EMÍLIA NO PAÍS DA GRAMÁTICA - Uma visão Lobatiana sobre o ensino normativo da língua

Publicado em: 13/05/2011 |Comentário: 0 | Acessos: 946 |

 

EMÍLIA NO PAÍS DA GRAMÁTICA

Uma visão Lobatiana sobre o ensino normativo da língua

 

 

Andréa Luz

Cirlene Amorim

Jaqueline Gomes

Luciana Barbosa

 

Introdução

 

Como seria interessante se o ensino de gramática viesse recheado de aventuras. Se conhecer as regras da estrutura da língua fosse um passeio por um país repleto de imagens e sons, e trabalhá-las fosse uma gostosa brincadeira. Pois é exatamente esta a proposta de Monteiro Lobato ao escrever Emília no País da Gramática, livro publicado em 1934 e que traz como temática central as aventuras da boneca Emília, de Pedrinho, Narizinho e o rinoceronte Quindim num lugar onde os elementos, que servem como representantes da estrutura lingüística, ganham vida e fazem parte da realidade dos personagens da narrativa. Para Lobato, ensinar gramática deveria ser um momento não só de conhecimento como de prazer, uma vez que estamos trabalhando com algo real e dinâmico que é a nossa língua, instrumento de comunicação e de identidade de todo falante. Por isso, nosso objetivo neste artigo é, também, fazer um passeio, percorrer um caminho pela moderna visão lobatiana sobre o ensino normativo da língua.

 

I) Breve passeio sobre a história da gramática

 

Quando falamos de gramática devemos especificar a qual estamos nos remetendo, uma vez que esta pode ser estudada a partir de objetivos distintos. De acordo com o dicionário Aurélio, gramática é um vocábulo grego que significa "a arte de ler e escrever" e, tradicionalmente, é diferenciada quanto à sua finalidade, por isso pode ser  normativa, descritiva, internalizada e histórica.

Chama-se Gramática Normativa aquela que busca ditar as regras gramaticais de uma língua, posicionando as suas prescrições de acordo com a norma padrão, seja através da análise de estruturas,  da classificação de formas morfológicas ou léxicas. Habitualmente essas gramáticas se baseiam nos dialetos de prestígio de uma comunidade lingüística e condenam especificamente as formas adotadas por grupos socioeconômicos mais baixos; dentro dessa perspectiva, as variedades lingüísticas são consideradas desvios da língua.

Segundo Bechara, cabe a esse tipo de gramática "elencar os fatos recomendados como modelos de exemplicidade idiomáticas para serem utilizados em circunstâncias especiais do convívio social" (2000, p.52). Elas são comuns no ensino formal de uma língua e adotadas pela maioria dos autores de gramática e de livros didáticos em língua portuguesa; contudo, a sociolingüística  vem favorecendo o estudo da língua como ela realmente é falada, e não como ela "deveria" ser falada.

Contrapondo-se a essa enumeração de regras, encontramos a Gramática Descritiva,  também conhecida como Estrutural ou Funcional. Nesta, não há noção de certo e errado: o que existe são as diferenças, isto é, as variações. Ela propõe a descrição da estrutura e o registro de como uma língua é realmente falada, norteando o trabalho dos lingüistas. Esse tipo de gramática está ligado a uma determinada comunidade lingüística e reúne as formas gramaticais aceitas por estas comunidades. Uma vez que a língua sofre mudanças, muito do que prescreve a gramática normativa já não é mais utilizado pelos falantes de uma língua. A gramática descritiva não pretende  apontar erros, ela identifica as formas de expressões existentes e verifica em que momento e por quem são produzidas.

