EVANGELHO SEGUNDO MARCOS - Autoria e Título

18/07/2011 • Por • 185 Acessos

O Evangelho segundo Marcos é realmente anônimo visto que não especifica seu autor (os títulos dos quatro evangelhos foram adicionados mais tarde). O título Grego, Kata Markon [Kata Markon "Segundo Marcos"] é um acréscimo posterior, mas há clara e forte evidência (externa e interna) que Marcos foi seu autor. "O testemunho unânime dos pais da igreja antiga é que aquele Marcos, o companheiro do apóstolo Pedro, foi o autor." Em 112 d.C., Papias cita Marcos como "o intérprete de Pedro". Dunnett aponta, "Uma comparação do sermão de  Pedro  em Atos 10:36-43 com o Evangelho de Marcos mostra que o primeiro é um esboço da vida de Jesus e que Marcos o amplia acrescentando muito mais detalhes e informações."

Embora Marcos não tenha sido um dos discípulos originais de Cristo, ele foi o filho de Maria, uma mulher de riqueza e posição em Jerusalém (Atos 12:12), um companheiro de Pedro (1 Pe. 5:13), e o primo de Barnabé (Col. 4:10). Essas associações, especialmente sua associação com o Pedro que se constituiu evidentemente na sua fonte de informação, deu autoridade apostólica para o Evangelho de Marcos. O fato de Pedro referir-se a ele como "Marcos, meu filho," (1 Pe. 5:13), pode indicar ter sido ele a leva-lo a Cristo ou ao menos tê-lo batizado.

Somando a isto, ele esteve também em associação com Paulo. Ryrie escreve:

Ele teve o privilégio raro de acompanhar Paulo e Barnabé na primeira viagem missionária, mas fracassou em ficar com eles na viagem inteira. Por causa isto, Paulo recuso-se a levá-lo na segunda viagem, assim ele foi com o Barnabé para Chipre (Atos 15:38-40). Porém, alguns anos mais tarde ele esteve outra vez com o Paulo (Col. 4:10; Fl. 24), e antes da execução de Paulo ele foi solicitado pelo apóstolo (2 Tm. 4:11). Sua biografia prova que aquela sua falha não o incapacitou a se tornar um instrumento útil.

Alguns estudiosos têm questionado se este Marcos é o mesmo João Marcos mencionado no NT, mas tais questionamentos não estão bem fundamentados e o consenso é de que são a mesma pessoa. "Podemos assumir como praticamente certo que o Marcos que escreveu o Evangelho, aquele mencionado em 1 Pedro 5.13, o Marcos do livro de Atos e das cartas de Paulo são a mesma pessoa"

A conclusão de Sanner é muito oportuna:

"A implicação de tudo isto deve estar clara. Se o primeiro Evangelho surgiu da pena de um homem que tinha contato íntimo como os primeiros líderes da jovem igreja cristã, podemos ter certeza de que ele nos deu um relato preciso e historicamente confiável da vida e do ministério de Jesus. Mais do que isso, podemos ter certeza de que Marcos reflete as crenças e convicções teológicas da primeira geração dos cristãos, o que incluía o testemunho visual das poderosas obras de Jesus. Isto é de uma importância incomensurável. A única esperança do homem está em ‘Jesus Nazareno, varão aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós... ao qual Deus ressuscitou, soltas as ânsias da morte..." (At 2.22,24). Uma narrativa confiável dessas boas-novas tem um valor incalculável.

Dados Conhecidos Mediante o Próprio Evangelho

Não há nenhuma informa expressa. Alguns identificam Marcos com aquele jovem que foge nu depois da prisão de Jesus (14.51 ss), mas muitos questionam esta dedução; muitos deduzem que o jovem nu é uma figura simbólica.

É possível ver nas entrelinhas uma forte relação do autor com Pedro. Há detalhes realistas que exigem uma testemunha ocular (1.31,36). Acentuam-se detalhes que deixam Pedro constrangido: "afasta-te de mim..." (8.33); 9.5; 14.30 (anuncio das negações); 14.37 (sono no Getsêmani), 14.68,71 (negações e juramento). Outros se referem a ausência de dados que enalteçam Pedro: caminhar sobre as águas, referências elogiosas de Jesus.

Rev. Ivan Pereira Guedes

 

João F. Walvoord, Roy B. Zuck, editores, O Comentário De Conhecimento Da Bíblia, Livros do Victor, Wheaton, 1985, mídia eletrônica. "Assim é muito forte o testemunho Cristão antigo de que Marcos foi o autor deste evangelho que nós não necessitamos fazermos mais do que aceitarmos este atestado." Isto é citado por Papias, Ireneu, o Cânon de Moratório (mais provavelmente), Clemente de Alexandria, Tertuliano, Origines, e Jerônimo. Daniel B. Wallace, Ph.D. Marcos: Introdução, Argumento, e Esboço, Seminário Teológico de Dallas, mídia eletrônica. A questão aqui é muito simples, ou estes testemunhos são verdadeiros ou estas pessoas mentiram deliberadamente.

