A Literatura Regionalista: Um Paralelo Entre A Obra Angústia De Graciliano Ramos E Menino Do Engenho De José Lins Do Rego

Publicado em: 17/09/2009 |Comentário: 0 | Acessos: 1,558 |

1. Introdução.

 

             Segundo Antônio Candido (1989) e Afrânio Coutinho (2001) a partir da década de 30 houve uma ampliação e consolidação do romance brasileiro, isto devido ao engajamento político e social de escritores como Graciliano Ramos com a obra Angústia e José Lins do Rego com a obra Menino de Engenho que fizeram um regionalismo, tanto urbano quanto rural, comprometido com o mundo brasileiro, através do documentário e estudo do meio social em que se inserem seus personagens, enfocando desta forma a paisagem, problemas, tipos sociais, a linguagem e os costumes do povo.

 

2.  A Literatura Brasileira pós 1930-1960

              A década de 30 simboliza a segunda fase do modernismo no Brasil na qual há um amadurecimento da ficção brasileira, haja vista que os escritores estavam preocupados em registrar e analisar temáticas que resultam do próprio complexo cultural brasileiro.

              Tendo em vista que a literatura refletia o quadro social, econômico e político que se verificava no Brasil, na década de 30, da qual sofria influências por questões externas como a crise na Bolsa de Valores de Nova York em 1929; a crise cafeeira; a Revolução de 30; Intentona Comunista em 1935; Estado Novo (1937-1945); ascensão do Nazismo e do Fascismo e combate ao socialismo; Segunda Guerra Mundial(1939-1945)e estes fatores fizeram que artistas e intelectuais tivessem um posicionamento ideológico da qual resulta em uma arte engajada, como exemplo o romance do Nordeste que transformou o regionalismo ao extirpar a visão paternalista e exótica para lhe substituir uma posição crítica frequentemente agressiva de acentuado realismo no uso do vocabulário e na escolha das situações.

              É interessante notar que o modernismo não foi o único dessas preocupações com os costumes do homem em favor das pressões do meio em que vive seja o meio rural ou urbano, pois desde o romantismo, como exemplo, José de Alencar como ressalta Afrânio Coutinho (2001, p.265): “a Alencar se deve a criação de uma narrativa e uma tradição novelística de cunho brasileiro, aproveitando os elementos e assuntos populares, históricos sociais do meio”.

              Nesta vertente a literatura da segunda fase intensificou a marca brasileira através das obras regionalistas, tanto rural quanto urbano no qual o homem este relacionado com o quadro em que se situa, a terra, o meio, e é visto em conflito ou tragado pela terra e seus elementos, uma terra hostil, violenta, superior as suas forças, e esse meio pode ser o rural ou o urbano, pois ambas situações ressaltam a pequenez do homem em relação aos problemas que o ambiente lhe opõe.

              Na ficção brasileira há duas correntes: de caráter regional e psicológico ou de costume, sendo que no aspecto regional a literatura dessa segunda fase modernista se refere ao quadro social que predomina sobre o homem, seja o ambiente das zonas rurais com seus problemas geográficos e sociais: seca, cangaço, latifúndio, etc, desta forma há num segundo momento o caráter neo-realista e neo-regionalista que compreende os modernos “ciclos” da ficção brasileira, os ciclos da seca, do cangaço, do cacau, da cana de açúcar, como exemplo José Lis do Rego com a obra Menino de Engenho; do café, do sertão, etc.

              Na ficção de caráter psicológico ou de costume corresponde à uma corrente subjetiva e introspectiva, que segundo Coutinho (p.276-277).

 

[...] herdeira do Simbolismo e do Impressionismo, ligado também ao Neo-espiritualismo e a reação estética, desenvolveu-se no sentido de indagação interior, acerca dos problemas da alma. Do destino, da conduta, em que a personalidade humana é focada em face de problemas de convivência que a preocupam. A ênfase é colocada na vida urbana, aliando-se a introspecção e análise de costumes.

 

              É relevante ressaltar que não se pode considerar essas duas correntes (regionalista e psicológica) como isoladas, pois existem escritores, como exemplo, Graciliano Ramos que alia a análise psicológica e de costume ao enquadramento regional.

              Pode-se dizer que a literatura da década de 30 a 60 abordou temas sociais referente a relação do meio sobre o homem tanto no aspecto regional como psicológico, sendo que nos decênios de 30 e 40 foram os momentos da renovação dos assuntos e busca da naturalidade, simplicidade, a quebra dos tabus de vocabulário e sintaxe (progresso rumo a oralidade),gosto pelos termos considerados baixos(segundo a convenção) e a desarticulação da narrativa já iniciada com Mário e Oswald de Andrade.