Mario Perini, professor de pós-graduação em Língua Portuguesa da PUC de Minas Gerais, afirma em sua Gramática Descritiva do Português, que: "O que este livro pretende é a tentativa de apresentar a gramática do português seguindo estritamente uma orientação coerente e mais atualizada"(1995). Por isso, o objetivo dessa gramática é apresentar a conseqüência de um trabalho feito a partir da descrição e dos registros da maneira que são elaboradas certas estruturas lingüísticas dentro de um determinado contexto, podendo ainda serem formuladas algumas hipóteses para explicar tais construções.

A Gramática Internalizada, também chamada de implícita, é vista como o complexo de regras dominadas pelo falante. Isto é, o conhecimento sintático-semântico e lexical próprio do falante e que permite que ele compreenda e produza frases em sua língua. Assim, qualquer falante de português possui um conhecimento implícito bem elaborado da língua, embora não seja capaz de expor esse conhecimento.

A ocorrência de uma gramática internalizada pode ser percebida por dois fatos lingüísticos: o primeiro, quando a criança produz formas não utilizadas por falantes adultos. Um exemplo seria quando a criança faz a conjugação dos verbos regulares (parti, corri) para os verbos irregulares (fazi, boti). Essas ocorrências nos mostram que ela possui uma regra internalizada para a utilização dos verbos, mas como não conhecem as variações (os irregulares), aplica a mesma regra a todos os verbos.

O outro fato é a hiper-correção, que é a aplicação de uma regra de maneira generalizada, ainda que essa regra não se aplique a determinado contexto. Por exemplo, um falante que produz formas como "meu fio" no lugar de "meu filho", ao ter contato com as formas reconhecidas como corretas, "filho", "velho",  pode ampliar o uso da regra em contextos onde não se aplica, como "pilha da cozinha" e "telha de aranha".

Já a Gramática Histórica, de acordo com Bechara, estuda a seqüência de fases evolutivas de um idioma. Esse tipo de gramática faz um estudo diacrônico da língua portuguesa sob dois aspectos: o da história externa da língua que procura  revelar as conquistas dos romanos; e  o da historia interna que se ocupa da descrição do processo evolutivo a que se submetem os fonemas, a forma de significação dos vocábulos e os tipos de construção sintáticas que foram adotados em cada língua derivada do latim vulgar.

De modo geral, o ensino de língua portuguesa nas escolas sempre foi pautado na análise das normas da estrutura lingüística, o que significa que ensinar português pode ser associado, automaticamente, ao ensino da gramática normativa. Conhecer bem todos os elementos que compõe a variante escrita dessa língua além de indicar status pode ser visto, também, como único e principal objetivo do ensino do português; no entanto, quase sempre este ensino é realizado de forma descontextualizada e desconsiderando a realidade dinâmica do uso da língua no meio das ações sociais que desempenhamos todos os dias.

Ignorar a realidade dos meios na qual a linguagem é produzida é observar a língua como sistema estagnado e dissociado de qualquer processo interativo. O que não condiz com o que presenciamos em nosso entorno, pois não há quem não perceba a transformação pela qual a nossa língua passa diariamente, dentro das variadas formas de expressão de seus usuários.

Dentro da visão do ensino tradicional da língua portuguesa, prescrever normas seria função primordial do professor de português, e este último, ao invés de ser visto como mediador entre o conhecimento e o aluno, é tido como aquele que promove a ascensão social através do "bem escrever" e do "bem falar". Esse fato tem raízes históricas, uma vez que, desde as últimas décadas do século XIX, o sistema de ensino do português tinha como objetivo levar ao aluno o conhecimento de regras gramaticais de uma variedade que favorecia o prestígio na sociedade, e que perpetuava o modelo europeu de estruturas da língua.

Só a partir dos estudos lingüísticos, e suas demais áreas de aprendizagem, é que a idéia de língua, enquanto evento ou fenômeno dos falantes, tem instigado um ensino mais preocupado com o meio onde essa está presente e as diversas formas de linguagens são produzidas.

