Quarto-Poder: A Lei De Mesmer

Publicado em: 18/12/2009 | Comentário: 0 | Acessos: 59

sábado, 11 de abril de 2009

 QUARTO-PODER: a lei de Mesmer

Um Breve Comentário Doxo-é-lógico sobre o conceito de Espetáculo em Debord. A Mídia e o mundo Rio de Janeiro, Maio/Junho de 2004.

"A sociedade proclamou-se oficialmente espetacular. Ser conhecido fora das relações espetaculares equivale a ser conhecido como inimigo da sociedade."

[Guy Debord – A Sociedade do Espetáculo – 1967

 

 

Os programas de auditório, tradição advinda do radio, uma formatação análoga a do teatro, viria a ser aplicada com êxito nesse prodigioso veiculo de comunicação – a televisão - assegurando um espaço bem sólido e próprio, num universo muito peculiar, mantendo-se até os dias de hoje. Esse tipo de construção programática se afina comedidamente a intencionalidade, no processo, dos media, pois, produz, em tese, interação com o público (platéia), que esboçará suas reações interpretadas por espontâneas, associando o contexto, analogamente, aos eventos reais – a representação realística assegura a credibilidade e a idéia de interação, e as movimentações supostamente naturais da platéia, por reação indutiva, produzem um efeito de transferência no espectador, entretendo-o e viabilizando o acesso e manipulação de seus estados emotivos, seja, pois, outorgada a administração de suas confluências interiores – o efeito é quase hipnótico, o espectador, enquanto entretido, assume a representação como sendo real, somando-se a seus efeitos e participando suas posições – o material é permeável e o ambiente mais que propício ao arremate sugestivo, que surtirá efeito de ordem, incontestável! O uso da catarse a essa finalidade desempenha importante papel. Os súbitos contrastes emotivos acabam por produzir um efeito quase que de neutralização da racionalidade, gerando um estado de confusão e instabilidade no espectador, que procurará restabelecer sua segurança e tranqüilidade - e é nesse momento que a palavra firme, segura e apaziguadora do “mediático” entra em cena, com seu poder superpotencializado, apresentando o conteúdo que devolverá a paz ao espectador, que é, pois, a ordem, que com a transferência previamente estabelecida (como fora mencionado anteriormente), será fideal e incontestavelmente acatada, pois sua segurança disso depende.

 

 

O programa, em toda sua produção, sustenta-se sobre os pilares da espetacularidade, tangenciável pelas corroborações processuais, proficuamente dispostas em seus pormenores, de vertentes performáticas que se evidenciam, num ambiente que se esvazia de significação, compilado pela ditadura do consumo imediato, inconsistente, alienado e predatório. Sua formatação, segundo a própria segmentação, inclui-se no âmbito do sensacionalismo e performatividade. Esse sensacionalismo despertará ardilmente a atenção e o interesse de mentes que, segundo o contexto em que são produzidas suas historias, estão propensas a entregar-se às idéias fantásticas que lhes surte certo êxtase transcendental – e a explicação fabulosa que desemboca na divina providência.

 

 

Esse show é resguardado por uma grande retaguarda técnica, com alto nível de especialização em tudo que diz respeito às competências tecnológicas e estratégicas. Sua linguagem privilegia o código em detrimento da mensagem (Marcelo Fonseca Alves - 2004, UCAM - RJ), sempre de rápido e fácil consumo, conforme o anseio do público e do próprio conceito de entretenimento . O espectra-dor fica, assim, desarmado psicologicamente, sendo mais fácil sua manipulação. Dessa forma o espetáculo vai constituindo seu rebanho, seus devotos que vão, em romaria, aos templos do consumo (Richard Sennet) , que confessam suas queixas a seus sacerdotes, que fazem suas preces esperando a providência mediática. São essas suas ovelhas, as mesmas que serão abatidas e oferecidas em holocausto à divindade, até que se sacie sua sanha sanguinária, até que sua ira cesse.

 

 

Toda sociedade, pois, segue em mesmo compasso as “tendências” que são despejadas goela abaixo e que pouco a pouco vão sendo incorporadas às suas condutas como sendo naturais, como se sempre tivessem estado ali. São essas tais proposições que se respaldam no alienus continuum produzido sistematicamente por essas ideologias, adquirindo perspectivas ordenativas, sob uma ótica equivocadamente incondicionalizada – o sistema erigiu um imperativo categórico – o consumismo.

 

 

O programa, em seu processo, estrutura-se em recursos que são sua causa e finalidade. Estes recursos têm por objetivo gerar mais recurso, pra que este gere mais, e mais... retornando sempre sobre si mesmo, multiplicando-se. Ele se prolifera como um vírus letal e à primeira vista parece ser capaz de se reproduzir por reflexo, mas como tal, ele apenas introduz numa célula saudável seu material genético, reproduzindo-se, em larga escala, a partir de sue conteúdo energético, seu recurso, necrosando a célula, outrora, saudável. O capital espetacular tem uma origem, e sua origem é a dominação.

