O Choro Dos Inocentes

Publicado em: 06/08/2008 | Comentário: 0 | Acessos: 244

O rádio ligado ecoa "Como é grande o meu amor por você", de Roberto Carlos, enquanto o carro segue pela via, conduzido por uma balzaquiana de cor amorenada, cujo cansaço se evidencia pelas grandes olheiras. No banco detrás, em cima da cadeirinha, um garotinho de uns dois meses dorme em paz... Graças a Deus! - pensa a mãe, afinal, ele havia passado mal à noite anterior no hospital, com febre batendo nos quarenta graus, vítima de uma virose qualquer, daquelas que vem e vão sem qualquer explicação.

Aproxima-se o farol e o carro pára aos poucos. A rua está deserta! Nenhuma alma penada para contar histórias, trocar receitas ou informar as últimas do além. Só breu! O céu, de um negrume só visto em dias de temporal, oculta a lua e as estrelas. Reina o breu! Ela olha uma ou duas vezes para o relógio, impacienta-se, queria estar em casa, ao lado do esposo, deitada, descansando... Estava ausente de casa há algumas horas!

O sinal continua fechado! Irrequieta, pensa avançá-lo, ninguém iria vê-la e, mesmo se a visse, pagaria apenas uma leve multa, dessas que qualquer "poupancinha" é capaz de quitar; todavia, a consciência - o ser que vive em nós como se fôssemos a sua morada eterna, a proíbe, afinal, além dela, o carro levava também o fruto de seu amor... E se, por acaso, algo lhe acontece, resquício de um suposto acidente? Jamais se perdoaria! Melhor esperar! E assim faz!Novamente, olha o relógio, passam das vinte e duas horas.

O sinal abre. E ela avança, sua casa está a algumas quadras. Ao fazer a curva, um novo sinaleiro se fecha. O carro novamente pára! Um jovem passa à sua frente e algo lhe chama a atenção àquela figura! Ele é magro, meio cadavérico, com as calças caídas mostrando a cueca, e um boné vermelho sangue contrastando a luzerna intermitente que se reflete de um longo colar em seu pescoço. Por alguns instantes, perde-se a analisá-lo, é neste momento que um frio lhe corre a espinha. O sinal permanece fechado! A emissora de rádio, a pedido de outra ouvinte, por incrível que pareça, repete a mesma canção de outrora. De relance, ela vê o filho... Está tudo bem! Ele dorme como um querubim! Ao retornar a atenção à figura, não mais o encontra.

_VÁ LOGO! VÁÁÁÁÁ!!!!!! - A porta do passageiro se abre com violência! Lá está o rapaz de há pouco, sob o efeito de algum entorpecente, com uma pistola nas mãos, berrando para que saia logo dali. VÁ LOGO! SE NÃO QUER QUE EU LHE META UMA BALA NA CABEÇA!!! NÃO ESTÁ ME OUVINDO, SUA... SUA...??? - pergunta, com a arma rente à cabeça da mulher, que, alucinada pelo medo, troca o acelerador pela embreagem e afoga o carro. VAMOS!!! SAIA JÁ DAQUI!!!

A algazarra acorda a criança, que atormentada pela situação, emite um choro fino, estridente, de alguém que está em desespero, prestes a ser alçado à cova do esquecimento. Acometido com a presença da criança - algo que ele não havia se atinado ao invadir o veículo, volta-se à mulher com a saliva descendo pela boca:

_DESGRAÇA! Com isso eu não contava - sussurra para si mesmo. CALE A BOCA DESSE INFELIZ, SE NÃO QUISER QUE EU META UMA BALA NAS FUÇAS DELE! VAMOS, SUA... VOCÊ... ELES, CAMBADA! CALE A BOCA DESSA CRIATURA! JÁÁÁÁÁ!!!!!!

Ela tenta, sem sucesso, acalmar o filho, enquanto religa o carro.