 

II) A modernidade de Monteiro Lobato

 

Uma das figuras mais importantes das letras nacionais foi o ilustre José Bento Monteiro Lobato ou, simplesmente, Monteiro Lobato, como é mais conhecido. Sua obra é considerada como um marco na Literatura Infantil Brasileira, esta pode ser dividida em antes e depois deste autor. Lobato foi um dos homens que mais contribuiu para a intelectualidade de sua época, sendo um ativista do progresso social no país e um grande articulador de idéias vanguardistas.

Observar Monteiro Lobato como um intelectual orgânico na sociedade em que viveu é enquadrá-lo na visão de Antonio Gramsci, de que o intelectual é alguém que "participa de uma concepção de mundo, possui uma linha consciente de conduta moral, e contribui assim para manter ou para modificar uma concepção do mundo, isto é, para promover novas maneiras de pensar" (GRAMSCI, 1985, pág. 08). Ora, Lobato vai mais além, pois sendo um elemento atuante em sua época, antecipa conceitos sobre arte e o uso da linguagem que só seriam tratados e, principalmente, aprofundados muito tempo depois de sua morte, como foi o caso dos estudos acerca da língua a partir da década de 70.

Na arte, Lobato acreditava que o maior compromisso desta era com o Ser humano, por isso toda arte é engajada. Também foi o primeiro escritor a pensar o Brasil a partir do patrimônio cultural já existente, inclusive tornando esta cultura, e suas respectivas formas de expressão, elemento estético-literário. Por isso, suas histórias estão repletas de personagens tipicamente nacionais como a Cuca, o Saci-pererê, o Curupira, Iara – mãe d'água, dentre outros. Tal recorrência aos elementos nacionais de nosso folclore só voltariam a acontecer, no âmbito literário, em 1918, com a publicação de Macunaíma, de Mário de Andrade.

Na linguagem, Monteiro Lobato foi pioneiro na utilização dos aspectos coloquiais da língua no discurso literário, como acontece, por exemplo, em várias passagens de seu livro Urupês (1918), obra inicialmente denominada de "Doze mortes trágicas", e que se tornou um marco na literatura brasileira. Também, foi o primeiro a lançar mão de elementos intertextuais que fazem com que a narrativa, de certa forma, sirva de link (hipertexto), ou seja, há histórias dentro da história, e personagens que nos remetem a outros discursos literários, a exemplo de Peter Pan, Hércules, Dom Quixote, dentre outros que visitam o universo do Sítio do Pica-pau Amarelo.

Acerca do ensino da língua portuguesa, em Emília no País da Gramática, paradidático infantil, Lobato além de fazer uma clara crítica ao ensino vigente dessa língua, também deixa evidente que há uma grande distância entre o ensino do português e o uso efetivo da língua. Observa que este ensino apenas se detém ao ato de "decorar uma porção de definições que ninguém entende" (LOBATO, 1994, pág. 07).

Ainda para o escritor, "os gramáticos mexem e remexem com as palavras da língua e estudam o comportamento delas, xingam-nas de nomes rebarbativos, mas não podem alterá-las. Quem altera as palavras, e as faz e desfaz, e esquece umas e inventa novas, é o dono da língua – o Povo" (idem). Como podemos verificar, Lobato deixa claro como é através do uso, e do processo interativo da comunicação, que os falantes, donos da língua, colaboram para a transformação e atualização desta última, afinal, no livro em análise, a língua é vista como um país e por isso tem aspectos diversificados de apresentação.

Observando a manifestação escrita da língua, o autor analisava como esta forma de representação distanciava-se da realidade de seus falantes:

 

Embora extremadamente nacionalistas e fundamente brasileiros de coração, nossos primeiros poetas conservaram-se português de espírito. A língua de seus versos, por exemplo, é rigorosamente portuguesa, sem nada da língua nova que se elaborava no seio do povo; as imagens empregadas, o estilo, o torneio de frases, tudo era português, embora fosse empregado para hostilizar as coisas lusitanas (LOBATO, 1965, pág. 14).