              Na década de 50 e 60 houve uma ampliação da busca por uma brasilidade através de Guimarães Rosa que publicou em 1946 Sagarana, um livro de contos regionais que continha forte capacidade inovadora de linguagem e uma exploração exaustiva de um particular que geralmente desaguava em simples pitoresco, isto é, ele conseguiu transformar o que era particular em um valor de todos, ainda a respeito de Guimarães Rosa Candido (p. 207) ressalta que:

[...] tornou-se o maior ficcionista da língua portuguesa em nosso tempo, mostrando como é possível superar o realismo para intensificar o senso do real; como é possível entrar pelo fantástico e comunicar o mais legitimo sentimento do verdadeiro; como é possível instaurar a modernidade da escrita dentro da maior fidelidade à tradição da língua e à matriz da região.

 

              Além de Guimarães Rosa outro expoente importante da época foi Clarice Linspector na qual mostrava que a realidade social ou pessoal e o instrumento verbal (que institui a linguagem) se justificam antes  de tudo pelo fato de produzirem uma realidade própria com inteligência específica, pois em Clarice há uma tentativa de valorizar os produtos do sonho e da fantasia na criação de uma atmosfera sem densidade real ( como mundos imaginários), mas de forte conteúdo emotivo de linguagem metafórica, fugindo assim para uma variedade de realismo mágico.

              E na década de 60 e 70 algumas das obras refletiram o momento político, que na época o país estava vivenciando o golpe militar (1964) como exemplo a obra Quarup de Antônio Callado, segundo Candido (p.209):

 

[...] mas o timbre dos anos 60 e sobretudo 70 foram as contribuições de linha experimental e renovadora, refletindo de maneira crispada, na técnica e na concepção da narrativa, esses anos de vanguarda estética e de amargura política.

 

3. Importância e papel da obra no contexto

 

              Tendo como estudo a obra Angústia (1936) de Graciliano Ramos e Menino do Engenho (1932) de José Lins do Rego, percebe-se o retrato e a importância do contexto social da época para a literatura e o respectivo estudo social e regional da ficção (romances) que caracterizam-se como documentários que enfatizam a brasilidade através da linguagem, das ações, etc., que é tão ressaltada na literatura dessa segunda geração.

              Tem se a obra Angústia como um romance psicológico publicado em 1936 e reflete não só a realidade da época por se referir a decadência do meio rural e a busca de melhoras de vida na cidade grande, e Graciliano consegue retratar problemas sociais que são atemporais, isto é os dramas humanos que são comumente presenciados na vida urbana e na obra esses dramas e dificuldades são vivenciados pelo personagem Luis da Silva.

 

[...]o barulho dos bondes não deixava a gente ouvir o sino da igreja (...) o calor aqui também é grande demais, faltam plantas(...).Cidade grande, falta trabalho(...) bairro miserável, casa de palha, crianças doentes.(p.22).

             

              É um romance psicológico, mas que não deixa de ser regionalista, tendo em vista que  o meio no caso urbano atua sobre o homem que se torna totalmente imune às pressões externas e internas, dessa forma Graciliano Ramos reuni análise sociológica e psicológica da qual parte do regional para o universal, pois suas personagens traduzem uma condição coletiva, a do homem explorado socialmente ou brutalizado pelo meio.

              A obra Menino do Engenho de José Lins do Rego (1932) ressalta a vida no Nordeste, caracterizada pela época dos engenhos de cana de açúcar (ciclo da cana de açúcar), em torno dessas construções, desse universo José Lins do Rego mostra os costumes, crendices, superstições, isto é o folclore que denota a cultura tanto do nordeste quanto popular brasileira.Na obra há o retrato do sertão que pode ser visto através do registro da seca, da fome do povo no sertão como pode ser visto na seguinte passagem:

 

[...] há muita miséria, muita fome no povo, o governo está mandando mantimentos (...).O engenho e casa de farinha repletos de flagelados, era a população das margens do rio, arrasada, morta de fome se não fossem o bacalhau e a farinha seca da fazenda.(Menino do Engenho, 1972, p.31).

