alheios e vitimas de seus próprios conflitos: falta de tempo para o amor, para os filhos e para a vida.

Mas que sociedade é esta? Uma sociedade desacerbada, onde a individualidade é maior a cada dia e temos menos espaços de convivência dos membros da família. Deixamos a TV educar nossos filhos para educarmos os filhos dos outros.  

Não podemos esquecer que a nossa sociedade está em processo de mudança e como em todo processo de mudança, traz novos desafios. Como vencer esses desafios?

Lidar com esta sociedade e com este perfil de alunos exige novas habilidades para novas competências. É preciso incorporar as habilidades e competências para a gestão de mudanças e de processos. E para isto, revalidar nosso diploma acrescentando  novos elementos para atuar com este novo aluno. É preciso novas metodologias e novas experiências em áreas diversas. Além dos saberes técnicos advindos de seu curso de formação, o professor gestor deve possuir uma base sólida e ir além dos saberes cognitivos, é preciso ser um gerenciador de sonhos e de conflitos.

Professor gestor?  Que conceito é este? O professor ocupará o lugar do gestor?  

Não se pretende neste ensaio defender a idéia de que o professor passe a ocupar um lugar que não é seu, até mesmo porque as atribuições do professor são tantas, que não lhe cabe mais uma. O que se defende aqui a idéia do professor gestor de seus espaços.  Para tanto,  é preciso construir uma imagem positiva de si, dos alunos e da escola; planejar suas ações, prevendo suas conseqüências; manter o foco onde o aluno e a família estão; estimular e utilizar as tecnologias disponíveis na escola; estabelecer, com os alunos, metas de curto, médio e longo prazo e criar instrumentos para acompanhamento, enfim, é preciso partilhar conhecimento, gerenciar sonhos e conflitos. Trabalhar com a diversidade respeitando a individualidade.

As novas formas de gestão são tão imperativas que o conceito gestor estende-se ao professor. Este vem sendo pensado como professor-gestor. Na visão gerencial também vem sendo agregado ao professor o papel de empreendedor. Nesse âmbito, faz sentido pensar o professor como gestor: gestor de conhecimento, gestor de conflitos, gestor de projetos, entre outros.

Assim, o perfil profissiográfico almejado para o professor num contexto de mudanças, é o do profissional que está em contínua aprendizagem, apto ao uso intensivo das facilidades tecnológicas, ao intercâmbio de conhecimentos e seja agente propulsor e facilitador de inovações de geração de conhecimentos, ou seja, o professor profissional gestor de sonhos.

 

Referencias

BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Diário Oficial da União.  Brasília, 23 de dezembro de 1996.

 

BRASIL. Educação Superior em debate: docência na educação superiorV. 5. Brasília, 1º e 2º de dezembro de 2005.

 

IMBERNÒN, Francisco. Formação docente e profissional: formar-se para a mudança e a incerteza. 4. ed. Campinas, SP: Cortez, 2004. (Coleção Questões da nossa época).

 

 

PIMENTA, Selma Garrido e ANASTASIOU, Lea das Graças Camargo. Docência no ensino superior: problematização.  In: PIMENTA, Selma Garrido e ANASTASIOU, Lea das Graças Camargo. Docência no Ensino Superior. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2005. p.33-35.

 

 

PIMENTA, Selma Garrido e ANASTASIOU, Lea das Graças Camargo. O docente do ensino superior. In: PIMENTA, Selma Garrido e ANASTASIOU, Lea das Graças Camargo. Docência no Ensino Superior. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2005. p.175-200.

 

 

PIMENTA, S. G. & ANASTASIOU, L. das G. C. Docência no ensino superior. V. 1 São Paulo: Cortez, 2002.

TARDIF, M. Saberes profissionais dos professores e conhecimentos universitários: elementos para uma epistemologia da prática profissional dos professores e suas conseqüências em relação à formação para o magistério. Revista Brasileira da Educação. São Paulo, 2000, n.13, p. 5 – 24, jan/abr.

 

TARDI, Maurice e LASSARD, Claude. O trabalho docente: elementos para uma teoria da docência como profissão de interações humanas. Petrópolis: Vozes, 2005.

 

TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2004.

 

 

 

Perfil do Autor

ISAURA FRANCISCO DE OLIVIERA

Isaura Francisco de Oliveira é Pedagoga com especialização em Educação na Educação Básica e no Ensino Superior. Atualmente atua como professora da Universidade do Estado da Bahia -UNEB e na Faculdade de Ciências, Tecnologia e Educação-FACITE.