Vida, Morte E Transfiguração De Um Gato

Publicado em: 18/11/2009 | Comentário: 0 | Acessos: 43

Eram altas horas de uma gélida noite do mês de junho do ano de 1992. Um antigo relógio de parede, que não funcionava mais, marcava meia-noite e meia. Todos dormiam na casa. Tal qual num filme de horror "trash", estranhos sons, lentos, graves e tenebrosos começavam a serem ouvidos no ambiente...

Eu dormia em um dos quartos próximos à sala de visitas, quando inesperados rumores e fantasmagóricas sonoridades adentraram meu subconsciente misturando-se em minha mente e me conduzindo em um estado que fica entre o sono e a vigília. Não sabia ao certo se estava acordado ou sonhando. Fui levado então, ao terceiro estado de consciência… Os sons alternadamente, tornavam-se rápidos, indo do registro agudo ao grave, causando fortes contrastes tímbrísticos e rítmicos. Esta ambiência sonora fazia-se cada vez mais clara e reconhecível: era o som do piano da sala de visitas! Nesse estado diferente de consciência, um pouco assustado com aquela inusitada sinfonia noturna, levantei-me e fui até a sala ver o que ou quem estava compondo aquelas impressionantes seqüências aleatórias tão bem distribuídas espacialmente. Foi então que o vi: Rosinha.

Rosinha era um gato.

Macho.

Estava em cima do piano, entretido com as teclas e os sons produzidos por suas felpudas patas em uma performance inusitada e magnífica, na qual ele era o próprio instrumento dialogando consigo mesmo com as teclas brancas e pretas do teclado do piano, em perfeita sintonia sonora com aquele velho piano de armário. Em suas descobertas artísticas, aquele felino e por um breve momento quase humano, tocava o piano como se fosse um profissional executando Boulez ou Stockhausen. Sua mãe era uma gata de rua muito arisca, que não costumava parar muito em casa, se bem que a comida e água oferecidas lhe atraíam sempre, e a partir disso, passava cada vez mais tempo nos fundos da casa. Um belo dia ela teve quatros gatinhos. Um morreu ao nascer. Ficaram Quincas, Tim Tim e... Rosinha. Todos disseram que não era possível ficar com tantos gatos em casa. Insisti para que Rosinha ficasse na casa, enquanto Quincas e Tim-tim foram levados para o sítio. De sua cor originou-se seu nome. Tinha o pêlo de um rosa claríssimo incomun. Suas feições e coloração, junto à natureza brincalhona dos felinos recém nascidos, me cativou ao ponto de não querer mais me separar dele. Alguns anos se passaram. Rosinha cresceu e tornou-se forte, astuto e um experiente gato de cidade, capaz de escapar de todas as armadilhas existentes em uma grande metrópole. Um dia, um carro o atropelou. Encontramos Rosinha no meio fio da rua, ensangüentado e com as patas quebradas, em um estado lastimável. O levei para o veterinário que habilmente realizou uma complicada cirurgia inter-óssea, ligando os ossos das patas com fio de metal, costurando e amarrando tudo com uma tala. Ficou três meses deste jeito, até que finalmente, o veterinário retirou a tala, e, voilà! Estava novo em folha outra vez! Sabíamos que Rosinha tinha sido o pai de inúmeros gatinhos no bairro, mas ninguém de casa nunca os tinha visto. A gata do vizinho costumava vir sempre encontrá-lo no muro de nossa casa. Mesmo se sua companheira felina não estivesse no cio, os dois estavam sempre a rolar em deliciosas brincadeiras e eram quase sempre inseparáveis. Uma tempestade sem aviso, um dia surgiu. Nuvens pesadas e o manto tenebroso da morte, impiedosamente se aproximaram de Rosinha. De suas pernas e orelhas, brotaram  feridas que sangravam sem parar. Levado ao veterinário e feita a autópsia, havia sido diagnosticado câncer. E agora? O que faríamos? Poderíamos deixá-lo morrer em casa, prolongar sua vida naquelas horríveis condições e sermos impiedosos, ou escolheríamos um pesaroso atalho para o seu (?) e para o nosso sofrimento. Não havia mesmo muito o que fazer. Uma injeção letal foi dada pelo veterinário. Parada respiratória seguida de parada cardíaca e estava feito. Paguei os custos da clínica e em seguida coloquei Rosinha em uma sacola apropriada e levei-o para casa onde seria sepultado. Foi enterrado com todas as honras, ao pé da videira com direito a discurso de despedida e flores. Fechei por um momento meus olhos - por pura vergonha das lágrimas que brotavam de minhas pálpebras -, e imaginei ter visto Rosinha subir ao céu. Subindo aos ares, ele contemplava toda a cidade enquanto transfigurava-se em pássaro, gorjeando melodias que reverberavam pelo céu, até chegar bem lá no alto, acima das nuvens, onde milhares de animais lhe davam as boas-vindas, cantadas por um afinado coro polifônico de animais. O dia amanheceu. Levantei-me bastante tonto, como se tivesse dedicado uma noite ao deus Baco. Fui diretamente onde Rosinha havia sido enterrado. Ao pé da videira, um burraco havia sido aberto e não havia mais vestígios de Rosinha.

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Personagens

O Dono

O Gato Rosinha

A Gata do Vizinho

Veterinário

Coro Polifônico Celestial de Animais

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Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas, instituições ou fatos da vida real, é mera coincidência.

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Outros links do mesmo autor: www.andersen.mus.br

www.youtube.com/user/TheAmadeusProd

http://acigarraeaorquestra.blogspot.com

(Artigonal SC #1473493)

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    Palavras-chave do artigo:

    contos

    ,

    cinema

    ,

    ficção.

    Andersen Viana

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