_Fi-fi-lho... João... é...é...a mamãe...calma fi-filho!"Nana neném, que a cuca vem pegar..." - cantarola, numa voz quase inaudível; pensa tranqüilizá-lo, evitando que ambos acabem vítimas do infeliz e "horror urbano" nas páginas policiais dos jornais do dia seguinte. Percebendo ser debalde, ela se volta para o bandido e implora:

_Deixe-nos, mo-ço, por favor! Leve o carro, a bolsa, esta pulseira... não é de ouro, deve valer alguma coisa, mas nos... nos...nos deixe viver - começa a chorar! Deixe-nos, por favor!

_CALE ESSA BOCA, SUA ORDINÁRIA! - Acerta-lhe o queixo com as costas da pistola... O sangue esguicha, molhando o vestido cinza da mulher. NÃO QUERO CARRO ALGUM! SE EU FICÁ COM ELE, OS HOMI ME CATA LOGO... PENSA QUE SÔ TONTO? QUERO GRANA! CADÊ? FALE, LOGO!!!

_De-baixo do banco está minha bolsa, pegue-a e se vá... POR FAVOR! - Suplica ao pressentir que seu filho não se calaria.

_SÓ ESSA MISÉRIA??? VAMOS PRO BANCO... VOU LEVAR TUDO!!!
Mesmo com a arma apontada à cabeça, ela prossegue o trajeto, buscando, angustiada, um caixa eletrônico, antes que uma desgraça de fato lhes aconteça. Encolerizado com o choro da criança, o rapaz, possuído por um surto descomunal de revide - só assemelhado à possessão demoníaca, desfere uma coronhada contra a cabeça do bebê, que desfalece após convulsionar, levando a mãe a abandonar o volante para atacá-lo. Dono de uma força deveras maior, o rapaz a agarra pelo pescoço e a comprime contra a porta do motorista, enquanto a outra mão, com a pistola, encontra a cabeça da criança.

_VOCÊ NÃO VALE NADA, A ÚNICA COISA QUE LHE SOBRARÁ SERÃO OS MIOLOS DESSA PORCARIA DE GENTE... - sentencia.

Suas pretensões são alteradas pelo destino, quando o carro invade a calçada e colide contra um muro. Sem cinto, o infeliz é atirado contra o vidro, que se estilhaça com a pancada, enquanto a arma cai do lado de fora e dispara sem rumo.

Após segundos desacordada, ela volta a si, empurra o indivíduo para o lado e salta para o banco de trás, na falsa esperança de que João terá um final diferente do que já lhe reservara o "Senhor da Vida".

Com ele sufocado pelo próprio vômito em mãos, ela chora, assim como fazem as personagens de "El Amor y la Muerte" - obra do espanhol Francisco Goya, de cujas faces se emanam o "fervor" apocalíptico, o mesmo vendido aos milhões, atualmente, pelas bocas pentecostais. Seus lábios arroxeados e olhos revirados dizem tudo! João já não mais faz parte desse mundo.

"Me desespero a procurar /Alguma forma de lhe falar..." - continua a canção de Roberto Carlos, agora na voz da mãe em prantos. "Como é grande o meu amor por você..."

(Artigonal SC #512241)

Avalie este artigo
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
  • 1 Voto(s)
    Feedback
    RSS
    Imprimir
    Email
    Re-Publicar

    Fonte do artigo: http://www.artigonal.com/ficcao-artigos/o-choro-dos-inocentes-512241.html

    Palavras-chave do artigo:

    seqüestro

    ,

    assassino

    ,

    desespero

    A lei seca estabelece limites de alcoolemia desproporcionais, punições desproporcionais e é inconstitucional. Mais que isso, prejudica a própria redução de acidentes causados pelo álcool, ao impedir que uma lei mais racional seja efetivamente cumprida.

    Por: Rodrigo Tassara l Direito > Legislação l 28/09/2009 l Acessos: 263

    Em que relevo poderemos colocar, nas linhas que se seguem, a Poesia Épica – em especial Homero e sua Odisséia? Que valores nos são legados pelo legendário poeta e por que ainda se nos mostram tão fecundas suas fantásticas narrações? É possível, por assim dizer, em nossa modernidade, um diálogo com este poema – já que dele nos dista esta barreira indelével de mais de duas dezenas de séculos? É o que tentamos examinar neste artigo.

