O percurso gerativo na análise semiótica do conto machadiano "pai contra mãe"
Na perspectiva semiótica de Fiorin (1997) o conto "Pai contra mãe" de Machado de Assis será analisado segundo a ótica da construção de sentido do texto. Para Barros (2003) a construção de um texto é baseada em seu entretecimento com a cultura, a sociedade, bem como o momento histórico em que as ideologias são passadas através da comunicação do mesmo. Para a melhor compreensão do conto, examinar-se-á o seu plano de conteúdo que, segundo Fiorin, passa por um percurso gerativo.
Tal percurso costuma ter três etapas, a saber, o nível fundamental, o narrativo e o discursivo. No primeiro deles, ocorre a etapa mais simples e abstrata na qual o sentido do texto se dá por uma oposição. Na segunda, ocorre a narrativa organizada do ponto de vista do sujeito. Em outras palavras é a história do sujeito em busca de valores, os quais estão inseridos nos objetos, Na narrativa, então, dois sujeitos podem buscar os mesmos valores, fazendo com que um interfira no outro e assim se produz o percurso da mesma. Já na terceira, que é a mais complexa das três, a narrativa torna-se um discurso em virtude dos procedimentos de temporalização, espacialização, actorização, tematização e figurativização (Barros, 2003, p.188).
Desdobrando o nível fundamental, Fiorin (1997) abre destaque para as categorias semânticas que estão na base da construção de um texto. Essas categorias semânticas, por sua vez, estabelecem entre si uma relação de contrariedade. Ainda, cada um dos elementos dessas categorias recebe a qualificação semântica de euforia, caracterizada por ter um valor positivo, e disforia, qualificada por ter um valor negativo. Além das categorias semânticas, o nível fundamental possui a sua sintaxe que abrange as operações de negação e de asserção. Na primeira delas ocorre "a afirmação de a, negação de a, afirmação de b". Já na segunda, ocorre "a afirmação de b, negação de b e afirmação de a" (FIORIN, 1997, p. 20). Assim, pode-se dizer que o percurso gerativo do nível fundamental possui dois aspectos principais: a semântica e a sintaxe.
Para se falar de nível narrativo, vale ressaltar que "a narração constitui a classe de discurso em que estados e transformações estão ligados a personagens individualizadas" (FIORIN, 1997, p. 21).
Ainda, Fiorin (1997) diz que na sintaxe narrativa há dois tipos de enunciados elementares, a saber, os enunciados de estado e os enunciados de fazer. Enquanto nos enunciados de estado se estabelecem uma relação de junção ou conjunção entre um sujeito e um objeto, nos enunciados de fazer ocorrem as transformações que correspondem à passagem de um enunciado a outro.
Barros (2003) dá sequência aos estudos de Fiorin (1997), dizendo que cada uma das narrativas tem uma organização canônica que passa pelos percursos de manipulação, ação e sanção. Caso um desses percursos não forem percorridos a narrativa perderia sentido. Fiorin (1997) desdobra o percurso da ação em dois, a saber, a competência e a performance. Para ele, a manipulação seria a fase em que "um sujeito age sobre o outro para levá-lo a querer ou dever fazer alguma coisa" (FIORIN, 1997, p. 22). Seguindo, a manipulação poderia ser por quatro tipos principais: tentação, intimidação, sedução e provocação. Quanto a isso, Barros (2003, p. 198) salienta que para tentar e intimidar, o destinador oferece valores que ele acredita que sejam desejados ou temidos pelo destinatário com a finalidade de seduzi-lo e provocá-lo. O destinador, por sua vez, apresenta imagens positivas e negativas do destinatário, fazendo com que esse realize o que lhe é proposto. Saindo da manipulação e indo em direção à competência, Fiorin (1997) salienta que nessa fase o sujeito que vai realizar a transformação central da narrativa pode e sabe fazer a mesma. Na performance, por sua vez, o autor menciona que a transformação ou mudança de um estado ao outro na narrativa, ocorre nessa fase. Assim, o sujeito que opera a transformação ou entra em conjunção ou em disjunção com um objeto. Para finalizar, ele fala da sanção, fase essa em que ocorre a constatação de que a performance se realizou e é aí que acontece o reconhecimento do sujeito que operou a transformação. É aí que se distribuem os prêmios e os castigos.
