Presenciando a implosão do Estádio da Fonte Nova

24/09/2010 • Por • 78 Acessos

Presenciando a implosão do Estádio da Fonte Nova


Ontem á noite me resolvi, iria assistir a implosão do Estádio da Fonte Nova.  Fiquei em dúvida vários dias por me assaltarem sentimentos de tristeza. Afinal, foi ali que me iniciei esportivamente, quando meu pai me levava para entrar em campo com o time do Vitória, e onde comecei a partir de 1961(Bahia 1 X 1 Santos) a assistir os grande jogos (e depois os pequenos mesmo!). Foi lá também que presenciei oito campeonatos do meu clube, e, em especial, o único "bi" no estádio, (o de 1964/1965) e sua entrada no segundo campeonato nacional em 1972. A firma de meu pai, a EMBACIL, foi à encarregada da parte elétrica da obra de ampliação do estádio que lhe possibilitou ter um anel superior aumentando sua capacidade de 40.000 para mais de 90.000 pessoas.
Minha despedida do estádio, entretanto, foi muito antes de sua interdição, quando assisti no atual milênio a vitória eletrizante do meu clube sobre o nosso arquirrival por 6 X 5. Doravante só assistiria aos jogos em casa, leia-se a casa do meu clube, o Barradão.

Mas, voltando a minha decisão, levantei hoje ás oito horas da madrugada e tomei café resolvido a enfrentar de cara o sentimento com a implosão.  Havia pensado em levar "painho" (agora com 88 anos), mas fiquei em dúvida sobre a emoção que experimentaria ao rever nestas condições a sua obra. O que me decidiu pelo contrário foi olhar pela janela (moro no bairro do Tororó que fica nas imediações do estádio) e ver o Dique do Tororó interditado aos veículos. Logo após recebi o amável convite de "Lourdinha", sindica de um prédio que fica na Rua José Duarte e que oferece melhor visibilidade do que o meu prédio, para o infortúnio, digo melhor, a implosão.

As 09h30min vesti a minha camisa do EC Vitória e me dirigi para o terraço do referido prédio, observando com satisfação que ainda há locais onde pessoas de classe média se reúnem em dias especiais. Os moradores foram chegando aos poucos, havia ali umas quarenta pessoas. Vimos gente no terraço de muitos prédios, inclusive uma equipe de filmagem. Haviam seis helicópteros sobrevoando a área, os moradores deram até acenaram com as mãos esperando sair em algum programa de televisão. Alguém lembrou brincando de que deveriam "ter cobrado ingressos" para ajudar o condomínio, mas, como os torcedores do Vitória eram maioria, achamos que a renda deveria ser

destinada a pagar o salário dos jogadores do "Já ia", pois senão este iria
mais tarde despencar na tabela.

Na hora marcada, às dez horas, a implosão não aconteceu. Não faltou quem disse que "isso é coisa da Bahia" onde nem uma implosão começa na hora. Outro observou que ainda não havia sido formada a rede de televisão, é que estavam transmitindo o grande premio de automobilismo. Enquanto esperávamos desfrutamos de agradáveis conversas. Procurei saber se do pessoal mais próximo se haviam ido ao estádio. Uma senhora havia ido mas "pra nunca mais voltar". É que para azar dela foi à inauguração do anel superior e passou pelo mesmo sufoco que eu passei naquela que (esta sim!) seria a maior tragédia da Fonte Nova.

Fiquei surpreso com o número de pessoas ligadas pelo celular com a mídia. Várias pessoas estavam sintonizadas com a transmissão da TV e diziam "ainda nem começou a contagem regressiva"! Será que seria assim, tipo réveillon, onde quem decidiria a hora da implosão não seria o chefe da engenharia mas o diretor da rede de televisão? Aproveitei pra ouvir os comentários. Alguém lembrou que o Ministério Público tinha colocado obstáculos á derrubada do estádio mas que nos últimos dias havia feito um acordo onde a obra tinha sido "barateada", ao invés de 1,6 bi havia passado pra 1,4 bi. Outro observou que a implosão estava se realizando um mês antes das eleições. Não
faltaram os "bairristas" magoados que afirmavam: "Só assim o bairro do Tororó saía na mídia mundial"!

Começaram a tocar umas músicas pelo celular. Daqui a pouco alguém disse "chegou a hora". A implosão atrasou 27 minutos (alguém contou), mas ocorreu. Ouvimos uma série de explosões (pareciam fogos juninos um pouco mais barulhentos), muita poeira e o estádio estrebuchou. Alguns ensaiaram palmas que não foram seguidas pela grande maioria. Um garotinho chorou, mas não sei se devido ao barulho ou a tristeza. Quanto a mim senti uma ponta de tristeza e saí logo após do "espetáculo". Neste momento ouvi um dos moradores dizer "è triste".

Franklin Oliveira Jr.

Escritor e professor universitário

Perfil do Autor

Franklin Oliveira Jr.

Franklin Oliveira Jr. Escritor, musico e professor universitário Dr. em história social pela UFPE