    Por: José Luiz Araujo Dorea Junior l Literatura > Ficção l 05/03/2010 l Acessos: 10

    Se o mestre é, por excelência, o elemento chave da formação, como este se forma? Tal questão é tratada, sob a aguda crítica de Nietzsche à metafísica tradicional, por um viés singular, na obra "Assim Falava Zaratustra".

    Por: José Luiz Araujo Dorea Junior l Literatura > Ficção l 05/03/2010 l Acessos: 14

    Costuma-se, de maneira um tanto reducionista, classificar esta obra como uma determinada leitura ou projeção do Brasil, que traduziria os debates de uma época em representação da perspectiva cultural e sociológica de nosso país . Tentaremos, não uma refutação, porém uma perspectiva bastante diversa desta última, enveredando por um outro viés cuja leitura acreditamos o romance poder suscitar. Abordaremos a trajetória de Policarpo Quaresma, em suas três Partes, como "atos de uma tragédia".

    Por: José Luiz Araujo Dorea Junior l Literatura > Ficção l 05/03/2010 l Acessos: 23

    Este artigo trata do romance "Frankenstein" de Mary Shelley segundo a questão ontológica e os problemas decorrentes. Fazendo um percurso na tradição filosófica, são delineadas questões intrigantes suscitadas pela obra, que se mostra única em seu tempo.

    Por: José Luiz Araujo Dorea Junior l Literatura > Ficção l 05/03/2010 l Acessos: 13

    quatro crianças perdidas numa floresta mal assombrada

    Por: renilda de souza kloh l Literatura > Ficção l 03/03/2010 l Acessos: 9
    Miriam de sales oliveira da rocha

    O lobisomem está na moda;não só ele,seus arqui-inimigos,os vampiros,também. Desde Plínio,o Antigo,Heródoto,Plauto,Varrão,Santo Agostinho,Ovídio e outros menos votados que já se falava em lobisomem. Remonta às lupercais,festas realizadas em Roma,no mês de fevereiro,oriundas da Grécia,em que se celebravam os Lupercii Julii,tendo Marco Antonio como Sumo –Sacerdote. Ele mesmo, o de Cleópatra. Leia mais...

    Por: Miriam de sales oliveira da rocha l Literatura > Ficção l 01/03/2010 l Acessos: 50
    Germano Gonçalves Arrudas

    2012 O FIM DE UM COMEÇO ASSUSTADOR. Por: Germano Gonçalves. © Há quando criança ouvia falar dos anos dois mil, coisas estranhar aconteceria; os automóveis voariam, as pessoas usariam controles para acionar a televisão, ouvir músicas, os carros se locomoveriam sozinhas naves espaciais como transporte, chips colocado em pessoas, e que o mundo acabaria assustador não! E eu vivia na minha periferia, com meus carrinhos de rolimã, brinquedos de madeiras feitos pelo meu pai brincavam na rua e em terren

    Por: Germano Gonçalves Arrudas l Literatura > Ficção l 24/02/2010 l Acessos: 15
    Ronie Von Rosa Martins

    Preso pela trajetória literária de Melville, o texto narra a vida de Moby e seus enfrentamentos frente a um mundo que o persegue e o reduz.

    Por: Ronie Von Rosa Martins l Literatura > Ficção l 15/02/2010 l Acessos: 10
    CARLOS ROGÉRIO LIMA DA MOTA

    "Abismado com o alvoroço, encostei-me ao quadro negro e, de protagonista, fui alçado à condição de mero figurante..."

    Por: CARLOS ROGÉRIO LIMA DA MOTA l Notícias & Sociedade > Cotidiano l 08/11/2009 l Acessos: 62
    CARLOS ROGÉRIO LIMA DA MOTA

    "Não há quem não repare a beleza surreal de Venusa, afinal, seus olhos azuis contrastam com o cabelo louro e encaracolado, dando a sensação de que a existência humana é tão fértil e sagaz como a eternidade".

