Os Sonhos Não Morrem Jamais
Acordei hoje bastante nervoso. É ainda muito cedo e estou sentado na varanda da casa da minha fazenda vendo o dia amanhecer. Com o sol que começa a surgir no horizonte me vêem lembranças de um passado remoto que ainda permanecem muito vivas dentro de mim...
Vejo-me menino novamente, correndo e brincando pelas colinas da fazenda do meu pai. Eu devia ter cinco, talvez seis anos nessa época e brincava solto numa terra imensa cujo fim eu não conseguia ver. Aquele mar de morros era todo meu e lá eu voava livre com meus sonhos de futuro. Com meu aviãozinho de brinquedo nas mãos sonhava em ser aviador e ver o mundo sempre do alto. E, à medida que eu crescia, aquele desejo aumentava e minha vontade era de que um dia, eu estaria planando livre no céu como aquele aviãozinho de madeira...
Os anos se passaram e o menino já se fazia homem, e eu começava a me preparar para ingressar na escola de aviação. Os contatos já haviam sido feitos e logo iria para lá. Porém, a alguns dias da minha partida, algo muito triste aconteceu em nossa família: a morte subida do meu pai. Ele era um homem muito forte e sempre estivera conosco em todas as horas incertas, mas agora ele já não estaria mais em nosso convívio. Aquela morte, tão de repente, foi extremamente dura para todos nós, pois não podíamos aceitar aquela dura perda. Lembro-me bem do se funeral, das coroas de flores e da enorme fila de amigos que lá estiveram. Meu pai fora muito amado por todos e eu lhe era imensamente grato por todo bem que ele fizera para todos nós. Ele fora embora, porém havia deixado plantadas árvores com raízes fortes e profundas que ainda frutificariam muito. Esse sentimento nos unira sempre em torno da lembrança dele e daquelas terras que ele tanto amara. E, de repente, de um momento para o outro, vi meus planos de voar adiados, pois sendo o mais velho e único homem, assumi, com certa naturalidade, o posto que outrora fora do meu pai. Sabia que minha família precisava de mim e eu não os decepcionaria.
Devo confessar que foram anos duros de muita luta e muito aprendizado. Eu pouco entendia do manejo de uma fazenda, pois sonhava em voar e agora aquelas terras eram a minha realidade e o meu sustento. Com muito trabalho e auxílio constante de nossos amigos e empregados, vimos nossas plantações florescer, dar frutos e nossos animais nascerem e darem leite e carne. Vi nossa fazenda crescer e os dar alimentos. Ela aumentava de tamanho assim como a minha responsabilidade também. Sem dúvidas, tanto trabalho valia a pena, pois tínhamos mais terras, mais empregados, mais plantações, mais animais e, minha família estava protegida e amparada. Hoje posso me orgulhar muito daquilo tudo que construímos...
O tempo passava e eu continuava a trabalhar loucamente e ia, com cada vez mais freqüência para a cidade em função dos negócios. Foi lá, que conheci, namorei e casei com uma pessoa linda que esteve sempre ao meu lado. Devo a ela a maior alegria da minha vida: meus filhos e netos. Não sei se sem ela estaria ainda hoje à frente dos negócios, da fazenda e ao lado da família que tanto amo.
Nossa vida foi difícil, porém muito feliz. Vivíamos na fazenda e estávamos longe do barulho, da poluição, do trânsito, do medo e da loucura da cidade grande. No entanto, nossos filhos cresceram e a ida para a cidade tornou-se inevitável, pois eles precisavam estudar e nós não queríamos ficar longe deles. Mas com isso, nosso sossego também foi embora. Apesar de tudo, vivemos bem nesse novo lugar. Vieram novos desafios, novas pessoas e novas conquistas. Eu consegui um bom administrador e já não precisava ir mais diariamente à fazenda, porém jamais abandonaria aquelas terras em fase alguma de minha vida. Mesmo com a partida de nossos filhos para estudar, casar ou trabalhar, não conseguimos mais romper o vínculo estabelecido com aquela cidade, pois algumas das pessoas que mais amávamos ainda estavam por lá. Apesar da distância que nos separava, estávamos sempre unidos pelo pensamento, pelo coração e pela alma e isso já me bastava.
Vieram então meus netos e essas pessoinhas muito especiais jamais deixariam de me surpreender. Um deles, com a mesma curiosidade que eu uma vez tivera, mexendo nos porões da fazenda, achou um velho e empoeirado aviãozinho de madeira. Confesso, que poucas vezes, senti um frio no estômago como aquela em que vi novamente meu brinquedo de infância. Tanto tempo já havia se passado e lá estava ele trazendo velhos sonhos de volta. Meu neto, fascinado, com seu achado, me pediu o avião e eu, sem saber ao certo o porquê, lhe dei e só pedi que ele cuidasse muito bem daquela relíquia. Daquele dia em diante, não me lembro de ver meu neto sem aquele brinquedo nas mãos. Eu via naquela criança uma ânsia enorme de voar e ser livre, e tinha certeza que ele conseguiria alcançar seu intento muito em breve. Naquele menino estavam projetados os sonhos de um outro menininho de um outro tempo muito remoto...
Meu neto cresceu e agora é piloto de uma grande companhia aérea e volta pelo mundo afora. Nas suas poucas horas vagas, por amor à sua profissão, dá aulas para principiantes na arte da aviação. Hoje no meu 75º. Aniversário, depois do nascer do sol, ele virá me buscar para minha primeira aula de vôo...Por isso, todo este meu nervosismo, pois num misto de alegria, êxtase e medo, vou realizar algo a muito almejado. Sinto-me extremamente feliz por este dia ter chegado e, muito em breve, estarei no céu voando junto com os pássaros que agora vejo da minha varanda...
(Artigonal SC #960027)
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