A "simples Complexidade" Da Empresa

30/12/2009 • Por • 4,603 Acessos

Quem já leu nosso artigo "Dívida pode ser um 'acidente' - os 'ferimentos' devem ser curados", publicado em diversos órgãos da mídia, pode ver a forma simples e pragmática de que costumo fazer uso; dispensemos, portanto, o caráter e termos recatados e técnicos para adotar uma linguagem que todos entendam e na forma que tem trazido resultados satisfatórios.

Muito embora o curto tempo atuando no universo da consultoria, tenho conseguido desmistificar algumas "complexidades complexas" e fazer uso racional da ciência, aliada à nossa experiência de vida e ecletismo, na busca de soluções que quem devia ver, não via; inicio meu trabalho "ouvindo" as coisas, o ambiente e os processos; eles se movimentam e "falam" por si; são sinceros, francos, confiados; são matemáticos e precisos; somente depois é que ouço as pessoas relacionadas com as coisas "ouvidas" que nessa altura já me deram o seu valioso testemunho.

Posso então capturar melhor a imaginação destas pessoas e guiá-las de modo que adotem novas posturas como sendo suas próprias; a partir daí costumo centrar as ações em pessoas, procurando estimulá-las e envolvê-las, em vez de incentivar que alguém as controle; costumo ser sensível às necessidades das pessoas.

NECESSIDADE! Este é um fator que movimenta o mundo!

Muito embora exista um limite para a satisfação conhecida neste mundo através dos nossos cinco sentidos, é certo que os movimentos, racionais ou não, destinam-se exclusivamente à busca de soluções para as necessidades, a partir das mais prementes até aquelas mais complexas, difícil até de entender a sua razão; mas ela está lá... ; a necessidade! Esperando para ser satisfeita por uma forma existente e conhecida da percepção humana neste mundo; e, aí, o nascimento das oportunidades!

O apetite pela satisfação de uma necessidade (existente ou criada!) "embota" a idéia de solução que está disponível bem ao nosso lado; e nosso semelhante não "embotado" pela mesma necessidade - muito embora tenha também as suas outras necessidades -, vê aí uma oportunidade!

OPORTUNIDADE! Este é outro fator que movimenta o mundo!

Quem se dispõe a empreender, ser empresário... precisa "fechar a tríade"! Vale dizer, encontrar a solução para determinada necessidade; é bom que o empresário possua solução para mais de uma necessidade!

SOLUÇÃO! Este é um fator diferente que apazigua os movimentos do mundo; ainda que por instantes!

Esta solução é um produto (ou mais de um) ou um serviço (ou mais de um); mais de um produto ou mais de um serviço parece ser bom para qualquer empreendimento.

De uma forma simples - porque a "idéia-ovo" é simples - a empresa encampa estes três fatores e reúne pessoas e recursos materiais para trabalhar com produtos e/ou serviços.

Ela existe, portanto, para satisfazer necessidades que a família não satisfaz; porque a primeira entidade a satisfazer necessidades é a família; até porque o Estado veio depois!

A idéia de empresa nasce a partir de quando a necessidade a ser satisfeita já não é sexo, carinho, procriação etc; se sua mulher lhe passa uma camisa para a próxima reunião - ou a recíproca - se seu marido lhe lava a louça, o Estado chama isso de assistência recíproca; mas, como disse, ele veio depois! Contudo, a atividade já está satisfazendo uma necessidade que, por sua própria natureza, já não está dentro da família; portanto, a sua colaboração doméstica já dá idéia de uma atividade empresarial que, ademais, já caminha mesmo nesse sentido, passada a fase do protecionismo estatal - exagerado - do prestador de serviços enquanto pessoa física, até porque parece que o emprego "de carteira assinada" está "démodé".

Portanto - prossigo -, a empresa nasce quando alguém quer satisfazer necessidades de um mercado e de si próprio, de uma forma "mais ou menos" organizada; ainda que não saiba - mas, depois percebe! - que deve ter também o capital; é de ver que uns tinham apenas o trabalho quando começaram, até como vítimas do desemprego; também não é difícil encontrar quem só tinha o capital...; ou tão somente a "organização".

Afinal de contas, porque existe consultor?