 

              Nesses romances há um estudo do meio através da análise dos comportamentos dos personagens, como exemplo, as características dos personagens que se encaixam no período pós-patriarcal (século XX), que apresentam os vícios mundanos, os hábitos mais liberais, vivência sexual, etc, e esses romances foram muito importantes para a ampliação da ficção brasileira que alia elementos literários, sobretudo de estilística ao conteúdo temático, segundo Afrânio Coutinho (p.272) “A ficção brasileira firmou um compromisso com o mundo brasileiro: a paisagem, os problemas, os tipos sociais, os costumes do povo”.

 

4. Paralelo entre as obras

 

              Em relação a obra Angústia de Graciliano Ramos apresentam-se a análise dos personagens Luis da Silva e Marina..A obra Angústia quanto a relação de tempo, este não é cronológico e sim psicológico tendo em vista que é narrado a medida que os pensamentos do narrador afloram a sua memória, quanto ao espaço a narrativa se passa no meio urbano, apesar da constantes lembranças da fazenda do avô em Alagoas, a história se passa no Rio de Janeiro entre a repartição pública  onde Luis trabalha, a Rua do Comércio onde ele encontra com os “amigos” e a Rua do Macena onde ele mora em um quarto cheio de ratos:

[...] ainda não disse que moro na Rua do Macena, perto da usina elétrica, ocupado em várias coisas, freqüentemente esqueço o essencial, que para mim, a casa onde moramos não tem importância grande demais. Tenho vivido em números chiqueiros.(Angústia,1973,p.50).

             

              Quanto à caracterização e ações de Luis da Silva este se apresenta como um personagem narrador, sendo o protagonista da narrativa e a relação com os outros personagens parte do seu psicológico, isto é, por ser um romance psicológico toda a narrativa e a apresentação dos outro personagens parte do ponto de vista de Luis da Silva, que trata-se de um retirante do Nordeste (Alagoas-NE) que foi para a cidade grande (Rio de Janeiro) tentar a sorte, ou seja, ansiava melhorar de vida, mas ele vive um constante fluxo de lembranças de sua infância, cujo passado cruel das imagens de seu pai e avô denotam a miséria em que viviam no sertão:

 

[...] Volto a ser criança, revejo a figura de meu avô, Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, que alcancei velhíssimo.Os negócios da fazenda iam mal, e meu pai, reduzido a Camilo Pereira da Silva, ficava dias inteiros manzanzando numa rêde armada nos esteios a copiar, cortando palha de milho para cigarros (...) dez ou doze rezes, arrepiadas no carrapato e na varejeira, envergavam o espinhaço e comiam mandacaru que Amaro vaqueiro cortava nos cestos, o cupim devorava os mourões do curral e as linhas da casa (...) um carro de bois apodrecia debaixo das catingueiras sem folhas.(p.23)

             

              Essas imagens atormentam a vida de Luis que mesmo na cidade não encontrou “felicidade”, já que várias eram as dificuldades que enfrentava para tentar sobreviver no meio em que vivia, tendo em vista que era um funcionário público angustiado com aquele serviço monótono, sem autonomia de escrever suas matérias, com o que ganhava não conseguia pagar suas dívidas e vivia praticamente na miséria, junto com Vitória, a senhora que morava com ele:

 

[...] Vitória resmunga na cozinha, ratos famintos remexem latas e embrulhos no guarda-comidas(...).Não posso pagar o aluguel da casa, Dr Gouveia aperta-me com bilhetes de cobranças, há também o homem da luz, o Moisés das prestações(...) e coisas piores, muito piores.(p.20).

 

              O personagem Luis da Silva além da angústia em função da vida miserável em que vivia, sofre pelo amor não consumado com sua vizinha Marina, que o trocou por Julião Tavares que era rico e possuía tudo aquilo que Luis almejava.

              Esse último fato foi o golpe mais difícil que ele conseguiria suportar, além daqueles sociais e econômicos os quais já possuía e assim em um momento de vingança acabou matando Julião Tavares, que de nada melhorou sua vida, sendo apenas uma vitória repentina de ter destruído seu adversário, pois este fato ocasionou mais angústia para a vida de Luis da Silva.

              Em relação à caracterização e ações da personagem Marina esta se apresenta como uma mulher jovem e bonita mas desinteressada em aprender as coisas, já que ansiava apenas pela riqueza e pelo luxo:

 

[...] frívola, incapaz de agarrar uma idéia, a mocinha pulava como uma cabra em redor dos canteiros e pulava de um assunto para o outro.O que me aborrecia nela eram certas inclinações imbecis ou safadas.(p.53).

