Qual A Língua Que Falava Jesus?

11/11/2009 • Por • 6,519 Acessos

Qual a língua que falava Jesus?

                                     

                                                             Odalberto Domingos Casonatto

 

Uma pergunta que com freqüência é feita pelas catequistas ou participantes de Cursos Bíblicos, diz respeito, a língua que falava Jesus. Pergunta-se também qual a língua da Palestina nos tempos de Jesus é qual língua Jesus falava e se aparecem nos escritos dos evangelhos alguns indícios desta língua.

 

Línguas faladas na Palestina

A Palestina, sempre foi terra de passagem dos grandes impérios que a cercaram, Egito, Babilônia, Pérsia, Grécia, Roma.... Servia de corredor de passagem nas conquistas destes Impérios e deslocamentos migratórios. Por necessidade foi uma terra poliglota, um lugar onde o povo ao mesmo tempo falava pelos duas línguas. Assim no tempo de Jesus existiam pelos menos duas línguas locais, faladas ou entendidas da grande maioria da população o hebraico e o aramaico e duas línguas internacionais, o grego e o latim, faladas por um número menor de pessoas ligadas ao ambiente da administração e cultura.

 

A língua hebraica lida no Templo e Sinagogas

A língua hebraica, a mesma língua no qual está escrito o Antigo Testamento, era comumente usada na liturgia sinagogal do sábado, embora poucos podiam compreende-la completamente. Essa era a língua literária conhecida e era usada nas funções religiosas. Entretanto existia uma variante mais popular da mesma língua hebraica, que se caracterizava de formas menos complexas e de períodos mais simples. Esse segundo tipo de língua hebraica continuou sendo falada em Jerusalém, em Nazaré e em outros centros menores da Palestina até o final do ano 200 d.C.

 

A língua popular o - aramaico

Está variante da língua hebraica de teor popular o - Aramaico - existia de alguns séculos. Esta língua era a língua familiar que falava o povo em muitas cidades e pequenas povoações da Palestina em particular na região norte (Cafarnaum, Nazaré, Caná, Tiberíades, Corazim...) alí Jesus foi educado, cresceu e passou a maior parte de sua vida. Ainda fora das fronteiras da Galiléia era falada e entendida.

 

As línguas internacionais: O Latim e o Grego

Junto com estas línguas “locais” existiam outras duas “internacionais” isto é, a língua grega e a língua latina. A primeira tinha chegado na Palestina com a cultura helenística era a língua mais falada, que se estudava por cultura e por moda. A segunda era a língua da administração romana (lembremo-nos que a Palestina tinha sido conquistada pelos Romanos no ano 63 a. C.). Estas duas línguas eram faladas na cidade pelas pessoas de cultura e dos administradores do estado como testemunham numerosas inscrições da época. Entretanto nas vilas como Nazaré e Cafarnaum a língua dominante, se não a única, deveria ser a língua aramaica. A inscrição em três línguas  hebraico, latim, e grego colocadas sobre a cruz de Jesus salientam o motivo da condenação de Jesus e é um exemplo típico da pluralidade de línguas que caracterizam a região. Neste caso notemos que a língua popular, isto é o aramaico,  não aparece. Esta inscrição tem portanto um caráter oficial.

Um episódio contado no evangelho de Lucas (4,16-30) nos faz entender que a língua hebraica era familiar a Jesus. Neste passo se diz que Jesus leu o rolo da lei (o profeta Isaías) na sinagoga de Nazaré; certamente esta foi feita em hebraico. As poucas palavras de Jesus que comentaram a leitura certamente foram em aramaico que era a língua de “pregação”, como na nossa Igreja primeiro da reforma liturgica, quando se proclamavam a leitura em latim mas a homilia era feita em português.

Este era o ambiente no qual Jesus viveu. Ambiente poliglota na qual as línguas hebraica e aramaica deveriam ter transito fácil nas expressões ordinárias da vida cotidiana.

Além destas deduções lógicas derivadas do contexto evangélico e do bom senso, existem outros elementos que nos permitem a reconstruir o fundo cultural do oriente médio e algumas palavras e frases aramaicas ditas por Jesus.

 

Palavras aramaicas que aparecem no Novo Testamento

O Novo Testamento escrito em grego, deixa transparescer aqui e ali, através de palavras transcritas e não traduzidas, o seu genuíno fundo palestinese. É o caso dos numerosos nomes próprios, seja de pessoas ou de lugares, que são facilmente reconduzidos ao texto original aramaico. Por exemplo:

Barrabás: Nome de pessoa com raiz aramaica, composta de duas palavras bar, que significa filho, com o acréscimo do nome do Pai.

