Nhamundá
José Eduardo o Amaral
O Dedé morava naquelas “grimpas” já fazia muitos anos, tinha até perdido a conta. Ele mais a mulher velha e desdentada, que aparentava uns 30 anos mais do que tinha. Mas fazer o quê? Mulher por ali nem por encomenda, inda mais que prestasse. Pelo menos a dona Marcelina fazia de tudo e ainda servia de mulher. Dos quinze filhos paridos, oito eram vivos. O mais velho com 13 anos, de nome Nico. Dona Marcelina tinha até uma criação de mutum e jacamim, que botavam uns ovos de vez em quando.
As armas eram duas, uma espingarda 16, com a telha amarrada com arame, que quase não era usada, porque faltava cartucho direto, e uma ronqueira peruana, que bem embuchada com pólvora preta e uns caroços graúdos de chumbo, ia buscar bicho longe demais. A ronqueira, dizia o Dedé, já havia matado para mais de mil onças, e ele contava só as pintadas, “modequê as ôtra num tinha serventia”. Mas além dos gatos de todo tipo, ele também caçava qualquer bicho que servisse para comer. Era porco, era paca, era cutia, era jacaretinga, era macaco prego, cuchiú e barrigudo, era tudo quanto é bicho de pena. Mas anta ele só matava quando o tempo estava seco, e a distância do rancho não era uma enormidade, pois “carregá aquele bicho, é muito dificultoso”.
Numa noite quase sem vento e com os carapanãs atacando com vontade, dona Marcelina ouviu uma bulha descuidada debaixo do pé de maga, ali mesmo no quintal do rancho, construído em cima de uns troncos de aquariquara, distanciado uns dois metros do chão, tal qual uma palafita, pra evitar as cheias do rio Nhamundá. Era um barulho desconforme, de um bicho mastigando sem cuidado os caroços de manga e dando umas fungadas de vez em quando. Já de muito tempo o Dedé não dormia na mesma rede de dona Marcelina, pois o espinhaço doía demais e ele tinha que estar se revirando toda hora. Mesma rede só na vadiação. A mulher boa de ouvido, cutucou o companheiro com a ponta do pé, e disse: “Dedé ômi, tem um bicho azogano no limpo”.
O “véio” Dedé, caçador acostumado com as bulhas da mata e dos bichos, atinou os ouvidos e assuntou “é anta comeno os caroço de fruta”. Levantou sem barulho e pegou a ronqueira na parede. Forrou o fundo do cano com dois dedos deitados de pólvora preta, socou a bucha de restolho de palha de milho, bem socadinha. Escorreu no cano envenenado o restinho de bagos de chumbo que tinha, mais uns caroços de bacaba e tampou tudo com mais palha de milho empurradinha em cima. Escorvou a danada com uma espoleta pica-pau das boas e pegou a lanterninha, que um dia foi cromada, ou aniquilada como ele dizia. Desencostou a porta do rancho, onde estava escrito “Jesuis mideu”, e com a lanterninha fraquinha, que nem olho de jacaré, tentou alumiar a anta. Mas a aniquilada estava necessitada de pilha do gato, e a luzinha estava quase morta. Alumia ali, alumia daqui, e nada de enxergar o bicho direito. Só dava pra ver o vulto preto debaixo da mangueira. E ele assuntava, “de que lado deve de ficá a cabeça da bruita”? E então resolveu aventurar o tiro do lado que ele achava que era a pá do jegue. Arrastou o pinguelo da peruana e o pipoco alumiou o rancho. A criançada acordou assustada com o barulhão e a fumaceira. A anta “ajumentou” que nem o capeta doido, sem rumo certo, e foi levando tudo nos peitos. Se enfiou embaixo do tapiri, chega balançou o rancho, destroçou o chiqueiro da jabutizada, e não sentindo progresso na investida, aprumou pro lado de trás. Dedé já de terçado na mão, mais amolado que navalha de barbeiro, se atirou igual caipora no lombo do animal “azuretado”, e meteu o terçado no espinhaço da malideta, mas na atrapalhação da afobação, vibrou o lombo do terçado em vez do fio.