 

Também ironizava o uso excessivo da língua francesa no país o que, segundo o escritor, significava o "produto da podridão do chique" (LOBATO, 1957, pág. 131). Para ele, o que faltava para nós, brasileiros, era a coragem de sermos nós mesmos, "Ai! Quando nos virá a esplendida coragem de sermos nós mesmos, como o francês tem coragem de ser francês, e o inglês, e o alemão a de ser alemão? Quando? Quando?" (Ibidem, pág. 196).

Como elemento de grande importância para o processo criativo da obra literária, Lobato via no leitor o elo que une o autor ao texto e, por isso, para que este texto fizesse sentido era necessário que ali estivesse presente a realidade vivenciada pelo leitor, uma vez que este daria vida ao texto a partir dos conhecimentos de mundo já construídos. Por analogia, a vivência da língua também deveria fazer parte de um ensino de gramática contextualizado, pois todo falante já traz em si uma gramática internalizada que o auxilia na compreensão de todas as outras.

Não foi fortuitamente que Monteiro Lobato observou a língua, em Emília no País da Gramática, como um país composto por habitantes muito especiais (elementos que compõem as classes gramaticais); seu objetivo fulcral era apontar esta língua como algo tão imanente ao povo que seria sinônimo da própria identidade nacional. Por isso, dentro desta perspectiva, e a partir dos demais pontos levantados, é que consideramos Monteiro Lobato um espírito moderno, atuante e irrequieto, que trouxe para o discurso literário o que de fato era significativo para seu leitor, e para a sociedade o que era necessário para seu desenvolvimento intelectual.

 

III) Emília no País da Gramática

Editado em 1934, Emília no País da Gramática é um livro infantil que trabalha as estruturas da língua de forma clara, objetiva e contextualizada. A linguagem figurada presente em todo o livro, além de tornar o estudo dos elementos gramaticais acessível, dá um toque de magia e ficção a algo visto, geralmente, como um estudo enfadonho e longe de nossa realidade.

A personificação dos termos gramaticais presentes no discurso nos remete à duplicidade da obra entre ficção, com a representação da fala dos elementos da gramática, e o conteúdo escolar. Essa antropomorfização dos elementos da gramática faz com que se tenha uma noção menos abstrata e mais viva das definições gramaticais geralmente vistas nas escolas, e um maior processo de identificação com o idioma por parte dos discentes.

Nesse livro, as histórias do sítio incorporam preocupações didáticas que se transformam em pretexto para aulas de português. Une-se fantasia e mundo histórico através das falas:

  • da irreverente Emília (a boneca de pano) que diz tudo o que pensa;
  • do aristocrático Visconde de Sabugosa (o boneco de sabugo de milho) que critica o sábio que só acredita nos livros já escritos;
  • de Dona Benta (a dona da fazenda) que é o personagem adulto que aceita a imaginação criadora das crianças admitindo as novidades que vão modificando o mundo;
  • de Tia Anastácia (a cozinheira) que representa a tradição cultural africana em nosso país e que por isso é tida como ignorante, pela boneca Emília, simbolizando, tal discurso, a visão de época que se tinha acerca dos elementos da tradição dessa vertente cultural;
  • de Narizinho e Pedrinho (netos de Dona Benta) que são as crianças de ontem, hoje e amanhã, abertas a tudo, querendo ser felizes, confrontando suas experiências com o que os mais velhos dizem, mas sempre acreditando no futuro;
  • e, por fim, de Quindim (o rinoceronte domesticado) que leva o pessoal do sítio (Emília, Narizinho, Pedrinho e Visconde de Sabugosa) para o país da gramática, é ele quem tudo mostra e tudo explica.

Acredita-se que o motivo para que Lobato tenha escrito Emília no País da Gramática foi por "vingança", por ter sido reprovado, aos 14 anos de idade, na prova de português; por isso, suas críticas e ironias aos gramáticos difíceis e complicados.

