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Análise Do Tempo, Em A Cidade E As Serras, Por Um Viés Estilístico


O que é o tempo? Um mês, um ano, uma vida inteira? Há os que tentam defini-lo e há os que nem o tentam por acharem que o tempo é aquele não se pode captar. Por ser realmente muito difícil definir este conceito, então se costuma lançar mão dos marcadores de tempo: um dia com suas horas, uma hora com seus minutos, um minuto com seus segundos e um segundo com a definição dada pela Física da duração de 9.192.631.770 períodos da radiação correspondente à transição entre dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de césio 133. Novamente à luz da Física, pode-se fazer uso de uma definição dada por Newton, presente em Mendilow (1972), acerca do tempo conceitual, que muito pode ajudar a entender o conceito maior de tempo:

“(…) ‘tempo relativo, aparente e comum’, que é usado por uma conveniência e fornece uma ‘medida extrema da duração por meio do movimento que é comumente usada ao invés do tempo verdadeiro, tal como uma hora, um dia, um mês, um ano’”. (MENDILOW, p. 96, 1972).

            Percebe-se, destarte, através do excerto acima, que ao tempo determinado por seus marcadores conhecidos (hora, dia, mês…) chama-lhe Newton ‘verdadeiro’, sendo, portanto, todos os outros desmembramentos deste primeiro.

 

            Na literatura, outras características do tempo estão presentes e contribuem para o funcionamento geral do texto. Além disso, outro fator a ser levado em conta é quem o lê, pois ‘o leitor de um romance ocupa uma posição extensa no tempo, e dentro desta coloca-se a data da sua leitura do romance’. No caso de a diferença de datas ser considerável, ‘talvez seja exigido dele um forte esforço de imaginação’ e ‘um esforço maior ainda é necessário quando se tratar de ler um romance antigo cujo estilo e assunto foram já contemporâneos’, mas que depois se tornaram ‘datados’. Estas considerações de Mendilow (1972) encontram exemplos em Gancho (2001) que compara a ‘época em que se passa a história’ de um romance como O nome da Rosa, de Umberto Eco, ‘que retrata a Idade Média, embora tenha sido escrito e publicado recentemente’, aludindo ao que a autora chama tempo-época. O tempo, dentro de um obra literária, tem sua devida importância; todavia, aqui neste trabalho, dar-se-á maior atenção ao tempo, por um viés estilístico.

 

Eça de Queirós, nascido em Póvoa do Varzim, no ano de 1845, e falecido em Lisboa, em 1900, passou por diversos momentos em sua vida que se refletiram em seus trabalhos, consoante assinala Matos (1993), provando através de registros em ‘crônicas, ensaios e textos de polêmica’. É este mesmo autor que, por sinal, ao tratar do estilo do artista literário, em geral, e do queirosiano, em particular, nos diz ser todo o estilo:

“(…)um facto de linguagem. Não há, porém, facto algum dessa natureza que possa ser desligado de uma concepção do mundo; que, fora do entendimento dela, possa ser inteiramente compreendido. Com maior razão o dizemos da arte da expressão de um autor literário – do estilo: este prende-se com um passado do escritor inscrito no presente da sua arte e, através dela, com a atitude do homem perante o seu mundo, o seu tempo, e perante a tradição e a língua literária que herdou”. (MATOS, p. 389, 1993).

Para compreender o contexto em que Eça escrevia, é importante retroceder alguns anos, em que todo um conjunto de ações e situações confluiu na Questão Coimbrã, como as idéias anticonstitucionalistas, defendidas pela Geração de 70, da qual Eça fazia parte. A Questão Coimbrã, aliás, combateu e defendeu idéias em diversas frentes, desde vertentes sobre a moral até sobre política e economia. Esses ideais revolucionários adventos, da efervescente e intelectual França, chegavam às terras lusitanas pelos trilhos do trem. Aliás, segundo Saraiva e Lopes (1976), “Coimbra fica ligada, em 1864, à rede européia de caminho-de-ferro”, que a partir da metade do século XIX abriu Portugal para o mundo.

 

            O embate contra o Romantismo também se deu durante esse período, e de forma a relacionar toda a decadência de Portugal a este movimento, que, na opinião dos realistas, nada mais tinha para oferecer. E o Realismo, fortalecido com todos os estudos cientificistas da época, surgia com nova proposta que, nas palavras de Eça, como registrou Franchetti (1998), ‘deve ser perfeitamente do seu tempo, tomar a sua matéria na vida contemporânea’.