Talvez o mais antigo (e certamente o mais importante) dos testemunhos seja o de Papias (112 d.C.), que foi bispo de Hierápolis, na região da Frígia, na Ásia Menor, até cerca de 130 d.C.  Sua afirmação sobre o segundo evangelho encontra-se registrada na História da Igreja (História Ecclesiastica) deEusébio, escrita em 325 d.C.  "E o presbítero costumava dizer isto: ‘Marcos tornou-se intérprete [hermeneutes] de Pedro e escreveu com exatidão tudo aquilo que ele se lembrava, é verdade que não em ordem, das coisas ditas ou feitas pelo Senhor.  Pois ele não tinha ouvido o Senhor nem havia o seguido, mas mais tarde, de acordo como o que eu disse, seguiu Pedro, que costumava ministrar ensino conforme se tornava necessário, mas não organizado, por assim dizer, os pronunciamentos do Senhor, de sorte que Marcos nada fez de errado ao pôr por escrito fatos isolados à medida que se lembrava deles.  De uma coisa ele cuidou: não deixou de fora nada do que ouvira e não fazer nenhuma afirmação falsa'." Desta citação longa, Carson destaca três afirmações importantes: 1) Marcos escreveu o evangelho que, nos dias de Eusébio, era identificado com esse nome;  2) Marcos não foi uma testemunha ocular, mas obteve informações com Pedro;  3) Falta "ordem" ao evangelho de Marcos, o que reflete a natureza esporádica da pregação de Pedro.  Carson, op. cit., p.103. Bittencourt comenta o termo – intérprete: "Há quem o queira entender à luz da terminologia dos judeus. Em suas sinagogas estes recorriam a tradutores (intérpretes), que deviam transladar para a língua vulgar (aramaico ou grego) os textos da Sagrada Escritura previamente lidos em hebraico. Marcos, pois, em Roma, teria traduzido para o grego, língua comum do Império, a pregação aramaica de Pedro. Outros equiparam ‘intérprete' a ‘secretário', atribuindo a Marcos a função de consignar por escrito aquilo que Pedro pregava de viva voz em grego. É possível que o discípulo tenha exercido uma e outra dessas incumbências: a primeira, no inicio da estada de Pedro em Roma, quando o Apóstolo pouco conhecia o grego; a segunda, posteriormente." Estevão Bettencourt. Para Entender os Evangelhos, ed. Agir, Rio de Janeiro, 1960, p.121.

3. A relação de Marcos e Pedro merece atenção especial. A tradição testemunha abundantemente este fato. Papias, como já foi referido, diz que "Marcos era intérprete de Pedro e escreveu cuidadosamente tudo que ele recordou." Clemente de Alexandria diz também que ele escreveu os discursos de Pedro, como ele se lembrou deles. IrineuTertuliano e Jerônimo dizem que todo o estilo de Marcos é uma "interpretação de Pedro".Tertuliano até diz que "o Evangelho publicado por Marcos pode ser considerado o de Pedro, cujo intérprete ele era." E Orígenes é ainda mais enfático: "Marcos escreveu seu Evangelho de acordo com as ordens de Pedro." Todos estes testemunhos concordam em afirmar que Marcos foi dependente de Pedro ao escrever seu Evangelho; eles discordam, porém, sobre o grau de dependência, alguns reivindicam somente que Marcos registrou o que ele lembrou das palavras (sermões e ensinos) de Pedro, e outros, que ele escreveu o que Pedro ditou. Quem esta com a razão? O título do Evangelho contraria a teoria de ditado, pois se Pedro ditou o Evangelho, iria com toda probabilidade ser identificado por seu nome, da mesma maneira que as Epístolas ditadas por Paulo estão universalmente atribuídas a ele. A relação verdadeira do evangelista com o apóstolo é expressa nas palavras: "Marcos era o intérprete de Pedro." Isto não significa que ele acompanhou Pedro em suas jornadas missionárias como um tradutor, traduzindo discursos do Aramaico para o grego (Davidson), ou do grego para o latino (Bleek); mas que ele era estudioso de Pedro e em seu Evangelho interpreta parte da doutrina de Pedro para aqueles que não ouviram o apóstolo.

Sendo Barnabé um levita alguns deduzem que Marcos também seja da linhagem sacerdotal.

Leal desta alguns aspectos do segundo Evangelho que se relacionam diretamente com Pedro: "Lendo o segundo Evangelho, nota-se imediatamente que o autor se fixa duma maneira especial nos factos e pormenores que se relacionam com S. Pedro. O plano geral do Evangelho, é o mesmo que S. Pedro traçou nos seus sermões, conservados por S. Lucas no livro dos Actos, ‘principiando pelo batismo de João, até ao dia em que subiu aos céus' (At 1:21ss.; 10:34-43; cf. Mc 1:1-4; 16, 19ss.). O Senhor começa a sua atuação pública com a vocação de S. Pedro (Mc 1:16-18). Os fatos sucedidos na casa de S. Pedro, em Cafarnaum, estãomais pormenorizados no segundo Evangelho do que nos outros (Mc 1:29-34). Há também fatos indiferentes, que os outros Evangelhos calam, mas que se notam no segundo, porque se trata de fatos nos quais toma parte ativa o Príncipe dos Apostolos (Mc 1:35-38; 5:37-43). Em suma, a atuação de S. Pedro reflete-se muito melhor no segundo Evangelho do que nos outros." João Leal. Os Evangelhos e a Crítica Moderna, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1945, pp.171-172.

 Ryrie, op. cit., p. 1574.

C.E.B. Cranfield, Gospel de Mark, in The Interpreter's Dictionary of the Bible (Nova Iorque: Abingdon Press, 1962, v.3, p.268.

A. Elwood Sanner, Comentário Bíblico Beacon, v. 6, CPAD, 2006, p. 219.

"Não acompanhou o Senhor em suas viagens através da Palestina. Isto, porém, não exclui que, morando em Jerusalém, tenha assistido a um ou outro episódio da vida de Jesus;" Estevão Bettencourt, Para Entender os Evangelhos, Ed. Agir, 1960, PP. 119-120.

Perfil do Autor

Ivan Guedes

Tenho uma grande paixão pela pesquisa e nestes últimos anos tenho me dedicado aos textos bíblicos. http://reflexaobiblica.spaceblog.com.br/