No livro em análise, os gramáticos são vistos sempre como apegados às tradições e, portanto, como entrave para a língua evoluir e o estilo florescer. Diz Pedrinho rodeando a casa de Dona Etimologia espiando pelo buraco da fechadura:

 

"-Chi! Está "assim" de carrancas lá dentro. Impossível que ela nos receba hoje. Os carrancas estão de óculos na ponta do nariz e lápis na mão, tomando notas" (1960, p.88).

 

O escritor ainda ressalta o fato de que uma forma de se ensinar gramática é inventando aventuras espirituosas ou sensacionais que apresentem um conhecimento contextualizado para as crianças, uma vez que estas gostam de aprender, mas de aprender o que para elas faz sentido e tem um significado.

"Se meu professor, diz Pedrinho, ensinasse como a senhora, a tal gramática até virava brincadeira. Mas o homem obriga a gente a decorar uma porção de definições que ninguém entende. Ditongos, fonemas, gerúndio..." (1960,p.7).

 

Detendo-se mais estritamente às estruturas gramaticais, Monteiro Lobato vai discorrendo sobre cada elemento e função, observando estes a partir de seu uso pelos usuários da língua. Tal fato podemos notar nas seguintes passagens:

 

"Emília diz: gosto dos advérbios porque eles prestam enormes serviços a quem fala. Impossível a gente dizer uma coisa do modo exatinho como é preciso sem usar qualquer advérbio" (1960, p.72).

 

"- Eu uso aqui várias regras - continuou Dona Sintaxe, umas para a ordem Direta e outras para a Ordem Inversa. Na ordem Direta ponho sempre o sujeito antes do verbo; Os complementos logo depois das palavras que eles complementam; Os adjetivos logo depois dos substantivos que eles modificam; as palavrinhas de ligação entre os termos que elas ligam. Fica tudo uma beleza, de tão claro e simples. Mas há também a Ordem Inversa, na qual estas regras não são seguidas" (1960, p.122).

 

Buscando por um estilo pessoal e sem vícios, Lobato se entrega à história das palavras. Não é por acaso que as crianças do sítio visitam com enorme interesse a Dona Etimologia, depois de encontrar palavras iguais na escrita e com significados diferentes, e concluem que o povo muda a língua com seus erros, ou seja, o erro, em determinado momento, passa a ser considerado uso.

 

Emília corre à procura dos companheiros, encontra-os na praça da analogia, rodeados de várias palavras. O visconde conversava com duas absolutamente iguais na forma, embora de sentido diferente – as palavras PENA (dó) e PENA (de escrever).

...

- nós, palavras, não temos a liberdade de nos mudar a nós mesmas – respondeu PENA (dó)...

 

Apesar de "se arrepiar ao ouvir os neologismos pela primeira vez", Lobato ratifica a importância destes para a ampliação do inventário lingüístico de nosso idioma. Observe a conversa entre Emília e Dona Sintaxe nos vícios da linguagem:

 

"Emilia passou ao décimo cubículo, onde estava preso um moço muito pernóstico.

- E este aqui, tão chique? Perguntou:

- Este é o neologismo. Sua mania é fazer as pessoas usarem expressões novas demais, e que pouca gente entende.

Emília, que era grande amiga de neologismos, protestou.

- Está aí uma nova coisa com o qual não concordo. Se numa língua não houver neologismos, essa língua não aumenta" (1960, p.134).

(...)

"- Não mexa, Emília! -  gritou Narizinho. Não mexa na língua que vovó fica danada...

- Mexo e remexo - replicou a boneca batendo o pezinho - e foi e abriu a porta e soltou o NEOLOGISMO, dizendo: vá passear entre os vivos e forme quantas palavras novas quiser" (1960, p.135).

 

Acerca do "Provicianismo", Lobato percebe este como elemento da história da língua e como linguagem ainda presente, "solta", por algumas regiões do país. Verifique a conversa entre Emília e Dona Sintaxe.