 

            Em A cidade e as serras, obtêm-se alguns traços característicos do tempo cronológico. As descrições de Eça sempre citadas pela sua capacidade de apreensão do momento exato – o que aponta para uma insinuação do autor de O mandarim, pendendo ao Impressionismo – são uma boa fonte de recursos para demonstração disso. Aliás, na visão de Schapiro (2002):

“Comum ao impressionismo e à literatura é o interesse no ambiente como um fator que influencia o estado dos personagens. (…) Os escritores descrevem uma paisagem com clima em transformação, nuvens em movimento, (…), reações em cadeia de toda a paisagem ao movimento de um simples elemento. (…) Nessa escrita naturalista, os movimentos ‘impressionistas’ – a perambulação, o encontro fortuito, a sensação inesperada, o clima, os prazeres passivos, a vida nas ruas e os ateliês – são parte vital da história”. (SCHAPIRO, pp.307-12, 2002).

A cidade e as serras é dividido em dezesseis capítulos, dos quais os oito primeiros são passados no cenário parisiense, enquanto os restantes possuem Tormes e os campos lusos como pano de fundo. Visto desse modo, e devido a outros fatores a serem explicados adiante, é possível estabelecer uma relação simétrica quanto à disposição dos capítulos, o que leva à seguinte visualização:

CIDADE                                                                                        SERRAS

 

<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>

 

I                       IV                            VIII IX                        XIII                 XVI

 

////////////////////////////////////Maiores capítulos\\\\\\\\\

 

////////////Festa na cidade -------------------------------- Festa nas serras\\\

 

Jornada: Portugal-França ------------------------------------ Jornada: França-Portugal

Este painel dicotômico instaurado por Eça de Queirós faz se perceber, ao decorrer da narrativa, que a oposição entre a cidade e as serras vai além destes pólos, pois estes só seriam perfeitos se atingissem um grau sacro, sobrenatural, que busca, em última instância, o que “na alma de Jacinto se estabelecera: o equilíbrio da vida”.

 

Dessa maneira, essa primeira oposição é mais genérica se se observar que o contraponto dentro da história é entre o humano e aquilo que não o é. A disputa seria, destarte, o natural versus o artificial, a fim de se atingir o celestial.

 

Isso pode ser apreciado nas comparações realizadas e nos usos constantes da palavra celestial, ao longo do texto. Antes, porém, cabe retornar à teoria formulada por Jacinto no início do enredo:

Suma ciência

 

X                                Suma felicidade

 

Suma potência

esta que “é outra noção, e tremenda! (…) Aqui pois o olho primitivo, o da natureza, elevado pela civilização à sua máxima potência de visão”. A partir desse enfoque, obtêm-se variadas tricotomias:

·     Suma ciência X Suma potência = Suma felicidade

 

·     Cidade X Serras = Paraíso

 

·     Artificial X Natural = Celestial

Isso fica ainda mais claro quando Zé Fernandes conta ao leitor o que realmente sentiu por Madame Colombe:

 

“Amei aquela criatura. Amei aquela criatura com amor, com todos os amores, que estão no amor, o amor divino, o amor humano, o amor bestial, como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julieta, como um bode ama uma cabra”. (QUEIRÓS, 1973, p.46)

 

Nas palavras de Jacinto – “A vida é essencialmente vontade e movimento” – ou nos elogios Zé Fernandes aos quitutes de Joaninha – “E o doce que ela faz com esses pêssegos, menino, é alguma cousa de celeste” – o quadro tricotômico ganha mais componentes:

Vontade/pêssegos (natural)

 

X                                    Vida/‘alguma cousa de celeste’ (essencial/divino)

 

Movimento/doces (artificial)

Nilce Sant’anna Martins afirma na sua Introdução à estilística, a respeito das palavras lexicais que estas:

 

“mesmo isoladas, fora da frase, despertam em nossa mente uma representação, seja de seres, seja de ações, seja de qualidade de seres ou modo de ações. Diz-se que elas têm significação extralingüística ou externa, visto que remetem a algo que está fora da língua e que faz parte do mundo físico, psíquico ou social”. (MARTINS, 2000, p. 77)

 

Convergindo ao texto em si, é passível de análise o uso de expressões adverbiais temporais, como ‘lentamente’, e adjetivais, como ‘longo’ que permeiam incessantemente os capítulos referentes às serras, fazendo com que se tenha a idéia que a marcação de tempo na cidade escraviza, enquanto nas serras ele flui.

