As Venusianas
(Tarde da noite no interior de um carro em movimento. Em "off".)
Eu já estava dirigindo há mais de doze horas e aquela noite estava especialmente fria e escura, sem lua ou estrelas que pudessem me fazer companhia durante aquela cansativa viagem. Como representante comercial de uma empresa multinacional de defensivos agrícolas, estava sempre viajando de um lado para o outro atendendo às solicitações de diversos clientes em todo o estado. Naquele dia, eu não havia conseguido fechar nenhum negócio viajando pela região norte. Me sentia exausto e a próxima cidade na qual pretendia passar a noite ainda se encontrava muito distante. Foi quando decidi seguir por uma estrada vicinal, que, de acordo com o mapa, encurtaria o caminho pela metade. Depois de tomar o atalho e viajar mais algum tempo, a estrada terminava em um matagal. Tinha me desviado bastante e estava perdido em um local ermo e afastado. Desliguei o motor do carro, acendi a luz interna e comecei a olhar o mapa novamente. Foi então que repentinamente, um clarão surgiu por detrás de um morro iluminando o céu. Assustado, deixei cair o mapa. Quando levantei os olhos, vi duas mulheres estranhamente vestidas, com chapéus negros de grandes abas largas e véus azuis, paradas há menos de dez metros de meu carro. Uma estranha luz violeta vinha por detrás das duas. Cuidadosamente abri o porta-luvas, tirei meu "38" colocando-o sob a jaqueta e saí do carro com a lanterna acessa, deixando os faróis do carro ligados. Comecei a caminhar vagarosamente e com cautela em direção às duas mulheres, que me olhavam fixamente.
Vendedor - Boa noite. Vocês sabem qual é a estrada para São José?
Venusiana I - Não. Também estamos perdidas. Nosso veículo estragou.
Vendedor - Mas que hora para o carro quebrar...
Venusiana II - O senhor poderia nos ajudar? Quem sabe não seria algo simples, de fácil reparo?
Vendedor - Posso tentar. Onde o carro de vocês está?
(A Venusiana I aponta para a direção do morro onde o clarão havia sido visto. As duas começam a caminhar sendo seguidas pelo vendedor.)
Venusiana I - Por aqui. (Depois de alguns passos, a Venusiana II finge que tropeça em algo, simulando uma queda, quando é amparada pelo Vendedor. Nesse momento, o seu véu encobre suavemente a cabeça do Vendedor. Atordoado e imobilizado com algum tipo de gás inodoro, o Vendedor é facilmente conduzido à espaçonave das venusianas.)
Interior da espaçonave. Construída com uma espécie de plasma gelatinoso e partículas elétricas fosforescentes e multicoloridas, é de matéria desconhecida. Nosso herói continua em estado de sonolência e o vemos agora flutuando com o rosto voltado para cima e em gravidade zero. A Venusiana I lhe injeta uma droga líquida alaranjada dentro do ouvido direito.
Venusiana II - Mesmo com a inclusão dos fatores não previstos o término temporal da missão continua o mesmo?
Venusiana I - Noventa e seis métirons, ou oito horas da terra. Teremos apenas de nos antecipar em cinco métirons e devolver os corpos, antes que o desaparecimento das duas nativas seja notado e comecem a procurar por elas.
Venusiana II - Espero que seus cálculos estejam corretos e que tenha incluído também os fatores P1 e X2.
Venusiana I - Estes fatores não estão sob controle. As emoções e as sensações puras nestes seres são imprevisíveis e muito difíceis de se quantificar.
(O Vendedor está deitado em uma cama de casal em um requintado quarto de hotel - um cenário virtual simulado dentro da espaçonave. Pouco a pouco ele acorda e se levanta da cama. Ansioso e um pouco perturbado o Vendedor caminha em direção à janela do quarto, vendo através dela, um jardim ensolarado e com pássaros que cantam.)
Vendedor - O que aconteceu? Onde estou?
Venusiana I - Você desmaiou e o trouxemos para este hotel em Carlovile. Você se sente bem?
Vendedor - Estou um pouco tonto. Acho que é cansaço… Preciso dar um telefonema.
(As Venusianas entreolham-se. A Venusiana II caminha na direção do Vendedor olhando-o languidamente e segurando-o pelo ombro, ao mesmo tempo em que passa suavemente a mão direita pelo seu peito descendo até a virilha.)
Venusiana II - Não tenha tanta pressa. Relaxe um pouco. Você parece tão cansado...
(A Venusiana I aproxima-se por detrás do Vendedor passando delicadamente o dedo indicador no meio das pernas dele.)
Venusiana I - Estamos aqui para despertar em você suas mais fortes sensações...
(Em "off": Achei tudo aquilo muito estranho. Pensei que talvez fossem prostitutas ou ladras. Elas me levaram para a cama de casal e começaram a me despir. Sem ação, balbuciei uma frase, entregando-me vagarosamente à aquele inesperado e excitante jogo de sedução.)