 

"E este pai da vida, que aqui está de cócoras? Perguntou Emília.

Este é o Provincianismo, que faz muita gente usar termos só conhecidos em certas partes do país, ou falar como só se fala em certos lugares. Quem diz NAVIU, MENINO, MECÊ, NHÔ, etc. Está cometendo Provincianismo.

Emília não achou que fosse caso de conservar na cadeia o pobre matuto. Alegou que ele também estava trabalhando na evolução da língua e soltou-o.

- Vá passear. Seo Jeca..." (1960, p.135).

 

Em relação a sonorização de algumas palavras, Emília faz o seguinte comentário quando deseja ir visitar Dona Prosódia:

 

"-Prefiro saber como é que se pronuncia uma palavra a saber onde, como e quando ela apareceu. Sou "prática..."(1960, p.86)".

 

Sobre a acentuação das palavras, antecipando a tão esperada reforma ortográfica, Emília concorda com a ortografia simplificada, condenando, por exemplo, o uso do trema e do acento grave, assim como acentuações absolutamente injustificáveis.

 

"- Não quero! Não admito isso. É besteira da grossa. Eu fiz a reforma ortográfica para simplificar a coisa, e eles com os tais acentos estão complicando tudo. Não quero, não quero e não quero" (1960, p.170) .

 

Enfim, como podemos observar, Lobato usa a atualidade das ponderações acerca da relação linguagem/mundo. Ele luta para que esta linguagem seja simples e livre de qualquer resquícios da "gramatiquice caturra". Por isso, no sítio, e especificamente em Emília no País da Gramática, seus personagens vivem a língua: brincam de cortar as palavras arrancando-lhes a desinência para derivar outras, simplificam o uso das estruturas lingüísticas tornando-as cada vez mais próximas do uso diário, observam a escrita da palavra propondo uma ortografia mais clara e objetiva, etc. Para o escritor, a relação do usuário com a língua deveria ser um momento de descontração, de brincadeira. Um grande passeio por um país nem tanto desconhecido, mas que traz peculiaridades marcantes em seus diversos recônditos. Por isso, podemos afirmar que a contribuição de Lobato para a nova visão do ensino de português foi extremamente original, uma vez que deu início a um tema que só foi focado vários anos depois de sua morte.

 

 

Referências Bibliográficas

 

BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37ª edição. rev. e amp. Rio de Janeiro: Lucerna, 2000.

 

GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. 5ªedição. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1985.

 

HOLANDA, Aurélio Buarque de. Novo dicionário da Língua Portuguesa. 1ª edição. 10ª impressão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, s/d, pág. 697.

 

LOBATO, Monteiro. Disponível em: www.Unicamp.br\ iel\ memórias \ensaios. Página resgatada em 31. 10. 07.

 

LOBATO, Monteiro. Emília no país da Gramática. 11ª edição. São Paulo: Editora Brasiliense Ltda., 1960.

 

________________. Críticas e outras notas. São Paulo: Editora Brasiliense Ltda., 1965.

 

________________. Emília no país da gramática. 39ª edição. São Paulo: Editora Brasiliense Ltda., 1994.

 

________________. Idéias de Jeca Tatu. São Paulo: Editora Brasiliense Ltda., 1957.

 

________________. Urupês. São Paulo: Editora brasiliense Ltda., 1955.

 

 

MOREIRA, José Carlos Barbosa. Monteiro Lobato. Textos escolhidos. 3ª edição. Rio de Janeiro: Livraria Agir, 1972.

 

PERINI, Mário. Gramática Descritiva do Português. São Paulo: Ática, 1995.

 

POSSENTI, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola? Campinas, SP: Mercado de letras, 1996.

 

ROCHA, Ruth. Monteiro Lobato. 2ª edição. São Paulo: Nova Cultural, 1988.

 

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