Anoeh
Houve um tempo num passado muito remoto, numa terra muito distante onde reinavam reis e sacerdotes com poderes mágicos. A gente dessa terra era governada por pessoas que vieram de outros lugares distantes e tinham poderes que hoje estão perdidos. Todos os seus desejos governavam a vida e a morte de milhares de pessoas. Eles eram os deuses vivos e como tal deveriam ser venerados. Nessa terra de areia e pirâmides, eis que um menino surgiu...Não devia ter mais de três ou quatro anos e caminhava de mãos dadas com seu pai ante blocos de pedras gigantes. Cada pedra era talhada à perfeição e seu pai acompanhava diariamente a construção da tumba que seria o descanso eterno do rei-faraó. Era um menino lindo com uma feição perfeita, olhos castanhos cor de mel, uma pele cor de oliva e um olhar cativante. Aquele menino ainda não tinha noção do seu futuro devastador, onde muitas mortes e muita destruição estavam por vir. Naquele dia, o calor era escaldante e estava usando apenas uma túnica branca que mal cobria seu pequeno corpo. Ele olhava para cima e via milhares de homens empurrando blocos e mais blocos de calcário e ouvindo a voz dos contra-mestres que exigiam perfeição em tudo. Na sua função de sacerdote, cabia ao seu pai inspecionar cada detalhe, pois da perfeição dessa obra dependia a ressureição do faraó no pós-morte. O nome desse pequeno menino era Anoeh. Um dia estaria no mesmo lugar do seu pai e tomaria seu lugar, porém, sua missão era ainda mais grandiosa. Mas, o futuro dessa pequena criança era ainda distante dos seus olhos vívidos que prestavam atenção em cada milímetro daquele canteiro de obras: pedras, areia, madeira, cordas, operários, mestres, contra-mestres, escribas, todos juntos, naquele local, eram uma visão única de caos e perfeição ao mesmo tempo...
Anoeh era um menino diferente, tudo em sua vida fora diferente das demais crianças. Mesmo pertencendo a um grupo diverso, privilegiado, criado num mundo bem distante da fome e da pobreza da maioria das pessoas do seu povo, ele intuía que algo maior estava reservado em sua vida. Algo que mudaria o rumo de uma nação inteira e iria repercutir durante muitos séculos no futuro. Aquele menino sabia mais do todas a crianças de sua vizinhança e até mesmo mais do que a maioria do adultos. Sua curiosidade o levara a explorar tudo e todos. Conhecia a escrita hieroglífica melhor do que muitos escribas, sabia de coisas da medicina melhor de que muitos médicos e curandeiros, entendia mais dos rituais do que muitos sacerdotes. Seu conhecimento maravilhava e ao mesmo tempo assustava as pessoas...Seu pai tinha muito orgulho do seu pequeno milagre. Quem sabe um dia ele seria o vizir do faraó. Algo desconhecido sempre favorecia o destino desse menino. Seu nome já fora algo diferente, pois significava “primavera” e tal qual a estação do ano correspondente ao seu nome, Anoeh desabrochava e crescia sempre em todos os sentidos. Seu final culminaria no maior desabrochar já mais visto naquela terra de papiro e areia...Mas esse tempo ainda estava longe de vir e muitas coisas ainda aconteceriam antes da hecatombe que lhe esperava...
Anoeh cresceu vendo um mundo mágico à sua volta. Seu pai o preparava na tarefa de um dia substituí-lo como sacerdote do faraó. O menino cresceu e virou homem. Aprendeu todas as funções de seu pai e muito mais. Sua força era incrível, assim como seu poder de domar o indomável. Aquele jovem tinha poderes jamais sonhados pelo seu pai. Ele podia dominar homens, animais e até mesmo a própria natureza. Mas, isto estava proibido, pois ele não poderia mexer com as forças que regiam a vida de milhares de súditos do faraó. Seu pai sempre lhe prevenira para que jamais brincasse com algo tão poderoso, pois nem mesmo ao faraó isto era permitido. Mas, os avisos do seu pai não foram ouvidos e um num futuro não muito distante, essa desobediência lhe custaria muito caro. No entanto, naquele momento o que mais fascinava aquele jovem eram: a vida, as pirâmides, seus estudos e sua preparação para um dia tomar o lugar do seu pai.
