As Diversas Linguagens Em Vidas Secas

Publicado em: 07/04/2010 |Comentário: 0 | Acessos: 4,326 |

INTRODUÇÃO

Na obra "Vidas secas", que é narrada em terceira pessoa, Graciliano aparece do lado de fora dos personagens e se confundi com os pensamentos de um ou de outro, e às vezes com a consciência coletiva do grupo, por isso, essa obra apresenta uma linguagem seca, áspera e poética; quase toda produzida em monólogos interiores pelos personagens, inclusive os animais.

É com essa precariedade de comunicação verbal que notamos as palavras como entidades autônomas, que se transformam em verdadeiros obstáculos com sentimentos místicos então se notam mais uma compreensão gestual do que verbal.

Foi por essa razão que exponho nesse artigo uma análise semiótica da linguagem em "Vidas secas", pautada principalmente na problemática social da época em que estão inseridos os personagens.

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* Graduado em Letras na UFPI e Especialista em Lingüística pela UESPI

 

1. A Linguagem em si

Sabemos que a linguagem é um conjunto de sinais de que a humanidade intencionalmente se serve para comunicar suas idéias, emoções e pensamentos.

De acordo com Saussure a linguagem tem um lado individual e um lado social, sendo impossível conceber um sem o outro.  Já Chomsky afirma que a linguagem é um conjunto (finito ou infinito) de sentenças, cada uma finita em comprimento e construída a partir de um conjunto finito de elementos.

Outros teóricos como Darwin relata que a linguagem articulada pertence especialmente ao homem, se bem que, como os outros animais os possam exprimir as suas intenções por gritos inarticulados, por gestos e pelos movimentos dos músculos da face. Valem lembrar que metaforicamente se pode afirmar que os animais possuem linguagens, esses sons emitidos por eles são apenas ruídos uniformes, que expressam alegria, dor, espanto e dentre outros sentimentos.

Levando essa afirmação para obra "Vidas secas" podemos notar esse tipo de acontecimento nos personagens animais: o papagaio que sofre uma humanização de menor grau, mas é o primeiro a ser sacrificado em prol da sobrevivência da família, e a Baleia que é humanizada em vários momentos, sendo considerado um membro da família, solidarizando se com os demais, pois homem e animal convivem sem qualquer barreira que os separem.

Mas segundo Schleicher que estuda a Multiplicidade da Língua, ele afirma que a linguagem, isto é, a expressão do pensamento por palavras é único, característico e exclusivo do homem, pois nenhum animal, todavia tem a capacidade de expressão imediata do pensamento pelo som.

Devemos ressaltar que Graciliano evidência um tipo de linguagem interiorizando nos personagens animais para expor os dramas individuais e coletivos dos membros típicos de uma família de retirantes nordestinos, em busca de melhores condições de vida.

De acordo com a classificação a linguagem se divide em linguagem verbal e não-verbal. A linguagem verbal é um conjunto de símbolos articulados por meio de palavras, sejam elas orais ou escritas; enquanto a não – verbal é um conjunto de símbolos, que não dependem de palavras, mas sim de imagens (cores, gestos, desenhos, etc.) e de sons (músicas, ruídos, batidas, etc.).

Então, a linguagem abrange tanto os aspectos físicos, fisiológicos como os psíquicos e que tem uma elevada importância para o processo comunicativo entre os homens, pois ajuda a revelar as suas necessidades individuais, coletivos e sociais.

2. As linguagens em "Vidas secas"

A linguagem na obra "Vidas secas" é trabalhada em dois níveis: no nível externo temos as palavras como tentativas inacabadas de diálogos; já no nível interno os diálogos são apresentados como "erros" lingüísticos com coerência e com a capacidade de visualizar o mundo e os homens com o olhar mais reflexivo, identificando assim o espaço psicológico nos personagens.

