Analisando o conto O Barba Azul, de Charles Perrault e sua adaptação publicada por Ruth Rocha

Publicado em: 29/10/2012 |Comentário: 0 | Acessos: 291 |

Para fazermos um estudo comparativo entre uma mesma obra literária, porém em edições diferentes, podemos nos deter nas explicações de Nelly Novaes Coellho (2000) a respeito das invariantes existentes no gênero literário conto, podemos analisar o conto O Barba Azul, tentando ao máximo encontrar as cinco invariantes presentes nesta obra literária de Perrault.

1.      Desígnio

Logo no início da narrativa, notamos que o objetivo principal do personagem Barba Azul é casar-se com uma das belas filhas de sua vizinha.

2.      Viagem

Com o intuito de se casar com uma das moças mais belas da redondeza, o Barba Azul promove uma viagem de oito dias para ir a uma de suas casas de campo e convida as moças, a mãe delas, algumas de sua amigas mais próximas e alguns jovens.

Esse homem era temido por todos, pois, além de ter uma barba azul que o tornara feio e assustador, também fora casado com outras mulheres que sumiram sem alguém saber o que acontecera delas. Com isso, nenhuma moça desejava casar-se com ele.

No passeio, o personagem, Barba Azul, usou várias estratégias para conquistar as meninas. Com sucesso, conseguiu a simpatia de uma das moças, a caçula.

Em contrapartida, se levarmos em consideração a hipótese de o personagem, Barba Azul ter outro objetivo, até então não explícito na narrativa, podemos destacar uma viagem feita por ele que seria para resolver alguns negócios.

3.      Opositores

Levando em conta a hipótese de outro objetivo, além o de se casar, conseguimos refletir sobre a ação de o Barba Azul dar as chaves de todos os aposentos do castelo para a esposa, porém, proibindo-a de abrir a porta do escritório.

Diante disso, essa proibição, se respeitada, poderia dificultar seu outro objetivo. Por outro lado, a esposa não obedecendo as ordens, não resistindo a curiosidade e abrindo a porta do cômodo proibido, facilitaria a execução do propósito do Barba Azul.

Dessa maneira, dependeria da atitude da esposa para garantir a oposição ou facilitação do objetivo do marido.

Contudo, tendo um olhar diretamente para a ação do marido, após a atitude da esposa, de ter desrespeitado suas ordens, podemos nos deter nas presenças dos irmãos da moça, de um dragão e de um mosqueteiro.

O surgimento desses personagens na narrativa dificultou o plano de o Barba Azul matar a esposa. Assim, podemos destacar que eles são os opositores, pois foram os dificultadores da ação de o marido por em prática sua execução, matar a esposa.

4.      Mediadores

            Em relação aos mediadores da história, podemos salientar a ação de a esposa ter entrado no escritório o que era proibido pelo marido. Ela ter feito isso, facilitou a ideia de o marido querer matá-la, pois, assim, teria uma justificativa.

            No entanto, podemos destacar a situação da personagem, esposa do Barba Azul, após ter desrespeitado as ordens do esposo. Ao perceber que seria sacrificada pelo marido, a moça pediu ajuda para Deus, para sua irmã Anne que pediu ajuda para seus irmãos que, juntamente com um dragão e um mosqueteiro, lutaram contra o temido Barba Azul que queria matar a esposa pelo fato de ela tê-lo desobedecido e entrado no escritório. Assim, percebemos que a presença desses personagens salvaria a moça em perigo.

5.      A conquista do objetivo

            Levando em consideração o objetivo de o Barba Azul de querer matar sua esposa, observamos, no final da história, que este não fora alcançado, pois a moça fora salva pelos seus irmãos com o auxílio de outras ajudas. O Barba Azul não realizou seu ideal, pois foi morto pelos ajudantes da esposa.

            Na perspectiva de a personagem, mulher do Barba Azul, ser salva por alguém, notamos que este fora realizado, uma vez que a moça, em perigo, foi salva pelos irmãos e outros ajudantes.

            Após esta análise literária, podemos refletir que, dependendo do olhar do leitor em relação as diferentes ações dos diversos personagens da narrativa, conseguimos observar amplamente as várias possibilidades de invariantes presentes numa mesma narrativa.

COMPARAÇÃO: TEXTO ORIGINAL X TEXTO PARALELO

            Ao analisarmos a intertextualidade entre uma mesma narrativa, porém produzida em diferentes contextos, tanto temporal, quanto autoral, podemos salientar algumas semelhanças e discordâncias em relação  à estrutura e à história narrada.

            Vale lembra que a primeira versão da narrativa foi produzida no século XVII, pelo "Pai da Literatura Infantil", Charles Perrault. A outra versão deste mesmo texto foi recontada pela autora Ruth Rocha, no ano de 2010, século XXI.