Assim os anos se passaram e Anoeh aprendia cada vez mais com seu pai. Suas visitas às pirâmides eram cada vez mais freqüentes, pois assim como seu pai havia feito, ele também deveria verificar o andamento das obras, pois disso dependia todo o futuro de sua nação. E, numa dessas visitas, ao lado do pai, o impensável aconteceu: as cordas que seguravam um enorme bloco de granito se romperam e a pedra desgovernada saiu do caminho previsto e foi arrastando tudo que via pela frente e o pai de Anoeh encontrava-se bem no meu rumo. O fatal acidente foi inevitável. O sacerdote do faraó morreu instantaneamente. O jovem correu até seu pai, mas já era tarde demais...A única coisa que se pode ouvir naquele instante foi um grito gutural que saiu da garganta daquele homem. Seu grito ecoou por toda a construção. Logo em seguida um grande silêncio se fez presente e um homem jazia morto sob uma enorme rocha.
Em meio à confusão que aquele terrível acidente causara, os operários tentavam de tudo para levantar o bloco e retirar o corpo inerte do sacerdote sob aqueles escombros. Depois de várias tentativas, eles conseguiram seu intento e imediatamente o homem foi levado para um local sagrado, onde se iniciariam os ritos para seu funeral. Anoeh olhava incrédulo para o corpo inerte de seu pai e não derramou sequer uma lágrima, pois não conseguia acreditar que ele realmente estivesse morto. Tomado de uma tristeza e de uma dor profunda, ele retirou-se, pois jamais pensou que veria seu pai morto e não havia nada que ele pudesse fazer a respeito. Contra tudo e contra todos, Anoeh decidiu que não permitiria que seu pai lhe fosse arrancado dessa maneira tão brusca. Indo contra tudo aquilo que lhe fora dito, o jovem sacerdote reuniu todas as sua forças e decidiu agir para que seu pai vivesse novamente. Foi ao lugar mais sagrado que conhecia e dentro desse templo invocou todas as forças do outro mundo e exigiu que seu pai levantasse, pois aquele jovem tinha o poder de trazer os mortos de volta à vida, porém, sabia que aquilo era proibido. Mas, no desespero da sua dor, começou a proferir as palavras sagradas e tudo à sua volta começou a girar, quanto mais alto ele dizia aquelas palavras, mais tudo ao seu redor girava. Uma enorme tempestade de areia começou a se formar e um portal de luz se abriu. No meio desse caos reinante, a areia começou a destruir todas as coisas que estavam em seu caminho: varreu muitas construções, casas, templos e ceifou a vida de muitas pessoas.
Pelo amor que tinha pelo pai, Anoeh cobriu seu povo e seu país de areia e enterrou uma civilização por muitos milênios. Ele próprio foi vítima da sua força incontrolável, pois acabou soterrado pela areia e também sucumbiu. Pela sua ignorância e na ânsia de salvar quem mais amava, aquele jovem promissor enterrou consigo muitos segredos de um passado mágico. Ainda hoje muitas coisas estão sendo desenterradas da areia e são remanescentes do passado, de onde pouco se sabe, inclusive da força de um jovem sacerdote que um dia desafiou o poder da natureza por amor ao pai e que poderia ter dado tanto ao mundo, mas isso já é uma outra história de um outro tempo...
(Artigonal SC #960021)
É uma poesia inspirada na natureza da mulher e no genuino sentimento do homem, como algo de subsistencia.
Amor, paixão, a beleza do amor, desejo,delírio, prazer,destino, amor platônico, insegurança, ciúmes.
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