E prossigo dizendo que empreendedor é o empresário que conhece a necessidade do mercado, o produto e/ou serviço para satisfazê-la e quer formar uma empresa. Hoje em dia, está praticamente separado o trabalho do capital; ou seja, nem sempre esses fatores, denominados, economicamente de "fatores de produção" estão presentes numa só pessoa ou grupo de pessoas; o mais comum é a "fabricação" da idéia de empresa dentro das universidades e entidades de formação da idéia empreendedora; os "fabricantes", quase todos "duros", mas que aprendem a "desenhar" um plano de negócios; e, depois, vendê-lo ao capitalista, ou seja, fazer uma sociedade ou parceria com alguém que possa fazer "virar" o plano, vale dizer, implementá-lo no mercado.

Portanto, o investidor também é empresário; ele possui o capital para investir na empresa, com retornos mais rentosos do que o seu conhecido mercado financeiro, ainda que exista risco.

Mas, se este bem montado e moderno modelo de união sistemática dos fatores de produção não garante resultados satisfatórios e também não isenta o empreendimento dos riscos, que dizer daqueles pequenos empresários que estão precariamente no mercado - salvo exceções -, sem qualquer profissionalismo empreendedor?

A resposta foi dada pelo Sebrae no relatório de Pesquisa que foi resultado do contrato celebrado com a Fundação Universitária de Brasília (Fubra), com o objetivo de realizar pesquisa e amostra nas 26 Unidades da Federação e no Distrito Federal; visava à identificação das taxas de mortalidade das empresas de pequeno porte no Brasil e nas Regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul e os principais fatores condicionantes.

Relata entre outros fatos, que o fechamento prematuro de empresas no País tem sido uma das preocupações da sociedade, particularmente para as entidades que desenvolvem programas de apoio ao segmento de pequeno porte; e que por isso, é de fundamental importância obter informações que propiciem identificar as causas das elevadas taxas de mortalidade das empresas, visando à atuação coordenada e efetiva dos órgãos públicos e privadas em prol da permanência das micro e pequenas empresas em atividade.

A pesquisa apurou, em trabalho de campo realizado no início de 2004, a taxa de mortalidade das empresas constituídas em 2000, 2001 e 2002, ou seja, a quatro, três e dois anos, identificando os fatores condicionantes da mortalidade e cotejando os resultados de entrevistas realizadas junto a empresas extintas e em atividade.

Restou caracterizado que, na opinião dos empresários que encerram suas atividades, encontram-se, em primeiro lugar entre as causas de fracasso, questões relacionadas à falhas gerenciais na condução dos negócios; estas são expressas nas razões de falta de capital de giro, indicando descontrole do fluxo de caixa, problemas financeiros por situação de alto endividamento, ponto inadequado por falhas no planejamento inicial e falta de conhecimentos gerenciais.

Em segundo lugar, predominam as causas econômicas conjunturais, como falta de clientes, maus pagadores e recessão econômica no País, sendo que a falta de clientes já pressupõe falhas no planejamento inicial da empresa.

Conclui o relatório que cabe a quem se propõe a prestar serviços de assessoria à gestão de empresas, aprimorar e intensificar programas de capacitação empresarial, especialmente os voltados à formulação de planos de negócios, gestão de empresas, aprimoramento contábil das microempresas e empresas de pequeno porte; e melhorar o conhecimento das características e potencial do mercado, com ênfase nas fases de planejamento e desenvolvimento inicial da empresa, além de ações voltadas ao aprimoramento do espírito empreendedor.

Muito se fala; muito se estuda; muito se comenta. Mas devia ser uma preocupação inclusive do próprio governo - ao invés de adotar medidas legais que o pequeno empresário nem sabe utilizar - promover a "educação empresarial", com medidas de proteção de fácil aplicabilidade que efetivamente favoreçam aquela que temos como a segunda entidade capaz de satisfazer necessidades: a EMPRESA; a primeira, como disse, é a família! E a família já conta com essas medidas básicas de proteção; que qualquer um sabe usar.

Quem dera se o empresário soubesse que, além de descobrir uma necessidade que não está sendo satisfeita a contento, decidir se ele tem e/ou conhece os produtos e/ou serviços para atender essa necessidade e se ele conhece os processos até que a necessidade seja satisfeita, devia atentar para a viabilidade do seu intento, como negócio.

Então, vão as dicas:

Deve ele:

1. CALCULAR:

a. O investimento fixo para iniciar o negócio;

b. O custo fixo mensal (ainda que não consiga vender nada).