 

 

O capital produz formas de se reproduzir, uma delas, origem de todas as outras atualmente, é o Espetáculo. O espetáculo, em sua dinâmica processual, através da movimentação da máquina capitalista, concentra uma energia de tamanho poder devastador – é o capital acumulando capital através do espetáculo. As proporções se amplificam e sua vultosidade é de tal ordem que não se sabe mais determinar se é o capital que produz o espetáculo ou se é o espetáculo que produz o capital, aliás, nunca se soube desde o espetáculo !

 

Dentro do programa esse capital personifica-se, trata-se do business man. São os interesses de categoria que determinam o programa e todo o maquinaria-espetáculo, por que estes, ainda, são sua extensão. Mas aí se ata uma espécie de nó dicotômico, o que não nos é pertinente aprofundar. Essa relação viciosa segue (pseudodialeticamente), produzindo seu efeito metástase em toda sociedade, putrefando seu organismo, espalhando-se mais e mais. Trata-se do espetáculo do crescimento, do crescimento do próprio espetáculo.

 

 

Ao ampliarmo-nos na História , à noção de espetáculo, veremos que ele, em seu pré-curso de base praxiológica, remonta a épocas muito mais distantes, evoluindo às proporções atuais. A idéia de espetáculo já poderia ser identificada no Império Romano, em todas as suas ações políticas e militares, mais evidentemente as políticas (“poligiosas”). A caracterização desse programa que determinamos, portanto, de certa maneira pode ser identificada com o Império Romano, em sua tão famosa “política de pão e circo’’, com a única diferença de que aqui isso é feito pelo capital, a quem o Estado, em última analise, é subordinado. A própria configuração das leis é emergência dos interesses hegemônicos, sob ideologia que tem por finalidade legitimar a dominação, então, ocorrente. A política de pão e circo resume bem o contexto desse espetáculo suntuoso – o entretenimento por parte dos gladiadores e o pão lançado aos avanços da plebe faminta.

 

 

O espetáculo se constitui e funciona, pois, mantém a plebe satisfeita com suas migalhas e alheia a todo processo que a faz sucumbir famelicamente a elas. Mas o espetáculo se estende a todos os setores e seguimentos da sociedade, e sua alienação prática produz-se em sua prática alienada(cf. Chaui de Souza -1980), e a certa medida o espetáculo parece mesmo autofágico. Vive-se numa espécie de síndrome espetacular. Toda simulação conflituosa, intracelular, referente aos mestres do espetáculo, encerra-se tão logo aos seus interesses é esboçada uma mínima ameaça, e a harmonia segue-se. O contexto fantástico em que esta geração se insere é a representação efetiva de tudo aquilo que o espetáculo impede e tudo aquilo que ele permite (conforme diz Guy Debord em seus “Comentários Sobre a Sociedade do Espetáculo’’ parte 3, pág. 172).

 

 

O espetáculo em nenhum aspecto detém-se em parcimônias e em sua óptica de representação ideológica inverte a tônica processual, de maneira que o que é causa toma-se por efeito e o que é efeito aparece como causa. (Cf. Chaui de Souza -1980). Casualmente, se vem à tona algum “segredo de bastidor”, esses prejuízos são, pois, minimizados pela própria definição de espetacular-divertimento (nem que seja uma mera "guerrinha dos sexos" ou conflitos de gênero**), ao mesmo tempo em que reifica suas proposições, e a certa medida não se lhe atribuirá tamanha amplitude corrosiva do “Consumo social” (e do consenso), mas que interpretada como insignificante em sue efeito – e é exatamente nesse ponto que se alicerçará toda ignomínia do processo, tomando fôlego para prosseguir sua marcha. Outrossim, a própria sociologia da comunicação forneceu (e fornece) o combustível teórico que movimenta essa maquinaria que renova a cada dia o espetáculo. Este se trata de uma infusão de êxtase e mistérios (ou “agonia e êxtase”) que vão (se supõe) sendo gradativamente revelados, e cujas fontes, donde jorram essas águas, permanecem ocultas.

 

Mas o "show" deve continuar...

 

FELLIPE KNOPP

 

_____________________

* Texto apresentado oficialmente ao Prof. Marcelo Fonseca Alves como requisito parcial de avaliação na disciplina de Introdução à Comunicação, do curso de graduação em Comunicação Social, na Universidade Candido Mendes - campus Tijuca - Rio de Janeiro, RJ, no 1º semestre de 2004 (1º período do curso). **Acrescentado pelo autor do artigo, ao texto originalmente publicado, em 14/10/2009.

 

Postado por THEORIKÓNDOXAS

(Artigonal SC #1599389)

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