Em se tratando de nível discursivo, Barros ( 2003, p. 204) fala que a organização narrativa passa a ser temporalizada, espacializada e actorializada. Isso quer dizer que os estados narrativos serão localizados no tempo e no espaço e que pessoas ocuparão o espaço dos actantes narrativos. Também, os valores que se disseminam nesse nível aparecem em forma abstrata, sob a forma de temas, os quais podem ser investidos e concretizados por figuras. Ainda, pode-se dizer que o tempo, o espaço e as pessoas do discurso dependem dos dispositivos de desembreagem, dispositivos esses que produzem efeitos de sentido de aproximação e distanciamento. A desembreagem pode ser, portanto, enunciativa quando produz um efeito de proximidade pelo uso da primeira pessoa (eu), do tempo presente (agora) e do espaço (aqui). Por outro lado, ela pode ser enunciva, quando a mesma produz um efeito de distanciamento da enunciação. Isso decorre do uso da terceira pessoa (ele), do tempo (então) e do espaço ( lá ). Barros (2003) segue, dizendo que a aproximação produz um efeito de subjetividade e que o distanciamento produz objetividade e neutralidade. Além da desembreagem há também a embreagem e nesse dispositivo Fiorin (1997, p. 52) afirma que "ocorre uma suspensão das oposições de pessoa, de tempo ou de espaço". Nesse caso, suspende-se a oposição entre eu e ele,e dessa forma, a terceira pessoa é empregada em lugar da primeira.
Ainda com relação ao nível discursivo, Fiorin (1997) salienta que os esquemas narrativos podem ser revestidos com temas ou podem-se recobrir os elementos narrativos com figuras a fim de concretizá-los mais. Então, a tematização e a figurativização seriam, segundo o autor estudado, dois níveis de concretização do sentido. "A figura é o termo que remete a algo do mundo natural", enquanto que o tema " é um investimento semântico, de natureza puramente conceptual, que não remete ao mundo natural" (FIORIN, 1997, p. 64). Diante disso, os textos podem ser figurativos ou temáticos. No primeiro caso, cria-se um efeito de realidade, pois se representa o mundo através de figuras. Já no segundo, procura-se explicar a realidade dando a ela uma função interpretativa. Há de se salientar, no entanto, que um texto não é exclusivamente temático ou figurativo, mas apresenta a predominância de um ou de outro.
Para complementar o estudo do nível discursivo, é necessária a compreensão da "enunciação", ou seja, do ato produtor do enunciado. Uma vez que esse ato se realiza, ele deixa marcas no discurso que se constrói. Também, para se produzir um enunciado é necessário que o sujeito se aproprie da língua e dessa forma imprima nela as suas marcas, as quais são marcas da subjetividade do sujeito enunciador.
Diante do exposto, percebe-se que para que se entenda a análise semiótica do discurso de um texto tão rico como o do renomado escritor Machado de Assis, precisa-se analisar os mecanismos sintáticos e semânticos que constroem os sentidos do conto, no traçar de seu percurso gerativo.
Pai contra mãe na construção do percurso gerativo
Em se tratando de nível fundamental temos as categorias de sentido que estão na base da construção de um texto. São elas: categoria semântica e categoria sintática.
Em PAI CONTRA MÃE a categoria semântica fundamental que vem à tona e que caracteriza o conteúdo geral do mesmo é: prisão X liberdade. Isso, porque com as necessidades de manter sua família unida, alimentá-la, abrigá-la, etc., o sujeito Cândido Neves, pai, vai à procura da escrava Arminda, futura mãe, encarando a prisão desta como a solução de seus problemas. Ao prendê-la e devolvê-la ao seu antigo "dono", esse sujeito põe fim a liberdade do objeto Arminda, aqui tida como objeto, pois, segundo Fiorin (1997, p.22), numa narrativa de captura os seres humanos a serem aprisionados são o objeto com o que o ser que captura deve entrar em conjunção (nível narrativo).
