As Desvantagens da Produção em Larga Escala

02/03/2012 • Por • 241 Acessos

Ao contrário do conceito antigo de trabalho, no sistema atual há pouca aprendizagem. Este é um dos fatores extremamente negativos nos procedimentos de produção acelerada, que afeta o conceito de trabalho. Geralmente, nos processos automatizados ou industrializados, um número limitado de pessoas entende do andamento do processo completo. A maioria apenas opera parte do mesmo. De fato, muito pouco é exigido delas; por isso cognitivamente não se esforçam, por que não há necessidade de pensar. Por exemplo, numa fábrica de confecções, diferentes equipes se ocupam com diferentes tarefas: o corte do tecido, costura das partes, montagem da peça inteira, pregação dos assessórios, acabamento, empacotamento, etc; possivelmente nenhum dos trabalhadores seria capaz de costurar uma camisa para sua família, por não ter a noção de todo o processo.

Da mesma forma, o grande volume de informação que é inserido na cabeça das pessoas através dos meios de comunicação não se traduz em aumento de conhecimentos. Isso porque não se criam conexões lógicas entre os segmentos, o que afeta o raciocínio e a compreensão de modo geral.

Há muitas desvantagens também na produção agrícola em larga escala. As desvantagens aparecem nas abissais desigualdades sociais e raciais da sociedade. Novas formas de domínio e iniqüidade também se manifestam nos intoleráveis índices de concentração de terra e de riqueza. Há muitos efeitos colaterais que se manifestam também através da miséria e desnutrição no campo, e através de uma agricultura extenuativa que dilapida e contamina os solos, as águas, os homens, as mulheres e as crianças.

O Brasil tem uma das maiores agriculturas do mundo, pela área cultivada e pelo volume de produção. É o maior produtor mundial de café, açúcar, laranja, banana, feijão, mandioca e mamona. É o segundo produtor de cacau, soja e milho. E é um dos maiores produtores de fumo, arroz, chá e algodão.1 Com tudo isso, infelizmente a curva crescente de produção agrária nas últimas décadas no Brasil foi acompanhada da curva decrescente do numero dos pequenos produtores e das cooperativas.

De fato, como se pode considerar este modelo eficiente, sendo que aumentaram o desemprego e a emigração do povo do campo para cidades grandes, e apenas um pequeno grupo pode usufruir os benefícios destas gigantescas praças de produção?

Entretanto, nas regiões onde se situam as pequenas propriedades, pode-se constatar a distribuição da renda, a geração de empregos rurais e urbanos, e a valorização do povo do campo. Nesta concepção estão inseridos outros benefícios que em longo prazo se revelam e sustentam o equilíbrio do meio social, como por exemplo, a preservação da diversidade cultural, o manejo ecológico dos recursos naturais, o uso da tecnologia de forma suave, o enriquecimento da cultura regional e a redução dos índices de violência no campo e nas cidades.

O mais importante de tudo é que, no processo de agricultura de pequena escala, o agricultor, devido à satisfação de ser o dono de sua plantação, com entusiasmo buscará o conhecimento e as informações necessárias para o aperfeiçoamento das técnicas aplicadas, utilizará sua criatividade e as experiências acumuladas na família para melhorar a quantidade e qualidade de produção.

Ao contrário, na produção de larga escala, na medida em que as atividades do campo são transferidas para máquinas, os conhecimentos apurados nas eras passadas desaparecem. Em conseqüência, o homem do campo deve se tornar submisso aos laboratórios e indústrias agrárias, e deve agir e atuar de acordo com as metas comerciais destes.

 O exagero de industrialização e automação nos processos da produção industrial ou agrária pode causar o empobrecimento da cultura e do conhecimento, afetando assim o desenvolvimento da criatividade e capacidade humanas. Deste modo, as futuras gerações serão ainda mais escravas do sistema.

 Nessa linha, o livro "Medicina Básica do Trabalho" aborda o assunto da seguinte forma: "Traçando um paralelo entre o trabalho artesanal e o trabalho industrializado, podemos observar que a principal fonte de sofrimento do trabalhador é a sua impossibilidade de participar da organização do próprio trabalho. O operário da linha de produção realiza uma tarefa monótona e repetitiva, sentindo-se desqualificado, sem oportunidade de desenvolver sua criatividade, sua potencialidade, e sem condição de alterar a organização e sua estrutura. Sente-se indigno, inútil, envergonhado, por ter de fazer um trabalho tão elementar que pode ser feito por uma máquina, e vê-se robotizado, como sendo uma peça substituível no conjunto."2

Os argumentos citados apresentam o suficiente para poder denunciar o tamanho da lesão que a superprodução causa no equilíbrio social e ambiental.

 Do livro "Trabalho e o Reencontro de Interesses" da autoria de Felora Daliri Sherafat

Perfil do Autor

Felora Daliri Sherafat

Diretora do Instituto de Desenvolvimento da Nobreza Humana. Casada e mãe. Engenheira e Mestre em Inteligência Organizacional-UFSC. Professora do Núcleo de Pós-Graduação da Faculdade de FANESE. Livros publicados: Trabalho e o Reencontro de Interesses, 2006; Sabedoria é a Luz que Guia, 2002 e Você Ainda Vai Nascer, 1995. Autoria de Cursos como: Uma mente organizada; Desenvolvimento das faculdades cognitivas; Ética e Responsabilidade Social; A Engenharia do Comportamento.