A anta pegou rumo e passou direto no cercado de dona Marcelina, espalhando a criação de jacamim e mutum-pinima prá todo lado, deixando o cavaleiro no chão, com um pau da cerca varado no salame da canela, e sumiu no mundo rumo do rio. Na carreira doida e sem patrão o animal se atirou no rio, caindo direto sobre a canoa do Dedé, rachando a montaria ao meio.
A meninada gritava e chorava na escuridão, até que a mãe acendesse a lamparina, e fosse em socorro do Dedé que gemia de dor, “mas sem água nos óio”, estatelado no meio do limpo, com um pau atravessado na batata da perna. Houve precisão de dona Marcelina enrolar uns panos molhados de óleo de copaíba na perna ferida, e o Dedé ainda tomou uma dose de Específico Pessoa, para matar o veneno da ferida. Ajudado pela mulher e o filho mais velho, Dedé escalou a escadinha do rancho e se deitou na rede. “Mais que atrapaiação minino”, exclamou para o filho.
O resultado da caçada foi a perda da criação de jacamim e mutum, que ganharam o mundo, mesmo com as asas podadas, pra servir de comida de onça. Dos 8 jabutis o Nico só encontrou um, que tentava se meter embaixo dum pau caído. A canoa não teve solução, a anta rachou a montaria no meio, e uma banda, mais os remos sumiram. A linhada 120 de pescar pirarara também se perdeu. Foi um prejuízo danado. Mas o Dedé prometeu de achar aquele jegue e se vingar da destruição, “ vô pegá aquele demôinho e fazê ele todim de carne sargada”.
Levou uns 6 meses pra ficar bom da perna, e mesmo assim o salame ficou murcho, e a perna meio sem força. Nesse tempo, quem provia o rancho de bóia era o Nico, ajudado pelo Tinzim, que de pequeno mais atrapalhava que ajudava. O Nhamundá alagou tudo, como todo ano o peixe rareou, a roça ficou embaixo d`água. Era um tal de comer cutia pega na arapuca do Nico, que era coisa séria. Comeram até a jibóia que ficava no forro do rancho, pra pegar os ratos. A sorte é que havia muito açaí na mata alagada, e o Nico trepava no açaizeiro, que nem macaco cuamba. Cortava o cacho e jogava pro Tinzim, e a família do Dedé e dona Marcelina ia vivendo, com pouca farinha, mas ia vivendo.
O ciclo das águas na Amazônia toma forma de vazante a partir de maio, os peixes voltam aos poucos a aparecer. A roça de macaxeira e milho, cana e batata doce pode ser replantada, e nas lagoas deixadas no meio da mata pelo Nhamundá domado, há todo tipo de peixe. Fácil de pegar, até com a mão. A fartura estava de volta e a perna do Dedé tinha sarado. Mas ele não esquecia a vingança. Tratou de fazer outra montaria, demorou mas ficou melhor que a primeira. Mais leve e mais ligeira. Ele e o Nico puderam então descer o rio até no flutuante do Agenor, 2 dias de viagem, pra trocar os últimos 4 couros de pintada e 2 de gato maracajá, por pólvora preta, chumbo graúdo, querosene, sal, linha de pesca, espoleta pica-pau e outras necessidades. No rancho tomando conta das crianças, ficou dona Marcelina, ainda desolada pela perda da criação. No flutuante Dedé narrou o fato acontecido ao Agenor e a um regatão que lá se encontrava, bebericando uma cachacinha. Foi quando o Agenor disse: “Sô Dedé, inda onti eu vi com esses óio que a terra há de cumê uma monstra anta rusía, com uma moita de bacaba nascendo nos quarto”.
Devia ser a anta do Dedé. Pois não?
(Artigonal SC #948636)
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