As Máscaras Do Imperialismo No Futebol "Globalizado"

Publicado em: 08/05/2009 | Comentário: 0 | Acessos: 312

Ainda ouço pessoas afirmando que o imperialismo acabou e que atualmente vivemos na era da "globalização". Pois o futebol, um dos meus poucos prazeres televisivos, será o eixo que utilizarei para refletir sobre o assunto.

Como todos os que acompanham o futebol sabem, em 1998 foi promulgada a odiosa Lei Pelé, que entrou em vigor em 2001 em nome do fim das fronteiras nacionais, mas em favor do novo mundo "globalizado" . A partir dela ficou estabelecido que o vínculo desportivo que o atleta mantinha com o clube se extinguiria com o término da vigência do contrato de trabalho. Em outras palavras, a lei acabou com o que antes chamávamos de "passe".

Esse ano a aberração colonialista completará oito anos no Brasil. O marco inicial foi o famoso caso Ronaldinho Gaúcho no Grêmio. Tal jogador teve seu contrato finalizado em janeiro de 2001, ficando livre pra negociar o seu passe com clubes europeus que lhe puseram o olho. No fim, depois de cinco meses parados, Ronaldinho, um dos maiores talentos do futebol mundial nos últimos anos, saía sem dar um tostão ao Grêmio, seu clube formador e onde atuava há mais de 13 anos, indo jogar em um time do segundo escalão europeu, o Paris Saint-Germain. Este seria o primeiro grande crime contra o futebol brasileiro.

Depois de alguns casos como esse, houve algumas tentativas no sentido de procurar ressarcir os times que formavam jogadores, com a criação de uma cláusula em que se definia um valor percentual a ser pago aos clubes com base no salário que o atleta recebia. Era um consolo. É fato que o poder econômico dos clubes brasileiros jamais pôde competir com o dos europeus. Mas antigamente ao menos nossos times tinham a possibilidade de fixar o valor que quisessem sobre os jogadores. Hoje, se o valor é muito alto, o atleta não é vendido e o time se obriga a negociar por um preço menor. Não é por acaso que antes da Lei Pelé, Denílson saiu do São Paulo pela bagatela de US$ 26,5 milhões, e, após a lei, o maestro Kaká ia para o Milan pela quantia irrisória de US$ 8 milhões. Essa diferença serve para frisar a brutal situação que a lei impôs aos clubes brasileiros, que desde então passaram a chorar as migalhas dos times europeus (e asiáticos).

Nas palavras do próprio Pelé, um empresário do futebol e prócere do neoliberalismo no Brasil (dono da Pelé Sports Inc.) ao lado de FHC, a intenção da lei era "libertar" os atletas da "escravidão" que sofriam nos clubes. Pois o rei conseguiu mais uma vez dar uma mancada que colocou os nossos times à beira do abismo, obrigando-os a vender um jogador por ano. Era tudo o que os imperialistas queriam. A "escravidão" do clube foi substituída pela escravidão do empresário, que quanto mais transações conseguir fazer com o jogador, mais dinheiro ganhará. Daí a alta rotatividade de atletas, que chegam ao absurdo de atuarem por três clubes diferentes em apenas um ano, tudo em função do "mercado" da bola.

Outro fator alarmante é o fato de jogadores em idade infantil já serem alvo dos clubes estrangeiros. Crianças com onze anos já são vítimas dos urubus-empresários que levam a caça para os mais diversos países como Itália, Espanha, Alemanha, etc. Fazendo propostas milionárias aos pais dos jovens, muitos deles acabam indo com os filhos para o exterior. Atualmente é comum vermos jogadores que nunca jogaram em clubes dos países onde nasceram, vestirem a camisa da seleção nacional. Um exemplo gritante é o do craque argentino Messi, que simplesmente não sabe o que é a rivalidade River e Boca, pois desde os 12 anos atua no Barcelona da Espanha. Sem me deter no assunto, cabe destacar ainda os processos de naturalização orquestrados pelos europeus com nossos jovens.

O atrativo dos altos salários criou outra febre negativa. É a dos jogadores que não querem mais saber de vestir a camisa de um time brasileiro. Desde pequeno são direcionados pelos seus empresários a pensarem no grande contrato fora do Brasil. Na última Copa Santiago de futebol juvenil, aqui no Rio Grande do Sul, ouvindo as entrevistas dos atletas de 15 e 16 anos do Internacional de Porto Alegre, pude perceber que o sonho dos meninos não era mais chegar ao elenco profissional e se tornar o ídolo da torcida, mas sim jogar num grande clube europeu. Com isso ficamos imaginando que tipo de vínculo esse futuro atleta pode ter com o seu clube de origem? E mais: qual será a vontade de jogar pelo seu país, do qual sai na juventude e volta apenas para terminar a carreira com seus quase 40 anos? Não sou nenhum nacionalista fervoroso, mas em meio à dominação do discurso globalizante acredito que o apego pelas suas raízes tem algum valor hoje em dia. Repetindo com Gabriel o Pensador: "no mundo, por mim não haveria fronteiras, mas já que existem, vamos levantar a nossa bandeira". Como fica claro, essa ligação com o clube e com o seu país é cada vez menos incutida em nossos jogadores, que a todo instante fazem um esforço enorme pra serem vendidos a qualquer preço. No sentido de contribuir ainda mais para essa transformação, está a nefasta criação de escolinhas de futebol no Brasil gerenciadas por clubes como o Milan, da Itália, que instalou a sua unidade em São Paulo. Tais "escolas" não passam de tentativas mascaradas para usurparem nossos jogadores antes mesmo dos jovens atletas vestirem a camiseta de algum time de sua própria cidade.

Portanto, enquanto o futebol brasileiro estiver pautado por essa legislação draconiana, sem dúvida continuaremos a ver nossos craques brilhando, mas somente através de uma tela de televisão e talvez com a camiseta de outras seleções que não a brasileira. O protesto é este: abaixo a Lei Pelé, pois foi ela a responsável por fazer Alexandre Pato, com apenas 17 anos, sair do Internacional tendo jogado apenas 4 partidas como profissional do clube, tornando-o assim o mais recente troféu do colonialismo europeu, assentado agora no falso discurso do fim das fronteiras. A pergunta que fica é: essa máscara de imperialismo chamada de globalização serve aos interesses de quem?

(Artigonal SC #907550)

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