Cafarnaum: Nome da palavra vila = Kefar de raiz aramaica, com o acréscimo do nome Nahhum.

Aceldama: lembra a passagem de At 1,19. a qual é formada da união de duas palavras Haqèl demà, isto é, “campo de sangue”.

Marta: aparece em Lc 10,38 de origem aramaica martã' = senhora.

Tabita: em At 9,36 que significa respectivamente “gazela” ou mesmo “senhora”.

Cefas: corresponde a forma aramaica de Kèfa que significa “pedra”.

Gòlgota e Gabbatà: aparecem em Jo 19,13, recordados nos fatos da paixão, são também originários de duas palavras com o senso de “lugar do crânio” e “lugar elevado”.

Outras formas muito interessantes são algumas palavras que os           evangelistas colocam na boca de Jesus. Por exemplo:

Éffeta: forma imperativa do verbo aramaico “patàh” com significado de abrir como é anotado fielmente dos evangelistas.

Talità Qum: que significa “criança levanta-te”.

Abbà: que significa “papai. pai” (Mc 14,36 e Gl 4,6) ainda hoje em uso corrente em Israel no hebraico moderno.

A frase aramaica mais comprida trazida pelos evangelhos é aquela pronunciada por Jesus morrendo na cruz: Eloì Eloì lemà sabactàni. Estas palavras são trazidas pelos evangelistas Mateus e Marcos com pequenas variações. Elas são de interpretar-se como uma oração de Jesus. São de fato as palavras iniciais do salmo 22 citadas por Jesus em aramaico e transcritas fielmente dos evangelistas em grego. É compreensível que os evangelistas queriam conservar e transmitir também por escrito algumas palavras ditas seguramente de Jesus, palavras que os primeiros cristãos (que falavam o aramaico) conservaram fielmente na sua memória.

As palavras acima recordadas são algumas das quais se podem justamente atribuir como palavras ditas por Jesus. A análise lingüística e o confronto com os dialéticos aramaicos contemporâneos a Jesus o confirmam.

A luz deste dados não é mais aceitável a hipótese - que com freqüência era citada nos dois séculos passado - que Jesus falasse grego ou latim; ou melhor que quisesse sustentar tal hipótese deveria demonstrar.

 

Os sete dialetos aramaicos falados na palestina do tempo de Jesus

Os especialistas da língua aramaica nos últimos anos chegaram a conclusão que na Palestina do tempo de Jesus se falavam cerca de sete dialetos aramaicos, oriundo de localidades palestinenses diferentes. Eles assim se apresentam:

1) Aramaico da Judéia

2) Aramaico da Judéia sul oriental

3) Aramaico da Samaria

4) Aramaico da Galiléia

5) Aramaico além do Jordão

6) Aramaico da região de Damasco

7) Aramaico falado no vale do Rio Orontes (atual Líbano)

Se olharmos a extensão da região ela é relativamente pequena ocupando aproximadamente o atual estado de Israel e parte dos países fronteiriços do Líbano, Síria e Jordânia. Mesmo se esta distinção nos aparenta a primeira vista um pouco de artificialidade, entretanto acentua com clareza que existiam variantes locais da língua aramaica, mas que estas variantes não prejudicavam a compreensão entre os vizinhos das diversas localidades (visto que a distância entre eram  pequenas e os contatos eram freqüentes).

 

Jesus falava o dialeto aramaico da Galiléia

Jesus falava certamente o dialeto aramaico da Galiléia mas as palavras recordadas nos evangelhos por assim dizer passar por um processo de “jerusalemizar” da Igreja das origens e transmitidas a nós no dialeto de Jerusalém. É bom recordar que as diferenças entre o dialetos de Jerusalém e da Galiléia eram pequenos.

 

O Pai Nosso em aramaico

Uma tema que apaixonou os estudiosos foi a reconstrução do Pai Nosso. Se pensa que Jesus tinha ensinado esta oração na sua língua o aramaico, todavia nos evangelhos encontramos a versão grega traduzida para os cristão de origem pagã ou também para a Igreja primitiva de Jerusalém, que falava o aramaico, que certamente continuaram a recitá-lo na língua original sem sentir a necessidade de colocá-lo por escrito.

Estas breves considerações em torno da língua falada por Jesus, nos mostraram que Jesus, filho do seu tempo e da sua terra, não desprezou a sua língua na sua comunicação e nem mesmo de sua cultura da Galiléia que cresceu e desenvolveu seu ministério.

 

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Odalberto Domingos Casonatto