Vendedor - Mas... Mas... Que loucura...
(Sentia que a libido aumentava proporcionalmente a cada toque e a cada peça de roupa tirada. Elas pesquisavam as sensações humanas do prazer sexual total. Um ambiente de completa desinibição, sensualidade e nudez, em que jogos eróticos de corpos, mãos, seios e bundas, faziam com que aquela excitante e inesperada situação parecesse maravilhosamente irreal. Inicia-se uma procura que duraria horas ininterruptas. Carícias cada vez mais ousadas eram imitadas e seguidas por beijos, lambidas e chupadas em todas as partes dos três corpos.)
Vendedor - Aaaahhh!!! Não agüento mais! Me deixa... me deixa enfiar... Aaaahhh!!!
("la zangola", "strofinare", " colpo del toro", "caccia al passero"… Quase todas as técnicas do Kama Sutra foram praticadas, regadas por muito suor e sons frenéticos dos movimentos de vai e vêm das virilhas, até que dois fortíssimos e agudíssimos sons, fizeram com que o Vendedor caísse de dor ao chão, desacordado. As duas Venusianas estavam no mais completo“estado de graça”, seus rostos estavam reluzentes e seus corpos irradiavam três vezes mais luz violeta. Algum tempo depois…)
Venusiana I - Está na hora de ir e abandonar os corpos onde nós os encontramos.
Venusiana II - Foram sensações nunca experimentadas e nem sequer antes imaginadas...
Venusiana I - Quer dizer que está pretendendo ficar?
Venusiana II - Talvez por mais alguns ciclos.
Venusiana I - Você sabe que não será permitido.
Venusiana II - Ampliaremos o espectro de ação.
Venusiana I - Não se trata mais da ação. Foi tudo devidamente finalizado.
Venusiana II - Ficarei apenas por mais dois ciclos.
Venusiana I - Haverá perseguição e remoção. Em alguns métirons os “Superiores” saberão de tudo e eu não poderei fazer mais nada.
Venusiana II - Vou assumir a ação.
Venusiana I - ??? Vamos então terminar o envio do material.
Manhã ensolarada. Em um descampado nosso herói todo suado, acorda com o mugido, o sol e o som típico do sino de uma vaca que havia chegado perto o bastante para acordá-lo. Levanta, limpa a poeira e terra de suas roupas e vai até o carro. Abre o porta-luvas e encontra o mapa e sua arma. Liga o carro e sai a toda velocidade. Por um momento, pensa que tudo aquilo tinha sido apenas um sonho delirante, fruto de um grande cansaço. Chegando na próxima cidade, vai à um bar tomar café e observa a manchete do jornal local que estava sobre uma mesa: desaparecida a filha do prefeito - polícia suspeita de seqüestro. Estampada na primeira página do jornal, a foto da Venusiana I. Perturbado, ele sai rapidamente do bar sem terminar o café e sem pagar a conta, entra no carro e dá a partida. Cruza uma esquina e vê a Venusiana II na calçada olhando-o fixamente - estava ela sendo vista pelos outros ou somente por ele? Freia o carro bruscamente e dá ré, mas ela já havia desaparecido. Fora de si, estaciona o carro e começa a ter flash backs da noite anterior. (Sala de uma delegacia de polícia. O Vendedor está sentado de frente ao Delegado com o jornal na mão. Este demonstra uma expressão de desdém e incredulidade. Toda a história havia sido relatada a ele desde o início.)
Vendedor - Delegado, a manchete deste jornal é falsa. A verdade é que os corpos das moças foram possuídos por seres de outro planeta.
(O Delegado responde com uma expressão de deboche estampado no rosto.)
Delegado - Então quer que eu acredite que estamos sob uma invasão interplanetária, que o senhor foi raptado por seres extraterrestres e que o corpo da filha do prefeito foi possuído por um alienígena que anda por aí trepando com todo o mundo? (Seriamente e já bastante aborrecido.)
- Por favor, me dê seus dados, telefone e endereço.
(O Vendedor empalidece e começa a tirar os documentos entregando-os ao Delegado.)
Vendedor - O senhor não entendeu nada, Delegado. O senhor tem que acreditar em mim!
(O Delegado anota os dados do Vendedor.)
Delegado - O senhor usa algum tipo de remédio ou consome algum tipo de droga?
Vendedor - Não. Mas, Delegado, o senhor não está pensando que...
(Sendo bruscamente interrompido pelo Delegado.)
Delegado - Não estou pensando nada. Aliás, é o senhor quem anda pensando demais.
Porque o senhor não procura ajuda profissional?
Vendedor - O quê?
Delegado - Um médico poderia auxiliá-lo neste momento. É claramente algum tipo de perturbação. O senhor precisa de tratamento para vencer esta crise.
Vendedor - O senhor está pensando que sou louco não é? Pois não acreditando em mim o senhor perde a maior oportunidade de sua carreira. Com licença.