·     “Lentamente, gozando a frescura, o silêncio…”. (p.104).

 

·     “Já a tarde caía quando recolhemos muito lentamente. E toda essa adorável paz do céu, realmente celestial…”. (p.106).

 

·     “(…) qualquer breve beleza, do ar da terra, lhe bastava para um longo encanto”. (p.119).

 

·     “(…) num enlevado sossego, a escutar longamente, languidamente, os rouxinóis que cantavam no laranjal”. (p.122).

 

·     “Ela abriu lentamente, e ia…”. (p.126).

 

·     “Então jacinto, muito embaraçado, murmurou abstraidamente:”. (p.127).

 

·     “(…) a grossa camada de nuvens já se ia enrolando sob a lenta varredela do vento (…) então recolhemos lentamente para casa…”. (p.128). (grifos meus)

A pressa só surge nos capítulos serranos quando fazem referências à cidade ou estão ligados a fatos simplórios, quase que um tom jocoso-satírico do autor.

·     “E correu para o quarto, na sua pressa de acender as duas velas…”. (p.146).

 

·     “Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do grão-duque, o comboio entrou na estação de Biarritz; e rapidadmente (…) o delicioso Marizac…”. (p.155).

Nos oito primeiros capítulos, essas expressões aparecem raríssimas vezes. E na sua maior parte em relação às serras ou em detrimento da cidade.

·     “Eu venho de Guiães, das serras; preciso entrar em toda esta civilização, lentamente, com cautela, se não rebento”. (p.15)

 

·     “Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta:”. (p.60).

É na cidade, também, que se torna patente o quanto o homem é escravo do tempo:

·     “(…) numa rebelião de homem livre, aquela agenda que o escravizava”. (p. 19)

 

·     “(…) o homem do século XIX nunca poderia saborear plenamente a ‘delícia de viver’…”. (p.50)

 

·     “(…) trinta mil volumes repletos do saber dos séculos…”. (p.51).

Por fim, até mesmo o próprio “relógio monumental, que marcava a hora de todas as capitais e o movimento de todos os planetas”- definição essa dada em repetidos momentos –, que Jacinto possuía no 202 reflete essa dependência. Esse sentimento, o qual reflete todo o período decadentista português, se traduz em um dos mais hilariantes trechos da narrativa, quando ‘com uma desconsolação risonha’ alguém diz:

“— Que pena?… Só falta aqui um general e um bispo!

 

Com efeito! Todas as classes dominantes comiam nesse momento as trufas do meu Jacinto…(…)

 

No entanto o moço de loura penugem voltara a sua estranha mágoa. Não possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu báculo!…

 

— Para quê, meu caro senhor?

 

Ele atirou um gesto suave em que todos os seus anéis faiscaram:

 

— Para uma bomba de dinamite… Temos aqui um esplêndido ramalhete de flores de civilização, com um grão-duque no meio. Imagine uma bomba de dinamite, atirada da porta!… Que belo fim de ceia, num fim de século!”. (p.38)

 

Bibliografia:
FRANCHETTI, Paulo. Apresentação. IN: QUEIRÓS, Eça de. O primo Basílio – episódio doméstico. Cotia: Ateliê Editorial. 1998. (Clássicos para o Vestibular – 6).

 

GANCHO, Cândida Vilares. Como analisar narrativas. 7.ed.. 4ªimp. São Paulo: Ática, 2001. (Série Princípios – 207).

 

MARTINS, Nilce Sant'anna. Introdução à estilística. 3ª ed, revist e aument. São Paulo: T. A. Queiroz, 2000.

 

MATOS, A. Campos. Dicionário de Eça de Queirós. 2.ed. revisada e aumentada. Lisboa: Caminho, 1993.

 

MENDILOW, Adam Abraham. O tempo e o romance. Trad. De. Flávio Wolf. Porto Alegre: Globo, 1972.

 

QUEIROS, Eça de. A cidade e as serras. 2ªed. São Paulo: Brasiliense, 1973.

 

SARAIVA, António José; LOPES, Oscar. História da literatura portuguesa. 17.ed. Porto: Porto, 1976.

 

SCHAPIRO, Meyer. Impressionismo: reflexões e percepções. Trad. de Ana Luiza Dantas Borges. SP: Cosac e Narify, 2002.

Gabriel França Siqueira

Sou estudante do curso de Letras, na Universidade Estadual Paulista (UNESP/Assis), tenho 21 anos, estou no quarto ano e a área de estudo com a qual mais me identifico é a lingüística.

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