Formado em Letras e em Educomunicação pela Universidade de São Paulo. Casado, 32 anos, 02 filhos. Coordenador Pedagógico do Ensino Fundamental – CICLO II da Rede Oficial de Ensino e Professor de Língua Portuguesa (Gramática, Redação e Literatura) da Rede Privada.
Colunista de diversos órgãos midiáticos, entre eles: “Yes Marília” - (www.yesmarilia.com.br), parceiro da Globo.Com no município de Marília/SP e Revista Eletrônica “Alô Ibiúna”, de Ibiúna/SP. Colabora também com o Jornal da Manhã, de Marília /SP, e Diário de Sorocaba, de Sorocaba /SP.
Pertence ao quadro de autores da Editora Virtual Usina de Letras - mantida pelo Sindicato de Escritores de Brasília, que conta, até o momento, com mais de 80 obras publicadas de sua autoria, em sua maioria, artigos políticos e contos de suspense.
Lançou, em 04 de julho de 2008, o site www.escritorcarlosmota.com, em que estão reunidas todas as suas obras e veículos para os quais escreve.
Seu sonho é ser apenas FELIZ em vida, afinal, que autor consegue ser feliz ao ser incomodado o tempo todo por sua visão perspicaz e sensível de um mundo já torpe feito o atual?
Eram as únicas naquela sala enorme. As três juntas, todas de meia idade, uma ao lado da outra, cada uma com um véu de uma cor, o que, à primeira vista, pareciam representar a torcida são-paulina em meio a um estádio de futebol vazio, dominado pelo clima sombrio da madrugada.
A primeira das velhotas, a mais magra e também a mais alta, roia as unhas como se quisesse conter a ansiedade, um fogo intenso que lhe remexia o interior, fazendo-a tremelicar de quando em quando como se estivesse entrando e saindo de um transe espiritual. Sob seu colo havia uma manta negra que lhe aquecia as pernas tortas. Seu nariz era de uma deformidade que causava estranheza; há quem diga que ela era o centro daquele evento. Quanto exagero!
A do meio, uma gordinha caliente, de estatura mediana, esfregava o olho demonstrando uma comoção que, de fato, não havia; se houvesse, não seria chamada a atenção a todo o tempo pelas amigas, porque volta e meia, ao invés de chorar, ela contava piadas e davas umas gargalhadas cuja sonoridade assemelhava-se a de uma bruxa. Tinha um testão... E que testão! As línguas afiadas a apelidavam de musa do Frankenstein. Já a última, com o lenço entre as mãos, corria-o pelos olhos e chorava... as lágrimas escorriam desatinadas! Nossa! Estava mesmo emocionada! Que dó! Das três era a menos feia. Tinha as orelhas do Dumbo e a boca parcialmente desdentada... Quando sorria, lembrava o Tião Macalé, aquele personagem desengonçado do extinto programa “Os Trapalhões”, da Rede Globo, que dizia, sempre ao final de cada participação: "Ih, nojento!!!! Tchan!!!!”. Esta última, nem gorda, nem magra demais, tinha algo de líder, porque às vezes, quando alguma delas parava de chorar, levava uma beliscadela bem no meio da barriga para que não se esquecessem de que ali, infelizmente, deveriam ser “profissionais”.
No meio da sala havia um tapete vermelho e sobre ele uma urna funerária de causar inveja a qualquer defunto. Era tão linda que político nenhum a recusaria como brinde pelas mazelas que fizera em vida. Sua madeira, de um a pau-brasil raro, polida com um verniz que custava o olho da cara, chamava a atenção de quem circulava por um corredor paralelo à sala. Acima da urna, como manda o figurino, uma cruz de metal irradiava aquele deserto de gente, e sobre ela, uma coroa de flores insistia em convencer aos poucos que ali compareciam: “Aqui jaz um homem bom. Deus o tenha!”
Um ventilador, ligado no último, espantava as moscas - pragas regozijantes da desgraça alheia, que persistiam pousar sobre o véu que encobria a face do morto. E que morto! Um homem de uns cinqüenta anos, rosto marcado por profundas rugas – resultados de uma vida sofrida, atormentada pela dor e desespero. O coitado talvez fosse o dublê do personagem atormentado de “O grito”, obra-prima do norueguês Edvard Munch. Apesar daquela cara horrenda, algo chamava a atenção: suas mãos. Uma sobre a outra, contrastava todo aquele sofrimento, tal a delicadeza. Era como se ele tivesse penado em vida, mas jamais houvesse pegado no batente, trabalhado, se é que me entende!
A noite corria... E lá permaneciam as três mulheres chorando, as únicas a velarem o pobre, que de pobre mesmo, só devia ter o espírito... E olhe lá! O engraçado é que, vez ou outra, as “belas” garotas compartilhavam o lenço... e quanto mais o esfregavam sobre os olhos, mais eles avermelhavam, escorrendo lágrimas por todos os cantos. Continuaram nessa lengalenga a noite toda e todo o dia seguinte, até a hora do enterro...
Seria aquele homem marido das três? Algum amigo querido ao ponto delas esquecerem a própria vida, para ficarem ao seu lado, dando-lhe a paz almejada para atravessar a barreira que separa a vida da morte, o sonho da realidade, o prazer da angústia?
O caixão foi lacrado na metade da tarde e o cortejo – umas oito pessoas ao todo, incluindo as velhotas - seguiu para o cemitério. Antes de o corpo ser alçado ao buraco eterno como um “verme” qualquer, um padre surgiu do nada e lhe arremessou algumas bênçãos. Com as mãos dadas, as mulheres vozeavam de dor - tal a grandiosidade daquela perda - como se quisessem formar um coral, mas daqueles bem desafinados, assemelhado aos uivos da cadelada em noite de lua cheia... Perplexo com aquele verdadeiro show à parte, o padre, com a bíblia em mãos, não conseguia encontrar um versículo que representasse, na íntegra, toda a dor daquela mulherada, por isso, disse duas ou três palavras sem nexo e foi se embora com a mesma velocidade com que chegara. O coveiro, sem dó, jogou a bela urna com tudo no buraco... Houve um estouro e a tampa rachou com o impacto. Era visível, a sete palmos acima, os dentes do cadáver, em cuja boca encontrava-se, devido à queda, entalada uma das rosas da decoração mortuária.
Conforme o coveiro lacrava o túmulo, as mulheres se afastavam... Após cruzarem o portão de entrada do cemitério, a orelhuda sacou-se de um celular e fez a seguinte ligação:
_O presunto está sendo degustado pelos vermes. Cumpra sua parte – disse, sem a comoção de outrora.
Alguns minutos depois, uma limusine parou em frente ao cemitério. O motorista abriu a porta e dela saiu uma bela mulher, de uns vinte e poucos anos, que foi logo se dirigindo à desdentada:
_Foi mesmo enterrado?
_Deve estar sendo devorado pelos ratos a esta hora – respondeu, com as outras amigas às suas costas.
_Ainda bem! Tomem o que lhes devo e sumam da minha frente, assim como fez aquele velho sovina, qual maldade em vida me levara a comer o pão que o diabo amassou...
Virou-se de costas e entrou no carro, sumindo no horizonte. As três dividiram o dinheiro e sorriram de felicidade, deixando para trás todo aquele sofrimento de há pouco.
_O que faço com o lenço? – perguntou a nariguda.
_Tire a cebola e o guarde... Amanhã temos outro desgraçado para velar. Vida de carpideira é como a de político: a encenação e os apetrechos fazem parte do pacote!


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