(O Vendedor levanta-se furioso e, contrariado, sai da sala do Delegado, quando este começa a falar sozinho ao mesmo tempo em que balança a cabeça.)
Delegado - Me aparece cada uma… Alienígenas taradas seqüestradoras de corpos humanos! Vê se pode uma coisa dessas! Mas que maluco. (Pausadamente)
- Que m a - l u - c o …
Anteópolis. É noite e o Vendedor está descansando em seu apartamento. Ele liga a televisão bem no meio de um especial sobre discos voadores. Reconhece então a Venusiana II, que entrevistada fala sobre a inexistência de seres extraterrestres, dizendo que os OVNIS são pura imaginação, crendice popular, efeitos naturais ou balões meteorológicos. Ela olha fixamente para a câmera como se estivesse falando diretamente para o Vendedor. Transtornado e trêmulo, ele vai ao barzinho e serve-se de uma grande dose de vodca e, ao fazê-lo, deixa cair o balde de gelo esparramando as pedras por todo o assoalho da sala de estar. Close nas pedras de gelo pelo chão. No interior das pedras, move-se uma espécie de plasma gelatinoso e partículas elétricas fosforescentes e multicoloridas que brilham... brilham....
Personagens
Vendedor
Venusiana I
Venusiana II
Delegado de Polícia
Figurantes
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Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas, instituições ou
fatos da vida real, é mera coincidência.
Título: AS VENUSIANAS
Autor: Viana, Andersen - Obra Registrada na Biblioteca
Nacional RJ - Copyright©2003 by Andersen Viana
Todos os direitos reservados e assegurados por lei.
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Outros links do mesmo autor: www.andersen.mus.br
www.youtube.com/user/TheAmadeusProd
http://acigarraeaorquestra.blogspot.com
(Artigonal SC #1473450)
Vida e obra de James Ballard,escritor de romances de ficção científica.
Habitantes do distante planeta Anrek são atacados por uma mortal arma biológica. Para descobrir a cura contra o poderoso vírus, Anrekianos chegam à Terra para recolher substâncias encontradas apenas nos corpos humanos. Mas, extraídas em grande quantidade…
Esta pesquisa, analisou a leitura do livro paradidático desenvolvida na Escola de Ensino Fundamental Senador Carlos Jereissati, tanto no seu significado quanto a sua aplicabilidade. O presente estudo foi desenvolvido a fim de se entender como lidar com o conhecimento através do livro paradidático, necessário e indispensável à formação dos alunos. A escolha de trabalhar com o tema surgiu por se observar que a maioria dos educadores trabalham a leitura de forma mecânica e desvinculada da realidade
Em que relevo poderemos colocar, nas linhas que se seguem, a Poesia Épica – em especial Homero e sua Odisséia? Que valores nos são legados pelo legendário poeta e por que ainda se nos mostram tão fecundas suas fantásticas narrações? É possível, por assim dizer, em nossa modernidade, um diálogo com este poema – já que dele nos dista esta barreira indelével de mais de duas dezenas de séculos? É o que tentamos examinar neste artigo.
Se o mestre é, por excelência, o elemento chave da formação, como este se forma? Tal questão é tratada, sob a aguda crítica de Nietzsche à metafísica tradicional, por um viés singular, na obra "Assim Falava Zaratustra".
Costuma-se, de maneira um tanto reducionista, classificar esta obra como uma determinada leitura ou projeção do Brasil, que traduziria os debates de uma época em representação da perspectiva cultural e sociológica de nosso país . Tentaremos, não uma refutação, porém uma perspectiva bastante diversa desta última, enveredando por um outro viés cuja leitura acreditamos o romance poder suscitar. Abordaremos a trajetória de Policarpo Quaresma, em suas três Partes, como "atos de uma tragédia".
Este artigo trata do romance "Frankenstein" de Mary Shelley segundo a questão ontológica e os problemas decorrentes. Fazendo um percurso na tradição filosófica, são delineadas questões intrigantes suscitadas pela obra, que se mostra única em seu tempo.
quatro crianças perdidas numa floresta mal assombrada
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2012 O FIM DE UM COMEÇO ASSUSTADOR. Por: Germano Gonçalves. © Há quando criança ouvia falar dos anos dois mil, coisas estranhar aconteceria; os automóveis voariam, as pessoas usariam controles para acionar a televisão, ouvir músicas, os carros se locomoveriam sozinhas naves espaciais como transporte, chips colocado em pessoas, e que o mundo acabaria assustador não! E eu vivia na minha periferia, com meus carrinhos de rolimã, brinquedos de madeiras feitos pelo meu pai brincavam na rua e em terren
Preso pela trajetória literária de Melville, o texto narra a vida de Moby e seus enfrentamentos frente a um mundo que o persegue e o reduz.
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Que diz dentre outras, sobre situações vividas e imaginadas por um maestro-compositor da República de Monte Blanco entregue à própria sorte no leste europeu durante o verão de 1969.
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