             

              Marina demonstra toda sua ambição quando rejeita os presentes de Luis e o abandona para ficar com o rico Julião Tavares, e desta forma ela adquiri momentaneamente tudo aquilo que Luis da Silva não podia proporcionar:

[...] aos domingos iam ao cinema, juntos, de braço dado, bancado marido e mulher(...) ela bem vestida com o uma boneca e toda dengosa.Seda, veludo, peles caras, tanto ouro nas mãos e no pescoço (p.107).

             

              Porém Marina não consegue o futuro rico que gostaria, pois Julião  abandona-a grávida e, ainda paga uma parteira clandestina para fazer o aborto, Marina acaba virando apenas uma sombra de seus próprios sonhos e aspirações:

[...] Marina valia o que tinha valido antes de engrossar a barriga e procurar D. Albertina, as mesmas pernas bem feitas, os mesmos olhos traquinas, mas as pernas não se curvavam pra mostrar as nádegas apertadas na saia estreita (...) os braços moviam vagarosamente, pesados, os cabelos amarelos caíam sobre a testa enrugada, os olhos baixavam-se, cheios de culpa, desviando-se de outros olhos.Esta consciência de inferioridade era contagiosa, Marina tinha descido(...) os sapatos vermelhos com o verniz rachado e os saltos gastos, roupas ordinárias, as unhas estragadas, a voz esmorecendo (p.194).

             

              Desta forma Marina vive a ascendência e decadência  tanto sócio econômica quanto moral tal  como presumia Luis pelos modos que ela apresentava (por exemplo:queria ser rica mas não queria trabalhar)iria se dar mal na vida.

              Em relação às falas desses personagens, a linguagem é coloquial, apesar de aparecerem poucos diálogos já que a maioria das falas são recordações e considerações de Luis da Silva, ela mesmo faz considerações a respeito de sua linguagem dizendo que nem se compara a linguagem versada de Julião Tavares.A personagem Marina em seus poucos diálogos na obra denota linguagem popular “ você esta maluco eu vou dar o fora qualquer dia a gente mete o rabo na ratoeira, os velhos descobrem tudo, estrilam, e é um fusuê da desgraças” (p.77).

              Segundo Afrânio Coutinho a linguagem utilizada é uma forma de retratar o meio em que os personagens estão inseridos e os costumes que caracterizam-nos “ o exemplo imediato está na linguagem que, nas diferenças individuais dos romancistas, recolhem a fala, dando-lhe inflexão estética”(p.273).

              Em relação à obra Menino do Engenho de José Lins do Rego apresentam-se a análise da Carlos (Carlinhos) e a velha Totonha. Quanto ao tempo da narrativa este é cronológico tendo em vista que vai desde os quatro anos de Carlos até os doze quando ele vai para o colégio e termina a narrativa; quanto ao espaço, a narrativa apresenta-se no meio rural, na Zona da Mata nordestina, entre o engenho do Santa Rosa do seu avô, coronel José Paulino e outros engenhos da Região como o engenho Santa Fé, e nesse meio rural são retratados os ambientes que denotam uma descrição do Nordeste na época com a presença das senzalas e da casa grande  e esse meio e relatado pelo narrador:

[...] Eu ia reparando em tudo, achando tudo novo e bonito, a estação ficava perto de um açude coberto de uma camada espessa de verdura, os matos estavam todos verdes, e o caminho de lama e poças d’água (...).Restava ainda a senzala dos tempos do cativeiro.(Menino do Engenho, p.08 e 54)

             

              Quanto a caracterização e ações do personagem Carlos Melo, chamado de Carlinhos, assim como Luiz da Silva em Angústia, é um personagem narrador, cuja apresentação dos outros personagens partem do seu ponto de vista, mas este ao contrário da obra Angústia é social, já que faz um documentário dos costumes do povo, da região e dos problemas oriundos da seca e do meio em que vivem.

              Carlos aos quatro anos sai do Recife após a morte da mãe para morar com o tio Juca no engenho Santa Rosa, junto com o avô José Paulino, Tia Mareia, tia Sinhazinha e alguns primos, Carlinhos era um menino triste, órfão aos oito anos de pai e mãe, ujas lembranças de seus pais refletem uma melancolia interna:

[...] a morte de minha mãe me encheu a vida inteira de uma melancolia desesperada, por que teria sido com ela tão injusto o destino, injusto com uma criatura em que tudo era tão puro? Esta força arbitrária do destino ia fazer de mim um menino meio cético, meio atormentado de visões ruins (p.07).