A categoria sintática, por sua vez, abrange duas operações: a asserção e a negação, numa relação em que uma nega a outra. Nessa linha de raciocínio percebe-se então que "Candinho" (ironia do autor), ao tirar a liberdade do sujeito Arminda, indiretamente, contribui para a morte do filho desta. Assim, sob esse outro olhar, poder-se-ia dizer que as categorias sintáticas que se apresentam seriam: vida X morte, pois para que uma criança continuasse viva junto à sua família, outra foi morta, indireta e involuntariamente, pela própria família: sua mãe. Nesse sentido, observa-se que o texto afirma a vida do filho de Candinho, nega a do filho da escrava e afirma a morte do filho desta e, assim, por meio de operações de afirmação e negação a categoria fórica, euforia X disforia, relaciona-se com a categoria tensiva, tensão X relaxamento, em que a sensação de euforia corresponde a passagem/continuidade do relaxamento, e a de disforia, à passagem/descontinuidade ou separação tensa. Por isso, se passa a ter o termo "prisão" como eufórico e "liberdade" como disfórico, o que seria justificado pelo ambiente em que se dá a narrativa: uma sociedade machista, escravocrata e, obviamente, hipócrita, na qual a necessidade de capturar um outro ser humano "saindo à caça" deste como se fosse um animal é tida como fato corriqueiro. Ocorre, então, que essa prisão que leva um personagem à morte passa a ser atraente, enquanto a liberdade, elemento essencial a uma vida plena, por tratar-se de um sujeito mulher, negra e escrava, torna-se repulsiva.
Assim, PAI CONTRA MÃE, por tratar-se de um conto que não termina bem, passa a ser considerado um texto disforizante, pois vai de uma pseudo-euforia (valorização da vida com o casamento de dois sujeitos apaixonados com planos de terem um filho), à disforia (morte do filho de um outro sujeito), no qual os fins justificam os meios de forma maquiavélica.
Quanto ao nível narrativo, é relevante o conhecimento daquilo que Diana Barros pensa a respeito de narratividade:
A narratividade de um texto é a história de um sujeito em busca de valores. Para que o sujeito tenha acesso aos valores, são eles inseridos nos objetos. Os objetos, com seus valores, circulam entre os sujeitos. Dessa forma, quando um sujeito ganha ou adquire um valor, outro sujeito doa esse valor ou dele é privado. A conseqüência disso é que a narrativa se desdobra e se redefine como a história de dois sujeitos interessados nos mesmos valores e em busca desses valores desejados. Os percursos dos dois sujeitos se encontram, portanto, e interferem um no outro. (BARROS, 2003, p. 191).
Mas, para Fiorin (1997, p.21), narratividade não só é elemento componente de todos os textos, como também uma transformação situada entre dois estados, inicial e final, sucessivos e diferentes. Ou seja, quando se tem um estado inicial, uma transformação e um estado final em que o sujeito passa de um estado inicial de não saber a um estado final de um saber adquirido, a partir de um ponto de vista único, ocorre uma narrativa mínima. Já a narração, ainda segundo o autor, diz respeito a uma determinada classe de textos e constitui a classe de discurso em que estados e transformações estão ligados a personagens individualizadas.
Tem-se, então, que na sintaxe narrativa existem dois tipos de enunciados elementares, a saber: enunciados de estado e enunciados de fazer. Como há dois tipos de enunciados de estado existem duas espécies de narrativas mínimas: a de privação e a de liquidação de uma privação. Na de privação, tem-se um estado inicial conjunto e um estado final disjunto, o que ocorre no conto em análise, uma vez que, no início, a escrava Arminda encontrava-se em conjunção com a liberdade e, no fim, em disjunção com ela. Na narrativa de liquidação de uma privação ocorre o contrário: um estado inicial disjunto e um final conjunto, o que ocorreu com Cândido Neves em relação ao casamento, já que no início da narrativa este estava em disjunção com a mulher amada (solteiro) e, no final da mesma, em conjunção com ela (casado).
Já na semântica do nível narrativo aparecem dois tipos de objetos: objetos modais e objetos de valor. Os modais são: o querer, o dever, o saber e o poder fazer, elementos, estes, necessários para a realização da performance principal. Os de valor são aqueles que entram em conjunção ou disjunção na performance principal. No caso do conto em questão, o personagem Cândido Neves certo de ser possuidor dos objetos modais: querer prender os escravos fugidos; saber como fazê-lo; ter o dever de fazê-lo frente à falta de incentivo da tia Mônica e o de poder fazê-lo, por possuir características que o colocam em superioridade (conjunção) na prisão de escravos, vai à busca do objeto-valor: dinheiro, pois, com ele seus problemas serão resolvidos. É interessante observar que segundo Fiorin (1997, p.29) o dinheiro é a manifestação de um objeto modal enquanto que objetos: valor e modal são posições na sequência narrativa. Portanto, o objeto modal é aquele necessário para se obter um outro objeto e o objeto-valor é aquele cuja obtenção é o fim último de um sujeito. Isso ocorre com o objeto de Candinho a ser aprisionado: Arminda que, em desvantagem, possui somente a vontade de fugir. Ou seja, possui o "querer fugir" como objeto modal, necessário para obter outros dois objetos: sua liberdade e o nascimento de seu filho. Nesse sentido, pela maneira que Arminda implora a liberdade a Cândido Neves, no ato de sua prisão, conclui-se que para ela tais objetos modais valem mais do que qualquer outro objeto-valor.