    Por: CARLOS ROGÉRIO LIMA DA MOTA l Literatura > Ficção l 09/09/2009 l Acessos: 58
    CARLOS ROGÉRIO LIMA DA MOTA

    "Joãozinho gritava, caído no chão, ao redor de uma senhora de meia idade. Agora compreendia sua atitude de preferir o dinheiro ao invés da comida. Aquela vozinha de choro, enfim, revelava seu segredo..."

    Por: CARLOS ROGÉRIO LIMA DA MOTA l Literatura > Crônicas l 30/08/2009 l Acessos: 63
    CARLOS ROGÉRIO LIMA DA MOTA

    "...multidões são levadas a acreditarem que a fé – o sentimento irradiante que abrilhanta a alma humana - pode e deve ser vendida como um produto, na forma de milagres - alguns tão críveis, que de milagres mesmos não apresentam qualquer resquício. Infelizmente, diversas denominações associam as bênçãos divinas à doação de parte do salário, pregando, inclusive, que aqueles que se “negam a abrir o bolso a Deus” serão condenados à pobreza terrena e ao sofrimento eterno..."

    Por: CARLOS ROGÉRIO LIMA DA MOTA l Religião & Esoterismo > Religião l 07/08/2009 l Acessos: 63
    CARLOS ROGÉRIO LIMA DA MOTA

    "Ficamos indignados com o uso indevido do dinheiro público, que beneficia poucos em detrimento dos milhões de contribuintes, mas o que causa espanto é que o uso desse mesmo recurso em compra de passagens aéreas e fretamentos de jatos já havia ocorrido no ano anterior, durante o carnaval de 2008, quando o governador Cid Gomes, do Ceará, resolveu promover uma festinha particular à cobra, quer dizer, à sogra e às mulheres de seus assessores, desfalcando em milhões de reais os cofres cearenses".

    Por: CARLOS ROGÉRIO LIMA DA MOTA l Notícias & Sociedade > Política l 11/06/2009 l Acessos: 133
    CARLOS ROGÉRIO LIMA DA MOTA

    "Estamos vivendo mesmo os novos tempos, tempos em que mentiras espelham verdades; verdades caem como mentiras. Contar a verdade parece não ter mais a conotação de outrora porque os valores não são mais os mesmos. O tempo todo, o que está em jogo é o interesse pessoal, o favorecimento de alguns e o entorpecimento financeiro do próprio ego".

    Por: CARLOS ROGÉRIO LIMA DA MOTA l Notícias & Sociedade > Cotidiano l 01/06/2009 l Acessos: 93
    CARLOS ROGÉRIO LIMA DA MOTA

    "Não há quem não curtisse as maldades provocadas por Flora, a protagonista nefasta vivida pela estonteante Patrícia Pillar. Que papel o dela!Mereceu mesmo o prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor atriz do ano..."

    Por: CARLOS ROGÉRIO LIMA DA MOTA l Arte&Entretenimento > Arte l 19/01/2009 l Acessos: 311
    CARLOS ROGÉRIO LIMA DA MOTA

    "Conduzimos um operário ao poder. O mundo curvou-se aos nossos pés em sinal de reverência. Nossa democracia havia amadurecido! Vencíamos de vez o preconceito da elite, aquele que dizia que somente os formados em Harvard seriam capazes de liderar a nossa massa de famintos. Foram dias e dias de glórias, de apertos de mãos, de beijos, abraços e fotos... Dias e dias de alegria, churrascos e mais churrascos; como bobos da corte, dançávamos aos hinos da Fazenda, abrindo os nossos bolsos..."

    Por: CARLOS ROGÉRIO LIMA DA MOTA l Notícias & Sociedade > Política l 14/01/2009 l Acessos: 163

    Adicionar novo comentário

     
    * Campos obrigatoriós
    Perfil do Autor
    Categorias de Artigos
    Todas as Categorias