De acordo com a realização de uma análise semiótica, que é uma associação em que um signo estabelece com o mundo e com outros signos com a função de representação, a obra "Vida secas" apresenta três tipos de linguagens: linguagem verbal, linguagem não-verbal e linguagem em monólogos interiores. Além de alguns aspectos lingüísticos em relação ao domínio, a falta e a proibição da linguagem.

 

a) Domínio da Linguagem

"E eles estavam perguntadores, insuportáveis. Fabiano dava-se bem com a ignorância.Tinha o direito de saber? Tinha? Não tinha?." (pág.22)

"Um dia... Sim, quando as secas desaparecerem e tudo andasse direito (...), os meninos poderiam falar,perguntar, encher-se de caprichos."(pág.25)

b) Falta da Linguagem

"Ordinariamente a família falava pouco. E depois daquele desastre viviam todos calados, raramente soltavam palavras curtas." (pág.12)

"(...) Um sujeito como ele não tinha nascido para falar certo." (pág.22)

"Tinha um vocabulário quase tão minguado como o do papagaio que morrera na seca." (pág.57)

"Como não sabia falar direito, o menino balbuciava expressões complicadas, repetia sílabas, imitava os berros dos animais." (pág.59)

"Às vezes uma interjeição gutural dava energia ao discurso ambíguo." (pág.64)

"O único vivente que o compreendia era a mulher. Nem precisava falar: bastavam os gestos." (pág.98)

c) Proibição da Linguagem

"E eles estavam perguntadores, insuportáveis.Fabiano dava-se bem com a ignorância.Tinha o direito de saber? Tinha? Não tinha?." (pág.22)

"Um dia... Sim, quando as secas desaparecerem e tudo andasse direito (...), os meninos poderiam falar,perguntar, encher-se de caprichos."(pág.25)

 

A Linguagem Verbal é identificada na obra em menor quantidade, e apresentar-se através de expressões ou frases curtas, interjeições e onomatopéias.

"-Anda condenado do diabo, gritou-lhe o pai." (pág.9)

"Você é um bicho, Baleia." (pág.20)

"- esses capetas têm idéias..." (pag. 20)

"- Seu Tomás, vossemecê não regula. Para que tanto papel? Quando a desgraça chegar, seu Tomás se estrepa igualzinho aos outros." (pág.22)

"- Por que é que vossmecê bota água em tudo?" (pág.28)

"– bom, bem. não há nada não" (pag. – 33)

A Linguagem Não- Verbal, que predomina sobre as demais, se apresenta dentro da obra em quatro partes:

a)                 Linguagem Simbólica: É um tipo de linguagem que representa ou substitui outra coisa (algo abstrato). Essa linguagem é identificada principalmente em Sinha Vitória.

 

  • Sinha: moça, filha ou esposa do fazendeiro e Vitória: Sucesso e conquista – O nome junto representa a mulher forte do nordeste.
  • Vermelho ou avermelhado: representa a cor da pele, a barba e os cabelos de Fabiano, o pôr-do- sol, as planícies e o sangue(papagaio, preá, nos dedos de Fabiano e na Baleia) e a vida.
  • Amarelo: o sol, o soldado, as folhas das catingueiras – poder e a opressão.
  • As cinco estrelas: os cinco personagens e os sonhos.
  • Baleia: maior mamífero do mar, água-prosperidade.

 

b)                 Linguagem Corporal: É a que se define com gestos e sinais corporais individuais impregnados de sentimentos. Esses gestos podem ser simbólicos, expressivos, mímicos, esquemáticos, técnicos, codificados e maquinais.

"O menino mais velho esfregou as pálpebras, afastando pedaços de sonhos." (pág.14) – SOLIDÃO.

"A cachorra Baleia saiu correndo (...) depois de alguns minutos voltou desanimada, triste, o rabo murcho. Fabiano Consolou-a, afagou-a" (pag. 21) - CARINHO.

"Retirou-se zangado encostou-se num esteio do alpendre, achando o mundo todo ruim e insensato." (pág.48) – DECEPÇAO.

c)                 Linguagem Plástica: Aquela que é representada pela expressão das conformações gerais do corpo humano.