Segundo Fiorin (1997, p.22) os textos são narrativas complexas e neles uma série de enunciados de fazer e de ser estão organizados hierarquicamente estruturando-se numa sequência canônica que compreende quatro fases. São elas: a manipulação, a competência, a performance, e a sanção. Na fase de manipulação um sujeito age sobre o outro para levá-lo a querer e/ou dever fazer alguma coisa. No conto PAI CONTRA MÃE o grande manipulador é o sujeito tia Mônica, que a todo instante usa da manipulação do tipo provocação para que Candinho arrume um emprego certo: "... um emprego, um ofício, uma ocupação, mas em que é que o pai dessa infeliz criatura que aí vem gasta o tempo?" (p.83) Tia Mônica também usa a provocação para fazer Candinho levar o filho à Roda dos Enjeitados: "Se você não a quer levar, deixe isso comigo; eu vou à Rua dos Barbonos". Por isso, Cândido Neves cede e, ele mesmo, acaba levando a criança a esse destino. Candinho também usa da manipulação para prender os escravos fujões. A manipulação usada por ele é a da intimidação: "Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse". (p.89)
Já na fase da competência o sujeito que realiza a transformação central da narrativa é dotado de um saber e/ou poder fazer. Nesta análise, o sujeito transformador da narrativa é Cândido Neves, que sabe e pode prender escravos (competência) devido a sua grande força física: "Deus não me abandona, e preto fugido sabe que comigo não brinca; quase nenhum resiste, muitos entregam-se logo". (p. 83)
Daí se origina a performance, que é a fase em que se dá a transformação pela mudança de um estado a outro. Esse estado pode ser de conjunção ou disjunção, assim, conforme mencionado, anteriormente, numa narrativa de captura os seres humanos a serem aprisionados são "objetos" com os quais o ser que os captura deve entrar em estado de conjunção. O prender do objeto escrava Arminda é a performance do texto em questão, no qual Cândido Neves entra em estado de conjunção com o dinheiro recebido (cem mil-réis) e a permanência de seu filho junto a si, enquanto Arminda entra em estado de disjunção com sua liberdade e a vida de seu filho, propriamente dita.
Na última fase, a da sanção, ocorre a constatação de que a performance aconteceu, pelo reconhecimento do sujeito que operou a transformação. Na maioria das narrativas o bem é premiado e o mal, punido, distribuindo-se, então, recompensas e castigos. No texto em análise, acontece o contrário: a caçada humana realizada por Candinho foi premiada com a recompensa de cem mil réis e a mulher, negra e escrava Arminda, punida, pois, além de ter sua "liberdade" castrada foi castigada com a perda seu filho. Isso traz à tona a incontestável habilidade do genial escritor, Machado de Assis, em inverter situações corriqueiras e de virar de ponta cabeça os valores morais.
Para falar do nível discursivo no conto de Machado, parte-se da consideração de que o ato da enunciação envolve o eu-aqui-agora. Assim, ele fala do "eu" pressuposto como se fosse o narrador ou o próprio autor, conforme se vê na onisciência do narrador intruso e do "eu" projetado como se fossem os leitores do conto.