2. SAIR PESQUISANDO O MERCADO CONSUMIDOR E CONCORRENTE SOBRE A ACEITAÇÃO DO SEU PRODUTO E/OU SERVIÇO.

3. ESTIMAR O VOLUME DE VENDA POSSÍVEL (NÃO SE EMPOLGAR E NEM USAR A EXPERIÊNCIA, SUCESSO OU EXEMPLO DE FULANO OU SICRANO).

4. VOLTAR A CALCULAR:

a. A margem de contribuição e o seu índice (%): faturamento menos o custo variável (compra dos produtos, custo dos serviços, impostos e comissões), dividido pelo faturamento estimado, vezes 100;

b. O ponto de equilíbrio (quanto deve vender para ter lucro zero): margem de contribuição, multiplicado pelo seu índice, vezes 100.

c. O lucro: faturamento estimado, multiplicado pelo índice da margem de contribuição, dividido por 100, menos o custo fixo mensal;

d. A necessidade de capital de giro de acordo com:

i. Os prazos de pagamento dos produtos e/ou serviços dados pelos fornecedores;

ii. Os prazos concedidos na venda desses produtos e/ou serviços aos clientes;

iii. Como pode ser integralizado (pago) o custo fixo mensal;

iv. Como são pagos os impostos e contribuições municipais, estaduais e federais;

v. Como são pagas as comissões aos vendedores e representantes.

e. O investimento necessário: investimento fixo mais o capital de giro.

5. CALCULAR FINALMENTE:

a. A taxa de rentabilidade (%): lucro dividido pelo investimento necessário, multiplicado por 100.

b. O prazo de retorno do investimento (meses): investimento necessário, dividido pelo lucro.

Se a pessoa vai fundar uma empresa, ainda que assim entendida na linguagem simples - mas pragmática e eficiente - adotada neste trabalho, recomendo que dedique um pouco mais de tempo e faça este caminho; isto o estimulará a estudar, a implantar o negócio ou mesmo retrair e aprimorar o empreendimento; isto se chama ESTUDO DA VIABILIDADE ECONÔMICO-FINANCEIRA.

Se o negócio já existe, ainda que não esteja deficiente, recomendo que realize esta avaliação simples do seu negócio; importante salientar que este método pode descer e avaliar a rentabilidade de cada produto ou serviço fornecido; a isto se denomina DIAGNÓSTICO ECONÔMICO-FINANCEIRO.

No primeiro caso - viabilidade (quando a empresa ainda não existe) -, o resultado do estudo não impacta economicamente, mas estimula! No segundo - diagnóstico (quando a empresa já existe e opera) -, o impacto econômico pode ser maior que o estímulo! Mas, de qualquer forma, é melhor antecipar, prevenir, do que vir a sentir os efeitos quando não tiver dinheiro para liquidar a... duplicata que vence...hoje! E começarem os problemas de caixa, as restrições creditícias e ao aproveitamento de novas oportunidades, os riscos!

Se o impacto econômico for maior que o estímulo de prosseguir, não se desespere; mantenha-se física e emocionalmente equilibrado para encontrar soluções para dar uma olhada se ainda é tempo de "fazer a lição de casa" para:

- Prevenir, reduzir e recuperar a inadimplência ativa, revendo a política de concessão de créditos, o sistema de cobranças, a recuperação de créditos (Cobrança jurídica, execução judicial, arresto, seqüestro, busca e apreensão, falência);

- Prevenir, reduzir, sanear, equiparar e administrar o endividamento, as restrições e riscos, através de uma "due diligence" própria (trabalhista, tributária, regulatória, ambiental, societária, contratual); da negociação (bancos, sindicatos, fornecedores, sócios e acionistas) ou pela via judicial (consignação, medidas de cautela, revisionais de contratos, responsabilidade civil - que pode inverter a sua posição - ou a recuperação conforme legislação recente).

Se achar que não é capaz, escolha profissionais competentes, de preferência aqueles nos quais sinta visão suficiente e missão para aconselhá-lo eficientemente e "abra o jogo", mostre tudo, comunique tudo, negocie, reconheça a situação, colha experiência; isto já é um bom recomeço; a partir daí retome os negócios com a certeza de que isto não mais acontecerá novamente com as mesmas causas.

Perfil do Autor

Joaquim Rodrigues da Silveira

Advogado - Consultor de Negócios - sócio-fundador da TS Consulting®