"(...), Pôs o filho no cangote, levantou-se, agarrou os bracinhos que lhe caiam sobre o peito, moles, finos como cambitos." (pág.11)

"As alpercatas dele estavam gastos nos saltos e a embira tinha-lhe aberto entre os dedos rachaduras muito dolorosas. Os calcanhares, duros como cascos, gretavam-se e sangravam."(pág.12)

"(...) era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos..." (pág.18)

"O corpo do vaqueiro derreava-se, as pernas faziam dois arcos, os braços moviam-se desengonçados. Parecia um macaco." (pag. 19).

d)                Linguagem Musical: Aquela que é representada pela expressão de alguma mensagem, através da música.

"O som dos chocalhos era familiar, mas a cantiga dos sapos e o rumor das goteiras causavam estranheza." (pág.39)

"(...) O fogo que estalava o toque dos chocalhos, até o zumbido das moscas, davam-lhe sensação de firmeza e repouso." (pág.44)

"Ouviam-se distintamente os roncos de Fabiano, compassados, e o ritmo deles influiu nas idéias de sinhá Vitória." (pág.44)

 

"O som dos galhos que rangiam na catinga, roçando-se" (pag. 69)

E por fim temos, a Linguagem em Monólogos é a que representa as falas interiores dos personagens, evidenciando os sonhos, os desejos e os dramas.

"Sinhá Vitória, queimando o assento no chão..., pensava em acontecimentos antigos que não se relacionavam: festas de casamentos, vaquejadas, novenas, tudo numa confusão." (pág.11) – DESEJO

"A catinga ressuscitaria, a semente do gado voltaria ao curral, ele, Fabiano, seria o vaqueiro daquela fazenda morta... Os meninos gordos, vermelhos..., sinhá Vitória vestiria saias de ramagens vistosas. As vacas povoariam o curral. E a catinga ficaria toda verde." (pág.15) – DESEJO

 

"Sinhá Vitória desejava possuir uma cama igual à seu Tómas da bolandeira." ( pág.20). – SONHO

"E Fabiano se aperreava por causa dela, dos filhos e da cachorra Baleia, que era como uma pessoa da família sabida como gente." (pág.34). Ele estava preso – DRAMA

 

Os objetivos dessa linguagem internalizada é revelar para o leitor a existência dos personagens, além disso, revela os dramas reais dessa família nordestina que são a descriminação, a miséria, a fome e a falta de comunicação.

Esses problemas são características da década de 30, em que os escritores, através do neo-realismo enriqueceram a produção regionalista com a predominância da denuncia das injustiças sociais, dos problemas econômicos do nordeste, do drama dos retirantes da seca e da vida sofrida da população pobre.

Podemos notar também outros fatores relacionados ao tema discutido nos personagens da obra, que são a dominação, a falta e a proibição da linguagem produzida que se constata numa leitura mais detalhada e analítica.

Portanto, a linguagem produzida por Graciliano em "Vidas secas" nos oferece uma reflexão sobre os problemas sociais causadas pela seca, além de ser uma linguagem enxuta, rigorosa e conscientemente trabalhada.

CONCLUSÂO

Graciliano adota em sua obra a utilização das expressões regionais, adequando-as a tradicionalidade da terra.

Sabemos também que essa ausência de diálogos se faz presente na obra devido a uma ausência da linguagem verbal por parte dos personagens, que se comunicam através de onomatopéias, exclamações, resmungos e gestos animalescos, que são marginalizados também pelo fator lingüístico.

Sendo assim, com a presença do fator lingüístico, onde há o predomínio do discurso indireto livre, o narrador com o uso de monólogos interiores ordena de forma lógica o discurso dos personagens. Por isso, a obra "Vidas secas" nos propicia uma leitura linguisticamente agradável e reflexiva sobre os problemas sociais da década de 30 que se refletem na atualidade.

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    Palavras-chave do artigo:

    linguagem vidas secas regionalismo semiotica diversas linguagens

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