O aqui ( espaço do discurso) é o Rio de Janeiro. Na estética machadiana do conto ‘Pai contra mãe', artigo publicado por Izaura da Silva Cabral, acessado em 24/11/2009, p. 4, o espaço é descrito como apresentando becos estreitos, sujeira e miséria. Esse cenário faz, no entanto, contraponto com a riqueza e a ostentação dos donos de escravos. A cidade do Rio de Janeiro é, então, de fundamental importância para dar verossimilhança aos fatos. Com esse espaço, também se reforça a ironia à escravatura e à diminuição dos seres. Ainda, os nomes das ruas em que se desenrola a ação, são nomes reais, tais como: Rua dos Carbonos ou Rua da Guarda da velha, citados no conto (p 88)
O agora, por sua vez, seria o momento do enunciado, ou seja, o momento em que a história se sucedeu, nos tempos do Império. Como obra literária, Benedito Nunes, na Obra " O Tempo na Narrativa" diz que o tempo é imaginário (p. 25), visto que o autor que fez a mesma construiu-a inspirado na realidade. Pode-se dizer que a ficção possui um tempo imaginário, mas dentro desse tempo criado pelo autor há uma manifestação de tempo cronológico (p.20), o qual é o das horas, do calendário, das estações, tal como se vê nos seguintes fragmentos: " Queria ter que trabalhar quando casasse, e o casamento não se demorou muito"(p.82) ou " Contava trinta anos. Clara vinte e dous."(p.82). Há também o tempo físico (p. 18) , referente às partes do dia ( manhã, tarde, noite, cedo, tarde, antes, nesse momento...). Exemplo disso são os fragmentos: " Saiu de manhã a ver e indagar pela Rua e Largo Carioca, Rua do Pardo e da Ajuda"(p.88) e "Mal lhe deram leite: mas, como chovesse à noite, assentou o pai a levá-lo à Roda no dia seguinte".(p.87).E para finalizar, há o tempo histórico (p. 20), o qual caracteriza-se pela apresentação dos personagens em uma determinada época e pode aparecer para identificar um determinado acontecimento. No texto, verifica-se o mesmo em: " Há meio século os escravos fugiam com frequência" (p.80); "Ora, pegar escravos fugidios era ofício do tempo..." (p.81); "Punha anúncio nas folhas públicas"(p.81 ).
Há também no texto, a presença de uma narrativa feita em terceira pessoa, por um narrador onisciente intruso, segundo a tipologia de Norman Friedman ( p. 26), contido na obra O Foco Narrativo de Leite (2002). Isso quer dizer que ele sabe tudo acerca da narrativa e se intromete nela. A intrusão é, portanto, algum comentário sobre a vida, os costumes, os caracteres, a moral, que podem ou não estar entrosados com a história narrada. Pode-se ver essa intromissão em: "Os funileiros as tinham penduradas, à venda. Na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras"(p. 80). Também em: "-Não, tia Mônica!Bradou Candinho, recusando um conselho que me custa escrever, quanto mais ao pai ouvi-lo"(p 85). Segue-se em: "Não dou aqui a comoção de Cândido Neves por não podê-lo fazer com a intensidade real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher, desceu ele também; a poucos passos estava a farmácia onde obtivera a informação, que referi acima"(p.88, 89).
Na linguagem de Fiorin (1997), diz-se que o texto apresenta uma debreagem enunciva, ou seja, discurso em terceira pessoa, visando transmitir efeitos de objetividade ao conto. Quando, porém o autor se intromete na fala dos personagens há o efeito de uma debreagem enunciativa em que o autor confere ao conto parte de sua subjetividade, projetando o seu "eu" e dessa forma se aproxima da narrativa. Além dos tipos estudados de debreagens, pode ocorrer ainda o que Fiorin (1997, p. 46) chama de debreagens internas ou de segundo grau. Essas são responsáveis pela unidade discursiva chamada de discurso direto, o qual cria efeito de sentido de verdade ao conto. Nas palavras do autor, "o discurso direto proporciona ao enunciatário a ilusão de estar ouvindo o outro, ou seja, suas "verdadeiras" palavras" (p. 46). Pode-se dizer, no entanto, que o conto "Pai contra mãe' não possui somente uma debreagem interna, mas sim a presença de um discurso indireto. Nesse discurso indireto, Machado de Assis pretende apresentar uma analise mais objetiva do que os personagens querem dizer. Assim, ele faz uma espécie de análise de expressão, dita por Fiorin (1997, p. 47), em que o narrador investe nas particularidades de expressão, ou seja, nas maneiras de dizer, objetivando caracterizar o ator que está sendo analisado no discurso, fazendo com que os traços do falante sejam postos em evidência. É assim que Cândido Neves é descrito em: "Tinha um defeito grave esse homem, não agüentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade; é o que ele chamava caiporismo"(p. 81)