            Diante dessa dinâmica, podemos nos deter, primeiramente quanto à estrutura das duas narrativas. Dentre várias especificidades, podemos salientar que a primeira versão é produzida em forma de prosa. O discurso é direto, livre e em linha reta.

Ex.: "Era uma vez um homem que tinha belas casas na cidade e no campo, baixela de ouro e de prata, móveis recamados e carruagens inteiramente douradas; mas, por infelicidade, esse homem tinha a barba azul. (...)"

            Diferente da atualização feita pela autora Ruth Rocha. Ao observamos a obra, percebemos a estrutura de um poema modernista. Há um ritmo solto, irregular, podendo ter a participação do leitor estabelecendo um ritmo na leitura.

Ex.: Havia uma vez um homem A

- Que barba azul ele tinha!- B

Vivia no castelo C

Ao lado de uma vizinha, B

Com duas filhas solteiras, D

Numa modesta casinha. B

            Percebemos que há uma tentativa de ocorrer um ritmo esquematizado entre os versos (tinha/ vizinha/ casinha/). No entanto, o que mais ocorre em toda narrativa é um ritmo mais solto e liberado (homem/ tinha/ castelo/ vizinha/ solteiras/ casinha).

            Convém destacar que toda a narrativa de Rocha é estruturada em trinta e quatro estrofes, sendo cada uma com seis versos, ou seja, há trinta e quatro sextilhas.

            Levando a análise para o conteúdo da narrativa, podemos refletir que nas duas narrativas há um homem com barba azul temido por todos da redondeza, pois seu aspecto provocava susto e estranhamento. Vivia sozinho em seu enorme e luxuoso castelo.

            Com o intuito de casar-se novamente, o personagem Barba Azul promoveu uma grande festa com muitas guloseimas para surpreender e conquistar um das belas filhas de sua vizinha.

            Este fato ocorreu na versão da autora Ruth Rocha. Diferente ao da autoria de Perrault, pois para conquistar uma das moças o personagem organizou uma viagem a uma de suas casas de campo.

            Nas duas narrativas o Barba Azul casa-se com um das filhas de sua vizinha. E durante a história, o personagem precisa viajar e explica para a esposa a existência de uma chave do castelo que não poderia ser usada, a do escritório.

            Diante da curiosidade, a jovem não resistiu e resolveu entrar no cômodo proibido. Para isso, na primeira versão da história, a moça deixou suas amigas e convidadas conhecendo o luxuoso castelo e saiu escondida para o escritório. Na outra versão da narrativa, a jovem espera as amigas irem embora.

            Na versão produzida por Perrault, no momento em que a esposa entra no escritório, ela se assusta ao ver o chão coberto de sangue, juntamente com os corpos das mulheres que foram casadas com o Barba Azul.

            Este mesmo fato recontado por Ruth Rocha, afirma que as mulheres estavam penduradas num gancho balançando.

            No decorrer das narrativas, após a moça usar a chave do escritório para abri-lo, ela percebe que a chave estava suja de mancha. Com isso, ficou assustada sem saber o que diria para o marido. Então resolveu chamar pela irmã, pelos irmão para ajudarem sair-se dessa situação. No entanto, na versão de Rocha a moça pede ajuda para os irmão após ser condenada a morte pelo marido.

            Após esperar pela ajuda, os irmãos da moça aparecem e, na narrativa de Perrault eles utilizam uma espada para executar o Barba Azul.

            Em contrapartida, este mesmo acontecimento narrado na produção de Ruth Rocha, não há revelação de quais armas foram utilizadas pelos homens. Apenas observamos a presença de espada por meio das ilustrações.

            No desfecho das duas versões, o personagem Barba Azul é morto e sua esposa herda toda sua fortuna e, novamente, casa-se, porém, com um jovem e honesto homem.

            Diante dessas comparações, percebemos a presença de duas morais das histórias, uma, que destaca a questão da curiosidade e, outra, sobre a relação conjugal.

            A partir dessas analises, podemos refletir que, por mais que haja contradições em alguns aspectos, o fio essencial das narrativas permanece. Há toda uma ficção que envolve o leitor na história, prendendo a atenção pelo surpreendente e pelo mistério dos fatos.

Referências

COELHO, Nelly Novaes. "Da teoria à análise do texto". In.: _________. Literatura infantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Moderna, 2000, p. 92-117.

PERRAULT, Charles. "O Barba Azul" In. __________. Contos de Perrault. Trad. Maria Atela Gonçalves. São Paulo: Paulus, 2005, p. 239-243.

ROCHA, Ruth. O Barba-Azul. Il. Mateus Rios. São Paulo: Moderna, 2010.

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