             

              O menino cresceu sem limites e sem uma educação rígida, a única que ainda o educava era a tia Maria, mas quem o repreendeu foi sua tia Sinhazinha, mas que segundo Carlinhos ela não gostava de ninguém, tinha apenas preferências temporárias:

 

[...] a velha levantou-se com uma fúria para cima de mim, e com o seu chinelo de couro encheu-me o corpo de palmadas terríveis, bateu-me como se desse num cachorro(...) eu nunca tinha apanhado.(p.23)

 

              Carlinhos conheceu todas as coisas fúteis e in apropriáveis para a sua idade através do Zé Guedes, que segundo o menino foi seu professor das coisas ruins e, com isso Carlinhos iniciou-se na vida libertina e mundana.Desta forma  cresceu Carlos sem modos, sem preocupações e com apenas doze anos estava totalmente corrompido e ele mesmo afirma não ter adquirido nenhum conhecimento benéfico a sua vida.

 

[...] outro mestre que tive foi o Zé Guedes, meu professor de muita coisa ruim (...) contava-me tudo o que era história de amor, sua e dos outros(...)Todos diziam que eu era um atrasado, com doze anos sem saber de nada(...) sabia ruindades, puxara demais pelo meu sexo, era um menino prodígio da porcaria (p.35 e 111).

 

              Essas libertinas ações da Carlinhos levaram-no a contrair ainda com doze anos a doença do mundo (gonorréia) e este fato contudo não o deprecia ou humilha, ao contrário, a gonorréia era no mundo do engenho uma espécie de virilidade adiantada.

 

[...] tinha uns doze anos quando conheci uma mulher como homem(...) Apanhei doença do mundo(...) mostravam –me as visitas masculinas como uma espécime de virilidade adiantada (...) a doença do mundo me operara uma transformação, viam-me mais alguma coisa que um menino.(p.115-117)

 

              A solução para “ endireitar” Carlos foi a ida para o colégio que seria uma nova vida para o menino, mas ele sempre se lembraria da sua infância no engenho “ E uma saudade antecipada do engenho me pegou em cima da cama”(p.119).

              Em relação à caracterização e as ações da Velha Totonha, esta personagem representa as superstições, as histórias do povo do Nordeste ( folclore),pois ela tinha muito conhecimento empírico e vivia a contar histórias de trancoso para os meninos e para as pessoas do engenho:

 

[...] as vezes vinha ao engenho por este tempo uma velha Totonha, que sabia uma Vida, Paixão e Morte de Jesus Cristo em versos(...) ela vinha contar histórias de Trancoso (...) o que fazia a velha Totonha mais curiosa era a cor local que ela punha em seus descritos, quando ela queria pintar um reino era como se ela estivesse falando dum engenho fabuloso( p.41-51)

 

              Quanto as falas dos personagens nota-se que a linguagem é regionalista, ou seja, o autor recria a linguagem própria do meio em que a história se situa e, além disso são freqüentes os termos e construções próprias da linguagem oral, com em : “ Lá vem o papa-figo” (p.47), no qual a palavra papa figo é própria do local que significa bicho papão.

 

5. Considerações Finais

 

              Este trabalho evidenciou como o regionalismo a partir da década de 30 mudou o conceito antes paternalista deste tipo de ficção, pois os romancistas Graciliano Ramos e José Lins do Rego, como exemplos desta vertente mostrar através  de suas obras como o meio social age sobre o homem, seja no meio urbano como em Angústia, no qual o personagem Luis da Silva em função de sua precária situação de vida, tanto interna quanto externa, na cidade grande tornou se um dos personagens mais complexos da nossa literatura por expressar dramas humanos que são constantemente presenciados na vida cotidiana; ou no meio rural,na qual a obra Menino de Engenho o autor José Lins do Rego através de seu personagem Carlos mostra um retrato social do Nordeste, como os engenhos de cana de açúcar, a seca, a fome, enfim esta obra enfoca fatores culturais e sociais que retratam a vida do homem do sertão brasileiro.

 

 

6. Referências Bibliográficas

 

CANDIDO, Antonio. A educação pela noite e outros ensaios 2.ed. São Paulo: Ática,1989.

 

COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil, vol 5. 6.ed, São Paulo: Global, 2001.

 

RAMOS, Graciliano. Angústia. 6.ed. São Paulo: Folha de São Paulo,2003

 

REGO, José Lins. Menino do Engenho.18.ed. Rio de Janeiro: José Olimpio,1972.

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