Minha Madrinha Margot

Publicado em: 08/06/2009 | Comentário: 0 | Acessos: 140

Minha madrinha era uma figura incrível: aos 89 anos mantinha um vigor e uma alegria latente. Tocava seu piano com a mesma intensidade e paixão de quando iniciara sua carreira. Naquele dia, ela me acolheu sem perguntas. Seu carinho para comigo foi imediato. Senti nela um amor maternal há muito adormecido e agora correspondido. Eu já sofrera tanto que nem me lembrava mais como era amar e, sobretudo, como ser amada. Tínhamos tanto que conversar, pois foram tantos anos de separação...

 Margot fora uma criança de excepcional talento. Aos nove anos já excursionava pelo mundo, levando a todos a beleza da sua música e da sua graciosidade de menina. Sua carreira fora repleta de sucessos e prêmios. Suas platéias era ecléticas: tocara para imensas multidões em parques ao ar livre e também para presidentes, reis e celebridades de todos os continentes. Todos queriam ter a honra de ouvir seus recitais e de tê-la como amiga e convidada. Eram tantos os seus compromissos que quase não tinha tempo para si mesma. Quando não estava ensaiando e dando concertos, estava rodeada de malas entre um avião e outro, entre uma estação de trem e outra, entre hotéis e continentes. Mas, ela nunca se esquecera de mim. Sempre recebia sues cartões postais e presentes dos lugares mais diversos do mundo. E, nas poucas vezes, que estava na cidade, pedia que eu a acompanhasse. Íamos a jantares em enormes mansões, vernissages e cocktais e muitas festas. Eu permanecia por horas a fio ouvindo seus ensaios e me embriagava com as notas que saiam do seu piano. Era um mundo de fantasia para uma criança pobre como eu. Era muito triste quando ela partia, mas depois eu ficava durante meses contando aos outros as estórias que tínhamos vivido.

 Ela não foi minha madrinha por mero acaso. Meus pais tomavam conta de uma das suas propriedades no campo. Era sua casa favorita e era para lá que fugia em seus raros dias de lazer. E, sendo bastante só, afeiçoou-se muito aos meus pais e fez com que prometessem que lhe dariam seu primeiro filho para  batizar. Então, quando nasci, eles cumpriram sua promessa e mais, me deram também seu nome: Margot. Ela me tratava como à uma pequena princesa com roupas, brinquedos e presentes inimagináveis para as nossas modestas posses. Mas, sua vida era muito agitada e pouco a pouco, acabamos por nos afastar. Ela vendeu a casa por não poder desfrutar dela como gostaria e, nós acabamos nos mudando para a cidade. O contato ficou cada vez mais escasso, porém ela nunca esquecia de me escrever e me enviar presentes sempre que podia. Cresci e sai da casa dos meus pais em busca de outros sonhos e de outras vidas...

 Parti sem rumo certo, sabia apenas que queria ser atriz. Era muito ingênua e conhecia muito pouco do mundo lá fora. Achei que tudo seria fácil e que poderia confiar nas pessoas. Como estava enganada, mas isso só o tempo iria me dizer. Durante o dia, eu trabalhava numa loja de flores e à noite, freqüentava o curso de teatro. Lá encontrei pessoas que me mostraram o lado cruel da carreira que tinha escolhido. Era preciso não só muito empenho, mas também uma boa dose de sorte para se conseguir bons papéis. Recebi algumas parcas ofertas para papéis menores e pontas, porém não era nada que pudesse mostrar meu verdadeiro talento. Sempre tive muita certeza do que queria e lutaria muito para alcançar meus objetivos ainda que eles estivessem muito longes de ser atingidos.

Certa vez, uma das atrizes principais de nossa companhia quebrou a perna ao descer do palco durante um dos ensaios e ficaria afastada por muitas semanas. Então, fui convidada para fazer um teste e acabei assumindo seu lugar. A peça estreou com grande sucesso e por isso recebemos muitos convites para excursionarmos. Abandonei meu emprego na floricultura e dediquei-me inteiramente ao teatro. Viajávamos por todo o país éramos sempre muito bem recebidos em todos os lugares em que passávamos. Foi um tempo muito feliz e de muito trabalho, porém, confesso que também me diverti muito nessa ocasião. Nesse período da minha vida pouco soube da minha madrinha, as únicas notícias que tinha suas eram as reportagens de jornais e revistas, todos sempre enaltecendo seu grande dom musical.

Voltamos à nossa cidade depois de quase um ano excursionando. Montamos uma outra peça que teve um sucesso ainda maior. Foram vários anos de um espetáculo atrás do outro, de trabalho exaustivo, viagens, malas, hotéis, entrevistas e muito, muito cansaço. Eu atingira o topo muito rapidamente, mas me esquecera  de cuidar da minha própria saúde, pois não havia tempo para isso em minha vida. Em nossa última excursão, fazia muito frio e tive uma tosse incessante. A princípio, pensei que fosse apenas uma gripe forte, mas a tosse não desaparecia. Tomei várias medicações, mas nenhuma surtia efeito. Após muita relutância, decidi procurar um médico, pois aquela tosse já estava atrapalhando e muito meu desempenho no palco, pois não consegui mais dizer minhas linhas sem tossir incessantemente. Recebi um diagnóstico cruel: tuberculose. Eu  teria que me afastar dos palcos para me tratar e conseguir uma cura efetiva. O médico me disse que seria necessário muito repouso e ar puro do campo. Apesar da minha tristeza profunda, procurei seguir seus conselhos, pois queria e muito voltar logo ao meu amado trabalho. Achei que estaria curada em poucas semanas, mas a estória não foi bem assim...