Dando sequência à análise semiótica do nível discursivo vê-se a predominância de um texto figurativo no qual se descrevem o mundo da época da escravidão: a máscara de folha-de-flandres, a coleira de ferro ao pescoço dos escravos, as folhas de anuncio dos escravos fugidos e a profissão de Candido de pegar os mesmos, a Roda dos enjeitados, as gratificações feitas pela captura dos escravos...Há de se salientar, no entanto, que para essas figuras prevaleçam, a temática da escravidão perpassa toda a narrativa . Também, Cabral ( acessada em 24/11/2009, p. 5) diz que através da análise do pessimismo e da construção do nome das personagens, o autor consegue a apresentação de uma ironia extremamente rica, a fim de que o texto cumpra o seu propósito de criticar as várias facetas do ser humano, assim como do sistema social vigente no período em que esse conto foi escrito. No estudo de Cabral, a Estética machadiana no conto "Pai contra mãe" (acessado em 24/11/2009, p. 3), o nome Cândido vem do latim e significa "alvo", "puro", "imaculado", justamente o contrário do que ele representa na narrativa. Essa ideia, portanto, quer ironizar o sistema de escravidão, no qual os negros sofrem como se fossem objetos e não como seres em sua dignidade humana, uma vez que o Cândido de machado não é ingênuo, nem revela candura em seu caráter. Antes, pelo contrário, apresenta-se como insensível frente ao aborto da escrava e ao seu sofrimento. Afinal de contas "Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração". (p. 90) O egoísmo é uma característica marcante de Cândido Neves. Também a ideia de trabalho é irônica no conto, pois ao invés de representar uma forma de ter melhores condições de vida, apresenta um homem que tem aversão ao trabalho, uma vez que esse pode ser custoso e sem a devida recompensa. Então, Cândido deixou seus trabalhos pouco depois de obtidos (p.81). Ainda, o nome Clara vem do latim e significa "brilhante", "luzente", "ilustre". A Clara de Machado, todavia, não revela tal brilho, pois sua personalidade é submissa aos desmandos da tia e parece conformada com a entrega do filho à roda dos enjeitados. Ela demonstra passividade frente às situações da vida. Seguindo, a ironia ainda se constrói na luta do pai pelo filho ao invés de ser a mãe a responsável por tal luta, fato esse bastante ligado à cultura brasileira.
Nas palavras de Fiorin (1997) "o nível temático dá sentido ao figurativo e o nível narrativo ilumina o temático"(p.67) e, ainda, "não há texto figurativo que não tenha um nível temático subjacente, pois este é um patamar de concretização do sentido anterior á figurativização"(p. 68). Pode-se observar, portanto, que o conto apresenta as figuras concretas, ligadas à temática da escravidão e aos valores sociais embutidos nela.
Considerações finais
Para concluir, observa-se o percurso gerativo do sentido no conto de Machado no desdobramento dos três níveis principais, a saber o fundamental, o narrativo e o discursivo. Eles são postos como formas de ler o texto podendo extrair dele um entendimento mais global. Com isso não se pretende reduzir ou esgotar a capacidade que o conto tem de revelar riquezas através da relação dialógica com outros textos, da intertextualidade ou ideologias aqui presentes. Sabe-se que na análise discursiva as contribuições de Bakhtin são importantes, no entanto, não foi o enfoque teórico ao qual submetemos o texto à análise.
Levando-se em consideração os aspectos trabalhados em cada um dos níveis do percurso gerativo de sentidos do texto, também se pôde verificar o tom irônico que Machado atribuiu às suas palavras. A finalidade disso era de se obter uma narrativa breve cujo objetivo está em apresentar as várias faces do ser humano, com suas personalidades e relação com o trabalho e à vida financeira, tudo isso em interação com o sistema social presente no Brasil escravocrata da época. O conto é, portanto, uma crítica aos excessos da escravidão e da desumanização do homem, objeto de seu sistema.
Referências
ASSIS, Machado de. Contos Definitivos. 2.ed. Porto Alegre: Novo Século, 1998, p. 80-90.
FIORIN, José Luiz. Elementos de Análise do Discurso. 6.ed. São Paulo: Contexto, 1997.
BARROS, D. L. P. Estudos do Discurso. In: FIORIN, L. F. Introdução à Linguística II. Princípios de Análise. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2003,.p. 187-218.
NUNES, Benedito. O Tempo na Narrativa. 2. Ed. São Paulo: Ática, 1995.p. 16-24.
LEITE, Lígia Chiappini Moraes. O Foco Narrativo. 10. Ed. São Paulo: Ática, 2002.p.26
CABRAL, Izaura da Silva. Disponível em: http://www.ucm.es/info/especulo/numero38/paimae.html, acessado em 24 de Novembro de 2009.
Perguntas e Respostas
Palavras-chave do artigo:
semiotica do discurso conto machadiano percurso gerativo
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