Um mês inteiro se passara e tudo permanecia igual. Era preciso que eu reassumisse a direção da companhia, mas eu não tinha forças, pois continuava muito doente. Nossos espetáculos tinham cada vez menos público e nossas reservas de dinheiro estavam se esgotando. Eu tentei voltar, mas não consegui, pois o esforço era demais para meu corpo cansado. Por mais que tentasse levantar o ânimo dos meus amigos, eu nada conseguia. E, gradualmente, vi nossa decadência. Os convites foram diminuindo e logo éramos uma companhia errante. Sem patrocínio tínhamos muito pouco o que fazer. Essa situação se arrastou por vários meses e pouco a pouco, vi meus amigos me abandonarem, precisavam de dinheiro para sobreviver. Eu me vi só e doente e vivendo num lugar miserável e velho. Meu orgulho era grande demais para que eu pedisse ajuda para minha madrinha, pois meus pais já tinham morrido e achei que conseguiria me levantar sozinha. Estava enganada outra vez...Voltei a vender flores, porém, desta vez na rua. Sofri muito nesse período, mas o pior ainda estava por vir...

Assim passou-se muito tempo. O velho edifício onde eu morava incendiou-se num dia cinzento de inverno. Fazia muito frio e na tentativa de aquecer-se alguém acendera uma fogueira e dormira. Durante a noite o fogo espalhou-se rapidamente e logo tomou conta de todo o prédio. Enorme labaredas queimaram tudo que encontraram à sua frente. Fui acordada pela enorme quantidade de fumaça que começava a me sufocar. A única coisa que fiz foi correr em direção à rua. Encontrei todos os moradores assustados e confusos com toda a situação. Em poucas horas, o local estava todo destruído e só restavam cinzas. Os bombeiros nada puderem fazer. Não houve mortes, mas o dano era grande, pois todos éramos pobres e tínhamos perdido o pouco que a vida nos dera. Sentei-me na calçada e olhei para a destruição. Meu pouco dinheiro fora todo queimado, assim como minhas roupas e lembranças do passado. Achei que aquela seria a hora de reencontrar-me com essas lembranças e fui atrás da minha madrinha, pois eu não tinha ninguém para recorrer.

Foi difícil encontrar a casa, mas lembrava-me que era enorme e numa das mais elegantes avenidas da cidade. Andei bastante e depois de muito indagar, consegui chegar ao meu destino. Toquei a campainha e uma mulher impecavelmente vestida abriu a porta. Ela assustou-se ao me ver com todas aquelas roupas velhas e sujas de fuligem. Ela me disse que esperasse ali e que logo me traria um prato de comida. Respondi-lhe que não queria comida e que estava ali para ver a dona da casa. A criada riu e disse-me que deveria haver algum engano, pois a Sra. Margot não se relacionava com mendigos. A moça ia fechar a porta, quando insisti num tom de voz mais alto. Minha madrinha apareceu para ver o que estava se passando na sua porta. Ela ficou parada me olhando e pediu para que a criada se retirasse. Seu olhar buscava reconhecer alguém embaixo daqueles trapos velhos. Não tive coragem de enfrentar seu olhos. Apenas lhe disse quem era e que estava precisando muito de um lar. Ela parecia não acreditar no que via. Onde estaria sua princesinha ? Ela pegou na minha mão e mandou que eu entrasse. Segui atrás dela. Era uma casa belíssima decorada com muitas coisas das suas andanças pelo mundo. Ela levou-me para um dos muitos quartos e disse que voltaria logo com roupas e uma refeição.

 Vi-me sozinha naquele lugar imenso. Despi-me e fui para a banheira. Há muito tempo eu não sabia o que era tomar um banho decente. Deixei-me cair na água morna e adormeci. Acordei, assustada com alguém me dizendo que eu poderia me afogar. Era Margot. Aos 89 anos ainda estava lúcida e muito viva, e confesso que naquele momento senti um pouco de inveja por isso. Queria um pouco dessa vida para mim, pois me sentia quase morta.  Coloquei o roupão e fui para o quarto. Uma bela refeição me aguardava e um lindo vestido estava estendido sobre a cama. Vesti-me  comi avidamente, pois nem eu sabia que estava com tanta fome. Depois disso, sentei-me na cama ao lado de minha madrinha e contei-lhe toda a minha vida. Ela ouvia serenamente meu relato, apenas assentido com a cabeça. Disse-me que estava feliz com minha presença e me convidou pra morar com ela. A princípio relutei em aceitar sua oferta, mas depois aceitei, pois eu precisava desesperadamente do seu amor e carinho. E foi lá que me senti criança novamente...

 Foram anos bons e acho que voltei a ser feliz. Mas, eu precisava retomar minha vida. Queria atuar e sentir novamente o cheiro dos palcos, entretanto, isso não foi possível, pois minha doença se agravara naqueles dias frios que eu vendia flores e fumaça pioras as coisas ainda mais. Os médicos disseram que eu jamais voltaria a ser como antes e eu apenas deixei o tempo correr...

 Minha madrinha continuou com seus concertos e morreu dormindo aos 95 anos. Foi ela que cuidou de mim até o fim, quando eu deveria ter cuidado dela. Margot deixou-me a maior parte dos seus bens, pois não tinha mais ninguém. Fiquei rica, é bem verdade, mas minha alma era pobre e triste, pois meu bem mais valioso me fora roubado e eu jamais voltaria a subir num palco...

(Artigonal SC #960036)

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    SUCESSO

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    ilusão

    Antonio Paiva Rodrigues

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